Un candombe ecuaperuano

12/03/2011 at 07:30 30 comentários

A década de 1930 deu ao futebol sul-americano uma daquelas duplas arrebatadoras, do tipo Coutinho e Pelé, Romário e Bebeto. Eram duas pérolas negras do nosso futebol que nasceram na costa do Pacífico, para onde os africanos haviam sido levados à força nos séculos anteriores, obrigados a plantar café, cana de açúcar e outras mumunhas. Juan nasceu em Lima, em 1934. Alberto três anos depois, em Ancón, no litoral do Equador.

Os dois até fizeram sucesso separados, na década de 1950. Juan, no Alianza Lima; Alberto, em vários clubes de Guayaquil. Mas seu futebol cheio de salsa e merengue foi se encontrar para encher os olhos do mundo em outros pagos, longe daquele litoral caribenho, mas em lugar deveras semelhante.

Juan Joya e Alberto Spencer se encontraram na cidade mais negra do sul do continente americano. Foi na Montevidéu dos candombes e das murgas. Na capital do primeiro país que se rendeu ao futebol dos negros, ainda na década de 1910. O Uruguai que sofria o preconceito dos países vizinhos, que pediam sua exclusão dos torneios sul-americanos. Da Maravilha Negra, Andrade, que encantou o mundo em 1924, 28 e 30.

Alberto chegou um ano antes que Juan ao Peñarol, em 1960. Foi campeão e artilheiro da primeira Copa Libertadores, com sete gols. O equatoriano entendeu desde cedo a importância da copa recém-nascida. Até hoje é o maior artilheiro da história da Libertadores, com 54 gols. Ele gostava também do Mundial Interclubes, torneio no qual marcou seis gols, sendo o segundo maior artilheiro da história da competição, perdendo apenas para Pelé.

Em 1960, Spencer marcou o único gol do Peñarol nos dois confrontos contra o Real Madrid. No Centenário, empate em zero. Em Madrid, o esquadrão de Di Stéfano enfiou 5 a 1, gol solitário de Alberto. O Peñarol de Spencer, o camisa dez, chegaria ao título mundial e muitas outras façanhas nos anos seguintes, com a chegada do “Negro El Once”, o camisa onze, veloz como um raio, dizem os que viram jogar. Era o jogador que limpava a jogada e fazia o passe certeiro, casava perfeitamente com o faro de goleador de Spencer.

Juntos, Joya e Spencer ganharam seis canecos uruguaios, duas Libertadores e dois mundiais. O peruano ajudou o companheiro a ser artilheiro de várias destas competições e a marcar boa parte dos 326 gols que fez pelo Peñarol – Spencer fez mais de 500 gols oficiais na carreira. Joya era mais comedido para fazer gols: marcou “apenas” 56 em 132 jogos oficiais pelo clube jalde-negro.

Spencer morreu em novembro de 2006, aos 68 anos. Quem quer que esteja lá em cima, ou lá embaixo, quis logo reeditar a dupla: Joya partiu apenas quatro meses depois, em março de 2007.

Estive em Montevidéu pouco antes do Carnaval. O Barrio Sur já transpirava os festejos. Num fim de tarde, à beira do Prata ouvimos de longe, eu e minha digníssima, o barulho dos tambores e tivemos o prazer de seguir pelas ruas do bairro uma cuerda de tambores de candombe que ensaiava para os desfiles mais oficiosos. Todas as noites, o Teatro de Verano, um anfiteatro em Punta Carretas, também à beira do rio, recebia grupos de candombe, de murgas e de outras modalidades de apresentações de Carnaval que eu nunca tinha ouvido falar.

Um dia, depois de traçar um belo asado de cordero no Mercado del Puerto, saímos à deriva pela Ciudad Vieja, subindo a Calle Perez Castellano, uma rua peatonal (uma espécie de calçadão). Lá encontramos a loja do grupo cultural Uruguay Visual, um verdadeiro manancial de livros e discos (e até camisetas de clubes) sobre a história e cultura uruguaias.

Adquiri sem dó nem piedade alguns discos, entre eles “Bailongo”, de Rubem Rada, o maior expoente da música negra contemporânea do Uruguai. Como os deuses que juntaram logo a dupla, Rada não perdeu tempo. No disco, de 2007, ele percebe em hora buena que os dois partiram juntos. Rada une as culturas negras do Uruguai, Peru e Equador, dedicando a Joya e Spencer, “un candombe ecuaperuano”.

“Señores con mil respetos

Yo le canto a mis hermanos

No lo hago para ofender

Sólo para homenajearlos

Fue fácil para los dos

El juego de la pelota

Un levantaba el centro

Outro poní a las motas

Joya y Spencer van de la mano,

Llegan al cielo los dos hermanos

Dios los recibe tambor en mano

Con un candombe ecuaperuano


Señores con mil respetos

Yo le canto a mis hermanos

Repito sin ofender

Sólo para homenajearlos

Fue fácil para los dos

El juego de la pelota

Un levantaba el centro

Outro poní a las motas


Y a pesar de lo logrado

Nunca fueron vanidosos

Por comentarios que oí

Siempre fueron respetuosos

Por eso que esta canción

Le canto de corazón

Les canto por que recuerdo jugando con mucho amor

Joya y Spencer van de la mano,

Llegan al cielo los dos hermanos

Dios los recibe tambor en mano

Con un candombe ecuaperuano

Joya y Spencer van de la mano

Diez Ecuador once peruano”

Em clima de Enterro dos Ossos,

Felipe Prestes

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Entry filed under: Libertadores, Mundial de Clubes, Pela América.

Y dale alegría a mi corazón… Inquilino da grande área

30 Comentários Add your own

  • 1. J. Ferreira  |  12/03/2011 às 10:34

    sensacional. não conhecia o segredo ecuaperuano do sucesso aurinegro.
    abraços.

  • 2. Santi  |  12/03/2011 às 12:03

    Que massa, Prestes. Fiquei muito a fim de conhecer essa loja. Se tu puder, deixa o endereço ou o link do google maps.

  • 3. rafael botafoguense  |  12/03/2011 às 12:22

    o spencer,por ser filho de jamaicano,chegou a ser convidado a se natrualizar inglês pra disputa da copa de 66,mas preferiu defender o Equador. CARÁTER.

  • 4. Caio Brandão Costa  |  12/03/2011 às 19:24

    Só conhecia Spencer.

    Rafael, é sério isso? Pois a Jamaica já não era território britânico desde agosto de 1962… Spencer, por outro lado, defendeu os charrúas. Queria saber mais sobre a passagem dele pelas seleções do Equador e Uruguai.

    A música me lembrou a cantiga riverplatense sobre dois daqueles delanteros célebres de La Máquina: “Sale el sol, sale la luna, centro de Muñoz, ¡gol de Labruna!”

  • 5. Flávio  |  12/03/2011 às 20:30

    No início dos anos 60, Spencer alternava convocações para o Equador e o Uruguai, mas nunca se naturalizou. Em competições oficiais (Copa América, Eliminatórias), sempre jogou por seu país natal. Ele disputou cinco amistosos pela Celeste, tendo marcado apenas um gol, justamente contra a Inglaterra em Wembley. Segundo a Wikipédia, os ingleses realmente pensaram em convocá-lo para a Copa de 66, devido ao sobrenome britânico. Mesmo se Spencer aceitasse, não seria possível, pois foi nessa época que a Fifa proibiu jogadores que já haviam defendido uma seleção de atuarem por outra.

  • 6. Prestes  |  12/03/2011 às 23:49

    Santi, na real corrigi ali, fica na Calle Perez Castellano 1493, entre Cerrito e 25 de Mayo.

    Chegando no Mercado del Puerto e perguntando por esta calle não tem como errar, a loja fica a uma quadra do mercado.

  • 7. Francisco Luz  |  13/03/2011 às 01:10

    Muito, mas MUITO bom, Prestes. Puta la merda.

  • 8. Luís Felipe  |  13/03/2011 às 09:52

    grande, Prestes.

    pura cultura.

  • 9. Caio Brandão Costa  |  13/03/2011 às 10:31

    #5 Flávio: Pois é, a FIFA teria permitido isso até o fim da Copa de 1962. Tanto que o torneio marcou os últimos jogos de Sívori, Maschio e do Mazzola/Altafini pela Itália; Santamaría, Eulogio, Puskás e, mesmo sem ter jogado o mundial, Di Stéfano pela Espanha. Isso pode ser visto no verbete de La Saeta na wiki lusófona, que contribuí para que fosse destacado (inclusive usando um post daqui como referência!! Sobre o Eldorado Colombiano, salvo engano do comentarista #8, Luís Felipe).

    O que eu imaginava é que a única exceção foi De Bourgoing, utilizado pela França em 1966 depois de já ter atuado pela Argentina. Ele teria obtido autorização especial da FIFA. Segundo a wiki, Spencer teria vestido celeste entre 1962 e 1964, também depois da Copa do Chile…

  • 10. Luís Felipe  |  13/03/2011 às 11:38

    bah, é verdade. O autor do artigo da Wikipedia reproduziu até as piadas. Chupa, Larrousse (ns)

  • 11. Flávio  |  13/03/2011 às 11:41

    Caio, o problema é que não está claro em que ano começou a vigorar a proibição, se foi logo após a Copa de 62 ou alguns anos depois.
    Mas talvez a Fifa não fosse não rigorosa na época, pelo menos não em amistosos, o que permitiu que Spencer jogasse pelo Uruguai até 64.

  • 12. douglasceconello  |  13/03/2011 às 14:19

    Que história sensacional.

    Mandaste muito bem, Chileno Chinelo.

    ufhsds

  • 13. Sancho  |  13/03/2011 às 19:14

    Re 4

    “peixes na água, estrelas no céu, cruza Paulo Nunes, na cabeça de Jardel”

    “padre na igreja, putas nas zonas, escora André Lima, golaço de Jonas”

  • 14. Matias Pinto  |  13/03/2011 às 19:40

    # 13

    Raí toca a bola, Müller deita e rola
    Só dá São Paulo

  • 15. Prestes  |  13/03/2011 às 20:24

    Valeu, gurizes (ui)!

  • 16. guihoch  |  13/03/2011 às 20:49

    el viejo impedimento

  • 17. aloncio  |  13/03/2011 às 21:52

    Esse Preste presta mesmo! puta cultura. E da-lhe meu VITÓRIA.

  • 18. Ernesto  |  14/03/2011 às 01:52

    Quando que o Alecgol ia guardar uma bucha e largar uma letrinha na gremistada ? Vamos Damião, cada vez mais ídolo.

    O ultimo que fez isso, se chamava Dadá.

  • 19. Caio Brandão Costa  |  14/03/2011 às 08:36

    Luís Filipe, eu as levei a sério (notadamente, a de que bastava para Senior oferecer um salário mais robusto e uma passagem de ida)! Hahahaha. Por sinal, você insinuou no post que o mesmo teria uma continuação, mas não a encontrei… abraços

  • 20. Cassol  |  14/03/2011 às 09:54

    Genial, Prestobarba.

  • 21. Sancho  |  14/03/2011 às 11:59

    Re 9

    Nesse verbete, lá no wikipedia, há menção ao lance do Nílton Santos na Copa de 1962. Mantém a tese oficial da ajuda da arbitragem ao Brasil.

    Duas coisas:

    Em primeiro lugar, NÃO FOI FALTA! O espanhol simplesmente se joga e atropela o Nílton. Se quisesse mesmo prejudicar os espanhóis, o árbitro teria feito o CERTO e mandado o jogo seguir.

    Em segundo lugar, o árbitro não deu jogo perigoso coisa nenhuma. Todos param antes do chute. O que ele deu, e aí pode-se discutir se houve a falta ou não, foi empurrão do bicicleteiro no brasileiro que tirou de cabeça.

    Como é que poucos enxergam isso é algo que me espanta. O lance está no vídeo abaixo. A Globo mantém a lenda, mas se focarem apenas na imagem, podem checar por vocês mesmos:

  • 22. Sancho  |  14/03/2011 às 12:00

    A partir de 1’05”.

  • 23. Caio Brandão Costa  |  14/03/2011 às 23:10

    Hmmm. Endiretarei isso em breve. O que houve é que o material que usei naquela parte descrevia o lance dessa forma que você contesta… era um fascículo de uma coleção feita por aquele Max Gehringer que contava a história das Copas Jules Rimet.

    Pessoal, usei referências impédicas também em Guillermo Barros Schelotto (do Douglas Ceconello), eleito como verbete bom; Francescoli (que em breve deve virar destacado; está em votação, com todos os três votos optando por isso; foi uma do Ceconello e outra do Maurício Brum); e Chilavert (outra do Luís Felipe. Esse ainda terá de ser melhorado)

  • 24. Caio Brandão Costa  |  15/03/2011 às 00:34

    #11 Flávio, essa página do RSSSF mostra o período dos atletas que teriam sido impedidos de continuar a jogar por sua segunda seleção após a Copa de 1962: http://www.rsssf.com/miscellaneous/double-caps.html

    A mesma mostra que De Bourgoing e Spencer atuaram a partir daquele ano por suas segundas seleções. Você pode ver que os sete que citei deixaram, alguns ainda jovens, de jogar por elas naquele 1962; alguns deles têm página própria no RSSSF cujas estatísticas detalham que seus últimos jogos pela segunda seleção foi justamente no mundial ou antes dele.

    Kubala, que não pôde ir para a Copa por estar machucado, fez inclusive sua última partida pela Espanha em 1961. A maioria dos que conseguiram jogar por segundas seleções depois disso foram atletas que defenderam previamente países que deixaram de existir, ou que jogaram apenas nas equipes juniores de suas primeiras seleções (permissão apenas recente; Tim Cahill não foi permitido de atuar pela Irlanda na Copa de 2002 porque dez anos antes jogara por alguma sub-coisa da Samoa – só a partir da suavização da regra, já depois dessa copa, ele pôde defender outro país, mas a Austrália).

  • 25. Flávio  |  15/03/2011 às 06:12

    É mesmo, Caio. Faz todo sentido. O inusitado, no caso de Spencer, é que ele continuou jogando pelo Equador até 1972, ao contrário do De Bourgoing, que se despediu da seleção argentina em 57.
    Quanto à Copa de 62, existe outra lenda urbana sobre o jogo contra a Espanha: a de que o Brasil seria eliminado caso perdesse. Na verdade, se a Espanha vencesse, o Brasil ficaria com 3 pontos, igual à Tchecoslováquia. A decisão da vaga se daria pelo saldo de gols. Os tchecos ficaram com saldo -1. O do Brasil, caso perdesse por diferença de 2 gols, seria zero.

  • 26. Caio Brandão Costa  |  16/03/2011 às 03:30

    Sancho, eu vi o lance e achei pênalti sim, embora, de fato, o espanhol tenha dado uma enfeitada após levar a entrada. Se não, creio que o Nilton Santos, mesmo experiente, teria protestado contra uma simulação total do ibérico.

    Sei que estamos no país que vangloria a malandragem como algo cultural, mas acho que, se realmente não tivesse sido pênalti, esta versão que você sustenta seria a mais divulgada na mídia. Ou o Nilton Santos sempre assegurou que não fez nada de irregular?

    Também não achei jogo perigoso, mas por alguma razão é essa a versão descrita no Jornal da Globo, no vídeo postado por você, e no material que eu li para escrever aquela parte do verbete. Vai entender…

  • 27. Caio Brandão Costa  |  16/03/2011 às 03:32

    Procurando voltar um pouco na linha do texto: quero passar por MVD nesse ano e gostaria de comprar enciclopédias sobre Nacional e Peñarol. Elas existem? Onde poderia encontrá-las? Tenho somente o Book of Xentenary, do Boca, e pretendo adquirir também a riverplatense Campeón del Siglo… saludos!

  • 28. Sancho  |  16/03/2011 às 10:44

    Re 26

    Se ele reclama, o juiz dá pênalti.

    Segundo um amigo meu, que o conheceu, ele manteve a versão “oficial” porque servia: achavam-no o máximo assim mesmo; ele não passava atestado de “malandro” ao espanhol; e não corria o risco de o tirarem para “‘chorão”.

  • 29. Caio Brandão Costa  |  24/03/2011 às 17:35

    Joya também jogou pelo Uruguai! Agora que fui ver… pode ser visto no mesmo link do RSSSF que havia colocado aqui.

  • 30. Carlos  |  18/04/2011 às 16:33

    Estimado Felipe Prestes, yo soy uno de los dueños de la loja “Uruguay Visual”. En el día de hoy pasó por aquí un lector de su prestigiosa web, y nos comentó que la había conocido por este artículo. Quiero agradecerle por sus bellas palabras y por supuesto estamos siempre a sus órdenes y las de sus lectores. Cuando decidan visitar Montevideo ésta es su casa.
    Felicitaciones por su web.
    Muchas gracias, un saludo grande a la distancia,
    Carlos.-

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