Do sonho mundialista de um menino do interior

26/04/2011 at 06:00 32 comentários

“Meu filho tem que estudar”, afirma a mãe. “A gente diz pra ele que apoia tudo o que ele fizer no futebol, e espera que um dia ele se torne jogador, mas agora tem que ir pra escola. Ele acabou de entrar no Ensino Médio, as aulas são mais difíceis e dá vontade de largar tudo. Não pode. Meu marido é analfabeto e sempre fala pra ele aproveitar a oportunidade que tem”. Maristela Fernandes, a mãe, trabalha em casa. Vende salgados para fora, incrementando a renda familiar mantida juntamente com o marido. Frentista de um posto na beira da estrada, ele segue com os olhos os caminhões que percorrem a RS-342, margeiam a zona urbana de Ijuí e se evanescem no horizonte. Sabia que, em pouco tempo, seu filho estaria mais longe do que os caminhões podem ir. Na França.

Marco Aurélio Júnior, o filho de Maristela e Marco pai, não está de transferência para o futebol europeu. Tem quinze anos recém-completos e é lateral do time sub-15 do São Luiz, envolvido num projeto improvável para um clube interiorano – disputar um torneio mundial de base no exterior. Júnior anuncia que é canhoto e não nega que tem qualidade – já passou por uma escolinha ligada ao Grêmio de Porto Alegre, desde sempre tendo que gambetear a dureza da rotina sem tempo, repartindo as horas de estudo e treinos. Sua ansiedade crescia conforme os dias para a grande viagem passavam. Tudo é novo. A língua, os costumes, a comida. A viagem. Ouviu sobre o funcionamento da descarga de sucção do avião e ficou receoso de ir ao banheiro durante o voo.

Durante os jogos do time profissional do São Luiz pelo Gauchão, o jovem atleta permanecia nas arquibancadas com os companheiros assistindo a uma equipe de atuações reticentes. Seus pais quase não a viam, trabalhando na copa. Marco pai suava diante da churrasqueira, onde assava as linguiças que, na sequência, seriam usadas na montagem dos cachorros-quentes. Maristela, luvas de borracha nas mãos e touca na cabeça, montava cirurgicamente o lanche dos são-luizenses. Existem medições curiosas para definir a extensão de um sonho, e os torcedores que saíam do expediente para o jogo e só desejavam um cachorro-quente e um copo de cerveja talvez não suspeitassem que, para os copeiros, a realização final da expedição poderia estar em um milhão de cachorros-quentes e copos de cerveja vendidos.

Ainda que o avental deles trouxesse a recordação. Sobre o escudo do São Luiz, a mensagem: “2011 – Rumo à França”. Há meses que o projeto surreal nasceu no Estádio 19 de Outubro. Após disputar vários torneios de base organizados por um grupo paranaense que realiza eventos esportivos – e de indicar o atacante Gabriel Mattana para um selecionado nacional –, o coordenador das categorias inferiores do clube de Ijuí, Adilson Reis, ensaiou uma aproximação com a empresa. A Planeta Bola, de Curitiba, também trata da logística para enviar equipes a torneios internacionais, e encaixou o São Luiz na 34ª edição do Torneio Mundial de Saint-Pierre, marcado para o fim de abril de 2011 na cidade de Nantes. Para bancar o orçamento da excursão sem comprometer o futebol profissional, o clube cedeu dez mil reais. Completar o montante de oitenta mil para o elenco inteiro cabia às quinze famílias do plantel.

Desde então, o sonho dos filhos de disputar a Copa passou por pais dispostos a trabalhar na copa – do estádio. O agricultor, o comerciante de ferro velho, o pastor evangélico, o administrador, o funcionário público, as donas de casa, e uma etcétera de profissionais de outros setores, fizeram-se vendedores de fichas, assadores, montadores de sanduíches, responsáveis pelas bebidas. Sem exceção, os onze casais de pais com condições de se deslocar para Ijuí nos dias de jogos ocuparam as posições de copeiros em troca de dez por cento do lucro do bar. Em média, o que se ganhava nos dias de jogos do São Luiz dava em torno de quatro mil reais – quatrocentos deles destinados aos viajantes. Jardel Lazzarotto, pai do meia Rodrigo e coordenador das vendas, relata que o pico se deu contra o Grêmio, em fevereiro, com mil reais de renda para a excursão.

Um valor que poderia ter sido bem maior. Ronei e Silvana Bolfe, o casal de pais do zagueiro Kauê, cuidaram da parte financeira e sentiram que o jogo contra o tricolor de Porto Alegre marcou o início de uma restrição carente de sentido, que prejudicou a venda daquilo que mais costuma sair num estádio – a cerveja. O álcool continuou liberado e o uso de copos também, mas a soma dos dois agora era impedida pelo policiamento. Ninguém mais podia deixar o quadrilátero do bar carregando um copo de cerveja. Como a visão dali é dificultada, os torcedores preferiram passar sede. Contra o Grêmio o público era tanto que a redução não se notou na hora. A copa ficou lotada de boêmios indiferentes ao jogo e, quando o movimento se acalmava, Maristela subia num caixote para ver o São Luiz sofrer para acertar um chute a gol em noventa minutos.

Janete Sartori foi companheira de função de Maristela, também entregando cachorros-quentes aos torcedores famintos. Morando na pequena Augusto Pestana, cidade de sete mil habitantes a dezoito quilômetros de Ijuí, ela é mãe do zagueiro Uilson, de catorze anos. “Nesta semana meu filho ficou mais nervoso, disse que finalmente caiu a ficha de que a viagem está perto”, contava no fim de março, em dúvida quanto a que roupas colocar na mala do defensor para encarar a incerta temperatura da primavera no oeste francês. Nantes é uma cidade próxima ao Atlântico, úmida e de calores raros antes do verão. Em solo europeu, o elenco vai ser dividido e ficará hospedado em casas de família, num sistema que lembra os intercâmbios.

O torneio vai de 27 a 30 de abril, e na primeira fase o São Luiz encabeça um grupo repleto de franceses, no qual o maior destaque é o Rennes, cuja equipe principal está entre as cinco melhores da Liga de lá – enfrentaria ainda o Hertha Berlim, da Alemanha, que acabou desistindo da competição na última hora. O certame reúne times de quatro confederações e, passando de fase, os ijuienses podem encontrar asiáticos, norte-americanos e mais europeus. A dedicação dos pais foi, antes de tudo, para que os filhos aproveitassem a experiência de vida conferida pela viagem – vinguem ou não no futebol. Mas em cada garoto cresce a aspiração de fazer bonito lá fora apesar do estranhamento, interessar a um clube maior, ter uma história para contar.

Nas classes de francês gratuitas que buscavam evitar um isolamento total em relação aos anfitriões gauleses, Uilson Sartori se indignava quando a professora do elenco insistia em chamá-lo de “Vilson”, numa pronúncia alternativa para caso seu nome tivesse um “W”. Durante as apresentações da turma, foi perguntado em aula sobre o que queria da viagem. Escreveu: “Faz um ano que estou treinando. Eu espero aprender e conhecer coisas novas, mas principalmente passar da primeira fase do campeonato, jogar no meu limite, e que o nosso time faça o máximo para ser campeão”.

Os guris embarcaram para a França na noite de domingo. O Impedimento foi com eles.

Maurício Brum

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Entry filed under: Clubes, Pela América.

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32 Comentários Add your own

  • 1. SaPo  |  26/04/2011 às 07:43

    Linda história.

  • 2. Guto  |  26/04/2011 às 07:55

    DEMAIS! SIMPLESMENTE EMOCIONANTE!

  • 4. dante  |  26/04/2011 às 09:37

    muito boa história. muito boa mesmo.

    SORTE & SUCESSO à gurizada de ijuí.

  • 5. Zé Eduardo Morais  |  26/04/2011 às 10:40

    Dá-lhe!

    Bah, baita história! E uma baita saudade dos tempos de colégio, quando tinha que vender enroladinho de salsicha pra financiar viagens de final de ano.

    Lembro que quando treinava futsal, em Novo Hamburgo, uma piazada foi pro Uruguay participar de um torneio de basquete na base desse mesmo esquema, de pais trabalhando até altas horas pra ajudar os filhos e os guris ficando na casa de famílias nativas.

    Mês passado, o Juvenil do Nóia participou da Punta Cup, no Uruguay, em o Infantil deve participar de torneios na Itália, ainda esse ano. Muito bom ver o Interior novamente desbravando a Europa.

    Toda sorte aos guris missioneiros. Se não for na bola, que baixem as esporas nos gauleses afrescalhados

  • 6. fabio  |  26/04/2011 às 10:41

    Só no impedimento para um texto de tal nível. Parabéns ao Brum. Quem tem filho em escolinha deve sempre saber que o mais importante é que eles aprendam o valor da derrota e usufruam, então, da felicidade da vitória. Certamente esta piazada terá uma baita história pra contar.

  • 7. Roger  |  26/04/2011 às 10:43

    #3
    “O representante da Conmebol me ligou para confirmar a mudança. Movimentamos a América hoje — afirmou Francisco Novelletto, presidente da Federação Gaúcha de Futebol, em entrevista à Rádio Gaúcha.”

    Movimentamos a América!! mazááááááá

    GAUCHO MELHOR EM TUDO!!!

  • 8. Roger  |  26/04/2011 às 10:51

    Putalamerda. Comentei o #7 ali antes de ler o texto.

    Agora que li, só quero dizer uma coisa: fazia muito tempo que eu não me arrepiava ao ler alguma coisa sobre futebol.
    Sensacional

  • 9. col  |  26/04/2011 às 11:11

    Belissimo relato.

    E hoje nao vai rolar uma maldicao do Impedimento? Alguem tem que postar algum texto falando bem do Gremio.

    hauhauhaua

  • 10. André  |  26/04/2011 às 11:49

    Impedimento es el mejor lejos.

    Parabéns Maurício.

  • 11. Sancho  |  26/04/2011 às 11:50

    Joguei um torneio nos Estados Unidos nesse esquema de casa de família. Se foi inesquecível, para mim, de uma família com condições financeiras para empreitada (tanto que voltei lá algumas vezes depois dessa), imagina para quem não tem.

    Aguardo notícias sobre a gurizada en France, Brum.

  • 12. Carlos  |  26/04/2011 às 12:23

    Era um torneio de cegos, Sancho ? ajasjasjsjajsasdjdfdjajsa. Por que não apresenta esse teu futebol internacionalmente conhecido na impedcopa IV ?

  • 13. beretta  |  26/04/2011 às 12:23

    Maurício Brum é muito gênio, pqp.
    Que história afude! Sorte pra gurizada! Levantem o caneco pra mostrar que gaúcho é melhor em tudo. [ns]

    Impedimento sempre copando tudo. Melhor blog esse nosso.

  • 14. Carlos  |  26/04/2011 às 12:27

    Esse Carlos ae não sou eu.

  • 15. Anônimo  |  26/04/2011 às 12:37

    Bah! O “O Bairrista” descobriu o “.rs”. Hoje, é da Sérvia, mas acho que se poderia mobilizar a gauchada para um “www.gremio.rs”; “www.juventude.rs”; “www.internacional.rs”; “www.zh.rs”; “www.correiodopovo.rs”; “www.riograndedosul.rs” (portal turísitico do estado)…

  • 16. Anônimo  |  26/04/2011 às 12:38

    Re 12

    QUASE ISSO, Carlos.

    Solicitei minha inscrição na ImpedCopa. Aguardo informações da direção do evento.

  • 17. Cícero Luto  |  26/04/2011 às 12:46

    só pra avisar.

  • 18. Volkart  |  26/04/2011 às 13:04

    #11 – Classe Média Sofre…
    http://classemediasofre.tumblr.com/

  • 19. Olga  |  26/04/2011 às 13:05

    Emocionante! Uma coisa assim faz a gente acreditar que nem tudo está perdido.

    Linda história!
    Belas famílias!
    Grande Impedimento!

  • 20. Olga  |  26/04/2011 às 13:10

    Emocionante! Uma coisa assim faz a gente acreditar que nem tudo está perdido.

    Linda história!
    Belas famílias!
    Grande Impedimento

  • 21. arbo  |  26/04/2011 às 13:15

    #16 sancho, q infos aguarda? recebeu o email, não? [tu está entre os primeiros pré-inscritos, inclusive]

  • 22. Sancho  |  26/04/2011 às 13:49

    Re 21

    Pediram para não abrir o jogo, me MOITEI, Arbo.

    Farei o depósito nesta semana.

    Abraço.

  • 23. Sancho  |  26/04/2011 às 13:51

    Re 18

    Volkart,

    Desde que constituí família e me tornei independente, sei o que é isso. A vida debaixo das asas dos pais -e eles ainda ajudam- é pura fantasia.

  • 24. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  26/04/2011 às 15:04

    Fodastico demais o texto, sorte pra gurizada de ijuí que vai mostrar pra francesinho fresco o verdadeiro futebol gaucho macho,

    #15 ja sabia disso a tempo, e te digo a manha pra ter um email com “teu nome@hotmail.rs“: vai em criar uma nova conta, muda o idioma pra serbian (sérvio) no canto inferior direito da tela e da um F5 e te cadastra (é um pouco chato por nao entender merda nenhuma do que pede, mas nao é tao dificil assim), como na sérvia nomes brasileiros nao sao mto comuns, provavelmente tu deve conseguir algo tipo “joão@hotmail.rs”..

  • 25. Prestes  |  26/04/2011 às 16:48

    Essa história é sensacional! Aguante perros calientes! Bamo San Luiz!!

  • 26. Gerhardt  |  26/04/2011 às 16:52

    Massa o texto e a iniciativa. Os piá até já aparecem no sitio de futebol mais importante do país hehe

  • 27. Volkart  |  26/04/2011 às 17:16

    #23. Sancho, o que são pais? Lamentável…

  • 28. Sancho  |  26/04/2011 às 17:44

    Re 27

    Desenvolve, Volkart. Senão, não te entendo. Essa tua pergunta, com o comentário na seqüência, dá margem para muita coisa.

  • 29. arbo  |  26/04/2011 às 17:59

    volkart fumou um

  • 30. Diogo  |  26/04/2011 às 18:36

    Outra resposta ao Volkart:

    http://classemediawayoflife.blogspot.com

    Faz tempo que não atualizam, mas é hilário.

  • 31. Eduardo  |  26/04/2011 às 18:39

    técnico do Católica sabe mais do GRÊMIO que muito torcedor…

  • 32. Maiquel Kelm  |  27/04/2011 às 10:54

    BAITA TEXTO!
    Parabéns, Maúricio.

    Mesmo presente em todos os jogos do São Luiz [ou “Seu Luiz” – apelido carinhoso dado pelos torcedores da geral] não conhecia esse lado da história. Que por sinal é muito bonita!
    Mesmo mais velho, impossível não se identificar com o “sonho de guri” dos ijuienses sub-15 do São Luiz.
    Fico na torcida.

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