A geometria do Centenário

18/04/2011 at 13:00 17 comentários

Contam os antigos que nos primeiros anos do Estádio Centenário era grande o contingente dos que buscavam, logo ao passar pelos portões, os lugares mais distantes do campo. Subiam as largas escadas das tribunas América, Olímpica, Colombes e Amsterdan e se estabeleciam onde o Estádio se fazia mais alto. Alheios ao vento frio que sempre soprou forte em Montevideo, tinham uma visão aérea de fazer inveja aos treinadores mais táticos. O objetivo maior era entender a geometria dos grandes jogadores: os passes que preenchiam o meio-campo, a trajetória perfeita dos lançamentos e os gols que surgiam de um planejamento como que matemático. Passaram-se as décadas e, agora, ver o jogo de cima talvez assuste um pouco – mas o passado sempre se anuncia, ao menos no Centenário.

Ontem à tarde, jogaram Liverpool, como local, e Peñarol, o visitante, no maior palco do futebol uruguaio. Mesmo mandante, é evidente, a parcialidade negriazul ocupou uma parcela mínima das tribunas, especificamente a metade esquerda da América. Antes do jogo, o técnico Eduardo Favaro admitiu a dificuldade que seria alcançar a vaga em uma das copas continentais para 2012 – para levar mais a sério o sonho, os comandados por Favaro precisavam vencer o Peñarol, que acordou no domingo com uma nova motivação. No sábado, no mesmo local, o rival de todas as horas havia perdido para o River Plate por inquestionáveis 4-2. Estava aberta a liderança no Clausura e a possibilidade de alcançar a ponta da Tabela Anual. Para tanto, era preciso vencer o Liverpool, quadro que tradicionalmente complica a vida dos aurinegros.

Com a bandeira gigante guardada para o mata-mata da Libertadores, camisetas e calções dourados e alterações na escalação que vinha sendo a titular, o Peñarol adentrou o gramado com ganas de garantir os três pontos e ofender com novos argumentos o Nacional. Mas a tarde fria do domingo garantiria muito mais para os quase vinte mil que abandonaram as suas casas para ver o futebol – e que não optaram pelo jogo do El Tanque Sisley. Logo com quinze minutos apareceu um lance que, mesmo casual, é daqueles com potencial para permanecer na memória. Matías Corujo, esforçado lateral improvisado no meio-campo, fez o que nunca conseguiu nos treinos, conforme contou após a partida. Depois de um passe de Martinuccio, dominou no peito e, de bicicleta, venceu os bloqueios de Matías Fidel Castro – sim, o goleiro do Liverpool. O melhor lance da carreira do espirituoso Corujo não abriu o placar de forma exatamente justa. Era só o Liverpool que buscava o gol nos minutos iniciais, enquanto o Peñarol, constrangido de vestir dourado, se acuava na defesa.

Emiliano Alfaro, o mesmo que se adonou de largos lotes de grama no Olímpico, quando das eliminatórias da Libertadores, seguia levando o seu Liverpool ao ataque após o gol. O próprio Alfaro e posteriormente Daniel Pozzi, em duas falhas da defesa, deixaram os de La Cuchilla em vantagem ao fim do primeiro tempo. De modo que a única solução possível para o intervalo foi queimar a língua com um café amargo e ingerir em um par de mordidas uma torta frita sem recheio algum. Depois de perder a liderança no Grupo 8 na última terça-feira, o carbonero via se esvair a possibilidade concreta de disparar rumo ao título do Clausura. Para buscar a remontada, Diego Aguirre fez as substituições de sempre: o Peñarol muda com a entrada dos ofensivos reservas, tanto na qualidade do passe, com Antonio Pacheco, como na movimentação, com Estoyanoff. Pacheco, aliás, é um fenômeno dos mais emocionantes. O camisa oito, que soma uma década no clube e mais de duzentas partidas com a jaqueta aurinegra, beija o escudo e agradece à torcida em qualquer escanteio, mesmo que o cronômetro indique catorze minutos do primeiro tempo.

Os primeiros instantes da segunda etapa já deixavam claro que o Peñarol atacava a favor do vento e com quatro atacantes, disposto a passar por cima do Liverpool. Visto de cima, o cenário parecia mesmo propício para a virada. A cada minuto, o Liverpool recuava um metro no campo de jogo. Se ganhava terreno a cada ataque, seguia faltando para o Peñarol a certeza nas definições. O centroavante Juan Manuel Olivera, na tarde de ontem, esteve mais inspirado nas assistências e nas paredes do que na hora de gritar o gol de empate. Mas na marca dos dezoito minutos, com geometria e perfeição, o Peñarol alcançou a igualdade. Nas proximidades da linha central, Pacheco anunciava o contra-ataque com um só toque na bola. O lançamento, sintonizado com a velocidade de Estoyanoff, encontrou o pé direito do atacante. Olivera e Martinuccio esperavam o cruzamento, que veio propício para o chute do primeiro. Solidário, o centroavante abandonou os traços do ataque com um corta-luz que deixou o porteño Martinuccio na frente do gol. Veio o canhotaço e a enorme festa nas tribunas.

Não eram as mesmas linhas que Obdulio e Ghiggia, Spencer e Joya, Morena e Rubén Paz eternizaram no Centenário, mas o riscado feito pelo Peñarol no segundo gol foi de fato belíssimo. Sofrido o empate, coube ao Liverpool trocar de ambição. Servia agora, e muito, agarrar-se ao 2-2 e voltar para o bairro Belvedere com um ponto. Dos dezoito aos quarenta e dois minutos, houve uma gigantesca repetição. O Peñarol acumulava a posse de bola, às vezes com qualidade, outras com desespero e nervosismo, mas falhava na grande área. Foi preciso que “El Tornado” Diego Alonso, outro centroavante, que observava tudo desde o banco, resolvesse as coisas. Alonso, aos 36 anos, talvez tenha a melhor média de gols por tempo jogado do elenco. Costuma entrar nos minutos finais, quando há fumaceira e o Peñarol clama por um gol salvador. Desses, Diego Alonso já tem onze na temporada 2010-2011.

Respeitado inclusive pela torcida do arquirrival Nacional, onde jogou em 2006 e 2007, o centroavante ganhou os aficionados aurinegros por, nos últimos suspiros da carreira, aceitar ser o que entra apenas na ruim e que pela vitória deixa tudo na cancha. Ontem, após genial toque de Pacheco, Alonso esteve com a bola picando na frente do arqueiro Castro. Como se imaginasse e planejasse o lance há horas, não deu nenhum sinal de que chutaria tudo para dentro. Com um só toque, encobriu o goleiro e garantiu a remontada, a vitória, a liderança ao lado do Nacional, o alívio dos que esperavam há meia-hora por esse gol e o grito mais alto que Montevideo ouviu no Domingo de Ramos. Já nos descontos, Luis Aguiar faria o quarto gol em um Liverpool resignado com o revés. Nem precisava. Depois da dura derrota frente ao Independiente, o Peñarol encontrou no torneio local a confiança para se imaginar novamente com a Copa Libertadores nos braços. Pisando forte, encontrando o triunfo no final e aproveitando a única brecha que deu o tricolor.

Desde Montevideo,
Iuri Müller
 
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17 Comentários Add your own

  • 1. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  18/04/2011 às 13:59

    Dos estadios que eu conheço, o centenário é disparado o que possui a melhor visão de campo (embora o ingresso do estadio avise que “En las primeras filas de esta localidad, las conciones de visibilidad no serán óptimas”). Todavia o centenário embelezaria até mesmo um jogo de champions league…

  • 2. Felipe (o catarina)  |  18/04/2011 às 14:06

    taí o estádio que eu quero mais conhecer no mundo, agora que já conheci Bombonera e Monumental (Monumental muito mais bonito, mas Bombonera mais, digamos, empolgante). Ano passado se o Peñarol passasse pelo Goiás na Suda, teria Avaí x Peñarol nas quartas. Nem que tivesse que ir a pé eu estaria no Centenario pra ver esse jogo. Mas não deu…

  • 3. Vinicius  |  18/04/2011 às 14:59

    O velho centenário de cadeiras de cimento…

    o tour passa por dentro e começa no museo del futbol, vai as arquibancadas e termina nas lancherias que dão acesso as arquibancadas…
    fui numa segunda-feira, ainda estava tudo sujo, copos plásticos, xixi nas paredes.. EMOCIONANTE. 🙂

  • 4. Paul  |  18/04/2011 às 15:15

    Alguém POR FAVOR tem um link com os lances desse jogo?

  • 5. Ernesto  |  18/04/2011 às 16:18

    Que alegria o Uruguai. Lá onde os senadores são pessoas de bem, não dirigem alcoolizados e estão sempre com a documentação em dia.

  • 6. Norteña  |  18/04/2011 às 17:54

    Boa Ernesto, hehehehe. O discursinho da moral e da ética tem que ser provado no dia-a-dia. Por todos.

  • 7. Flávio  |  18/04/2011 às 20:41

    Alcoolizado ou cheirado?

  • 8. henrique(el pincha)  |  18/04/2011 às 21:42

    que grande peñarol!!!!!! espero que o carbonero va longe nessa copa!!!! no soy bolso ni tripero, soy del pincha y carbonero!

  • 9. Anônimo  |  18/04/2011 às 23:41

    Alguém pode me dizer que diabos tem naquela torre gigantesca que tem bem no meio do Centenário e sempre aparece em transmissões de TV????

  • 10. Gabriel Severo  |  19/04/2011 às 14:51

    #9

    Saruman

  • 11. Henrique [GFBPA]  |  19/04/2011 às 15:54

    #10

    Desculpe minha ignorancia, mas o que é “Saruman”??

    Sempre quis saber qual é daquela torre lá também…

  • 12. Mandioca  |  20/04/2011 às 10:55

    Visitei o Centenario no dia de Uruguay 0 – 0 França pela Copa do Mundo do ano passado,

    No dia não: DUAS HORAS antes do jogo começar.

    Nada poderia ser mais silencioso que aquilo. Fiquei doido de vontade de voltar em um dia de jogo. De preferência do lado carbonero numa peleja frente aos manyas.

    Um dia. Depois de jogar a ImpedCopa aí no Uruguay del Norte, é meu maior sonho.

  • 13. Anônimo  |  20/04/2011 às 11:22

    Re 12

    Carboneros e manyas são exatamente as MESMAS pessoas.

    Carboneros / manyas: os do Peñarol
    Tricolores / bolsos / bolsilludos: os do Nacional

  • 14. Mandioca  |  20/04/2011 às 11:52

    Verdade, eu me confundi, hehe.

  • 15. Juan Barbieri  |  20/04/2011 às 17:24

    #10 Saruman é a torre do mal da trilogia “O senhor dos aneis” (creio)..
    Acho que a torre é um monumento… não deve ter nenhuma funcionalidade específica..(creio)
    Faltou o iuri mencionar o pancho com a salchicha transbordando pelo acanhado pão, alem do risco insignificante da melhor mostarda da galáxia..

  • 16. Juan Barbieri  |  20/04/2011 às 17:24

    #15 (creio)

  • 17. Rafael Zart  |  21/04/2011 às 19:19

    Mestre de Copas, uma das camisas mais respeitadas das Américas, o Centenário e a maior bandeira já feita por uma torcida. Esse é o Peñarol, que sempre preferiu jogar a segunda fora. No caminho do Internacional.

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