Barra do fútbol, do futebol

26/02/2011 at 08:00 12 comentários

É difícil não gostar de futebol quando se está na Barra da Lagoa, especialmente quando o futebol é o principal vetor das conversas, entre pessoas que vivem realidades bem diferentes. No final de fevereiro, a ocupação argentina nos hotéis chegou a 85%, segundo dados oficiais – somando as casas e hostels, dá para imaginar uns 80% de estrangeiros entre turistas, somando a América Hispânica e outros locais do mundo. Fevereiro indica a volta às aulas da imensa maioria do Brasil, abrindo espaço para as muitas camisetas de equipes diferentes transitando nas ruelas da Barra.

Onde se passa, um pedido de informação e um comentário sobre a camiseta do teu time. Ou do time alheio. As vestimentas do Estudiantes desapareceram após os 5 aplicados pelo Cruzeiro – cruzeirense mesmo só vi um, mas não eram poucos os brasileiros arriados. Rosario Central, Newell’s, Colón, Unión de Santa Fé, Nueva Chicago, Ferro Carril Oeste: muito mais que os populares River e Boca, em minoria.

“Em que divisão está Unión? E vai subir”
“Difícil, mudaram o time todo, temos que ficar entre os primeiros”
“E como está Central na B”
“Muito mal. (10º lugar, 11 pontos atrás do líder). Só no ano que vem”
“Sou do Argentinos Juniors, campeão, maior cantera da Argentina”
“E o Boca? Não aguento mais Román…”

Só era impossível puxar assunto sobre futebol com os que falavam apenas inglês: intimidados, não se arriscavam muito em falar dos clubes suíços, holandeses ou noruegueses. No máximo, um feliz torcedor do Tottenham, que gritou o nome de Sandro ao ver uma camisa colorada. “Great player! Classy player”, falou, sobre o reserva do seu time.

Em 1997, quando estive na Barra pela primeira vez, tentei comprar uma camisa do Avaí ou uma do Figueirense. Do Avaí, só na antiga Cauduro no centro; o Figueirense não conheciam, então me ofereceram uma do rebaixado Fluminense achando que eu tinha errado o nome. As bandeiras na rua eram do Vasco, do Grêmio, do Flamengo: cenário diametralmente oposto ao de agora. Quatorze anos depois, Avaí e Figueirense têm uma sonora rivalidade, exposta nos adesivos “FICAMOS” e “VOLTAMOS” com os As destacados, mostrando o orgulho de ter dois times da capital na Série A pela primeira vez na nova democracia.

A volta de Silas no Avaí e os gols de Fernandes no Figueira são assunto em todos os lugares, por onde passa um local. Os figueirenses, que andavam escanteados e acabrunhados nos últimos anos, arregaçam as mangas com a volta à primeira divisão, a agressiva campanha de sócios espalhando comerciais em todas as TVs e a boa campanha no Campeonato Estadual. Os avaianos, maioria na Ilha, não manifestam qualquer mágoa do ex-treinador de Grêmio e Flamengo:

“Oxe, jogaram moedas nele, cuspiram nele, vaiaram ele, agora querem o hômi de volta?”
“Melhor ele que o Benazzi”

A segunda frase foi tão repetida que poderia até virar um outro adesivo.

Em uma sexta-feira, aconteceu um grande jogo na beira da praia. Mobilizou toda a comunidade local, que em 800 pessoas conseguiu lotar as arquibancadas de madeira armadas para o Beach Soccer. Atraiu a curiosidade de turistas, que se acotovelaram para ver, mobilizou o centrinho, aumentou as vendas e espoucou foguetes pelos ares, assustando os cachorros e minha filha de 3 anos, ainda febril. Tratava-se de uma final: era a decisão para ver qual o time que iria representar a Barra da Lagoa no campeonato municipal de futebol de areia. E jogavam times muito bem fardados, patrocinados, corriam bancas de apostas e buquimeques em cerveja e grana viva, dólares, pesos e reais. Só faltou a carreata no final.

É impossível não ser tocado pelo futebol quando se está na Barra da Lagoa.

Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos

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Entry filed under: Colunas.

A briga pelas cotas de dignidade O renascimento do Cruzeiro

12 Comentários Add your own

  • 1. catarina cristo  |  26/02/2011 às 08:11

    Melhor que o brasileirão, né não?

    🙂

  • 2. Anônimo  |  26/02/2011 às 09:03

    Me arrepiei.

    Abraço,
    Sancho

  • 3. Eduardo  |  26/02/2011 às 11:28

    Belo texto LF.
    Parabéns.

  • 4. Lucas Cavalheiro  |  26/02/2011 às 12:30

    Muito bom!

    Os hermanos não ficavam surpresos (e agradecidos) de tu saber dos nomes e situações de times não tão populares?

  • 5. Lucian  |  26/02/2011 às 21:26

    Muito bom o texto. Outro lugar que vale a pena conhecer em Floripa é o Campo da gruta, na Trindade, em frente ao Shopping Iguatemi. Ali, aos domingos, acontece algumas partidas do campeonato amador municipal. Acompanhei alguns jogos do time do bairro, o CAC, Clube Atlético Catarinense. Recomendo.

  • 6. Magda  |  27/02/2011 às 17:15

    Nossa, não acredito que estou lendo um texto sobre a Barra aqui no Impedimento. Sou do Estreito (bairro onde fica o Scarpelli, estádio do Figueira!) por parte de pai e da Barra da Lagoa por parte de mãe. Minhas sete tias e dois tios moram lá ainda – só minha mãe saiu de lá quando casou. A maioria dos meus 42 primos também ficaram pela Barra. É verdade, antigamente, todo em Floripa tinha um segundo time, geralmente carioca.Apesar de eu não ser avaina, acho que o Guga foi um cara que ajudou a resgastar o orgulho do manezinho com relação ao futebol. O cara era campeão de Grand Slam e dizia com orgulho pras tvs nacionais que era torcedor do Avaí e seu ídolo era o “Jacaré”. Tudo isso somado a ascenção dos dois times pra série B no final dos anos 90 contribuiu pro povo de Floripa mostrar que seus times eram mesmo Avaí e Figueirense. Eu, mesmo, sempre fui Figueira, herança paterna. Lembro de assitir jogo da série C, em 1996, em dia de chuva, com meu pai – Figueirense x Francana, 3×1 no tempo normal, 4×3 nos penâltis, o goleiro era o Carlos Alberto. O jogo classificou o Figueira pras semi-finais da Série C daquele ano – não seria naquele ano que subiríamos. Mesmo assim torcia pro Fluminense na Série A, também herança parte. Meu Deus, o time que eu viria a odiar, em 2007, por nos tirar o título da Copa do Brasil, com apenas três minutos de jogo. Eu que cheguei a me emocionar com aquele gol de barriga do Renato Gaúcho, na final do carioca de 1995, joguei fora esses dias o poster daquele time que tinha o Wellerson como goleiro. O pôster estava guardado na casa da minha mãe, entre as últimas coisas minhas que ainda restavam lá, antes dela me intimar a abrir espaço no guarda roupas (eheheheheheheh). Bom, o intervalo da final do turno do Catarinense/2011 acabou, o segundo tempo começou e eu preciso voltar minhas atenções para a tv, torcer pelo meu time, porque a coisa tá feia: no momento perde para o Criciúma por 1 a 0. Precisamos do empate para garantir vaga na final do Estadual e uma vaga na Copa do Brasil do ano que vem. E dá-lhe Fernandes, ídolo alvinegro, dez ano no clube, mais de 300 jogos e cem gols. Ele é o CARA!!!

  • 7. Magda  |  27/02/2011 às 17:20

    http://www.meufigueira.com.br/fernandes10/
    Ah, fica aí a dica pra quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre o camisa dez do nosso time!!!

  • 8. Serramalte Extra  |  27/02/2011 às 17:46

    bah… não fui ao jogo porque tou gripado… que coisa horrorosa essa transmissão EM ZOOM da RBS.

  • 9. Felipe (o catarina)  |  27/02/2011 às 18:48

    ói ói ó, a Barra no Impedimento! Quem diria? Legal o texto sobre esse que é um dos mais belos cantinhos da nossa Ilha.

    Como a Magda (comentarista mais linda do Impedimento) falou, realmente até o final da década de 90, torcia-se muito pra times cariocas aqui em Florianópolis. O “fator Guga”, como ela disse, foi importante pra mudar isso. O Guga foi o primeiro mané que fez sucesso em nível (inter)nacional a dizer que torcia pro Avaí e tinha o Jacaré como ídolo.

    O Fernando Scherer, que já era medalhista olímpico, sempre disse que era Flamengo. Até a Deborah Blando, que fez um sucessozinho ali nos anos 90, também dizia que era Flamengo. O Guga não, nunca disse que tem outro time, sempre foi Avaí, ia (e ainda vai) a jogo do Avaí, pedia convocação do Jacaré pra Seleção…

    Aliado a isso, o Avaí chegou à Série B em 1999, os dois times fizeram uma final de estadual comentada até hoje naquele ano, depois o Figueirense foi convidado pra Série B (Copa João Havelange), depois chegou à Série A, depois o Avaí chegou e por aí vai. A rivalidade, que andava adormecida, cresceu muito nesses anos. Hoje o cara até pode ter simpatia por time de fora, mas nem se compara com a paixão por Avaí e Figueirense. Pouca gente (pra não dizer ninguém) perde tempo mais pra discutir Flamengo, Vasco, etc., por mais que ainda tenham simpatia ou torçam.

    Antes que perguntem, meu segundo time não era carioca, mas sim paulista (Palmeiras), por causa do meu pai, que é palmeirense.

    ah, e gostei dessa parte: “o Figueirense não conheciam, então me ofereceram uma do rebaixado Fluminense achando que eu tinha errado o nome. ”

    Se fosse eu que escrevesse, iam dizer que é porque sou avaiano, mas já que foi o LF…. ahahahaha. Pior que é verdade, o Avaí ainda era “o time do Guga”, já o Figueirense ninguém conhecia. Felizmente hoje os dois são conhecidos.

    abraços!

  • 10. Marcos SL  |  27/02/2011 às 21:10

    É! E as férias acabaram…Floripa, só no ano que vem! No mais, belo texto LF!!!

  • 11. Froner  |  27/02/2011 às 21:54

    LF burguês.

  • 12. arbo  |  28/02/2011 às 18:25

    belo texto e melhor praia. estive lá no ano passado, agradabilíssimo.
    agora, o fcatarina emulando o serra foi DESRESPEITUOSO.

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