Retrospectiva 2010: O Racing sem uma sombra

02/01/2011 at 14:00 27 comentários

Publicado originalmente em 29 de outubro de 2011

Os clubes de futebol, talvez todos eles, têm uma crença em algo ou alguém superior aos organogramas formais. E é a tal esfera que os pensamentos desesperados são dirigidos, bem como as certezas de eventuais sucessos. Na Argentina, mais precisamente em Avellaneda, o Racing perdeu tal referência. Com a morte de Néstor Kirchner, La Academia, além da tristeza sentida em todo o país, ficou um pouco órfã. A verdade é que o ex-presidente influenciava em importantes escolhas do presente e era tido como uma eterna esperança para o futuro.

Para início de conversa, escrever sobre um país que se vê com incertezas cruéis no âmago do seu governo abordando apenas a parte futebolística da questão seria um enorme deboche. Mas as relações de Kirchner com os poderosos do futebol porteño não se limitaram, nos últimos tempos, aos gritos compartilhados de um gol do Racing. Néstor inclusive comparecia nas tribunas do Cilindro de Avellaneda, mas era a partir de iniciativas pouco luminosas que os grandes negócios ganhavam vida. Alto e desajeitado, o futebol para Kirchner sempre existiu apenas como torcedor e político.

Como atleta, na juventude, havia o basquete – na província de Santa Cruz, onde nasceu, treinou em algumas equipes e passou a integrar o elenco do Nacional de Rio Gallegos. Reserva de poucos atributos, chamava a atenção pelo esforço na marcação e pela estranha predileção por arremessar os lances-livres de costas. Quando sua vida pública cresceu em Buenos Aires, estreitou o seu vínculo com o Racing. A princípio, era um famoso torcedor comandando o país. No fim das contas, Kirchner seria o responsável por garantir patrocínio, indicar um presidente para o clube e designar um familiar para o futuro da instituição.

Ao falarmos da intimidade um dos mais influentes políticos do país com um clube, pode-se imaginar parcerias milionárias, sugestões de grandes centroavantes e a possibilidade de usar, na sua imagem, trechos do sucesso futebolístico. Cobrar de Kirchner algo semelhante seria desconhecer por completo as últimas temporadas do Racing. Na realidade do quadro azul de Avellaneda não constam contratações de outro mundo ou títulos nacionais. A sina vem sendo, há tempos, o perigoso e já pouco charmoso flerte com a segunda divisão – território do qual Kirchner ajudou o Racing a escapar.

Um dos exemplos mais comentados é o caso do patrocínio do Banco Macro. Os contatos de Kirchner haviam aproximado a empresa do albiceleste que, em 2006, já era pouco atraente para qualquer investimento. Após dois anos de pouco retorno financeiro, o banco decidira não renovar o contrato e, resignado, o Racing até tapara a marca da sua camiseta em um torneio de verão. A solução foi Néstor Kirchner procurar pessoalmente o banqueiro Jorge Brito para que o vínculo se estendesse – apesar de uma importante redução dos valores, o patrocínio que o Racing tanto necessitava se manteve até 2010.

Em junho de 2009, uma vez mais, o fantasma da Promoción rondava os pensamentos mais íntimos de qualquer racinguista. Na reta final daquele Clausura, a partida diante do Boca praticamente definiria ou não a permanência do Racing na divisão principal. Como incentivo para o jovem plantel, Kirchner e o folclórico Caruso Lombardi, então treinador, prometeram sortear duas televisões de plasma em caso de vitória. O Racing venceu por 3-0 e Néstor não levou dois aparelhos, mas quatro. Desceu de helicóptero no gramado suplementar e ainda cravou que “con el fútbol sufro más que con la política.”

Naquele dia, uma terça-feira, quem recebeu Nestor K. foi Rodolfo Molina, atual presidente do Racing. Antes das eleições, há quem diga que Molina era quase desconhecido dentro do clube. Se faltava fama, Molina tinha ao menos contatos importantes – pertencia ao mesmo grupo político de Pablo Podestá, primeiro vice-presidente, que possuía boa relação com Kirchner. A presença de Néstor impulsionou a candidatura de Molina nos instantes decisivos do pleito que garantiu o dedo do ex-presidente durante a gestão atual.

Nos exemplos citados, a interferência de Kirchner ocorria nos bastidores – mas era na torcida, que anunciava o seu apoio nas faixas espalhadas pelo estádio Juan Domingo Perón, que isso ficava mais evidente. A Guardia Imperial, a maior das barras do Racing, apoiava sem cerimônia a candidatura de Cristina Kirchner à presidência em 2007, como mostra a foto. Outra parcela organizada dos torcedores, denominada “Racing Stones”, teria relações ainda mais próximas com o presidente – Máximo, filho do Néstor, começaria a crescer internamente no clube com o apoio da torcida.

A morte inesperada de Néstor Kirchner, que, mais além de todas as discussões, exerceu o governo menos instável dos últimos cinquenta anos, deixou porteños e interioranos incertos quanto ao porvenir. O mesmo sentimento atinge também a comunidade do Racing – se não se sabe exatamente até onde as mãos de Kirchner alcançavam as rédeas do governo, a sua ligação com o clube era ainda mais subjetiva. Ao menos nos últimos meses o Racing pôde jogar futebol sem pensar em rebaixamento – a tabela permite depois de um bom tempo. Foi uma trégua futebolística para Kirchner, que se vai com recordações mais dignas do seu Racing.

Saludos,
Iuri Müller

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27 Comentários Add your own

  • 1. Arthur  |  29/10/2010 às 12:18

    O maior da argentina e os demais podem chorar. Kirchner se foi, mas a Academia continua e sempre será grande. Clausura 2010 já tem dono. Gio Moreno é a luz.

    E os rojos amarogs já começam a cair na tabela de promoción.

    tempos de mudança.

    AGUANTE ACADEMIA!!!!!!!!

  • 2. Arthur  |  29/10/2010 às 12:19

    *tabela de descenso porra.

    ahauhuaaa

  • 3. Caco  |  29/10/2010 às 13:27

    Não foi a família Kirchner que quadruplicou o seu patrimônio pessoal nos anos que esteve no poder? Então que deixem um pouco pro clube…
    Aliás, essa coisa de precisar de um padrinho para manter uma instituição como um clube de futebol nunca deu certo, só funcionava com escola de samba e bicheiro.

  • 4. Francisco Luz  |  29/10/2010 às 13:45

    Independiente é sétimo ou oitavo no descenso. Ra Sin Club tá pela hora da morte.

    Favor rever conceito de “tempos de mudança”.

    Rojo siempre.

  • 5. izabel.  |  29/10/2010 às 14:29

    só o impedimento salva.

  • 6. Ernesto  |  29/10/2010 às 14:47

    A eterna mistura de futebol e política. E viva a américa latina, e viva o futebol, ópio do povo.

  • 7. Cunegundes Hernandes  |  29/10/2010 às 14:50

    cris, to descendo a serra no meu fiat uno pra te comer. me espera. beijos de seu cunene mulatinho. quack

  • 8. Cunegundes Hernandes  |  29/10/2010 às 14:50

    (cris, vai tirando as calças que eu já to indo)

  • 10. Anônimo  |  29/10/2010 às 17:24

    RÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! sin club

    gostei

  • 11. Caio Brandão  |  29/10/2010 às 19:25

    ^
    ^

    É esse o significado da expressão “Ra Sin Club”? Queria saber… ou “Ra” tem outro significado?

  • 12. Flávio  |  29/10/2010 às 19:29

    #3
    Não só aqui, vide o Milan de Berlusconi e o Zenit São Petersburgo de Putin.

  • 13. Francisco Luz  |  29/10/2010 às 20:42

    É esse mesmo, de hahahaa, sin club.

    Resquícios de 1999-2000.

    Uma bela história, hoje entregue a uns lunáticos. Pobre Kirchner, que se viu perdido nessa boiada.

  • 14. Neco  |  29/10/2010 às 23:12

    Mais bonita camiseta da Argentina. Afiando os guides para dia 14..

  • 15. Neco  |  29/10/2010 às 23:15

    10 argentinos 2 x 10 do grêmio 0. E o mano faz isso ainda convocar pra sele. Sacanagem vai ficar achando que joga mais que efetivamente joga.

  • 16. Caio Brandão  |  30/10/2010 às 12:50

    Alguém aqui já viu O Segredo de seus Olhos?

    Parece até que o Racing foi punido por causa de seu torcedor no filme, hehe. Pois, na época em que a história se inicia, a rivalidade com o Diablo ainda era equilibrada… sem rebaixamentos e, embora o rival já tivesse iniciado sua série consecutiva de Libertadores, havia perdido todos os mundiais disputados até entáo – enquanto o Racing tinha o seu na única oportunidade que teve. Fora que a Academia ainda tinha mais títulos argentinos, no total.

  • 17. Camilo CEO  |  30/10/2010 às 13:36

    Já postei em outro tópico mas, para dar visibilidade, vai aqui também.

    Minha triste situação durante o grenal – não estava nem com o MANTO:

    (reparem nos avançados trabalhos para a BIGODÊRA que estará presente na Impedcopa)

  • 18. rafael botafoguense  |  30/10/2010 às 14:52

    16. eu vi. fodona demais a cena no campo do huracan. aquela do bar também é foda.

  • 19. Anônimo  |  30/10/2010 às 17:39

    não spoilem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! merda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 20. rafael botafoguense  |  30/10/2010 às 22:22

    spoilei nada. encare como um trailer porra

  • 21. Arthur  |  30/10/2010 às 22:42

    “Independiente é sétimo ou oitavo no descenso. Ra Sin Club tá pela hora da morte.”

    POR ISSO QUE EU DISSE “COMEÇA A CAIR”

    Faltou interpretação de texto, amigo.

    RACING imenso. e por mais que os detratores queiram, ele sempre será um dos maiores.

    DUEÑO DE UN PASION!!!!!!!!!!!

  • 22. Arthur  |  30/10/2010 às 22:43

    UNA*

  • 23. Arthur  |  30/10/2010 às 22:47

    Pontos na tabela de descenso:

    Amargos: 1.329
    Racing: 1.306

    O Racing não tá tão longe dos amargos nao, doido.

    TEMPOS DE MUDANÇA SIM!!!!!!

    HATERS GONNA HATE

  • 24. matheus  |  31/10/2010 às 14:42

    ksjdsakdjak, os caras adoram falar amargo

  • 25. Carlos  |  31/10/2010 às 20:56

    http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2010/10/libertadores-podera-contar-com-times-dos-estados-unidos-em-2012.html

    PARA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 26. Anônimo  |  31/10/2010 às 21:13

    mas como conseguem ser tão burros!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 27. Cícero  |  31/10/2010 às 23:34

    Avaí e Palmeiras classificados para a semifinal.

    Careca ira apitar a favor do time da casa, e Vuaden apitará do jeito que o Felipão gosta.

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