Mareados pelo sacolejo do Prata

26/05/2011 at 21:37 40 comentários

Foram mais de mil, os argentinos que investiram em lugares nos imponentes barcos da Buquebus para atravessar o Rio da Prata. Ainda houve os que se utilizaram da ponte aérea do sul e os que, por contar menos pesos nos bolsos, chegaram a Montevideo por terra. Mas o maior aglomerado dos fortineros veio pelo “Mar Dulce”, definição dada pelo navegador espanhol Juan Díaz de Solís, que passou por essas águas n’outras épocas. O perigo de conflitos com a polícia, contra certos aurinegros mais exaltados ou entre os próprios torcedores do Vélez foi dissipado na chegada: caminhavam devagar pela doca montevideana, como que enjoados pela travessia da fronteira natural entre porteños e orientales. 

Não foi com casualidade, sorte ou heroísmo que o Vélez chegou às semifinais – nem com dificuldades, inclusive. Ao menos não no mata-mata. Sobrou futebol e frieza para o sucesso copero dos moradores do bairro de Liniers, território charmoso pelas luminárias que contornam as calçadas pelas quais os torcedores do Vélez andam a procura de um lugar entre os grandes do país. Foi com um 5-0 e com um 7-2 (contra LDU e Libertad, no placar agregado) que a equipe se perfilou definitivamente para a conquista do título. E foi pela necessidade de levantar um troféu pesado, dos que forçam os tendões do punho do capitão, que mais de mil argentinos atravessaram o Rio. Para deixar de ser o maior pontuador das últimas temporadas na Argentina e se transformar em um quadro temido pelo que pôde conquistar de verdade no continente.

A Montevideo onde os torcedores do Fortín pisaram atrasados, quando o Prata apenas refletia o último sol da quinta-feira, já vivia esse jogo. Não desde a segunda-feira, quando quarenta mil ingressos sumiram dos pontos de venda em menos de uma hora. Tampouco desde a semana passada, no instante digno de receber dez livros apenas para contá-lo, o do gol de Estoyanoff em San Carlos de Apoquindo. É um jogo mistificado, imaginado, planejado e recriado nas mentes carboneras ao longo dos últimos vinte e quatro anos, as quase duas décadas e meia em silêncio por no llegar tan lejos en la Copa. Esperado desde outro momento merecedor da escrita de repetidos romances, aquele do gol de Diego Aguirre aos quinze minutos do segundo tempo da prorrogação do terceiro jogo (!) da final de 1987 contra o América de Cali, quando o empate valia aos adversários. O Peñarol quis aquilo de novo. E em muitos momentos foi só querer. Mas as bandeiras do Manya penduradas nos carros da capital uruguaia confirmam que algo vem mudando no futebol uruguaio.

O Nacional das semis de 2009 e a Celeste do Mundial 2010 foram precursores da maior bandeira do mundo e do Centenario lotado por mais de sessenta mil almas envoltas em amarelo e negro. É possível que os sonhos não fossem tão belos. E é possível que a consciência de que a história era feita nas noites congelantes do outono montevideano tenha impedido muitos torcedores de estarem nas bandejas do Estadio hoje. As jornadas de Libertadores foram se sucedendo em uma quantidade desconhecida até então por duas gerações de carboneros. Muitos, que iam para a cancha com a família, sentem o peso das partidas nas finanças. Outros simplesmente não conseguiram mensurar a velocidade que o delírio feito real era capaz de gerar nas buscas por bilhetes. É um estádio colossal no menor país da América do Sul, mas não hoje. Não porque os degraus inteiros de hinchas passem uma atmosfera de pequenez – e sim pelos infinitos bares e televisores acesos nas casas dos que não podem estar.

Em Florida, a cem quilômetros do epicentro de toda a fábula, o advogado Alejandro deve estar novamente frente à tevê da cozinha de casa, acompanhado pela esposa e a filha. Com a mesma aflição de sete dias atrás, diante da Católica. As mulheres do lar torcem pelo Nacional. Ferrenhamente. Naquela noite que começou inquietante e logo se pôs verdadeiramente desesperadora, Alejandro se apartou das provocações debochadas quando Roberto Gutiérrez venceu Sosa para meter o 2 a 0. Isolou-se em seu escritório, náufrago em uma ilha cercada de pensamentos sombrios por todos os lados e, sem uma tela para mirar, tentou afastar o frio do pessimismo com o calor irradiado por um rádio próximo ao ouvido. Escutando a Carve de Montevideo, abandonou sua ínsula aos 39 do segundo tempo. Trocou o nado por berros redentores. Alejandro é um par de olhos entre os milhões, aurinegros ou tricolores, voltados à partida de hoje. Contra um Vélez Sarsfield que passou goleando nas duas fases eliminatórias anteriores, mas para o qual o Estadio tem um canto ensaiado: “Vélez, ¿cuántas Copas tenés?”.

Na hora da loucura das vendas fulminantes de ingressos, o advogado de Florida estava a trabalho em Rivera, longe demais para cogitar uma entrada. Voltava para casa na véspera do jogo. Era acompanhado, na rodoviária, por Francisco, um policial conterrâneo seu. Outro torcedor do Peñarol. Outro que volta a provar agora os sabores de antigas noches coperas. E que, na menor menção à partida desta noite, pediu caneta e papel para rabiscar o cântico que lhe viera à mente de imediato, o mesmo que antes da partida já se pode ouvir neste círculo de concreto ao sul do sul. “Siete letras tu nombre formó / que mi mano de niño escribió / siete letras que el alma guardó / Peñarol, Peñarol, Peñarol / Dulce recuerdo que jamás olvido / oh, nombre querido que a mi corazón / trae el latido con el que palpita / cuando el pueblo grita, viva Peñarol”.

Direto do Centenario,

Iuri Müller e Maurício Brum

Anúncios

Entry filed under: Libertadores, Pela América, Reportagens.

ImpedCopa: os times homenageados, a fórmula do amor e as fardas fosforescentes Darío, el rompe-gargantas

40 Comentários Add your own

  • 1. Sancho  |  26/05/2011 às 21:51

    Bela preliminar para o jogo de futebol que me aguarda!

  • 2. Sancho  |  26/05/2011 às 21:51

    Me aguarda, o cacete. Que eu aguardo. Esse ÉPICO acontecerá comigo ou SEMIGO!

  • 3. Felipe (o catarina)  |  26/05/2011 às 22:20

    cadê a gurizada em chamas comentando aqui? Jogo tá muito bom.

  • 4. Gustavo Santista  |  26/05/2011 às 22:26

    Amigos, eu quero um texto sobre o Santos com essa pegada que vocês escrevem para os time uruguaios e argentinos, não que o texto sobre a peleja de ontem tenha ficado ruim, mas faltou passar essa sensação de loucura que nós torcedores vivemos.

    Eu não consigo mais fazer nada direito até o final da competição….

    abs

  • 5. Bruno Lorenz  |  26/05/2011 às 22:43

    AGUANTE PEÑAROL CARAJO GOLO

  • 6. Neco Müller  |  26/05/2011 às 22:44

    GOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

  • 7. rafael botafoguense  |  26/05/2011 às 22:45

    golo do OBDULIO VARELA. esse peñarol e sua manya de gols ACIDENTAIS.

  • 8. col  |  26/05/2011 às 22:46

    Melhor jogo da Liber ateh o momento.

  • 9. Kadu  |  26/05/2011 às 23:00

    Brilhante texto. E jogaço!

  • 10. Neco Müller  |  26/05/2011 às 23:05

    O problema é aguentar esta transmissão da globo. Parece que estão narrando e comentando o estadual da Jamaica. Vou procurar uma rádio Castelhana.

  • 11. Neco Müller  |  26/05/2011 às 23:11

    http://radios.kboing.com.br/radios.php?lb=1&pais=Uruguai&palavra=xx

  • 12. Eduardo  |  26/05/2011 às 23:18

    jogaço. não vi quem foi (pois estava com a fox sports no mute) mas o chute de direita seguido do rebote de canhota aos 5 minutos já mostrava o quão emocionante seria essa partida.

    agora, texto do Mauricio e Iuri JUNTOS é covardia!!!

  • 13. gilson  |  26/05/2011 às 23:29

    total off, na hora mais inapropriada, mas muito engraçado http://www.youtube.com/watch?v=olUkjcwsCs8&feature=youtu.be

  • 14. rafael botafoguense  |  26/05/2011 às 23:30

    10.
    apurogol ruleia. transmissão perfeita da foxsports

    http://www.apurogol.com/2011/05/penarol-vs-velez-en-vivo-y-en-directo-%E2%80%93-copa-libertadores-2011-semifinal.html

  • 15. Neco Müller  |  26/05/2011 às 23:52

    CARBONERO

  • 16. douglasceconello  |  26/05/2011 às 23:56

    Caras, sou muito Peñarol até o fina da Libertadores.

    Uma final contra o Cerro seria uma HECATOMBE de emoções.

  • 17. Prestes  |  26/05/2011 às 23:59

    Qualquer final seria do caralho, menos Cerro x Velez.

    Santos x Penarol iria relembrar o duelo mais foderoso (BOTAFOGUENSE, Rafael) dos anos 60 na Libertadores.

  • 18. douglasceconello  |  27/05/2011 às 00:09

    Se o Santos ganhar, confesso que ficarei meio DECEPCIONADO.

    adasudhas

    Mas CONCORDO que teria valor histórico.

    (e tornaria o Neymar mais milionário e insuportável)

  • 19. Ladislau  |  27/05/2011 às 00:10

    O Boca já vingou a derrota pro Santos em 1963, seria a vez do Peñarol vingar a derrota de 1962?

    De qualquer modo, o Santos passando a finalíssima será no Morumbi.

  • 20. Eduardo  |  27/05/2011 às 00:27

    interessante que ninguém falou nada dos ESCUDOS apresentados na segunda foto… com marcas do passado!!! heheh

  • 21. Gustavo Santista  |  27/05/2011 às 02:37

    PUTAQUEOPARIU… segue breve prece, que está em caixa alta pois deve ser urrada no melhor estilo pastor de igreja evangélica….

    ENTIDADES SUPREMAS, CELESTIAIS E UMBRAIS QUE CONTROLAM O FUTEBOL, POR FAVOR, PERMITAM A ESTE HUMILDE SERVO O PRAZER DE VER IN LOCO UMA FINAL DE LIBERTADORES ENTRE SANTOS E PENHAROL! E SEM QUERER ABUSAR, MAS JÁ O FAZENDO, PERMITAM QUE O RESULTADO SEJA O MESMO DE OUTRORA.

    Impedimento, obrigado por alegrar essa madrugada de trabalho insuportável.

  • 22. Vitor VEC  |  27/05/2011 às 02:57

    A nossa rádio – Cadena ECO Argentina 1220kHz – me disse que pelo menos 4mil representaram o oeste bairense no Centenario. Ademais, FOX Sports é um bom canal, mas as vezes, como hj, nao faz uma transmissao digna do jogo que vemos na tv.

    Os 4400 ingressos ja estao esgotados pra gente manya no Amalfitani jueves proximo.

  • 23. Vitor VEC  |  27/05/2011 às 03:05

    “moradores do bairro de Liniers, território charmoso pelas luminárias que contornam as calçadas pelas quais os torcedores do Vélez andam a procura de um lugar entre os grandes do país”

    Injustiça dupla; Velez esta en Liniers y de Flores a Haedo, como minimo. Fora isso, como se o fulbo velezano fosse pouco, Velez é a maior instituiçao em termos de clube no pais.

    “se transformar em um quadro temido pelo que pôde conquistar de verdade no continente”

    Liber, Super e Recopa, Interamericana, Mundial e 7 nacionais (virá o 8º?)

  • 24. Vitor VEC  |  27/05/2011 às 03:19

    Maxi Moralez fez muita falta, Fernandez nao foi o VOLANTE SURPRESA que costuma aparecer na area, Ricky (nao o filho do Lela, o Alvarez) amarelou um pouco por ser muito guri e o TANQUE do Silva devia ta com o canhao entupido, so trombou mas nao atirou no gol.

    Fazendo um gol semana que vem, o PEÑAROL deve passar e o Fortin que nao deixe escapar o nacional.

    Depois de incontaveis eliminaçoes de primeira fase e de goleadas de clubes de pouca expressao continental (como era o Inter de 89 que meteu 6-1) é bom ver o C.U.R.C.C. aparecer bem de novo.

    Para dor de cabeça do representante da MAFIA CECCONELLIANA, deve ganhar o SAINTS F.C.. E ele tera de escrever um texto absurdo sobre a maquina que conquistou o TRI da AMERICA pelos pes de ZE LOVE (?).

    Na real, to meio puto com o destino do ONCE CALDAS nesta ediçao, Velez ou Peñarol so seriam campeoes LEGITIMOS se dobrassem Renteria & Cia CAFETERA.

    Saúdos,

  • 25. Flávio  |  27/05/2011 às 06:05

    R19.
    Já se vingou. Em 1965.

  • 26. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  27/05/2011 às 08:35

    Tenho verdadeiro asco pelo peñarol por diversos motivos, mas mesmo assim é muito bom ver eles voltando DE VERDADE à Copa. Alias, que festa linda que os carboneros fizeram ontem (posso ser bolso mas nao sou cego).

  • 27. Cícero  |  27/05/2011 às 10:15

    alguém me explica que mal sofre o ESTOYANOFF, que só entra no segundo tempo. É alcoolismo por acaso? Ou é o mesmo mal que sofre o Fino, que só entra nas partidas finais depois de estar bebaço?

  • 28. Cesar Cardoso  |  27/05/2011 às 10:32

    Tenho que fazer constar em ata que foi um GRANDE jogo. Uma autêntica lição a ser ministrada nas escolas sobre o que é a essência do futebol.

    E alguém seguiu o Cléber Machado no Sportv ou ficou todo mundo na Fox Sports mesmo?

  • 29. Thomaz Molina  |  27/05/2011 às 10:53

    Eu assisti pelo Sportv e falo que o Cléber Machado é bem melhor do que os narradores que costumam fazer os jogos do Peñarol nesta Libertadores. Só o Milton Leite é melhor do que ele no “canal campeão”.

  • 30. Ladislau  |  27/05/2011 às 11:21

    #25

    eu me refiro a final, 1965 acho q foi Independiente e Peñarol, nao é isso?

    ————————————————–
    off topic

    O Impedimento podia ter um “top 10 – finais de libertadores” né, acho que seria legal, até pelo tema principal do site, acho que renderia boas “discussões”(no bom sentido) sobre o assunto.

  • 31. FERN  |  27/05/2011 às 11:36

    semana que vem, passaram os dois clubes LOCAIS um por PENAIS e o outro com GOL no COMA!!!

  • 32. Norteña  |  27/05/2011 às 12:00

    Baita jogo, percebam que o 1 a zero em casa é um baita resultado, qualquer derrota fora, mas com gols classifica o Peñarol, além do empate.

    Assim que se ganha copa.

  • 33. FERN  |  27/05/2011 às 12:29

    Gremio-penarol 83

    Nacional-internacil 80

    e mais oito!!!

  • 34. rafael botafoguense  |  27/05/2011 às 12:39

    simpatizo com a sofregüidão (volta,trema!). torcerei que nem um tarado pro cerro. os caras jogaram 380 libertas e não chegaram a nenhuma final, porra. nego vai surtar demais e a larissa riquelme correrá desnuda dando cambalhotas pela relva. foda foda foda

    e o Ladislau deu uma idéia legal ali no 30. OLHO NELE.

    (aquela disputa de penaltis ETERNA entre Atl. Nacional e Olimpia em 89 é fodona)

  • 35. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  27/05/2011 às 13:51

    Bah, a final mais foda foi aquela entre o Peñarol e o America de Cali (citada no texto).
    Até hoje nao me sai da cabeça o narrador colombiano falando “No lo voy a cantar! No lo voy a cantar! Dios mio, por que? por que siempre con nosotros?” devido ao terceiro vice da america seguido do diablo rojo (sendo o primeiro da racha, em ’85 contra o poderosissimo argentinos juniors nos penaltis)…

  • 36. rafael botafoguense  |  27/05/2011 às 14:12

    a do penarol de 66 também é doida.

  • 37. J Petry  |  27/05/2011 às 14:13

    #34: Mesmo no tempo do trema, “sofreguidão” não o possuía!

  • 38. rafael botafoguense  |  27/05/2011 às 14:40

    pois merecia. eles se combinam.

  • 39. Flávio  |  27/05/2011 às 20:54

    Cruzeiro x River em 76.

  • 40. Prestes  |  27/05/2011 às 22:40

    Para mim São Paulo 1 x 2 Inter é o maior jogo de Libertadores em todos os tempos, suhdsuhdaasduhasduhasduh

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Subscribe to the comments via RSS Feed


Especial – Libertadores 2011

A bola da ImpedCopa

Toco e me voy

  • @germano_mergel Mas o apito parece ter vindo antes do chute. Mesmo assim, enorme sacanagem depois de ter deixado a… twitter.com/i/web/status/9… 16 hours ago
  • Aliás, tragédia de arbitragem. Deu acréscimo até empatar (OITO MINUTOS, e tinha pedido 6) e acabou o jogo quando o Brasil ia meter o 3º. 17 hours ago
  • Sub-17 é para revelar gente, não para vencer. Mas ganhar de virada da Alemanha é um bom REFÚGIO MORAL para mostrar que NEM TUDO ESTÁ PERDIDO 17 hours ago
  • Gigantesca recuperação do clube. 1 day ago
  • Desde 2009, CSA ficou 3x sem divisão. Chegou a cair à Segundona AL. Termina 2017 com o 1º título nacional de AL e voltará à B após 26 anos. 1 day ago

Feeds

web tracker

%d blogueiros gostam disto: