Un poco más allá del césped: a Greve de 1992

01/03/2011 at 12:00 14 comentários

Há dois finais de semana, a rodada do Clausura no Uruguai só saiu porque a AUF agiu rápido. Até a tarde de sexta, 18 de fevereiro, os funcionários de arrecadação do campeonato seguiam em sua greve, insatisfeitos quanto aos pagamentos de férias e datas de licenças. Estrelas já luziam no céu de Montevidéu quando as duas partes chegaram ao acordo que garantiu os gols de sábado e domingo. O impasse estava nos arredores do gramado, mas fez recordar que, no Uruguai, onde presidentes de clubes menores viram madrugadas às vésperas dos torneios para apresentar garantias financeiras à AUF, a história repete greves do futebol, muitas vezes com pano de fundo político. Incluindo as de jogadores, como a huelga que paralisou o campeonato por trinta e um dias em 1992.

Os protagonistas do episódio que desencadeou aquela revolta estão perdidos, hoje, na Segunda B de Amadores – aqui se abrem parênteses para este que talvez seja o campeonato com os times de melhores nomes no mundo. Lá jogam o Club Atlético ALTO PERÚ, o Coraceros POLO Club (ImpedCopa forever), o Mar de Fondo, a Institución POTENCIA, e o Club Atlético TORQUE. Também está o Albion, fundado em 1891 e um dos criadores da primeira Liga Uruguaia nove anos mais tarde. Fecham-se os parênteses. Quem estava no centro do imbróglio de 1992, contudo, eram outras duas equipes montevideanas que atualmente trocam pataços no terceiro nível da Banda Oriental: o Basáñez e o Villa Teresa.

Sozinho, o Basáñez conta com referências bem suas. Conhecido também por ser uma agremiação onde se pratica o BOXE, ele manda seus jogos no estádio de La Bombonera e está situado a poucos passos de um complexo habitacional que homenageia o País Basco. O EUSKAL ERRÍA, onde os moradores peleiam entre si pela falta de pagamentos das contas de água, é a principal origem de público para o time rubro-negro – cores adotadas de propósito pelos primeiros dirigentes, remetendo ao anarco-comunismo. É certo que delas brotou o apelido LÚGUBRE que os jogadores carregam. Por onde passa, o Basáñez é apontado como el equipo Sangre y Luto, denominação que fez mais sentido ao fim de 19 de setembro de 1992.

A realidade de então era a Segunda Divisão profissional. Que tendia a ser primeira no outro ano. O Basáñez liderava e, naquele dia, venceu o lanterna Villa Teresa por 1 a 0, num jogo alheio à guerra que se armava fora da Bombonera. As duas barras haviam acirrado inimizades na campanha anterior, em jogos do Basa contra o Miramar Misiones – equipe adotada pela banda do Villa enquanto seu time estava no terceiro escalão. No momento em que os de Teresa subiram, a raiva foi guardada para o reencontro. Antes do fim do jogo, alguns dos visitantes saíram da cancha e tiraram armas brancas e de fogo de um CHEVETTE estrategicamente estacionado ali fora.

Três torcedores resultaram feridos pelos tiros. Envoltos em gás lacrimogêneo, poeira e berros de fúria ou desamparo, até os cavalos da polícia ficaram sem rumo. Um deles, assustado, derrubou e pisoteou Wellington Castro, ex-jogador do Basa – com passagem pelo Peñarol – convertido em membro da barra local. Castro faleceu por afundamento do crânio e, no dia seguinte, os jornais estamparam fotos das arquibancadas vazias da Bombonera sob manchetes de morte – ocorrida cinquenta metros fora do estádio. Foi a quarta vítima da história do futebol uruguaio, mas a reação da imprensa destoou de todo o visto antes. Pediam a desfiliação do Basáñez como punição pelo ocorrido.

A AUF foi menos DRÁSTICA, mas ainda assim extrema em suas sanções: suspendeu os dois clubes por oito rodadas, período durante o qual os jogadores não poderiam cobrar salários. A medida condenava o Villa ao rebaixamento e impedia o Basáñez de consumar a subida. Arrancava de seus atletas, também, os bônus financeiros pelo acesso. Pouco depois, em solidariedade, a Mutual – sindicato dos futebolistas profissionais do Uruguai – declarou a greve geral. Até que o ex-jogador e agora PADRE Ernesto Popelka interveio acenando com a redução da punição e dobrando a associação de jogadores em novembro, passou-se um mês e um dia sem futebol no Uruguai. O Nacional foi o mais prejudicado: ficou sem time para enfrentar o Racing de Avellaneda nas quartas-de-final da Supercopa e foi obrigado a dar um duplo W.O. para a Academia.

Mas por trás de um fato existem mil. O sucesso do pequeno clube do bairro Malvín Norte – o acesso, impedido pela condenação, viria outra vez em 1993 – estava muito ligado a Paco Casal, FORNECEDOR do material humano da equipe. E Casal era um problema para a AUF. O Basáñez teve o azar de estar no meio de uma encarniçada disputa de interesses e ser usado como exemplo de até onde a AUF pretendia ir para travar o empresário. Brigando nos bastidores para deter os direitos televisivos do campeonato nacional e cobiçando mais influência nas convocações da seleção, Paco também representava os principais jogadores uruguaios que atuavam fora do país.

Enzo Francescoli, o Pato Aguilera, Ruben Sosa, José Oscar Herrera e muitos outros pertenciam a Casal. E estavam se negando a atuar pela Celeste, acusadamente a mando do empresário. Aos microfones, os selecionáveis diziam exigir que o técnico Luis Cubilla se retratasse de uma declaração em que insinuara que eles eram más pessoas. Com efeito, havia na época uma resistência da imprensa e da AUF aos jogadores que atuavam na Europa. Ao assumir o time após o Mundial da Itália, Cubilla disse que eles ficassem cômodos no Velho Mundo enchendo os bolsos: “yo necesito jugadores con hambre”. Com uma convocação inteira de jogadores locais, o Uruguai FAMINTO de Cubilla foi eliminado na primeira fase da Copa América de 1991.

A imprensa se pôs ao lado das ferozes penas da Associação Uruguaia sobre o Basáñez e o Villa Teresa não apenas porque seus conglomerados lutavam contra Casal na disputa pela tevê. Havia, como sempre há, o fator político. Hugo Batalla, presidente da AUF, liderava o grupo Nuevo Espacio – que interessava tanto à coalizão de esquerda Frente Amplio, de cuja fundação o próprio Batalla participara em 1971, quanto aos setores mais conservadores, respaldados pelos grandes periódicos do país. A conjuntura tornava desfavorável para qualquer lado se opor às decisões e vontades do presidente da AUF – e a Mutual ficou sem apoio em seus anseios grevistas.

Em 8 de novembro de 1992, votou-se pelo fim da greve, por 240 a 185. Caso ela fosse mantida, já estava agendado para dezembro um amistoso que nunca se realizou, entre o selecionado da Mutual e o do sindicato dos futebolistas da Argentina, no Fortín de Liniers. Paco Casal, numa provocação suprema, prometia Francescoli na seleção pirata dos uruguaios. Dois anos mais tarde, quando as causas de bastidores da huelga ainda ardiam, Hugo Batalla se alinhou ao Partido Colorado. Terminou eleito vice-presidente do Uruguai na chapa de Julio María Sanguinetti.

Sem interesses ocultos,
Maurício Brum.

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O Tigre não morre Réquiem por una lechuza

14 Comentários Add your own

  • 1. Vinicius  |  01/03/2011 às 12:50

    Eu tenho o livro Yo, Paco. Comprado em Montevideo. Autor: Mario Bardanca.
    Bardanca é um crítico ferrenho do Cassal e de seu grupo. Ele descreve as principais transações de jogadores do Cassal. Daqueles que se voltaram contra ele e sumiram do futebol. Daqueles que tiveram sucesso e como.

    Esta história está bem detalhada no livro, entre várias aliás.

    Fala dos clubes de aluguel do Paco (Mallorca, Cagliari, Bologna…). Fala do quão sujo é o Francescoli, que é o braço do Cassal no River Plate-ARG. Fala até da negociação do Loco Abreu com o Grêmio. Como o Penharol e o River faliram graças a ele.
    Fala do Casal entrando no vestiário da celeste na copa de 1990, e mandando em todo mundo.
    Do fornecedor de material esportivo de 1993, inexistente às vésperas do jogo com o Brasil no Maracanã por questões rídiculas…
    Tem muita coisa, já faz uns 6 meses que li.
    Livro em espanhol, claro. ainda não tem tradução…
    Se alguém quiser emprestado…

  • 2. Vinicius  |  01/03/2011 às 12:55

    Tem mais uma também, da compra de juízes nas Copas sulamericanas (copa america, libertadores, conmebol, supercopa, recopa…) pelo Cassal, a fim de beneficiar o sucesso de clubes com jogadores do Paco, para valorizá-los em futuras transações.

    Hoje o Rampla Juniors é dele. Bella Vista, Racing, Miramar. Um clube que historicamente se voltou contra o Cassal, praticamente o único, foi o Liverpool-URU. O presidente dos azuis sempre foi o único a não se calar pra ele. Principalmente na venda de cotas para TV. O Nacional-URU também, mas depois que trocou o presidente voltaram a apoiar o Cassal.

  • 3. Roger  |  01/03/2011 às 14:05

    O nome do estádio dos caras é ‘La Bombonera’? é isso?
    Pensei que fosse a bombonera do boca, mas isso não faz sentido né? ou faz?
    Alguém explica ai…

  • 4. Maurício Brum  |  01/03/2011 às 15:21

    #2
    O Nacional sempre foi oscilante em relação ao Casal. Na época da greve de 92, com o De León (que sempre foi muito ligado ao Paco) por lá, eles tinham um dos elencos mais simpáticos aos interesses dele. Tanto que o Nacional, muito por influência do De León e mesmo com a história da Supercopa, conseguiu ter unanimidade do plantel a favor da greve.

    #3
    Sim, o estádio do Basáñez se chama La Bombonera. Em homenagem à do Boca.

  • 5. Zobaran  |  01/03/2011 às 15:26

    Muito bom e fiquei com curiosidade sobre esse Yo, Paco.

    Parabéns, impedimentistas!

  • 6. Carlos  |  01/03/2011 às 16:23

    MUITO BOM.

    Um texto esmiuçando esse cidadão paco seria ótimo.

  • 7. Pedro  |  01/03/2011 às 17:46

    Mudando de assunto… e esse sai não sai do Magrão? Se fosse sobre um jogador do Inter, tipo Guiñazu, teriamos que ouvir a velha ladainha sobre imprensa azul e blablabla.

  • 8. douglasceconello  |  01/03/2011 às 19:48

    Que PRIMOR de relato. Pra vocês verem como muitas vezes somos, mesmo os mais bem informados, totalmente IGNORANTES no que acontece no futebol.

    E, pior do que tudo, muitas vezes desconhecemos os verdadeiros culpados pela pobreza dos clubes (gaúchos, uruguaios, brasileiros, SENEGALESES) e pela desorganização do futebol. Fato é que sempre tem um porco guloso pra estragar a lavoura (ns).

  • 9. Eduardo  |  01/03/2011 às 20:26

    Fato é que sempre tem um porco guloso pra estragar a lavoura (2).
    e esse sou eu, novamente na argentina, gastando meus preciosos e suados pesos argentinos e esfaqueando a pobre vaca.
    a ESPN fez uma espécie de programação noturna e só passou RUGBY por 3 dias, em horário nobre…
    aliás, vi a Itália levar uma SUMANTA DE LAÇO do país de gales.
    joguinho interessante esse tal de rugby (Fern, perdão pela ignorância).

  • 10. Anônimo  |  01/03/2011 às 20:28

    Daria um livro! Ou vários…

    Pena que ficamos só no artigo.

    Muito bom, Brum.

  • 11. Eduardo  |  01/03/2011 às 20:29

    GRÊMIO fez uma excelente negócio em não vender o WM.
    aliás 2: Willian Magrão >>>>>>>>>>>>>>> Wilson Mathias.
    só prá reviver um velho comentário impedimentense…

  • 12. Francisco Luz  |  01/03/2011 às 21:57

    7: a diferença com relação às “vendas” do Guiñazu é que o AVM admitiu que o jogador seria negociado. Ou tu não leu isso na “imprensa azul”?

  • 13. Cunegundez Rodriguez  |  02/03/2011 às 00:23

    Estou vendo o colo colo currando o tachira, aquele time que os franguinhos do santos não conseguiram currar, so não foi de zero porque o goleiro do colo colo eh aquele castillo, frouxo que nem cueca de veio broxa, parece uma virgem alucinada embaixo dos paus, quack

  • 14. Carlos  |  02/03/2011 às 10:43

    Bah, mas corneta até em venda?

    Que xaropice do cacete.

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