Cinco pesos y una medida

17/03/2011 at 15:38 29 comentários

O pai encostou a porta de casa com leveza. Geralmente parecia ter ganas de enterrá-la nas suas próprias travas, batendo com força como que para deixar as preocupações do lado de fora. Eram atribulados aqueles dias em que a abuela, sua mãe, estava num leito de hospital e os doutores apenas olhavam as planilhas com desânimo. Desta vez, estava mais quieto. Pisou no tapete bordô da sala, recostou a pasta de trabalho na poltrona e sentou. Eu nunca me atrevia a perguntar como estava a vó. Tinha medo de tocar em algo doído e esperava que ele desse as atualizações do dia. Mas agora apenas me provocou carinhosamente pela magreza, do modo que sempre fazia, e pediu: “flaquito, prende la radio que el partido del Rojo ya va a comenzar”.

Ouvir o jogo no rádio não era coisa típica, mas tinha se feito comum desde que a avó piorara, havia alguns meses. O pai era torcedor que até viajava para acompanhar o Independiente. Nos churrascos com amigos, eles se divertiam contando da vez que foram ver a final do Nacional de 1977, em Córdoba. Isso já em janeiro do ano seguinte, tempo difícil da ditadura militar. Dizia-se que o general que governava a província tinha comprado o jogo para o Talleres, que jogava pelo empate sem gols, e de fato o juiz nos expulsou três homens depois de nos meterem um gol com a mão. Meu pai estava no meio da torcida cantando “ladrones, ladrones, así salen campeones”, na hora em que viu Bochini, a sete minutos do fim, meter o gol que nos deu a taça com oito homens em campo, contra onze cordobeses e um juiz.

Eu ainda era bebê, e mesmo depois, quando já ia à Doble Visera com o pai, ele dizia que eu era novo demais para viajar. Talvez por isso tenha parado de ir acompanhar o Rojo lá fora, pai enviuvado no parto e solidário com o único filho. Nem quando enfrentamos o Grêmio na final da Copa, ali pertinho, fomos testemunhar a mudez de Porto Alegre diante de Burruchaga. Mas, em casa, não falhamos uma partida daquela campanha. Aí a avó foi internada, bem no início do inverno de 85, e tudo cambiou. As arquibancadas vermelhas foram substituídas por vidros de compota, uma multidão de tons a provar que a natureza não aceita o azul e branco do Racing, e o campo de jogo era uma mesa com toalha florida. Passamos a ouvir as partidas à meia-luz, no rádio da cozinha, e eu mordiscava alfajores esperando achar um golaço entre os farelos.

Depois, não importava o resultado, o pai ia para a sala, ligava o toca-discos e deixava León Gieco ocupar o apartamento. Se perdíamos, a melodia de “Pensar en nada” nos consolava. Aquele tinha sido o ano em que a Argentina passou a usar o calendário europeu no futebol e ficamos todo o início da temporada apartados da cancha. León nos avisava, depois de levarmos 3 a 0 de um Instituto de Córdoba qualquer, que as coisas eram somente cuestión de plata, e nos tranquilizávamos pensando que no Rojo não, que tínhamos quem jogasse pela camiseta e éramos campeões do mundo. Eu ainda não entendia direito disso, mas a lembrança doce certamente devia fazer nossas ideias afastarem os medos e mesmo a doença da vó parecia capaz de já ter passado quando o Rojo estreasse na Libertadores – mais tarde, por defender o título.

No entanto, minha abuelita não melhorou. Ao contrário, já estava sem forças para falar na abertura do triangular semifinal da América, e nos encerramos em casa a cada tarde e noite de futebol. O nome da Copa fazia mais sentido para nós. Presos no apartamento, nos libertávamos com o compasso dos tambores trazidos pelos microfones das rádios. No dia seguinte, os sons eletrônicos que mediam a sobrevivência da vó retornavam aos ouvidos do pai, mas enquanto durasse a partida as dores se quedavam lejos. “¿Piensas que eres Dios que no me oyes?”, despertou-me o velho. “Prende la radio que creo que hasta ya salieron al campo”. Liguei o rádio. A pelota acabara de ser movida pela primeira vez no jogo contra o Argentinos Juniors, pela última rodada do triangular que definia um finalista da Libertadores.

A geladeira à minha frente bufava e me imaginei de vermelho contra a linha defensiva do Argentinos. Eu me desvencilhava de um carrinho sanguinário, cavava um escanteio e, com a bola alta, virava numa chilena para nos colocar no caminho da oitava taça. Eu fazia isso em nuvens enquanto o pai agarrava firme o rádio com as duas mãos, a vista fixa no mostrador de frequência como se fosse a tela da tevê, no meio de dois alto-falantes que cantavam um par de gols para o time de La Paternal. Mais tarde, quando aprendi o conceito de reforma agrária, tive aquele momento em retrospectiva como uma espécie de desapropriação do nosso latifúndio continental. A América do Sul, onde mandávamos como queríamos, desaparecia sob nossos pés.

O pai baixou o volume. Levantou-se, abriu a geladeira sem buscar comida. Estava atrás de coragem. Voltou a sentar ao meu lado, pegou minha mão, e usou a voz mais firme que conseguia manter. “Hijito… vienen tiempos nuevos. No son mejores… pero hay que pelear para que no sean peores. Tu abuela, mi madrecita… murió hoy… hoy por la tarde”. Os vidros das compotas feitas por ela subitamente trincaram, aos meus olhos, e o cenário do jogo sumiu. Meu pai conseguia segurar as lágrimas, mas o choro engolido atravessava a garganta, massacrando a voz. “Mira, Todavía tenemos el Rojo… te digo: si nos vamos a la final, volvemos a la cancha… Ganaremos… ganaremos por ella”.

Não sei quanto tempo durou aquela imersão, mas quando o som voltou o Independiente já tinha descontado e pressionava. Sem palavras, não largamos nossas mãos. Aos quarenta e quatro do segundo tempo, o juiz apitou o pênalti da salvação do Rojo. Cruzamos olhares na cozinha mal iluminada e rompemos o espectro da ausência de sons com a sincronia de um “¡vamos!”. O velho apertou a minha mão mais forte, quase machucando. O centro do nosso universo era aquele rádio, e nós orbitávamos ao redor dele. Estávamos sozinhos no mundo – e com a morte da vó essa figura se fazia assustadoramente real –, mas, nas arquibancadas da final, ombro a ombro, seríamos muito mais que dois. Marangoni bateu e o goleiro Vidallé pegou.

Falava-se por aqueles tempos que a torcida do Independiente tinha o “paladar negro”, que gostava do futebol bem jogado acima dos resultados, mas o estampido surdo das nossas aspirações ruindo deve ter roubado o aplauso de muitos. Meu pai dormiu na sala, sem botar León Gieco para tocar. Na manhã seguinte, vi-o de bruços no sofá, as mãos cruzadas diante do rosto, como se tivesse adormecido chorando. Nunca mais pisou na cancha. Nem eu. Afastamo-nos e acompanhamos notícias esporádicas. O eterno Bochini se aposentou após vinte anos de Rojo, o time passou a ganhar títulos com futebol ruim, e agora está ameaçado de descenso. Tem estádio novo, também, e há uns poucos dias pisamos nele pela primeira vez, reencontrando o Independiente depois de tanto tempo.

Cobraram-nos míseros cinco pesos porque diziam que a equipe não vencia há treze rodadas e precisava de apoio, qualquer apoio. Mas metemos quatro a zero e eu e o velho saímos nos perguntando se as coisas teriam mudado tanto assim – principalmente em nós. Tenho revirado armários em busca da minha velha bandeira vermelha.

Maurício Brum

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Segue adiante quem tem faca amolada Fazendo limonada com laranjas

29 Comentários Add your own

  • 1. fino  |  17/03/2011 às 15:50

    FORMIDÁVEL

  • 2. Sancho  |  17/03/2011 às 16:00

    O texto é maravilhoso. Por nada, me lembrou deste aqui, sobre o título do Quilmes na temporada segujnte: QUILMES CAMPEON 1978: VAMOS A ROSARIO, por Gustavo Serruto

    Tem que procurar pelo meio, mas está ali…

  • 3. Nicolau  |  17/03/2011 às 16:10

    Absolutamente lindo o texto. O Independiente ganhou a simpatia deste corintiano. Parabéns!

  • 4. Volkart  |  17/03/2011 às 16:39

    Genial.

  • 5. fabio  |  17/03/2011 às 16:51

    pra coloradage que não for secar o Grêmio, fica a dica
    http://multishow.globo.com/Serguei-Rock-Show/Noticias/Vem-ai-o-Serguei-Rock-Show–Aguarde.shtml

  • 6. Caio Brandão Costa  |  17/03/2011 às 17:05

    Foda é pouco.

  • 7. m  |  17/03/2011 às 18:09

    espetacular, maurício. parabéns mesmo.

  • 8. arbo  |  17/03/2011 às 18:15

    carlos alberto prêmio coerência do ano adslkglkdsg q cara ridículo

  • 9. Junior  |  17/03/2011 às 19:16

    Como diria um ex-ministro: texto imelhorável!!

  • 10. Jornada  |  17/03/2011 às 19:33

    bah, arbo, concordo totalmente. cara prega respeito, e depois que o assunto esfria, toca uma corneta absolutamente desnecessária e ridícula*, considerando os resultados de gremio e inter na semana.
    acho que o CA quer ser notícia por qualquer coisa que não seja EXPULSÕES e PÉSSIMO FUTEBOL.
    Fora CA, urgente. E o Renato já tá me cansando também, não ficaria triste se ele saísse. A insistência dele na bruxaria já me encheu o saco.

    * pra quem não sabe, ele fez a dancinha do kidiaba depois do gol hoje.

  • 11. Anônimo  |  17/03/2011 às 19:47

    Aguante, Copa del Plata!

    http://www.canchallena.com/1357908-argentina-uruguay-2030-el-proyecto

  • 12. Schmidtke  |  17/03/2011 às 21:09

    Muito bom! Fantástico!

  • 13. Atilio  |  17/03/2011 às 22:54

    Achei bonito pra caracolis.

  • 14. Bidese  |  17/03/2011 às 23:42

    Lacrimejei. Lembrei do meu avô. Grande texto.

  • 15. Eduardo  |  18/03/2011 às 00:45

    cagalho… acabo de ver os resultados do LDU x PEN… e do EST x GUA. que SUMANTA!!!

  • 16. vinicius  |  18/03/2011 às 01:02

    oriente vai ganhando do junior…

    que LIGA tem o Renato…

  • 17. Marcelo Costa  |  18/03/2011 às 01:26

    Que o Renato pegue esta LIGA e enfie no cu. Irei no domingo ao Passo D’Areia ficar atrás do banco gremista perguntando, aos berros, se o Escudero tá comendo a filha dele. Era ídolo como jogador, agora o que de melhor pode fazer é pegar esse bando de maloqueiros cariocas que ele trouxe e sumir.

  • 18. Titi  |  18/03/2011 às 02:30

    #15

    300 mangos pra conta no sportingbet … as goleadas ajudaram muito!

  • 19. Guilherme  |  18/03/2011 às 08:38

    Baita texto, pero ACADE>>>>rojomufa

    http://www.rojomufa.com.ar/

  • 20. Francisco Luz  |  18/03/2011 às 12:46

    Que texto fantástico, Brum.

  • 21. Guigui  |  18/03/2011 às 15:09

    Cacete de texto mais bem escrito… puta merda.

  • 22. Márcio K  |  18/03/2011 às 16:26

    Maurício: simplesmente um dos textos mais bem escritos e comoventes que li esse ano. Sobre futebol, e não só. Algumas frases ali são sensacionais.

    Parabéns. Mesmo. (e olha que eu implico com argentino) 🙂

  • 23. Jura Arruda  |  18/03/2011 às 17:32

    Um primor de texto, um gol de placa!

  • 24. arbo  |  18/03/2011 às 17:49

  • 25. santi  |  18/03/2011 às 21:21

    Que texto, bonito. Valeu por compartilhar, Maurício.

  • 26. Pedro Palaoro  |  19/03/2011 às 02:46

    puta texto!

  • 27. Branco  |  19/03/2011 às 20:50

    Perfeito. Simplesmente impossível não chegar ao fim do texto com um nó na garganta.

  • 28. douglasceconello  |  21/03/2011 às 00:00

    Lendo pela terceira vez o fabuloso texto do Maurício, tão bom que faz ruir a alma, lembrei de uma certa cena de minha infância:

    Estávamos eu e meu pai em casa e desabou um temporal, que na minha memória virou um TUFÃO. A vetania começou a destelhar a casa, que parecia estar caindo, com telhas desabando por tudo. Meu pai me pegou pela mão e nos enfiamos debaixo de uma mesa, em busca de proteção. Na outra mão, ele carregava um radinho de pilha: o Inter estava jogando. Quando minha mãe chegou em casa, eu estava dormindo imundo na cama.

  • 29. izabel.  |  22/03/2011 às 13:47

    muito lindo.

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