Pelos banhados mais profundos

22/04/2011 at 08:00 6 comentários

Um time que não sofreu uma única humilhação foi o primeiro rebaixado. Outro que sofreu todas as humilhações possíveis ganhou do último invicto. Ou o que, já tendo perdido a categoria, escalou o goleiro reserva no ataque e conseguiu empatar. Também há o treinador que nunca é demitido – nem passa de fase. O árbitro acusado de depredar seu próprio vestiário. E um canivete na mão de um goleiro durante uma batalha campal. “En un partido de fútbol caben infinidad de novelescos episodios”, escreveu o argentino Alejandro Dolina. Em certos campeonatos, ainda mais. A primeira fase da Segundona Gaúcha terminou domingo, REVOLUTEANDO o barro dos potreiros.

O romanceiro do segundo escalão pode ser melhor cantado pelo viés dos que não puderam ser – os rebaixados à Terceirona de 2012. Em Bagé, não terão dificuldades para explicar. O fracasso do jalde-negro estava rascunhado desde a pré-temporada, por conta de quem concentrava naquela escola de Dom Pedrito. Em Bagé, não há questionamentos: o Grêmio local caiu porque fez parceria com um empresário do centro do país e encheu o elenco de homens com chuteiras INVIOLADAS pela terra de uma canchinha gaúcha. Os dez jogos seguidos sem vitória falavam da fraqueza do time. A camisa do Bagé argumentou contra, criando a situação impossível de equipe de pior campanha que não passava vergonha em campo.

E assim, na Fronteira e no Sul, um empate se juntou a nove derrotas nas quais jamais se viu placar diferente de 1 a 0 ou 2 a 1. Uma noite os jalde-negros venceram. E em Bagé terão dificuldades para explicar, agora sim, como o Guarany, que fez tudo tão diferente do rival, perdeu aquele Ba-Gua de 14 de abril – e caiu também. Morreu sem saber por quê, embora os torcedores tivessem suas teorias e nas cabines de imprensa a ausência silenciosa das rádios contasse muito sobre o abandono dos times. O empolgado Bagé ainda somaria a segunda vitória na rodada de domingo, superando um 14 de Julho que conquistou as manchetes mais por acusar um juiz de quebrar o vestiário da arbitragem do que pelos resultados, mas que passou de fase meio incrédulo após anos nas lanternas.

Um posto mais alto que o 14 de Livramento, o Farroupilha também avançou com algo de inesperado, fazendo menos de um gol por jogo, pelo mesmo caminho mas sem o brilho da surpreendentemente poderosa dupla de Rio Grande – capaz de emplacar as duas primeiras posições, acima do IRRITADIÇO Brasil de Pelotas, que sofre para administrar seu favoritismo gigantesco. O Xavante não aceitou perder a liderança em casa na rodada final e IMOLOU a comissão técnica – ainda que aquela tenha sido a única das suas três derrotas que não veio com gol após os quarenta do segundo tempo.

A desolação maior dos caídos se veria em São Leopoldo, FEUDO incluído na Chave 2. Em algum momento da tarde de domingo, o torcedor do Aimoré que escutava a rodada na sua cama arrancou os fones dos ouvidos e os deixou jogados no travesseiro. Sussurrando. Já não importava notar se a transmissão chegava ao final. Numa tarde daquelas você aprende para sempre que os dias de festa são raros e que pode se levar uma vida de esforço para ter outro deles. O tempo é antes uma fila de corcoveadas entre o desejo e o desânimo, do que um ciclo de fatos bem estabelecidos. E você que queria que a morte se acovardasse quando passasse ao teu lado só deseja, então, sumir.

O Aimoré caiu sem jogar. Entrou na rodada salvo, dependendo que Guarany de Camaquã e Garibaldi, ambos de poucos festejos, não vencessem fora de casa. Ganharam os dois. A impotência do Índio Capilé doeu mais do que a do próprio Garibaldi, que ao menos desceu vencendo e lutando, enquanto o Guarany se unia ao Sapucaiense que derrotava. Os camaquenses de finanças curtas conseguiram avançar num grupo de investidores conhecidos – o Brasil de Farroupilha do elenco caro e dos gols infinitos de ADÃO, o bem cotado Esportivo de quem se esperava um pouco mais, e o MÍMICO Cerâmica, sorrateiro em sua arte de atravessar as vidraças entre uma etapa e outra da Segundona sem provocar ruídos.

Despencar machuca menos quando isso é tudo o que se espera de ti e as fantasias não estão presentes. O Atlético Carazinho, na Chave 3, possuía um elenco em que boa parte dos jogadores eram atletas sem clube encaixados por empresários, que bancavam seus salários por conta própria. O Gaúcho de Passo Fundo, seu companheiro de grupo e vizinho, entrava sem estádio e com teto salarial em poucas centenas de reais. Os dois tinham o rebaixamento como natural, mas os passo-fundenses emendaram uma sucessão de boas atuações que convidavam a decepar a SAMAMBAIA DAS OBVIEDADES (ns) – tudo se arrefeceu em jornadas azaradas, inscrições que atrasavam ou na pura limitação técnica, e o plano do clube segue sendo ficar ativo até o centenário, em 2018.

O Atlético foi mais ESTREPITOSO na queda. Levou quarenta e seis gols em doze partidas, encadeando nove goleadas – contra o Gaúcho, por exemplo, levou 7 a 2 e 5 a 0. Mas, num dia de salto alto absurdo do adversário, impôs ao líder Glória sua única derrota em toda a primeira fase, por 2 a 1. Foi em 30 de março, e encerrou 361 dias sem vitória do time de Carazinho. O “Íbis gaúcho”, como apelidou um torcedor, contava ali sua quinta vitória em cinco torneios disputados desde a volta ao profissionalismo, em 2009. O presidente do clube justifica a dificuldade pela falta de patrocínios e o atraso no repasse de verbas pela FGF. Sem prazos para o depósito, até uma previsão de que o dinheiro chegaria no dia do APOCALIPSE poderia soar tranquilizadora.

Acostumado a fazer boas campanhas na primeira fase e não confirmá-las depois, o Glória vitimado pela maior zebra da Segundona classificou-se ao lado de Avenida, Riopardense, Guarani de Venâncio e Passo Fundo. Os vacarianos avançam para compor um grupo que terá Riograndense e Santo Ângelo, vindos da Chave 4, e se metem na peleia deles – santa-marienses e missioneiros protagonizaram uma fumaceira de LEGENDA que se dissipou ao reluzir do metal de um canivete que o COISA-RUIM fez surgir na mão do arqueiro Goico. Deste quarto grupo, sai também o time de melhor campanha da primeira fase – o Juventus de Santa Rosa –, além de Panambi e União.

O Riograndense, que largou como favorito, quase caiu. Salvou-se pelo saldo de gols. Ou por um gol. Na penúltima rodada, recebeu o já rebaixado Três Passos – um time que viajou só com catorze homens, improvisou um jogador suspenso como treinador, o goleiro reserva como atacante, e ainda assim vencia até os quarenta e um minutos do segundo tempo. O empate pouco comemorado em Santa Maria garantiria a queda do Milan de Júlio de Castilhos pelos critérios de desempate, mesmo igualando a pontuação do próprio Riograndense e do União Frederiquense. Caiu o time do treinador mais longevo da Segundona – Valduíno LAMPIÃO Alves, no clube castilhense há três temporadas mesmo sem ter conseguido passar de fase em nenhuma delas.

A FGF confirmou a volta da Terceirona por meio de nota oficial, mas sua assessoria usou um termo bastante pertinente para o momento – “a princípio” ela retorna. “A princípio” significa saber quantos desses derrubados terão forças econômicas para disputar o novo torneio. Aos que evitaram essa preocupação, a disputa para dar um dos dois sorrisos ao final da Segundona segue com estes grupos:

Chave 5: Avenida, Farroupilha, Guarany-CM, São Paulo
Chave 6: 14 de Julho, Brasil-Far, Panambi, Sapucaiense
Chave 7: Glória, Guarani-VA, Riograndense, Santo Ângelo
Chave 8: Juventus, Passo Fundo, União Frederiquense, Riopardense
Chave 9 (o grupo da morte): Brasil-Pel, Cerâmica, Esportivo, Rio Grande

A não ser pelas fotos do Gaúcho e do Riograndense, as imagens são do segundonagaucha.com

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

Anúncios

Entry filed under: Segundona Gaúcha.

O verbete azulgrana que define façanha O primeiro tiro num coração marcado para ser metralhado

6 Comentários Add your own

  • 1. Eduardo  |  22/04/2011 às 08:58

    “que escutava a rodada na sua cama arrancou os fones dos ouvidos e os deixou jogados no travesseiro”. Imaginei mais de 50 torcedores de times diferentes fazendo isso. Belo texto Mauricio.

  • 2. Frank  |  22/04/2011 às 11:13

    1ª foto perfeita… e o texto está muito bom, parabéns…

  • 3. Zé Eduardo Morais  |  22/04/2011 às 16:29

    Bah, que triste o que aconteceu com o Aimoré. Justamente no ano em que completou 75 anos o Índio Capilé sofre essa queda. Uma queda anunciada aqui.

    Vai mal o futebol no Vale dos Sinos, que já conta com as inatividades de 15 de Novembro e Sapiranga.

    Tomara que a FGF desista dessa ideia esdrúxula de Terceirona. Gácho, Guarany e Bagé não podem fazer parte do degrau mais baixo do futebol gaudério

  • 4. Gabriel R.  |  24/04/2011 às 17:43

    damiao acaba de dar uma LAMBRETA…

  • 5. Prestes  |  24/04/2011 às 18:20

    Hj quero ouvir as viúvas do Cone.

  • 6. Lucian  |  24/04/2011 às 18:33

    L E A N D R O L A M B R E T Ã O

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Subscribe to the comments via RSS Feed


Especial – Libertadores 2011

A bola da ImpedCopa

Toco e me voy

  • E o glorioso São Bento chegou à Série B nacional aos 104 anos de vida. 30 minutes ago
  • A corrida pelo título brasileiro é basicamente a lebre Corinthians tirando uma soneca enquanto 4 ou 5 tartarugas se aproximam lentamente. 37 minutes ago
  • No fim das contas, o Corinthians pode até despencar, mas o verdadeiro perseguidor é outro. 40 minutes ago
  • Já garantiu dois e tem um terceiro (CSA) com tudo na mão. E também o Confiança vivo, ainda que precisando de façanha. 22 hours ago
  • Nordeste pode ser a primeira região a subir mais que 2 times juntos em uma edição da C, desde que adotaram a fórmula atual (2012). 22 hours ago

Feeds

web tracker

%d blogueiros gostam disto: