Volto porque te amo

23/05/2011 at 15:30 39 comentários

Disseram, certa vez, que a derrota possui uma poesia que o triunfo é incapaz de alcançar – mote que, embora cative por sua ousadia, nutre questionáveis relações com a realidade. Se a mitologia (único tipo de História que merece atenção) debruçou-se mil vezes sobre Aquiles, que por seu calcanhar é Aquiles, menos luzes jogou sobre Heitor, Pátroclo, ou o primeiro mirmidão abatido por inadvertida flechada, todos vitimados na mesma querela, ainda que em tempos diversos.

A proximidade turva a visão, como descobriram recentemente alguns desavisados times brasileiros que ousaram aventurar-se para além da jurisdição da CBF e, mediante o mais cruel método – o próprio erro ,- aprenderam que existem bom futebol nos outros filhos de Tordesilhas. Parece que somente um certo tipo de derrota interessa ser escutado: aquela conquistada com uma certa dose de martírio. O gozo do enforcado. Há uma outra espécie, supostamente desprovida de qualquer glória, sobre a qual costuma se impor o silêncio – um pouco como essas coisas sobre as quais se cala porque seria de qualquer forma impossível escutar, afinal.

Isso estabelecido, afirmo que, embora impressionem os testemunhos dos senhores Ceconello, Arbo e Godinho, cujas palavras nos chegam úmidas com o inconfundível aroma do malte, pouca veracidade poderemos neles encontrar. Na última edição, por exemplo, os referidos cidadãos mantiveram-se distraídos na comunhão de canelas até o silvo derradeiro; que podem eles contar, senão impressões parciais e distorcidas? Um certo distanciamento se faz necessário, portanto: nem tão perto que a intimidade torne a experiência incomunicável, nem tão longe que a constitua como uma ficção fantasiosa. Quiséramos poder perguntar o inconfessável do canto das espadas aos vermes, aos cães e aos corvos e ouvir desses desgraçados, o futebol maravilhosamente oferece saída melhor, embora sistematicamente denegada.

Por sorte, uma pequena fração de sujeitos oferece à Lenda seus préstimos e toma como principal intuito, senão único, absorver a bagagem vivencial do momento. Basta observar o engenhoso ranking projetado pelo senhor Bessa Maior, notar aqueles que batalharam pelo direito de escapar à nociva competição e, entre estes abnegados, os que por presentificaram-se no maior número de oportunidades. Eis ali aquele que, despojado do supérfluo, cumpre a sina de relatar o que viu.

E o que vi não constará em livro algum. Vi a reunião dos impuros e a elevação dos escolhidos. Vi homens que passaram trinta anos negando deus prostrados, implorando alguma força superior à obtenção de resultado paralelo. Vi intelectuais confiando na plasticidade do tempo, supondo ser possível fazê-lo passar mais rápido ou mais devagar e eventualmente jurando que assim ele operara, coisa que o tempo jamais fez e jamais fará, senão no terreno intengível dos sonhos e nas linhas magras de poetas ruins. Vi as autoridades maiores cederem aos prazeres mundanos sem qualquer remorso. Vi multinacionais digladiarem pelo privilégio de colocarem suas marcas nas regiões limítrofes do gramado. Vi corações derrubados, neurônios em colapso, fígados mitigados, joelhos transformados em detrito e torturas infinitas a demais órgãos menores, contando aí braços e dentes. Vi as Wings e minhas retinas ainda sorriem só de lembrar.

Vi um gordinho, que desistira de uma jogada para ir em busca de seus óculos, ser recriminado por mancebos que desistiram de partidas inteiras para ir em busca da versão cereal da divindade. Vi certo membro do primeiro escalão aterrisando às pressas de São Sepé para engrossar as fileiras de uma equipe desenganada. Vi Rob Rocker. Vi a disciplina de baderneiros e a desrazão dos lúcidos. Vi um zagueiro, após assinalamento de infração a seu favor, sugerir ao meritíssimo o uso dos cartões de modos não ortodoxos e anatomicamente incompatíveis (além de pouco higiênicos). Vi o desfile de moda promovido por certo arqueiro, todavia legitimado visto que o mesmo ostentasse mais medalhas que um veterano do Monte Castelo. Vi bravos acovardando-se diante da cobrança máxima – alguns, mais de uma vez. Vi todos os espelhos do mundo e nenhum me refletia. Vi coisas sobre as quais mesmo um devoto da narratividade é incapaz de contar, mas que impregnam os espíritos de todos aqueles que atravessaram tal experiência.

Poderia passar a eternidade deixando escorrer pelas unhas a história de três ImpedCopas e talvez não bastasse. Um único ponto jamais seria percorrido: não vi nenhuma face desolada, triste ou miserável. É bem verdade que não busquei nas esposas que aguardam em casa o retorno dos maridos ou nos desejosos que, por timidez, distância excessiva ou maldição, mantiveram-se à parte da contenda. Entretanto, nos três templos oficialmente designados até então, não foi possível detectar nem sombra de tal manifestação, senão por um período menor que um piscar de olhos ou a reposição de uma jarra. O mesmo não pode se afirmar sobre o intervalo do entre-copas, onde tudo é angústia e desespero desde a alvorada amarga que encerra institucionalmente a ImpedCopa passada até a divulgação das escalações do torneio seguinte – momento esse que, louvados sejam os deuses ancestrais, agora fica mais próximo, e quando saberemos enfim quem serão os outros sete abençoados que celebrarão ao lado deste que vos escreve a dádiva de viver para contar.

Regozijando a vida das poltronas de trás,
Gustavo Mano.

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Entry filed under: ImpedCopa.

No estádio se ganha até quando se empata contra reservas Frangos & Tragédias

39 Comentários Add your own

  • 1. Rudi  |  23/05/2011 às 15:36

    ISSO É VIDA!!!

  • 2. Alexsander  |  23/05/2011 às 15:49

    “Vi um zagueiro, após assinalamento de infração a seu favor, sugerir ao meritíssimo o uso dos cartões de modos não ortodoxos e anatomicamente incompatíveis (além de pouco higiênicos).”

    HUAHUAHUA “enfia este cartão no cu!” HUAHUAHUA

  • 3. Walter Souza  |  23/05/2011 às 15:50

    ah tá né

  • 4. Francisco Luz  |  23/05/2011 às 16:11

    =~~~~~~~

  • 5. douglasceconello  |  23/05/2011 às 16:13

    Neste exato momento estou sentado no meio da cancha do Sul7, chorando e me ENSABOANDO com cerveja.

    Que lindo relato, Mano.

    Que lindo el fútbol, que linda la Copa.

  • 6. Bessa  |  23/05/2011 às 16:18

    :~~~~~~~~~~~~

    Menos de duas semanas senhores…

  • 7. Vitor Hugo  |  23/05/2011 às 16:22

    Bah, demais. Reconheci o autor já no meio do texto.
Agora é oficial: vida suspensa queimando em espera pelo “Evento”.

  • 8. Paul  |  23/05/2011 às 16:36

    “Vi todos os espelhos do mundo e nenhum me refletia.”

    Já temos o nosso Borges.

  • 9. arbo  |  23/05/2011 às 16:45

    UAHAUHAUHAUAHUAHUAHAUHAUAHUAH

    mano é mto mais q “o último dos assíduos”

    isso aqui ficou sensacional, tem passagens eternas

    ficou um lance meio galeano esse impedcopa lado b

    ganhou a com asteriscos [ou eram estrelinhas?]

  • 10. arbo  |  23/05/2011 às 16:51

    no mais, VOLLTA ELLVIS!

  • 11. Vizzotto (Goleiro)  |  23/05/2011 às 16:59

    Choro ao ler esse relatos verídicos da nossa Copa! Imagino que apenas eu seja esse VISIONÁRIO louco e descubro que todos que bebem daquelas JARRAS passam a ver a vida do único modo sensato: contando os dias para a chegada da BENDITA hora de perfilar com a esquadra sorteada!

    Mano MESTRE!!!!!!

  • 12. Vizzotto (Goleiro)  |  23/05/2011 às 17:01

    [i]Vi o desfile de moda promovido por certo arqueiro, todavia legitimado visto que o mesmo ostentasse mais medalhas que um veterano do Monte Castelo.[/i]

    Lisonjeado pela citação! E aguardem! Vem mais CAMISAS por aí!!

  • 13. Bruno  |  23/05/2011 às 17:17

    Sugiro Mano cronista oficial da próxima ImpedCopa. Até porque é o único que não bebe e pode lembrar de tudo.

  • 14. Felipe (o catarina)  |  23/05/2011 às 17:51

    #12

    se jogares no meu time, só não vai com aquela do Figueirense, blz? Caso contrário, vai ser impossível eu não sentir vontade de fazer gol contra. ahjdhjhdhkah

    imaginem o tamanho da ansiedade deste manezinho, que vai ESTREAR na ImpedCopa. Se meu time não estivesse na semi da Copa BR eu já estaria aí em Porto Alegre esperando pelo pontapé inicial.

  • 15. Vizzotto (Goleiro)  |  23/05/2011 às 18:01

    #14

    Estive em Floripa esse findi e falei com muitos Havaianos!!
    Cara, é indescritível ver a felicidade dos caras ao falar do momento do time.
    Falei com uns dois figueiras que deram o braço a torcer (bem baixinho e olhando para todos os lados) reconhecendo o rival com grandes chances!

    Questionei qto ao Marquinhos e qto ao Silas e percebo que a torcida torce o nariz! Dizem q pro Grêmio é um péssimo negócio esse do Marquinhos. Tbm acho! Mas…

    Traz uma camisa do Havaí pra trocar por uma do Grêmio! Daí eu não uso a do Figueirense!! Haiahauhauauaua

  • 16. arbo  |  23/05/2011 às 18:04

    cara, é AVAÍ! hehe

  • 17. Sancho  |  23/05/2011 às 18:06

    Re 16

    Avahy

  • 18. J Petry  |  23/05/2011 às 18:09

    Hawaii

  • 19. douglasceconello  |  23/05/2011 às 18:25

    Ah, vai…

    ns

  • 20. Felipe (o catarina)  |  23/05/2011 às 19:11

    #15

    pior que andei doando umas camisas do Avaí pra uns parentes da Magda e tô só com 3. A que eu posso fazer rolo contigo é a que eu tava ano passado, listrada, da Champs (2008), com os patrocínios tudo caindo. Bom, eu levo aí e a gente vê. Do Grêmio eu tenho uma de 2002/2003, acho, da Kappa, de manga comprida.

    sobre o momento atual, tem gente já suando frio aqui. E olha que nem passamos da semifinal ainda.

    O nome do time já foi Avahy (foi fundado assim). Mas o mais massa seria se fosse Havaí, hehe

  • 21. rafael botafoguense  |  23/05/2011 às 19:11

    away (de petrópolis)

  • 22. douglasceconello  |  23/05/2011 às 19:26

    Hey Uai.

    Pronúncia de Avaí por um inglês nascido em Minas Gerais.

  • 23. Norteña  |  23/05/2011 às 20:45

    Off Tópic

    Desculpa o desabafo, mas to indignado,

    Se em 2009 a gestão do Duda acabou naquele jogo do Cruzeiro, em que a Brigada baixou o cacete nos sócios, a do Obino acabou ontem da mesma forma.

    Vou continuar a pagar a mensailidade, a comprar camiseta e acompanhar o Gremio, mas só volto ao Olimpico no dia da eleição e para renovar esta corja que infesta o estádio a uma década.

    Boa ImpedCopa pra voces, muito bom o texto.

  • 24. Norteña  |  23/05/2011 às 20:46

    To tão loco que escrevi Obino!!!

    Mas é ODONO mesmo…

  • 25. Vizzotto (Goleiro)  |  23/05/2011 às 21:10

    Tahhh gurizada!!!
    Desculpem pelo HAVAÍ!!! Eu fico sacaneando os “HAVAIANOS” e fui contagiado!

    Avaí, Avaí, Avaí, Avaí, Avaí, Avaí, Avaí, Avaí, Avaí…

    Vou continuar escrevendo aqui até aprender!!

  • 26. Lucas Cavalheiro  |  23/05/2011 às 21:55

    Que texto DENSO. Bãe.

    Mas tem belíssimas passagens, com certeza.

  • 27. Serramalte Extra  |  23/05/2011 às 22:02

    23, não foi a primeira vez. O Odone já tinha chamado a BM e suas balas de borracha em 2008, depois da eliminação do gauchão contra o juventude

  • 28. Vitor Hugo  |  23/05/2011 às 23:19

    “Vi bravos acovardando-se diante da cobrança máxima – alguns, mais de uma vez”.

    Vai tomar no rabo, tche. Não me deixaram bater. Eu me apresentei!

  • 29. beretta  |  23/05/2011 às 23:54

    beo deos, estou choranu…

    :~~~~~~

  • 30. Juliano  |  24/05/2011 às 01:24

    Belíssimo relato, Mano!

  • 31. Alexandre N.  |  24/05/2011 às 08:26

    #14

    (o) Catarina, eu te compreendo velho. Como te compreendo…

    CHEGA

    LOGO

    JUNHO!!!!

  • 32. Cícero  |  24/05/2011 às 08:37

    to chorando aqui por não ter participado da última.

    depois da lesão, passei três meses no futebol russo e agora to bebendo só vodka. posso levar a minha de casa? ou tem cerveja sabor vodka?

  • 33. Alexandre N.  |  24/05/2011 às 08:50

    #32

    Mais respeito, rapaz. Pelo que fiquei sabendo, Jesus de Trigo não é uma cerveja qualquer… rsrsrsrsrsrs

  • 34. Carlos  |  24/05/2011 às 09:12

    Não irei.

    açlsdksakçldaskçdklçasdklçaskld

  • 35. Prestes  |  24/05/2011 às 11:23

    CARLOS CAGAAAAAO, CARLOS CAGAAAAO

  • 36. Filippon  |  24/05/2011 às 11:26

    estou seriamente considerando a possibilidade de simular lesão e ficar rente ao ALAMBRADO, só desenvolvendo o binômio: JESUS FERMENTADO + CORNETA.

  • 37. Mano  |  24/05/2011 às 12:05

    Muita honra escrever nesse sítio formidável e ser apreciado por vocês, maloqueiros da mais nobre estirpe. AGUANTE IMPEDCOPA!

  • 38. Volkart  |  24/05/2011 às 13:58

    Todos chora.

  • 39. Godo  |  24/05/2011 às 20:29

    Sugiro Mano cronista oficial da próxima ImpedCopa. Até porque é o único que não bebe e pode lembrar de tudo. [2]

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