Casa estranha, a duas mil léguas da minha (Parte II)

18/05/2011 at 15:00 17 comentários

“J’aime la France parce que j’aime Brigitte Bardot”. Luciano pronuncia a frase com capricho. É o cantinho que lhe restou do francês estudado meio século atrás. Luciano amou a França porque amou Brigitte Bardot. Para entender a musa das salas de cinema do seu tempo, dedicou os quatro anos do Ginásio àquele idioma povoado de estreitezas diferentes dos outros ramos latinos. Deixou a escola em 1959, mas nunca teve chance de ir à Europa. Sem que percebesse, o esquecimento encheu de vazios o seu vocabulário. Aos sessenta e nove anos, aproveitou a viagem do time de sua cidade para disputar um Mundial Sub-15 e subiu no avião como integrante mais velho da delegação. Brinca com a utopia de jantar em Paris com sua Brigitte querida, mas, à noite, no isolamento do hotel suburbano em Nantes, contenta-se com biscoitos. E café, que pede em português alto, pausado e apoiado na mímica. “Co-po de ca-fé”. “CO-PO-DE-CA-FÉ”. 

Anaïs, a atendente do hotel, mistura francês e inglês, mais umas palavras soltas do espanhol que domina pouco, e tenta satisfazer os pedidos dos brasileiros. No hotel estão a comissão técnica e os acompanhantes da delegação do São Luiz. Luciano Tamiozzo não encontra Brigitte Bardot nem se adapta ao fuso horário, e passa os dias relatando em minúcias saudosas como cevará o primeiro mate no retorno para casa. Mas há uma teoria sabida por qualquer professor de línguas segundo a qual, em último caso, deve-se falar com ênfase em seu idioma materno que os estrangeiros tentarão entender de algum jeito – e o professor de educação física Tamiozzo sempre teve café. Com ele na mesa de jantar, Celso, único pai de atleta que foi à França, do camisa 9 Lorenzo Arenhardt, fala do quanto gostaria de ver o filho se formando veterinário, mesmo jogando bola. Na tarde de estreia, Lorenzo fez um golaço de voleio, o segundo nos três a zero sobre o La Roche. Depois, sofreu com a marcação do Vertou no empate sem gols da segunda rodada.

O hotel lembra os “motéis” de beira de estrada do interior dos Estados Unidos. Uma construção longa, de dois andares e com portas dando para a rua. É no meio do edifício que a agitação fica maior. As janelas abertas dos quartos do time do Catar cospem gritos de comemoração. Lionel Messi está destruindo a zaga do Real Madrid pela semifinal da Liga dos Campeões e fica evidente a popularidade do Barcelona entre os jogadores árabes. O Al-Wakrah fugiu de um choque de costumes e não hospedou seu elenco nas casas de famílias francesas. É uma equipe fraca, que vai acabar em vigésimo lugar entre vinte e quatro e, por timidez e cultura, porta-se como a mais hermética de todas. Quando lhes toca dividir o ônibus com o São Luiz, a tentativa de interação é oferecer uma variedade de chiclete gelatinoso, em forma de lombriga, que é produzido na França mesmo, mas gera comentários debochados sobre os hábitos alimentares do Oriente Médio. A própria felicidade pelo triunfo de Messi faz o preconceito de alguém falar: “pelo menos agora eles não vão querer explodir uma bomba aqui dentro”.

Nessa noite de quarta-feira, passada a estreia, o volante Iuri Stragliotto sopra as velas dos seus quinze anos rodeado pelos melancólicos papéis de parede de sua casa provisória em Nantes. Ganha uma caixa de bombons. Dois dias depois, o lateral Julio Schiavo também aniversaria longe do lar. Bem no meio de um festejo e outro, numa quinta-feira de três partidas, vem o presente da classificação. A sucessão de bons resultados conquista torcedores – e torcedoras, por outros motivos, incentivadas pelo ar polínico da primavera. No Stade Saint-Pierre, o principal da competição, o São Luiz parece imbatível. Vence o Guingamp por um a zero, sob o poderoso céu gris da fria manhã de 28 de abril, e fecha o dia com fáceis três a zero sobre a Basse-Goulaine. A derrota sofrida entre esses dois triunfos, por dois a zero para o Rennes, ocorre no meio da tarde na cancha secundária de l’Eraudière. Quase ninguém vê.

Todos os gols são-luizenses no segundo dia vêm de Gean Felipe. Com cinco no total, ele não sabe se lidera a lista de goleadores no Mundial de Nantes. Os jogos, curtos, não têm sumula e o registro oficial não existe. Gean passará seus dias de França sem telefonar para os pais uma única vez para contar suas glórias. Em silêncio, sorri de canto aquele sorriso matreiro de Campanha, que estampa os rostos dos jogadores saídos de Júlio de Castilhos presentes no elenco. Um tipo bem vestido de óculos escuros, certamente um empresário, faz anotações apressadas, e o público amanunciado por dribles e vitórias que valeram o título da chave começa a arriscar um “allez, São Luiz”. O atacante Matthias Trennepohl é pego de surpresa por um par de crianças que lhe imploram um autógrafo. Matthias, que compensou a ausência nas aulas dessa semana lendo às pressas um livro do Zorro para um trabalho de Literatura, aparenta ser o garoto retratado na contracapa da revista do Mundial e não desfaz a confusão.

O São Luiz já tem os melhores resultados de um brasileiro na história do torneio. O locutor oficial não cansa de repetir que os pontos vêm apesar da exaustão de uma viagem longa – para ele, menos longa do que realmente foi, pois, enganado pelo nome do clube, anuncia que a equipe saiu da capital do Maranhão. Nassim, o caçula de cinco anos da família que acolheu Lorenzo e Julinho, vai a todas as rodadas e é promovido a mascote dos ijuienses. O pequeno BARRA-BRAVA ganha boné e camiseta e passa a perfilar com o time. Na virada de quinta para sexta-feira, quando só resta a comissão técnica do São Luiz a mirar as definições da primeira fase, os resultados colocam a falta de sorte no caminho. Recolhido nas casas, o plantel ainda não sabe que a raça do Longueuil valeu a incrível liderança do grupo que cruza com a chave brasileira. A retranca canadense eliminou o Nantes, clube da cidade, o Bruxelas, defensor do título, e jogou o Le Havre para o segundo lugar – colocando-o como adversário indesejado do São Luiz. Repleto de descendentes de imigrantes africanos, do treinador às linhas ofensivas, o Havre é a equipe mais forte fisicamente do torneio. Alguns com tamanho para ter dois ou três anos a mais.

Era a confirmação do confronto mais temido entre os que poderiam surgir nas quartas-de-final. Se existe um ouvido invisível que capta os sussurros da Terra, na manhã de sexta-feira ele descobriria entre os são-luizenses seu ponto mais silencioso. Adilson dos Reis, coordenador da base de Ijuí, fala sobre o momento de mostrar a garra gaúcha. Adilson entende de batalhas, nem sempre nascidas com muito sentido. Estava na beira do campo em Cascavel, em 2002, quando num arroubo de descontrole seu São Luiz caçou um árbitro em campo sem alcançá-lo, numa cena que ganhou as televisões do país e provoca risadas na Internet até hoje. A força do Havre não repercute na técnica. No Saint-Pierre, estádio ao qual se chega por uma rua com nome de uma militante comunista morta em 1962 por protestar contra os crimes franceses na Guerra da Argélia, o jogo impossível não é tão impossível quanto parecia. Como obter uma independência política em relação a uma potência estrangeira.

Uma cobrança de falta decide o embate parelho. Lançamento desde o meio de campo desviado a centímetros das mãos do goleiro Kelven Aguirre. Um a zero contra e eliminação. A tarde livre para comprar chuteiras Nike roxas com travas de silicone não recupera os ânimos do São Luiz, que cai novamente na partida-bifurcação que determina quem disputa o quinto ou o sétimo lugar. Os ingleses do West Ham vencem por quatro a dois a falta de vontade brasileira. A infelicidade conjunta dá agulhadas mais profundas no capitão Kauê Bolfe, até então sempre seguro na dupla de zaga com Uilson Sartori. Kauê, desta vez, desviou contra seu arco a bola do empate e viu ruir a solidez defensiva nos erros de marcação de todo o grupo. Amanhecerá o dia seguinte carregando sozinho e pensativo a bolsa de sete quilos onde ficam as pelotas para o aquecimento, iluminado pelo sol nascente. O São Luiz decide o sétimo lugar à uma e meia contra o Carquefou, que não tem africanos. O jogo da redenção. Kauê não quer falhar. E não falha. O irrequieto Bruno ganha vaga de titular. E inferniza os franceses. Leonardo Legonde deseja discretamente o seu instante. E o tem, no último dos instantes.

O introspectivo Legonde havia iniciado a viagem assustado. De fisionomia séria, único nascido em 1997 no grupo, ganhou o apelido de “milico”. Saiu do sul de Ijuí, do bucólico bairro Mundstock, e fez o trajeto até Porto Alegre mirando a estrada sem dizer uma palavra. O pai, ao lado, compartilhava a ausência de termos, mas num impulso contou a lenda familiar segundo a qual seu avô viera da Itália com sete anos, clandestino num navio mercante, filho bastardo de uma baronesa. Ganhou o sobrenome por adoção. Leonardo, de volta ao continente de onde a família fora arrancada, teve problemas de adaptação. Refugou a comida nos primeiros dias, mareado. Em campo, no entanto, contrariou a lógica – correspondeu sempre que entrou. Frente ao Carquefou, seu prêmio foi a mais doce despedida possível, o segundo gol da vitória por dois a zero, um segundo antes de o juiz finalizar o jogo e a participação do São Luiz no Mundial.

O placar ajudou a calar uma inédita torcida contra. Os belgas do Bruxelas, mordidos com a eliminação para o Longueuil, iniciaram um movimento contra os canadenses, incluindo seus amigos brasileiros. Viram o time do Québec nas arquibancadas e não sentaram. Em vez disso, foram às grades na beira do campo apoiar ensandecidos o Carquefou. Os norte-americanos rebateram: “Let’s go, Brazil! Let’s go!”. Os são-luizenses retribuiriam torcendo por eles na decisão do quinto lugar, perdida nos pênaltis após o zero a zero – mais um – com o West Ham. O goleiro Luke O’Reilly, dos ingleses, jamais ouvirá impropérios iguais ao “Ô Luke, seu HORSE” proferido na série de penalidades. Após o jogo, troca de abrigos, parceria reforçada e um questionamento quebequense: “o pessoal do Bruxelas não gosta muito de nós. Que tal nos unirmos para bater neles?”

A proposta foi aplaudida com risadas de aprovação. Mas São Luiz e Longueuil optaram, por fim, pela paz. Foram os dois jogar uma pelada num campo anexo, indiferentes à tarde que caía em despedida enquanto a final do torneio acontecia ali ao lado.

Maurício Brum

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Bom senso tira o zero do placar e pode conseguir virada histórica O crime que não ocorreu

17 Comentários Add your own

  • 1. arbo  |  18/05/2011 às 16:00

    muito massa.

  • 2. arbo  |  18/05/2011 às 16:02

    HAUHAUHAUHA e sensacional esse vídeo do juiz, nunca tinha visto. escapou de todos.

  • 3. Guto  |  18/05/2011 às 16:11

    Essa gurizada já venceu na vida:

    “Após o jogo, troca de abrigos, parceria reforçada e um questionamento quebequense: ‘o pessoal do Bruxelas não gosta muito de nós. Que tal nos unirmos para bater neles?'”

  • 4. Alexandre N.  |  18/05/2011 às 16:15

    Putz… Verdade Guto. O que essa gurizada ganhou com esta oportunidade, não dá pra mensurar.

    E pela segunda vez, tenho que ficar segurando as lágrimas aqui no trabalho… Foda isso, viu?

    P.S.: Momento genial do texto: “Ô Luke, seu HORSE”

  • 5. Francisco Luz  |  18/05/2011 às 16:18

    Bah, que coisa foda.

  • 6. Henrique [GFBPA]  |  18/05/2011 às 16:18

    FODÁSTICO…

    Baita texto e baita experiência pra gurizada ae… Representaram legal o Sul (ou o Maranhão pro locutor) e o Brasil…

  • 7. Vinicius  |  18/05/2011 às 16:46

    não entendi muito bem, não ficou muito claro quando perdem o primeiro jogo,… Kelven aguirre é goleiro do sao luiz?

  • 8. Marimon  |  18/05/2011 às 17:18

    Muito massa, grande empreitada.

  • 9. arbo  |  18/05/2011 às 17:30

    sim, esses nomes brasileiríssimos confundiram um pouco a coisa… mas é isso aí

  • 10. Kadu  |  18/05/2011 às 17:31

    Sensacional!

  • 11. Charlinho ATLETICANO-MG  |  18/05/2011 às 17:37

    Muito bom,,,grande experiencia pra essa meninada…e o guri lá nascido em 1997,,,como isso fez eu me sentir VELHO…pqp

  • 12. FERN  |  18/05/2011 às 19:42

    sensacional!!!…

  • 13. gilson  |  19/05/2011 às 00:17

    muy fueda, obrigado

  • 14. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  19/05/2011 às 08:41

    Buenissimo

  • 15. dante  |  19/05/2011 às 11:15

    maurício brum, obrigado por essa história sensacional.

    : ~~

  • 16. Bruno  |  19/05/2011 às 14:49

    Ótima história.

    Mesmo que nunca mais peguem numa bola, esses moleques já tem história para contar aos filhos e netos. E para as meninas do Rio Grande também.

  • 17. Gabriel Severo  |  20/05/2011 às 11:08

    Li com dois dias de DELAY e achei emocionante.

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