No pagamos porque no tenemos plata

13/04/2011 at 14:00 13 comentários

No intervalo do jogo, o técnico César Torres não chutou a porta do vestiário nem esbofeteou a lousa com as ordens táticas. Não cobrou mais empenho nem reclamou de displicência em lances pontuais. Não fez críticas ao time que levara dois gols em catorze minutos. Preferiu repetir frases de ânimo. Sabia que a tarde toda era uma grande covardia. O Millonarios ainda faria mais três no time com a camisa do Quindío. Mas não goleou o Deportes Quindío. Os azuis de Bogotá derrotaram um grupo de garotos que, por noventa minutos, tentaram ser o time da cidade de Armenia. Porque o elenco profissional estava em greve, os diretores não encontram dinheiro – e uma nova lei colombiana ameaça fechar o clube.

O plantel principal fizera o anúncio na quarta-feira anterior. Sinalizaram aos dirigentes que não participariam da rodada do fim de semana se os salários atrasados há três meses não fossem pagos. Um ultimato que já não se sabia direito se era blefe. O Deportes Quindío não teve como levantar os valores, e encarou as arquibancadas meio vazias do estádio El Campín sem alinhar um único atleta maior de vinte anos. Entrou em campo representado pela equipe sub-20 do Boca Juniors de Cali, time com o qual mantém uma parceria. Uma formação inteira de meninos, dos quais apenas dois tinham atuado em uma ocasião com os profissionais, convocados todos para estrear na Primeira Divisão nacional de uma vez só.

A situação se resumia cada vez que um deles despencava no gramado, contorcendo-se em dores. Os jovens não estavam sozinhos na metamorfose da tarde de sábado. Numa esquina do terreno de jogo, quando alguém de verde e amarelo necessitava de tratamento, o preparador físico do time de base se convertia em médico de equipe do nível mais alto do futebol colombiano. Seu atendimento, escasso de rigor clínico, consistia em usar água, um relaxante muscular e palavras de motivação. O Quindío acertaria a trave com Arley Mestra. Kevin Benítez, que havia debutado com os profissionais quinze dias antes fazendo gol, soltaria alguns disparos perto do arco, e a seguir olharia para cima se lamentando. Sentiam uma derrota que não era sua.

Em Armenia, capital do departamento de Quindío e sede do clube cafetero, justificam-se as dificuldades atuais dizendo que só agora começaram a pagar as contas de quinze anos atrás – quando se investiu muito além do habitual para tentar reconquistar o Campeonato Colombiano. Campeão apenas uma vez, em 1956, o Deportes Quindío nunca mais se aproximaria tanto do título quanto em 1997, quando deixou de ir à final por questão de um gol. Nas temporadas seguintes, o time fez suas únicas participações internacionais, disputando duas vezes a Copa Conmebol, e a seguir passou a namorar as últimas posições, sendo eventualmente rebaixado e voltando.

Os auriverdes têm sua própria explicação para o problema, mas as contas vencidas não são exclusividade sua. O Once Caldas, que lidera o atual torneio, e seu rival Deportivo Pereira, estão entre os piores pagadores da Dimayor, a elite do país. Outros nove clubes foram multados recentemente por atraso nos salários, entre eles os gigantes América de Cali e Deportivo Cali, e o midiático Cúcuta. A farra das contas que não fecham chegou a tal ponto de preocupação que, na semana passada, foi aprovado pelo Senado colombiano o texto de uma nova “Lei do Futebol” – que alvoroçou os cartolas e agora repousa sobre a mesa do Presidente da República, Juan Manuel Santos, pendente de uma assinatura para entrar em vigor.

A nova legislação obriga os clubes a se tornarem sociedades anônimas, abrindo-se para acionistas, ou então associações sem fins lucrativos. Os artigos aprovados garantem uma fiscalização mais detalhada quanto à procedência do dinheiro investido nas agremiações, buscando dar um golpe final a práticas ilícitas como as muito usadas no passado – em décadas anteriores, as maiores equipes do país eram bancadas pelos então poderosos cartéis do tráfico, especialmente em Cali e Medellín. O ponto mais sensível da lei, contudo, toca nos atrasos salariais e na atenção aos direitos trabalhistas dos jogadores: o descumprimento de valores por um período superior a sessenta dias pode provocar sanções como a suspensão do time por tempo indeterminado.

Germán Vargas Lleras, ministro do Interior e Justiça da Colômbia, disse que a lei trará benefícios por diversos lados – vai proteger os atletas, capitalizar as equipes, democratizar o comando delas e permitir maior vigilância da gestão dos times. No entanto, o novo sistema também permite, em última instância, a liquidação de um clube e de todo o seu patrimônio para resolver as dívidas pendentes. Se a lei estivesse valendo há algum tempo, o Quindío teria todos os requisitos para passar por este drama. Jairo CLOPATOFSKY, diretor da Coldeportes, instituto do Ministério da Cultura que regula o esporte na Colômbia, fez na segunda-feira o gesto inicial que prenuncia o futuro: deu um prazo de doze horas para o Deportes Quindío fazer sua prestação de contas.

Independentemente do que os números disserem, Clopatofsky deixou aberta a possibilidade de suspender o clube das competições por um mês. O chefão da Coldeportes anuncia que está apenas começando, e promete fazer uma devassa nas equipes das duas primeiras divisões da Colômbia, verificando eventuais atrasos para multar ou suspender os times de acordo com a gravidade das irregularidades. “Preferimos ter oito equipes seguindo a lei, respeitando a torcida e os jogadores, do que dezoito que não a cumprem”, declarou o diretor, referindo-se ao número de times que compõem a Primeira Divisão.

Após o cinco a zero de sábado, o técnico do Millonarios justificou o massacre sobre os garotos dizendo que a crueldade era uma espécie de defesa do profissionalismo. Numa solidariedade que os torcedores do Quindío devem ter julgado de mau gosto, ele ainda dedicou o resultado aos grevistas auriverdes. O Campín onde o time de Armenia simbolizou negativamente a nova era que parece começar no futebol da Colômbia foi, naquele mesmo dia, cenário de quem vive o lado oposto e tenta se adaptar à realidade que virá. O Millonarios foi pioneiro no processo de evolução para sociedade anônima. Antes da partida, nas entranhas da tribuna oriental do estádio, iniciou-se o processo de cadastramento dos novos acionistas.

A Azul y Blanco S.A. nasce com 3.871 sócios e vendeu seus papéis entre os dias 4 e 8 de abril. Enquanto isso, em Armenia, terra com a alcunha de “Ciudad Milagro”, os anônimos não-associados que torcem para o time verde e amarelo esperam que o apelido local ajude de alguma forma a melhorar seu momento. Como um Kevin Benítez que não aguentava mais perder gols em Bogotá, pedem melhores dias aos céus, à sorte, ou a algo perto disso.

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

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Benditos los sorteos y los grupos de la muerte As estrelas que iluminam o continente

13 Comentários Add your own

  • 1. Guto  |  13/04/2011 às 14:09

    Que loucura…

  • 2. Vinicius  |  13/04/2011 às 14:32

    Millonarios… alguém sabe quando foi sua última libertadores?

  • 3. Juan Carlos "Chango" Cardenas  |  13/04/2011 às 14:44

    Bons tempos aqueles em que o campeão da Libertadores precisava jogar em medelin ou cali, contra os times dos cartéis, contra torcidas perigosas e jogadores possuídos que, mesmo após o fim do jogo, seguiam correndo como loucos pelo campo com uma baba branca escorrendo pela boca.

  • 4. dante  |  13/04/2011 às 14:44

    parabéns, maurício, baita reportagem!

    o talento é de família, né?

    ; ]

  • 5. ImpedCorp  |  13/04/2011 às 15:51

    Urgente: mensagem cifrada publicada nos jornais de hoje revela que nos próximos dias será divulgada a data da IV #impedcopa.

  • 6. Gregório  |  13/04/2011 às 17:11

    O futebol virou um negócio igual a muitos outros. Essa mercantilização aliada a tradicional baderna em que vivem mergulhados os clubes, é responsável por cada vez mais casos como esse.

    Se no Brasil, que é o país mais desenvolvido da América do Sul, e até na Europa, onde a organização é bem maior, alguns clubes tradicionais sofrem com isso, num local pobre e caótico como a Colombia a coisa deve ser muito, mas muito pior.

    Essas crescentes histórias de times que estão a beira da bancarrota me fazem pensar que, em alguns anos, o futebol vai se tornar inviável em muitos lugares… Seria uma merda.

  • 7. Álisson  |  13/04/2011 às 17:47

    #5 Façam em um sábado POR FAVOR!!!!

  • 8. Frank  |  13/04/2011 às 20:23

    #6

    É só olhar para os times tradicionais dos estados brasileiros. Mal comparando, estados como RS ou MG equivalem a países como a Colômbia ou o Uruguai…

    O futebol de antigamente MORREU, queiramos aceitar isso ou não… agora o destino de um clube se dá nos ambientes ASSÉPTICOS dos escritórios dos empresários de jogadores, ou dos acionistas de uma empresa qualquer… resta para nós apenas lamentar e ver a decadência dos clubes que já escreveram a história do esporte, mas que hoje já não fazem mais parte dela…

  • 9. Gabriel R.  |  13/04/2011 às 21:14

  • 10. douglasceconello  |  14/04/2011 às 01:22

    É possível entender a INTENÇÃO da nova legislação, mas o meio para se chegar a algo próximo da DECÊNCIA assusta demais. Excluir times simplesmente porque não conseguem (aqui estou sendo propositadamente ingênuo, mas não quero culpar ninguém sem conhecimento) pagar suas dívidas é uma machadada no futebol cafetero.

    No mais, excelente e ELUCIDATIVO o texto, Maurício. E achei ironicamente MACABRO que esses guris tenham estreado em tal situação numa liga chamada DIMAYOR.

  • 11. SaPo  |  14/04/2011 às 08:26

    Recomendo a leitura do livro “Soccernomics”. Não terminei ainda, mas até onde cheguei está incrível, muito bons e maus exemplos de admnistração de um clube de futebol, e boas análises para entender porque as vezes o futebol funciona ou não. Boa leitura.

  • 12. Alexandre N.  |  14/04/2011 às 08:33

    “Dimayor”

    MELHOR

    NOME

    DE

    LIGA

    EVER!!!!!!!!!

  • 13. blogdoipe  |  14/04/2011 às 11:53

    #2

    1997, eliminado nas oitavas pelo Peñarol.

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