Uma história de outros tempos

22/03/2011 at 07:00 23 comentários

Há treze anos distante, decidiu voltar. Foram dez temporadas no Boca, uma década para dezesseis títulos e o posto de jogador que mais vestiu a camiseta xeneize na história da Copa Libertadores. Tempos de estádio cheio, de superclássicos, de gritar os seus gols para a maior torcida do país e de garantir para sempre a ligação com o clube. Houve também três invernos longe de casa, nos Estados Unidos, onde vestiu a jaqueta do Columbus Crew, de Ohio. Mas antes dos grandes jogos, das taças e do dinheiro, havia um passado. Um ayer que ainda joga futebol e que está para ser rebaixado na Argentina. E por isso Guillermo Barros Schelotto voltou ao Gimnasia de La Plata.

Os flertes já ocorriam há tempos. Em La Plata, o Lobo se machucava por inteiro para escapar do rebaixamento e teve até de recorrer ao sobrenatural para vencer o Atlético de Rafael por 3-0 na Promoción de 2009. Faltavam soluções visíveis dentro do Estádio del Bosque para superar uma situação que tinha como destino inevitável o poço do descenso. Salvou-se de forma inexplicável e no outro dia a média de pontos já alertava que o rebaixamento seguia ali, enlouquecendo a todos os triperos. Por isso a ideia, sempre tida como utópica, de repatriar referências de outros anos, os anos de vitórias e de bom futebol da década de 90. O maior de todos, Barros Schelotto, empilhava títulos no Norte e guardava, todo mês, maços de dólares que o Gimnasia nem saberia calcular.

Apenas havia começado 2011 quando os dirigentes fizeram um novo contato com Guillermo, o camisa 7 e principal atacante do Gimnasia y Esgrima vice-campeão argentino em 1996 e 97 – o máximo que o clube já alcançou no profissionalismo. Nascido em La Plata e filho de um ex-presidente do clube, Guillermo avisara que a atual temporada seria a última antes da aposentadoria. Mesmo nos seus grandes momentos pelo Boca, sofrera com diversas lesões que aos 37 anos limitavam as possibilidades de viver mais do futebol. Poderia, então, optar por finais dos mais diversos – despedir-se nos EUA, recebendo um dos grandes salários da liga e sem qualquer forma de pressão; encerrar a carreira na Europa, continente em que nunca atuou; regressar ao Boca Juniors e dividir o gramado mais uma vez com Riquelme e Palermo; ou escolher o Gimnasia que parecia fadado ao rebaixamento.

Guillermo resolveu-se pela última alternativa e não poupou de realismo os sete mil torcedores que estiveram na sua apresentação. Disse que voltava não pela glória de encerrar a carreira no mesmo lugar em que iniciou, deixando a imagem de um ciclo perfeito. Voltava porque o Gimnasia estava “na pior situação da sua história” e porque “precisava parar de sofrer com o rebaixamento”. Não que fosse um salvador – tentaria, com sua experiência, caráter e futebol, manter o clube na primeira divisão. Se não fosse possível, estaria no lugar onde deveria estar. Cairia junto. Para tanto, não cobrou um peso. Assinou contrato na AFA até junho porque a associação obrigou – emocionando o presidente do clube que ainda não sabia como pagaria por Guillermo. Terminou assim: “Ojalá que logramos. Pero si no logramos al menos pusimos la cara. Nos matamos por Gimnasia”.

As consequências da chegada de Schelotto não tardaram nem uma semana para aparecer. Até nos primeiros treinos matinais, em que o atacante apenas corria ao redor do gramado, mais de mil torcedores se fizeram presentes. Em um coletivo contra o Danubio, ocasião em que os clubes nem vestiram as camisetas de jogo, o público foi de 10 mil pessoas. Contra o Lanús, na mesma situação, a torcida lotou todos os espaços do Bosque para gritar pelo time. A ameaça de descenso era a mesma dos últimos tempos – o pesadelo de sempre, com a pontuação ainda mais baixa. Com Guillermo, porém, o Gimnasia parecia capaz de qualquer coisa. Ainda mais depois que ele cavou um pênalti genial no Nuevo Gasómetro e garantiu um ponto de ouro contra o San Lorenzo, na estreia do Clausura.

Não havia, até este ano, relação afetiva alguma entre o técnico Ángel Cappa e o Gimnasia de La Plata. Nem nos seus tempos de jogador e tampouco agora, como treinador. Cappa vinha da polêmica demissão no River Plate, clube que havia respirado na tabela justamente após a sua chegada e que preferiu a troca de comando logo nas primeiras derrotas. Antes da passagem por Núñez, havia levado o Huracán ao vice-campeonato do Clausura de 2009 – cujo título escapou naquele assalto no José Amalfitani. Muito pela visibilidade dos dois últimos trabalhos, o técnico voltou a ter mercado na Argentina. Poderia também trabalhar no exterior – já dirigiu Barcelona, Real Madrid e Peñarol, para ficar entre os grandes.

Mas se emocionou com a tristeza do Gimnasia e aderiu à história de Barros Schelotto. Cappa assinou com o Lobo de La Plata sem receber salários, apenas com um prêmio estabelecido para o caso improvável de ser campeão. Disse que junto com ele estariam as ideias que o diferenciavam no futebol: “mis equipos encarnan el romanticismo, la bohemia, el porteñismo, una forma de proponer el fútbol semejante a la vida.” Pensamentos que sempre pareceram distantes e inaplicáveis ao futebol moderno, mas que foram levados a sério por quem viu jogar aquele Huracán de Toranzo, Bolatti, Pastore e Defederico. Disseram que Cappa, mesmo que fosse bom treinador, não serviria para o contexto desesperado do Gimnasia. Depois de seis rodadas, a equipe segue na zona de rebaixamento direto. Ontem venceu o Tigre por 2-1 – a segunda vitória no Clausura – e voltou a encostar em Huracán, All Boys e River na luta pela permanência.

O projeto do Gimnasia, estranhamente humano, pode nem dar certo. Schelotto talvez encerre mesmo a carreira com a marca de ter caído para a segunda divisão no seu último jogo – cicatriz que será eterna, pois a camiseta em questão é a do seu Gimnasia. Ángel Cappa pode nem terminar o Clausura na casamata do clube – se as vitórias desaparecerem, não tardará para que uma reformulação desesperada tente reverter a queda. Pelo Estádio do Bosque, em 2012, talvez passem equipes como o Boca Unidos, uma das novidades da Nacional B, e o Ferro Carril Oeste, um dos tradicionais de Buenos Aires há tempos nas divisões inferiores. Talvez os valores de Schelotto, Cappa e dos que se uniram pelo Gimnasia não tenham mesmo lugar nos dias de hoje. Mas se um daqueles acasos que acontecem uma vez por década encontrar outra vez o Gimnasia, estarão eternizados os que largaram tudo para salvar a pele do Lobo.

Saludos,
Iuri Müller
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Entry filed under: Colunas, Pela América.

O enigma castelhano Tem que prender e comer todos os otários*

23 Comentários Add your own

  • 1. Lucas Cavalheiro  |  22/03/2011 às 07:41

    Disse que voltava não pela glória de encerrar a carreira no mesmo lugar em que iniciou, deixando a imagem de um ciclo perfeito. Voltava porque o Gimnasia estava “na pior situação da sua história” e porque “precisava parar de sofrer com o rebaixamento”. Não que fosse um salvador – tentaria, com sua experiência, caráter e futebol, manter o clube na primeira divisão. Se não fosse possível, estaria no lugar onde deveria estar.

    Que coisa bonita, cara. Essa situação me lembra a recente história do Fluminense. Só não caiu porque os jogadores, principalmente a liderança técnica do time – Fred -, vestiram a camisa e jogaram a morrer.

  • 2. Guilherme  |  22/03/2011 às 08:20

    ““mis equipos encarnan el romanticismo, la bohemia, el porteñismo, una forma de proponer el fútbol semejante a la vida.””
    Putaqueopariu, que frase foda, à la Bill Shankly. Baita texto che, aquele grito do narrador de la plata narrando a promoción contra o Atletico Rafaela “el lobo es de primera, el lobo es de primera, carajo!” nao me sai mais da cabeça…

  • 3. Gregório  |  22/03/2011 às 09:36

    Texto excelente, dos melhores que já li aqui no Impedimento.

    Só acho que precisa de uma correçãozinha. Cappa não dirigiu Peñarol, Real Madrid e Barcelona. Nesses clubes ele foi ASSISTENTE, não treinador.

    No mais, só tenho a comentar que acho esse sistema de rebaixamento do campeonato argentino uma bosta. Nem sei se é matematicamente possível, mas sonho com o dia em que um time vai ser campeão E rebaixado ao mesmo tempo…

  • 4. Rudi  |  22/03/2011 às 10:50

    Gregório

    é MUITO improvável, mas é possível
    Já tivemos fórmulas aqui no gauchão que permitiriam isso, se não fosse um adendo ao regulamento que excluia essa possibilidade
    MATEMATICAMENTE o campeonato carioca permite isso também, mas não sei se existe esse ítem que exclui o campeão entre os possíveis rebaixados (lembrando que no carioca um time pode ser campeão com 5 empates e o resto só de derrotas)

  • 5. Rodrigo Bender  |  22/03/2011 às 13:00

    Que Schelotto não termine como Edmundo, o ‘Animal’, rebaixado com o Vasco em 2008, mesmo fazendo bonitas atuações… Edmundo foi até para debaixo dos paus umas duas vezes naquele ano!
    E Cappa lembra nosso glorioso Abelão, que foi pra Ponte para receber nada e salvar a Macaca do descenso! Aliás, suas equipes também tinham um quê boêmio, os ‘diamantes’.
    Belo texto!

  • 6. Mano  |  22/03/2011 às 13:03

    Estou em lágrimas aqui. Iuri mestre.

  • 7. izabel.  |  22/03/2011 às 13:13

    lindo texto.

  • 8. Norteña  |  22/03/2011 às 13:41

    E pensar que temos que conviver com os jonas e rodaldinhos da vida no meu Gremio.

    Excelente texto, sugiro aos amantes do futebol profissional moderno, inclusive a alguns ilustres cronistas do RS muito amigos de empresários de futebol.

  • 9. Caio Brandão Costa  |  22/03/2011 às 13:42

    Grande texto. Não deixarei de usá-lo no verbete do Mellizo na wiki. Uma referência do Ceconello já está lá, onde foi oficialmente classificado como “bom”.

    Ao escrever esse verbete, fui conhecendo a sina gimnasista. É impressionante. Pior que Racing e Botafogo somados… o cara que segue o GELP é por AMOR puro mesmo.

  • 10. arbo  |  22/03/2011 às 15:15

    bá.
    tamo na torcida.

    [iuri campeón]

  • 11. Eduardo  |  22/03/2011 às 15:30

    falando em Botafogo…. que pasó RB?

    elogiar textos do Iuri já é desnecessário…

  • 12. Marcel Moreno  |  22/03/2011 às 16:46

    Baita história!
    Baita texto!

  • 13. juliano r.  |  22/03/2011 às 17:32

    eu achei digno a despedida do edmundo, não o ano do vasco em si, claro…
    foi uma “queda” mais verdadeira do que a “salvaçao” picareta dunguistica-1999

  • 14. Topolski  |  22/03/2011 às 18:30

    Guillermo sempre me pareceu um jogador de carater.

    Agora sobe mais ainda no meu conceito!

  • 15. Sancho  |  22/03/2011 às 23:05

    A quantidade gols que o Once Caldas tomou nos acréscimos é inacreditável…

  • 16. Chico  |  22/03/2011 às 23:44

    E a quantidade de oportunidades pra matar o jogo hj tb!

    se eu fosse o técnico do once caldas ao invés de dar voadera nas caderas do banco de reservas , eu tinha é enfiado um pezaço na fuça do Moreno

  • 17. douglasceconello  |  23/03/2011 às 00:27

    Certamente, as transbordantes LUZES narrativas do pibe Iuri vão iluminar o caminho tripero.

    AGUANTE LOBO DA ESTEPE.

  • 18. douglasceconello  |  23/03/2011 às 00:35

    #8

    Que massa, Caio. Valeu, mesmo.

    E é um texto do Viejo Impedimento, o que torna tudo ainda mais bohemio (ns).

  • 19. Lubeck  |  23/03/2011 às 08:22

    Puta merda. Texto de arrepiar… Já tenho time pra torcer no argentino desse ano! Aguante Gimnasia!

  • 20. Santi  |  23/03/2011 às 10:05

    “Ojalá que logramos. Pero si no logramos al menos pusimos la cara”.

    Sem mais.

  • 21. Sancho  |  23/03/2011 às 10:41

    Re 15

    E, depois de tudo isso, ainda pode se classificar, se vencer no Peru. Basta que o Libertad, em casa, bata o San Luís.

  • 22. Felipe (o canoense) Conti  |  23/03/2011 às 16:00

    O texto está foda pra caralho, mas o uniforme da primeira foto, da HUMMEL, é MUITO bala!
    E um jogador que tem três nomes merece respeito eterno.
    Abraços!

  • 23. Caio Brandão Costa  |  23/03/2011 às 16:30

    #21

    Achei demais também. Creio que foi de grande valia na época, pois é bem imponente. Procurem o vídeo em que os triperos meterem SEIS a ZERO no Boca no dia em que o Macri reinaugurava a Bombonera, com a entrega do Setor VIP.

    Além dos números, impressionam um jovem Melli marcando três no time em que se consagraria (se consagrou nos três que jogou, é verdade, mas no Boca o patamar foi maior) e MÁRCICO não comemorando ao marcar outro no time em que já havia sido celebrado – e em troca recebendo gritos de ovação dos xeneizes.

    Enfim, fica difícil entender como um time que jogou daquele jeito – e que enfiou o mesmo resultado no Racing, além de vencer o Super River daqueles tempos de virada no Monumental (o que não deixei de incluir no verbete) – não conseguiu sagrar-se campeão.

    #17

    Ceconello, reveja o post do candombe ecuaperuano, falei mais lá. Cheguei a usar outros posts daqui (inclusive outro seu) em outros verbetes destacados por lá.

    Por sinal, cheguei a trocar um ou outro email contigo sobre um Top 10 Humilhações do Paysandu. Parei no início de janeiro por conta do meu TCC, mas semana que vem, após a entrega, eu vejo se completo… Guille, naturalmente, estará presente.

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