Saudades da minha terra

08/03/2011 at 08:00 14 comentários

Ô milonga galponeira, já que tu tens qualidade
Vai dar uma volta ao mundo no Brasil da liberdade
Vai por mim lá no Rio Grande, terra de hospitalidade
Entra no Rio Grande amado pra matar minha saudade

Quando decidi ir ao Couto Pereira assistir a Coritiba x Ypiranga, pela Copa do Brasil, o fiz não somente pelo meu apreço ao esporte bretão. Estar ao lado, abraçar, gritar, sentir as emoções emanadas por um time do Interior, sobretudo dos pagos gaudérios, me aproxima um pouco mais das minhas raízes, deixadas para trás há quase 10 anos, quando saí da minha Novo Hamburgo rumo à cosmopolita – mas concomitantemente provinciana – Curitiba.

Não sou separatista. Acho uma tremenda bobagem e um suicídio por parte de qualquer estado brasileiro. Sua ideologia inicial foi totalmente deturpada, e atualmente não faz o menor sentido. Apenas proclamo a República Rio-Grandense em duas oportunidades: quando chamam gaúcho de ‘veado’ ou quando um larápio de apito, proveniente das entranhas de uma progenitora promíscua, resolve surrupiar alguma esquadra gaudéria.

Ano passado, fui ao campo de futebol sete localizado em um barranco à beira da BR-277 – outrora conhecido como Ecoestádio Janguito Malucelli – assistir a Corinthians Paranaense x Juventude, também pela primeira fase da Copa do Brasil. Na torcida do Papo encontrei quatro torcedores alvi-verdes, todos eles gringos bonachões com seus respectivos e devidos bigodes espraiados. Um deles, inclusive, me contou que esteve no Maracanã para assistir Botafogo x Juventude em 1999, jogo que deu o título da Copa do Brasil ao Ju.

O clima do embate entre o Timãozinho curitibano e o Ju era tão cordial que sequer a arbitragem foi vaiada quando entrou na cancha. Até ficamos com vergonha de xingá-los, tamanho era o silêncio. Quando o bandeirinha do nosso lado se aproximou, conversou conosco e sorriu. Nenhum sentido. Não foi à toa que o Papo perdeu aquela partida por 1×0. Gol de LIPATÍN – sim, aquele!

Doze meses depois, em nome do pan-gauchismo – cujo ápice é torcer pelo Uruguay na Copa – fui torcer pelo Ypiranga. Após passar quase uma hora com somente a companhia de vendedores ambulantes, chegaram três empresários de Erechim. Segundo eles, estavam a trabalho em Curitiba e deu a coincidência do Canarinho estar jogando por essas bandas. Com o aproximar do jogo, chegou um rapaz recém formado em Engenharia Florestal pela UFPR, envergando uma velha camisa do time de Erechim e familiarizado com todos os jogadores da equipe, mesmo distante há anos de sua terra natal.

Com o jogo já iniciado, mais torcedores chegaram. Éramos cerca de 15 viventes fazendo mais barulho que os quase 11 mil coxa-brancas presentes (absurdo, mas verdade). Entre os ypiranguistas, dois homens e três mulheres, entre 20 e 25 anos, encostados junto às grades de proteção, todos uniformizados, e com a bandeira do Rio Grande amado. Vieram de carro diretamente de Erechim. Coisa rara nos dias de Pay-per-view e ‘orkutismos’.

Passados mais alguns minutos, era a comissão técnica do Ypiranga quem deixava os camarotes destinados ao adversário para se juntar a nós na arquibancada do Couto Pereira. Um deles era o auxiliar técnico Ildo, zagueiro revelado pelo próprio Ypiranga no começo dos anos 1990 e com passagens por Inter, Portuguesa e Sport. Seu 1,87m não deixava dúvidas que muitas canelas pararam ali antes que pudessem adentrar a área.

Conversando com os torcedores, mas sem tirar os olhos do relvado, notei os aspectos que tornam o Interior de qualquer estado apaixonante. Mesmo que muitos daqueles torcedores não se conhecessem, bastava uma troca de palavras, questionamentos quanto aos seus respectivos sobrenomes, família, moradia em Erechim, para logo o ambiente tornar-se fraternal.

No intervalo da partida, conversei com um dos empresários presentes, Ernani Mello. Vereador de Erechim já em seu terceiro mandato, contou-me a história do Estádio Colosso da Lagoa e do próprio clube:

– Fizemos uma homenagem ao Colosso da Lagoa na Câmara de Vereadores há pouco tempo. Ano passado, completou-se 40 anos da construção do estádio. Quando foi construído, tinha capacidade para 38 mil pessoas. Mais do que a população de Erechim à época!

Fundado em 1924, o clube passou muito tempo de sua história no amadorismo. A rivalidade com o Atlântico fomentou o profissionalismo:

– Havia dois clubes na cidade, o Ypiranga e o Atlântico, que eram rivais em torneio amadores. Mas assim que o Atlântico resolveu ficar apenas no futebol de salão, o Ypiranga se profissionalizou.

Disputar a Copa do Brasil parecia uma utopia no começo da década passada. Com dificuldades financeiras, o clube encerrou suas atividades. Mas com a abnegação do presidente João Aleixo Bruschi e uma parceria com o Instituto Anglicano Barão do Rio Branco, o Ypiranga voltou à ativa em 2005:

– A direção de futebol foi terceirizada, deixada a cargo do Barão. Nessa aliança, o Ypiranga pagou suas dívidas, se reestruturou e voltou à primeira divisão no final de 2008.

Assim que o árbitro soou o apito final na já chuvosa Curitiba, o placar indicava um injusto revés de 2×0 para os gaúchos. Os adeptos do time de Erechim cumprimentaram uns aos outros e rumaram às suas respectivas casas, na esperança de um vôo mais duradouro do Canarinho no cenário nacional.

A mim, mantém-se acesa a chama da esperança em ver meu Novo Hamburgo fazendo bonito em algum campo perto da minha casa atual, de modo a diminuir a saudade enorme que sinto do meu rincão. Afinal, como certa vez disse um outro político gaúcho, famoso no Brasil por engolir sapos barbudos e peitar a Vênus Platinada:

– O gaúcho é como um cedro. Vive tanto na seca do deserto quanto na inundação. Consegue tirar do orvalho da noite o necessário para sobreviver.

São Sepé e Caçapava; Lavras, Bagé e Três Passos
Vai levar a esta gente, meu grande e sincero abraço
E diz a todos que agarrem um punhal de puro aço
Corte o meu coração e cada um leve um pedaço

Versos: música Percorrendo o Rio Grande, de Gildo de Freitas

Texto enviado por José Eduardo Francisco Morais.

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O salto do Saci A noite das mariposas

14 Comentários Add your own

  • 1. Sancho  |  08/03/2011 às 10:31

    Zezinho,

    Parabéns pelo texto sobre o “Lado B” do jogo. Do “Lado A” apenas registro que o Ypiranga ENCAROU o Coxa em Curitiba, a ponto de eu chegar a ter esperança de um crime. E isso que era o mesmo time que levara 5 do Grêmio contra o melhor time parananese hoje.

  • 2. Felipe (o catarina)  |  08/03/2011 às 10:38

    pqp, sensacional. Eu, que não sou gaúcho, quase chorei. Sair de carro de Erechim até Curitiba pra acompanhar o YPIRANGA numa missão quase impossível… Nada contra quem prefere torcer pela TV pra um time que nunca viu jogar ao vivo, mas ISSO É QUE É FUTEBOL. Se houvesse mais gente assim, os clubes do interior gaúcho seriam bem mais fortes.

    No sabadão de Carnaval eu peguei e Magda e mais um casal de amigos e rodei 1.200km de ida e volta (voltei domingo, claro) até Chapecó pra ver Avaí x Chapecoense. E ainda perdemos… hehe. Faz parte.

    Sobre separatismo, acho que os três estados do Sul juntos poderiam formar um país viável economicamente. RS sozinho, nem pensar.

  • 3. Álisson  |  08/03/2011 às 12:28

    Grande texto conterrâneo. De qual bairro de Novo Hamburgo?

  • 4. Sanchotene  |  08/03/2011 às 13:26

    Re 2

    A melhor das impossibilidades seria um país formado por: os 3 estados do Sul do Brasil; as 3 províncias do nordeste argentino (Entre-Ríos, Corrientes e Misiones); e o Uruguai. Aproximadamente:

    Argentina: 200.000 km²; 3.300.000 hab.
    Brasil: 575.000 km²; 27.500.000 hab.
    Uruguai: 175.000 km²; 3.500.000 hab.

    Total: 945.000 km²; 34.300.000 hab.

    Fica melhor porque o país seria bilíngüe; o Uruguai já é reconhecido internacionalmente (não teria que passar por tanta questões burocráticas); e a inclusão dos territórios argentinos deixaria esse hipotético país do tamanho da Venezuela em área (5º na América do Sul; 33º no Mundo) e com a população do Canadá (36º no Mundo; e seria o 3º na América do Sul). Como diria o hino do Paraná Clube: já nasceste gigante.

    😀

    P.S.: Não seriam tantos argentinos assim, e -de quebra- o goleiro titular dos hermanos jogaria para nós!

    P.P.S.: Plano parecido com esse surgiu durante os conflitos separatistas, era denominado de “Quadrilátero” e composto por Uruguai, RS, Entre-Ríos e Corrientes. No fim, só o Uruguai conseguiu a independência.

  • 5. Zé Eduardo Morais  |  08/03/2011 às 14:43

    Muito obrigado pelos elogios!

    Vou ali na borracharia DESINFLAR meu ego

    #1

    Sancho, eu cheguei a fazer um texto sobre o jogo, mas fui BOICOTADO (mentira). Falei com o Ceconello, e como houve vários jogos da Libertadores e ele viajou no fim-de-semana, o relato do jogo ficou ‘ultrapassado’.

    Mas foi bem o que tu disse. O Ypiranga encarou o Coxa de igual pra igual, tendo, no 2º tempo, mais volume de jogo. O Coxa, talvez pela ressaca do Atletiba, entrou em campo meio sonolento, tanto que o Marcelo Oliveira sacou Davi e colocou o Tcheco.

    Gostei do zagueiro Matheus, do Canarinho. Sai pro jogo, não tem medo. Pansera e Thiago (lat.dir) também foram bem.

    Fiquem de olho no Coxa. Tem um contra-ataque muito rápido com Marcos Aurélio, Rafinha e Davi

    #2

    Felipe, eu não sou partidário desse pensamento, mas respeito quem o faz.

    No entanto, eu não colocaria o Paraná nessa ‘república’. Pelo simples fato de inexistir uma unidade paranaense. As cidades são muitos distantes, suas culturas diferem demais entre si.

    Aqui em Curitiba há certo preconceito com Londrina e Maringá, por exemplo. Há o Paraná paulista, o Paraná gaúcho, o Paraná paraguayo, o Paraná holandês, o Paraná japonês, o Vale do Ribeira, Curitiba e o Litoral.

    Além disso, o estado é muito atrasado politicamente. O coronelato corre solto ainda aqui. Curitibano adora falar mal do Nordeste, mas a ignorância política aqui é surpreendente.

    Costumo dizer que para sobreviver aqui é preciso dinheiro; no RS, opinião.

    #3

    Sou do Ideal. Estudei no Nilo Peçanha =]

  • 6. 101porcentocorinthians  |  08/03/2011 às 15:10

    Caraca, que texto bacana. Acho bacana quando leio textos de gauchos inteligentes como foi o teu agora Zé Eduardo, se tem algo que me irrita é ler comentários no youtube ou no orkut do tipo “Ah paulista macaco” , “Vai gaucho viado”, “somos diferentes, prezamos nossa cultura” “Ah são paulo sustenta o Sul”. Acho muito patético tudo isso e lendo a qualidade desse textos e comentários acho bem bacana.Pois respeito quem quer se separar, mas temos sempre que respeitar as pessoas.
    Abraço
    @blog101porcento

  • 7. Eduardo  |  08/03/2011 às 18:58

    Zé, belo texto mesmo.
    aliás, estou completamente de acordo com tua opinião sobre o Paraná… 🙂
    tenho uns 8 amigos PRÓXIMOS (trabalhamos por muito tempo na mesma empresa) e, falando de futebol, apenas 1 (UM) deles torce para time paranaense.
    3 são de Londrina, 2 de Curitiba, 1 de Maringá e outro da mesma cidade da Grazi (e não comeu) e parece que são de PAÍSES diferentes… hehehe

  • 8. Eduardo  |  08/03/2011 às 18:59

    ah… e antes que alguém solte a corneta, listei apenas 7 amigos… não sou tão fraco em matemática… hehehe

  • 9. Sancho  |  08/03/2011 às 19:03

    Presente como prova de querer bem:

    http://www.ole.com.ar/futbol-ascenso/cancha-brasilena_0_423557736.html

  • 10. Felipe (o catarina)  |  08/03/2011 às 19:38

    #5

    Sobre separar o Sul, não tenho absoluta certeza até que ponto seria melhor do que é hoje. Penso pelo lado econômico, não por questões culturais (nesse caso, a discussão geralmente descamba pro preconceito contra nortistas, nordestinos, negros e pobres). Se for melhor pra nós, se for pra vivermos num país mais rico e justo, sou a favor.

    Pelos números de população e economia (PIB, PIB per capita, etc., alguns que o Sancho mostrou) e comparando com outros países, me parece que seria viável e, à primeira vista, melhor do que é hoje. Mas não sei qual seria o grau de dependência do Brasil e quanto isso prejudicaria esse novo país, enfim, é como o futebol (ns): não é só planilhas, estatísticas e performance.

    Quanto ao Paraná, a impressão que sempre tive era essa mesmo e como moras aí, podes falar melhor.

  • 11. Marcos SL  |  08/03/2011 às 23:00

    Belíssimo texto, Zé!!! Saludos desde São Leopoldo!!!

  • 12. douglasceconello  |  09/03/2011 às 02:07

    Belo relato, mesmo. A função PATRIÓTICA do Impedimento é justamente arrefecer a saudade dos que MIGRAM. 🙂

  • 13. Fábio Teixeira  |  10/03/2011 às 11:45

    putz, piá..
    que droga!

    eu fiquei me coçando pra ir nesse jogo!

    se soubesse que você iria, teria dado um jeito tbm!

    abraço

  • 14. Zé Eduardo Morais  |  10/03/2011 às 23:20

    #7

    Tocaio, tem essa senhora pesquisa da Gazeta do Povo, datada de 2008, sobre as torcidas no Paraná: http://www.gazetadopovo.com.br/esportes/conteudo.phtml?id=840206

    Foram 101 mil entrevistado em 10 meses de pesquisa por todo o estado. Dá de relho em qualquer pesquisa eleitoral. Dá para ter uma boa noção de como é o estado

    #10

    Sou a favor do separatismo no futebol =p
    Na verdade, sou a favor de uma revolução que propicie a ressurreição do futebol interiorano, ingressos mais acessíveis às classes mais baixas, estádios mais cheios, melhor transmissão de campeonatos, calendários cheios, etc.

    Não basta nada sonhar. Apesar de que a repercussão dos textos do Iuri e do Marcelo dá uma réstia de esperança

    #11

    Volta, Aimoré!

    #12

    Eu é que agradeço a oportunidade. Precisando de algum material sobre a Suburbana (o Amador de Curitiba) ou qualquer coisa de times pequenos das Araucárias ou do RICHÃO’11, é só chamar

    ***
    Sabem aquela frase da Dilma, ‘prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio da censura das ditaduras’?

    Pois bem, isso é uma coisa que me chateia no Paraná. A imprensa inexiste aqui. Não há aquele comentarista – seja na política, no futebol – que prenda a atenção das pessoas, que gere discussão nas ruas.

    As rádios são muito fracas. Ano passado, estudei Español com um pessoal mais velho do que. E conversando com eles, disseram-me que só escutavam as rádios CBN e Band News para se informarem. Nenhum rádio legitimamente paranaense – e que abrangesse o noticiário nacional.

    No Rio Grande, eu posso escutar a Gaúcha, Farroupilha, Guaíba, Band, ABC ou Liberdade para saber o noticiários político, esportivo ou simplesmente escutar música.

    Sinto falta disso aqui. Conviver sem opinião e discussão não dá

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