A Argentina vista do alambrado (Parte II)

16/12/2010 at 07:00 20 comentários

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y encontré el molde de unos pies
y encontré luego el molde de un cuerpo
y encontré luego el molde de unas paredes
y encontré luego el molde de una casa que era
como mi casa

Humberto Megget

Ao último apito do árbitro italiano Sergio Gonella, no fim da tarde de inverno em Buenos Aires, a Argentina é campeã do mundo pela primeira vez. Os festejos que tomam conta do Monumental de Núñez atingem o ápice quando o capitão Daniel Passarella ergue a taça. Mas as cantorias são acompanhadas pelo aplauso do ditador Jorge Videla, o arquiteto do Mundial. Entre os 71 mil espectadores presentes, no entanto, havia também um bater de palmas mais racional – desde o primeiro instante daquela Copa, muitos deixaram de torcer para a Argentina em razão do contexto político. Então com 43 anos, Hilda Haydé Ahumada, embora orgulhosa com os gols de Mario Kempes, classificou a Copa do Mundo como um teatro do regime.
.

Mesmo os argentinos que ficaram anestesiados pela seleção albiceleste durante o Mundial logo perceberiam que os dias de 1978 não haviam se tornado exatamente melhores por causa do título. A repressão continuava, com seus calabouços lotados, vozes silenciadas y un porvenir de mirada corta. Enquanto o governo se valia da conquista no futebol para preencher os jornais de propaganda ufanista, Hilda, alheia ao triunfo mundialista, seguia a sua rotina mercantil pelas canchas da Capital Federal. Ao seu ofício, boa parte da família se juntaria – o que pode significar mais um apego ao ambiente do futebol do que a preferência pelo ramo comercial.

O campeonato de 1982 seguia com uma normalidade de árvores caídas em meio à Guerra das Malvinas, que estourou no primeiro semestre daquele ano como último recurso de uma ditadura arruinada. A tentativa de demonstrar a força do exército argentino para o mundo fracassou em setenta e três dias – do inicio de abril a meados de junho. Mais de 600 soldados argentinos morreram em um confronto que parece nunca ter acabado – em outubro de 2010, veteranos da Guerra acampavam na Plaza de Mayo, com faixas e folhas de um grande abaixo assinado, buscando indenizações e o reconhecimento do Estado. Hilda não parou de trabalhar naquele tempo – e em sua casa a situação era tão complexa quanto a do seu país.

Ainda que a maior parte dos filhos acompanhassem o rastro da mãe, dois deles não encontraram caminhos abertos em uma época de gerações destruídas. Sem perspectivas em um país que era um aluvião de problemas, perderam-se nas drogas e fazem parte das lembranças mais doídas. Um ano depois, os que gritaram por liberdade por mais de meia década viram, enfim, o término do regime militar. O retorno das possibilidades democráticas simbolizaram, para cada argentino – e também para Hilda –, um recomeço individual. A Argentina era agora o país do Partenón de Libros, monumento erguido na Avenida 9 de Julio com 30 mil obras proibidas durante a ditadura, e não o do Monumental de Núñez lotado do Mundial das contradições.

O Partenón foi desconstruído sem que as esperanças morressem; cada transeunte pôde escolher um livro e levar para casa. E a contradição que restava, para Hilda, começou a ser vista justamente no seu lar, na fronteira dos bairros de Flores e Pompeya. Vivendo perto tanto do Gasómetro do San Lorenzo quanto do Palacio do Huracán, a matriarca viu a prole se dividir entre as cores do Cuervo e do Globo. Hilda vibrava pelo azul e grená do Ciclón, que em 1983 saiu vice-campeão nacional logo depois de ascender da B, numa campanha em que, sozinho, vendeu mais ingressos que todos os times da primeira divisão na 18ª rodada.

Quem conta com 46 anos de trabalho nos estádios forma, inclusive, uma divisão de lembranças. Hilda separa as recordações em buenas, malas y regulares – sendo as boas referentes aos instantes de glória do clube do seu coração, as más ao período em que o futebol se via impregnado por interesses militares e as regulares às partidas que não encontraram transcendência para a torcedora. A tarde em que o Huracán buscou o empate no último suspiro e igualou as coisas com o All Boys, por exemplo, se enquadra no terceiro caso. Foi um dia de vendas fracas, público pequeno e de embate entre, provavelmente, duas equipes que não tratavam a inspiração como um ingrediente relevante para o seu futebol. Provavelmente porque Hilda costuma desviar os olhos do gramado.

O quase meio século de presença constante nas canchas não mudou o nervosismo com que a senhora de setenta e cinco anos cruza os portões a cada domingo. Hilda prefere apenas ouvir os ruídos da torcida e, quando o carro da empresa responsável pela venda de comida nos estádios a deixa de volta em casa, vê na televisão o que há pouco acontecia às suas costas. Personagem de todas as canchas de primeira divisão da capital até o ano passado, ela recentemente foi alvo de um ensaio fotográfico sobre o futebol bonairense, retratada nos campos em que trabalhava. Sem ser avisada a respeito das imagens, descobriu a galeria da exposição durante uma caminhada despretensiosa pelo centro da cidade.

Dezoito dias depois do encontro com Hilda, a Argentina perdeu a sua maior referência política da atualidade – a morte de Néstor Kirchner pôs uma interrogação no fim de ano portenho, cujos rumos dependem da autonomia de Cristina. Antes da perda, Hilda disse que o país “agora respirava” e não fez críticas ao governo – limitou-se a desejar sorte. Com o cenário político outra vez incerto, Hilda deve pensar que as turbulências sempre farão parte das decisões do país. Enquanto isso, segue com seus limites pouco definidos entre a casa e os estádios da Capital. Há um pouco de cada arquibancada na vida e no cotidiano de Hilda, e disso ela não pretende fugir. Só espera por uma Argentina mais justa com os que chegam agora – para que as piores lembranças fiquem de vez presas nos baús empoeirados.

E aqui, a primeira parte.

Iuri Müller e Maurício Brum

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O êxodo gratuito Justiça

20 Comentários Add your own

  • 1. Sancho  |  16/12/2010 às 09:09

    Alguma idéia por que os clubes brasileiros abandonaram a Libertadores na década de 60?

    http://soccernet.espn.go.com/columns/story?id=853334&sec=global&root=global&cc=3888

  • 2. Carlos  |  16/12/2010 às 10:47

    Desculpa utilizar esse espaço pra isso.

    MAS É DE UMA FILHA DA PUTICE SEM TAMANHO ESSES DEPUTADOS.

    Vão tomar no cu. Tem que botar fogo em Brasilia. Pra aumentar aposentados não dão 1 real. Pra esses TIRIRICAS DA VIDA, esses filhos da puta, tem grana.

    É dose.

    Tem que tocar fogo nesses putos. PAREDÃO.

  • 3. Cunegundes Hernandes  |  16/12/2010 às 11:21

    carlos é uma merda mesmo, nosso país é um país de chupa cu, quack

  • 4. Branco  |  16/12/2010 às 12:23

    Bah, é uma merda mesmo. O pior é que esse é só o primeiro aumento. Os cargos legislativos estaduais e municipais tem seus salários vinculados ao salários dos deputados federais, e obviamente terão aumento semelhante em breve.

  • 5. Grzelak  |  16/12/2010 às 14:33

    Excelente !

  • 6. Cunegundes Hernandes  |  16/12/2010 às 15:30

    neste natal, desejo a todos muito sangue, suor e bunda, embriaguez de sucesso e peru, que vossas famílias sejam abençoadas pelo Jesus Clayton de Nova Iguaçu, quack

  • 7. Eduardo  |  16/12/2010 às 15:38

    Tchê Iuri,
    a Hilda parece a “Mercedita” , da popular canção portenha. (perdoem-me os não-gauchos ou não-tradicionalistas por um comentário tão off topic e sem o menor sentido para vocês).

    no más, belo texto.

  • 8. rafael botafoguense  |  16/12/2010 às 16:03

    já viu o vídeo sanchotation?

    quase que o estudiantes estraga o mundial . OBRIGADO,TOYOTA!

  • 9. rafael botafoguense  |  16/12/2010 às 16:08

    2:04 hauahuauahuau CARAIU,PARTIU O CARCAMANO NO MEIO!!!

    milan copero,poletti macabro. LA GLÓRIA O DEVOTO

  • 10. dante  |  16/12/2010 às 16:29

    eu acho muito ridículo quando uma equipe profissional tá perdendo e apela pra ignorância.

    lógico que, PRA CONSUMO PESSOAL, acho muito divertido, mas não numa disputa profissional.

    acho totalmente lamentável. coisa de loser, enfim.

  • 11. rafael botafoguense  |  16/12/2010 às 16:46

    time pequeno,né dante. só jogador zuado. tinham nada a perder.

    mas eu acho divertido porrada no futebol.

    amadorismo rlz! ahaha

  • 12. Cunegundes Hernandes  |  16/12/2010 às 17:03

    porrada no futebol é fundamental.

    alguém posta aí aquele vídeo de grêmio x peñarol (supercopa? conmebol?) de 1993, que o Fabinho saiu sem os dentes, por favor

    e aquela final da conmebol do atlético mineiro com o lanús que teve tretas aos borbotões

    muito massa

    quack

  • 13. rafael botafoguense  |  16/12/2010 às 17:08

    po,tava pensando em postar esse

    ahuaauauahau

  • 14. douglasceconello  |  16/12/2010 às 19:45

    Vou pra Buenos Aires no começo do ano que vem. Pena que não conseguirei assistir qualquer jogo, ao que tudo indica.

    Que grande texto, este. Esses personagens de estádios são o que de mais digno o futebol apresenta atualmente.

    Aliás, sobre a ditadura argentina, que foi muito mais cruel que a brasileira, apesar de ter durado menos tempo, INDICO o livro “A noite dos generais”.

    VIDELA CADELÓN (ns)

  • 15. Eduardo  |  16/12/2010 às 22:42

    Ceconello,
    Sugiro um passeio pelo
    Pub Downtown Matias (reconquista 701)
    pede a cerveja da casa (artesanal).
    Se tiver um budget bom pra janta,
    NAO gasta no puerto madero. Vai pra San Telmo
    e procura um restaurante chamado La Brigada.
    Vai com tempo. Eh tematico de futebol,
    tem camisas grenal e a comida eh sensacional.
    Eh meio carinho, mas o bife de chorizo vale
    cada centavo.

  • 16. douglasceconello  |  17/12/2010 às 12:36

    Que espetáculo, Eduardo. Farei tudo isso, sem dúvida.

    Aliás, se mais alguém tiver SUGESTÕES, tou aceitando.

  • 17. Otto  |  17/12/2010 às 13:15

    Suellen,
    Mais algumas sugestões de BsAs:

    – Um almoço no “El Desnível” (Defensa 858, San Telmo). Bife de chorizo “Mariposa”, uma tortilla de patatas e uma Quilmes de litro. Fica cheio nos domingos, por causa da Feira de San Telmo.

    – Bar/Café PAULIN (Sarmiento 635 ,entre Florida e Maipú) Come um SANDUICHE PECETO COMPLETO (peceto, panceta, tomate, morrones, queso, salsita) e mais uma Quilmes de litro.

    – El Banderín Café Bar – História viva desde 1929 (Guardia Vieja 3601 esquina Billinghurst) – http://elbanderin.com.ar

    – 36 Billares Café – Desde 1894 (Av de Mayo 1265/71) Tão histórico quando o Café Tortoni, mas menos turístico. No subsolo tu vai encontrar a galera da sinuca de BsAs.

    – Uma janta categoria junto com a nega véia: Tancat – Comida Espanhola/Mediterrânea (Paraguay 645). Lugar de locais, pouco frequentado por turistas. Um jantar com 2 entradas + 2 pratos + vinho por menos de 50 doletas.

    Se eu lembrar de algo mais, te aviso

    Abraço,
    Otto

  • 18. neco muller  |  18/12/2010 às 00:42

    Ceconello, se a patroa quiser visitar a camarada Evita, deixa ela e atravessa a rua e conheça a cervejaria Buller , vê a cancha mais perto e marca uma hora para os Coraceros atravesarem o rio da Prata e se defrontarem com os nossos algozes. Bueno tava com saudade do guri, espero a parte III.

  • 19. douglasceconello  |  19/12/2010 às 01:28

    Muito massa!

    Otto e Neco, valeu mesmo. TUDO ANOTADO. Pretendo fazer uma peregrinação DEDICADA por bares, restaurantes, canchas e assemelhados.

  • 20. TRICOLOR 95  |  24/12/2010 às 07:17

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