Meninos, mlks, lendas

14/01/2011 at 04:09 34 comentários

Dia desses tive a oportunidade de falar com uma lenda do futebol gaúcho. Ele atendeu o telefone, que estava na lista telefônica, depois de chamado pela filha. Eram apenas 3 perguntas banais, mas que foram sucedidas de uma longa charla sobre o seu tempo, os tempos de hoje, os costumes, o que ele faria se fosse presidente, o que ele deixou de fazer, como era bom se pudessem recuperar.

Quando vejo um jogador pedir que as perguntas sejam pré-programadas antes de uma entrevista, penso: será que um dia, eles serão assim?

O que é capaz de pensar um homem que joga futebol, atrás de todo o séquito de amigos, aspones, empresários, dirigentes e afins que estão por aí só para cuidar dele?

É claro que os tempos de hoje fazem com que os atletas cuidem muito mais da sua imagem, mas acima de cuidar da imagem, o que foram construídas foram duras cascas, altos muros, em cima de corpos frágeis e casas de madeira. O episódio da webcam do Santos, os xingamentos de Douglas e Souza no Twitter, os furos de Léo Moura sobre seu clube: pequenas demonstrações do que são realmente alguns jogadores de futebol, além das entrevistas programadas, das respostas prontas antes do vestiário e da imagem de vencedor e bom moço que o esporte exige.

Não tenho certeza se algum jornalista que trabalha na área pôde ter alguma conversa realmente sincera com um jogador de futebol nos últimos anos. Mesmo interessantes trabalhos de reportagem, como a entrevista de Alexandre Alliatti com Rodrigo, são tapados de auto-preservação e frases escondidas. É evidente que um jogador de futebol não confia num jornalista, mas fica a dúvida: em quem será que ele confia? Na mulher, que muito provavelmente conheceu quando já chutava uma bola? Na família, que dele depende? Nos amigos, que a ele bajulam?

É possível que muito da supervalorização do papel de um treinador esteja nessa relação.

O jogador de futebol é um monstro, uma empresa, construído sobre a frágil base de um moleque. O moleque, quando sai, muitas vezes sai de forma disparatada: pelo afogo se perde no excesso, das drogas, do sexo, do videogame, das festas. O treinador, além de ser aquele que usa o cajado do gatekeeping para decidir quem entra e quem sai dos onze, é uma das poucas pessoas que precisa ver em um atleta algo bem próximo do que ele realmente é. O treinador precisa saber o que um moleque pensa para entrar no seu cérebro, e fazer com que os pés dele, engrenagens da empresa, se movam conforme é melhor para o time. O treinador não detém, portanto, apenas o poder do gatekeeping: ele é o homem que, no dia a dia, talvez esteja mais próximo de uma relação sincera com o jogador de futebol.

Se os jogadores que foram lendas no passado e hoje atendem com cordialidade à lista telefônica eram sinceros em qualquer bar, com quase qualquer pessoa, os de hoje não tem esse direito. Um treinador que consegue se fazer entender no vestiário e perceber que o rendimento do atleta não é bom, ou é melhor, devido às suas questões pessoais, é uma pessoa que acaba se sobressaindo no contexto. Luiz Felipe Scolari, o maior dos campeões brasileiros, sempre se destacou pela habilidade de comunicação com os atletas. Hoje, talvez ele não fale a mesma língua dos demais.

O Flamengo contratou algumas das maiores empresas do futebol brasileiro, que atendem pelos nomes de Thiago Neves e Ronaldinho, e um administrador de empresas para cuidar deles, chamado Vanderlei Luxemburgo. Nada impede que dê certo. Mas será que a relação empresarial basta para fazê-los render o futebol perdido na Europa?

Phil Jackson, 12 vezes campeão pela NBA, comentou certa vez que não levantava jamais a voz para seus jogadores porque – além de ser um mestre do zenbudismo – sabia que a sua tarefa era de combater a dor a cada momento. Não só a dor física, mas a dor psicológica de ver tantas vezes o esforço não ser recompensado, se perder em uma derrota banal. Kobe Bryant, um dos maiores jogadores da história do basquete, brigou algumas vezes com Phil Jackson, mas também declarou que sua maior virtude era passar total confiança aos atletas.

Diante disso tudo, fica a dúvida: será que quando esses meninos de hoje tornarem-se lendas, eles vão superar as dores e ter a humildade e a cordialidade que têm algumas das lendas do futebol do passado?

Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos

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Entry filed under: Colunas.

Prêmios, despedidas e esperanças Aprumando pro retoço

34 Comentários Add your own

  • 1. Felipe (o Canoense)  |  14/01/2011 às 07:57

    “O jogador de futebol é um monstro, uma empresa, construído sobre a frágil base de um moleque.”

    Caralho véio, matou a pau.

    As pessoas acham que um guri que nem estudou direito e sem estrutura familiar (83,8% dos jogadores de bola), só porque tem um milhão na conta, tem que “dar exemplo” e “representar uma nação”!!!
    Acho que essas cascas que os caras constroem os protegem do falso moralismo.

    Abraço!

  • 2. SaPo  |  14/01/2011 às 08:21

    Não tinha lido a entrevista do Rodrigo, é impressionante como as vezes a gente esqueçe de ver as 2 versões da mesma história e acaba pré julgando as pessoas. Que me sirva de lição. Abç

  • 3. gilson  |  14/01/2011 às 08:36

    Mas um outro empresário deve ter esse “dom” de ser um chapa dos jogadores também, às vezes até minando a confiança do treinador. O lado “dentro” do futebol deve ser um troço muito escroto deuzolivre…. mas que dava uma boa estória dava.

  • 4. Anônimo  |  14/01/2011 às 08:42

    O Rodrigo não contou nada de novo na entrevista. O Grêmio estava a “Casa da Mãe Joana” e ele teve um problema particular difícil. O efeito foi multiplicado.

    A mágoa dele é compreensível, é provável que o clube tenha errado no modo de tratar do problema (antes) e de efetuar a dispensa (depois), mas a situação no vestiário era incontrolável e ele não foi o único a sair. Tem todo o direito de seguir a carreira onde bem entender, e oxalá vá bem no Internacional. Nós, gremistas, temos que agradecer pelo gol do título do Estadual e pelas boas atuações antes da notícia do prblema da mãe. E a vida segue.

    Sanchotene

    P.S.: Notaram como ele elogia o Meira e o chama de incompetente na mesma entrevista?

  • 5. gabrieldivan  |  14/01/2011 às 09:07

    BAITA!!

  • 6. Gabriel R.  |  14/01/2011 às 09:12

    Muito legal o texto, parabéns Luis Felipe! Só discordo do ultimo paragrafo, ou tu acha que se tu pegar a lista e ligar pro Pelé, Falcão, Zico, os caras vão te atender?? Mas muito bom o texto mesmo, parabens.

  • 7. Prestes  |  14/01/2011 às 10:16

    Graaaande texto!!!

  • 8. Atilio  |  14/01/2011 às 10:54

    Parabéns e obrigado pelo texto.

    Além das pernas dos jogadores, outra engrenagem na produção dessa montanha de dinheiro em torno do futebol é o texto dos jornalistas. Nem todos se preocupam em discutir e avaliar isso.

  • 9. Ernesto  |  14/01/2011 às 11:26

    “Se um presidente como o senhor Kroeff, ou o Meira, ou o Guerra, dirige um clube como o Grêmio… Não tenha nada contra o Grêmio. Meu desentendimento foi com as pessoas que assumiram essa parte final “.

    Ele critica de incompetente quem assumiu na parte final do campeonato. Não critica o Meira

  • 10. Gerhardt  |  14/01/2011 às 11:59

    Renato deu e dá muitos indícios de ser genial nisso de lidar com os boleiros.
    Em muitos plantéis, acho que isso vale mais que a essência pública do futebol, a técnica individual dos jogadores e a tática teórica que os treinadores “tentam” passar.

  • 11. MARCELO BENVENUTTI  |  14/01/2011 às 12:04

    Segundo Rivaldo, os treinadores só influenciam 20% no resultado de campo.

  • 12. Godo  |  14/01/2011 às 12:21

    Grande texto do Impedimento! Belo trabalho, Luís!

  • 13. Cícero  |  14/01/2011 às 12:35

    texto genial, falou em um dos maiores técnicos de todos os tempos, Phil Jackson. O cara conseguiu domar o Dennis Rodman, quem consegue isso merece uma placa.
    Mas talvez o Bernardinho não concorde com Jackson no quesito “gritar e dar bronca educadamente nos jogadores”.

    #10 [2]

    Leonardo, aquele mesmo que foi do Milan pra Inter também tem a mesma sacada do Renato. Ó o que ele fez aquele time do Milan ano passado render!

  • 14. Prestes  |  14/01/2011 às 12:56

    O problema maior do Renato é lidar com ele mesmo.

    Acho que se ele soubesse já tinha faturado uma Libertadores.

  • 15. MARCELO BENVENUTTI  |  14/01/2011 às 13:24

    O Renato é um Celso Roth que foi craque.

  • 17. Álisson  |  14/01/2011 às 13:35

    Existem excelentes treinadores que sabem muito de futebol e pouco de relacionamento com os boleiros. Existem treinadores que sabem entrar na mente dos jogadores mas sabem pouco do campo. O cara que saber dosar as duas coisas se dá bem. É só olhar o Jejão Santana. É treinador até hoje porque se relaciona de verdade com os jogadores.

  • 18. Junior II  |  14/01/2011 às 13:45

    Vai iniciar o Gauchão !!!

    O Pelotas vem aí !!!

  • 19. Schmidt  |  14/01/2011 às 14:20

    #17: E existe um treinador que não sabe nada de nada de absolutamente porra nenhuma, e mesmo assim nunca fica sem emprego, pois a dupla grenal adora contrata-lo. Dou o tatu que acabei de tirar do nariz para quem adivinhar o nome dele. Dica: Recentemente, ele perdeu um bigode e um mundial, o desgraçado.

  • 20. FERN  |  14/01/2011 às 14:27

    parabéns, LF

  • 21. Titi  |  14/01/2011 às 14:42

    Celso Roth entende muito de futebol. To falando da teoria e do campo. O problema dele nao eh falta de conhecimento ou burrice.

    Ele eh um cara muito gente boa, parceirao, brincalhao e tal.

    So que ele oscila muito. Qdo ele chega num clube ele SEMPRE faz bons trabalhos. Periodo da humildade. Ele escuta, troca ideia, nao inventa e talz.

    Com o tempo, apos ganhar confianca, ele vai mudando. Soberba, talvez. E as pessoas (jogadores/imprensa) vao mudando, ainda mais se no meio do caminho rola uma derrota, se a culpa vai pros jogadores, se ha uma resposta mais rispida, uma fritura de jogador, um invencao na escalacao, etc …

  • 22. Anônimo  |  14/01/2011 às 14:43

    #19, eu penso justamente o contrário sobre o Roth. Considero que ele conhece futebol, tanto que geralmente o seus times fazem boa campanha. Porém, ele não sabe lidar muito bem com os jogadores (quesito em que o citado Joel Santana é pós-doutor), tampouco com as críticas, por isso, teimosamente insiste em coisas que estão erradas, apenas para não dar o braço a torcer e provar que ele é quem tinha a razão.

  • 23. Junior  |  14/01/2011 às 14:51

    Eu que escrevi o #22. Por coincidência, sem sabermos, eu o Titi escrevemos coisas parecidas sobre o Roth.

  • 24. Gerhardt  |  14/01/2011 às 14:52

    #15. Tenho percebido que agora os irmãos que ficaram sem pegar sol por longas décadas, e que agora estão queimados pelo sol, estão muito sedentos por fazer fazer comparações, algumas bem criativas.

    Esqueci de falar, qualidade na pauta e no texto.

  • 25. guihoch  |  14/01/2011 às 15:04

    fiz uma pesquisa no google botei ” roth impedimento” e Aproximadamente 49.700 resultados (0,30 segundos) sinal de que falamos muito dele por aqui então ROTH >>>>>>> joel santana, tite e demais.

  • 26. guihoch  |  14/01/2011 às 15:12

    no mais talvez este time do gremio do jeito que esta com todos os titulares seje suficiente para chegar a final da liber para ganhar dai eu digo que tem de ter um as, um CORINGA, mas tem muito tempo para trazer esta ultima peça.

  • 27. Titi  |  14/01/2011 às 15:16

    #23

    Falamos a mesma coisa. Formas diferentes. Mas eh essa a ideia.

  • 28. Observador  |  14/01/2011 às 15:40

    “longas décadas”. Hehehehhe. O cara tá há uma só assistindo na tv títulos alheios e vem falar isso. Claramente há uma gangorra. Pensei que só os colorados tinham abandonado a humildade.

  • 29. guihoch  |  14/01/2011 às 15:44

    o Marcelo GUIrohe vai começar a abalar este ano, sendo uma sombra ao paredão victor, teremos dois goleiro confiaveis, se ele for bem vai jogar o gauchão inteiro, quer apostar?

  • 30. Iuri  |  14/01/2011 às 16:12

    Muito bom, Luís.

  • 31. Wilson Mathias  |  14/01/2011 às 16:55

    Gauchada MEDONHA…..o Zé Roberto será a contratação ESPETACULAR do Inter para o ano de 2011?

  • 32. Luís Felipe  |  14/01/2011 às 18:11

    #21, perfeito. Melhor diagnóstico Roth que eu já li.

  • 33. douglasceconello  |  15/01/2011 às 01:30

    Que baita texto, Luís Felipe, e digo isso não apenas porque concordo absolutamente tudo. Bem escrito e EMBASADO.

    Aliás, grandes posts publicados neste período em que estive fazendo um estudo EMPÍRICO sobre os mais diversos cortes de carne lá na argêntea república.

  • 34. dr_inter -Paulinho  |  15/01/2011 às 11:57

    Parabens !

    Abordasse soberbamente um dos ‘3 segredos de Fátima’ futebolísticos…

    Discordo apenas do Felipão ser ‘o maior Campeão Brasileiro’. Esse homem REALMENTE DEVE MUITO AO ARCE…

    Quem é o maior? Tanto faz !!!

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