Loncha García, o intransferível do Defensor

07/12/2010 at 05:00 3 comentários

Nos anos 20, o bairro de Pocitos era um balneário tranquilo. Soberano da Rambla e na época um tanto alheio às partes mais trepidantes de Montevidéu, era um mundo afastado no qual se entrava ao descer do bonde que o ligava ao resto da cidade. Em Pocitos nasceu José García, o jogador que mais mobilizaria os sócios do velho Defensor duas décadas mais tarde.

Pocitos era então território carbonero. Em quase todos os finais de semana, o Peñarol ia até uma cancha sem nome cedida por uma empresa comercial e convertia o bairro em fortaleza. Em Pocitos, os aurinegros jamais foram derrotados pelo Nacional, apesar de os tempos serem difíceis. García foi parido numa década em que o futebol uruguaio estava dividido. O tricolor ganhara oito dos dez campeonatos disputados entre 1915 e 1924, e os mirasoles nutriam uma insatisfação generalizada com a Asociación Uruguaya de Fútbol – em 1922, fundaram a dissidente Federación Uruguaya, que durou três anos com um campeonato e uma seleção nacional próprios.

Esse período de desacordo já havia sido empurrado para a margem das recordações longínquas quando o menino José García começou a frequentar os campos de futebol em 1933. A ligação do Peñarol com Pocitos se desfizera conforme as arquibancadas foram desmontadas e o clube se bandeou definitivamente para seu estádio em Las Acacias. García, de todo modo, ia ao Centenário, e inicialmente não por um clube. Puxado pela mãe, subia os degraus da cancha para ver os gols do ídolo Severino Varela, um jovem atacante do River Plate montevideano.

Por uma dessas muitas coisas que levam a vida para lados inesperados, García teve sua primeira oportunidade no esporte em um time de basquete perto de casa. Estava engajado pelo objetivo de arremessar pelotas numa cesta e só pateava a bola por diversão. Ainda assim, talvez inspirado pelos gols de Severino, decidiu aparecer numa seletiva de jogadores para o Club Atlético Defensor – que nos anos 80 se fundiria com o Sporting Club Uruguay, originando o atual Defensor Sporting. Jogou alguns minutos e agradou.


Flâmula do antigo Club Atlético Defensor

O quadro violeta buscava jovens para montar um time da “cuarta división”, com menores de dezenove anos. José ganhou vaga, condição de capitão e popularizou um apelido: seria para sempre o Loncha García. Em 1943, o Defensor de Loncha foi o primeiro “cuadro chico” da história a ganhar o Campeonato Uruguaio de Juvenis. García não ganhava dinheiro para atuar na cuarta, mas, como tinha fôlego e ganas de jogar tanto quanto deixassem, se dirigia aos portões do estádio nos dias em que os profissionais jogavam. Chegava cedo e ficava como um cusco de olhos pidões à espera de um osso, torcendo para que um dos aspirantes ao time principal faltasse, abrindo lugar na disputa da preliminar.

Num final de semana o espaço surgiu em Parque Saroldi, horas antes de o Defensor pegar o River. Loncha García debutou como membro da segunda equipe violeta à uma da tarde. Ainda não sabia, mas após os noventa minutos receberia seu primeiro pagamento por participação: dois pesos. Diante do dinheiro modesto, mas superior a tudo aquilo que havia visto até então, decidiu abandonar o basquete de vez e dedicar a vida ao futebol. Um ano depois, aos dezessete de idade, García foi promovido à equipe principal. Na temporada de estreia, foi eleito a revelação do campeonato e o quinto jogador mais popular do Uruguai.

José Nasazzi, capitão da Celeste no Mundial de 30 e agora técnico do selecionado, convocou o Loncha para o Campeonato Sul-Americano do Chile em 1945. Seu futebol já era uma unanimidade no Uruguai. Em 46 foi novamente para o Sul-Americano, desta vez em Buenos Aires, e passou a ser cobiçado na Argentina. Boca Juniors e River Plate cravaram adagas um no outro pela contratação de García, mas foram os de azul y oro que chegaram a um acordo. Naquele mês, uma foto de José Loncha García ilustrou a capa da revista “Boca”, que circulava de mão em mão na Bombonera ditando a atualidade boquense.

O negócio era dado como certo pelo jogador, pela imprensa e pelos bonairenses. Mas não pelo Defensor. Por mais sedutoras que fossem as ofertas do Boca, os contratos da época faziam do atleta um refém do clube em que estava. Nos violetas, a transferência deveria ser aceita pela direção e ainda dependia da aprovação da assembleia de sócios. Reunidos para longos debates, concluíam o óbvio: um pibe convertido quase instantaneamente na estrela da equipe não podia sair assim no más.


Bandeira do já violeta C.A. Defensor

A ida para Buenos Aires não se concretizou. E nenhuma das possíveis saídas foi confirmada nos anos seguintes. Cada vez que emergia a notícia de um interesse no Loncha, uma multidão crescente de associados enchia os salões do clube para escolher o futuro do jogador. As ruas próximas à sede do Defensor permaneciam cheias por mais de duzentos carros estacionados até altas horas da noite. Lá dentro, o simplório José que só desejava juntar algum dinheiro para o porvenir tremia as pernas de ansiedade. No início da madrugada, ouvia, mais frustrado que orgulhoso, que era “intransferible”.

García gostava de estar no Defensor, mas não via garantias de tranquilidade para depois que abandonasse os gramados. Saía dali cabisbaixo, de mãos dadas com a noiva, que mal iluminada pelos postes de luz perguntava: “¿de verdad que te iban a dar toda esa plata, José?”. “Sí, de verdad”. Mas em 1949 o Bologna italiano fixou a ideia de que contrataria o Loncha custasse o que custasse e prometeu o maior valor pago até aquela data por um jogador uruguaio. Os sócios seguiam sem aceitar a proposta. García então recorreu ao maior mandatário do Defensor, o presidente Luis Franzini, que hoje dá nome ao estádio violeta: “Mire, Don Luis: usted sabe lo que deseo y como quiero a Defensor. Pero si esta vez no me dan el pase no juego más al fútbol”.

O Loncha se tornou o primeiro uruguaio sem ascendência italiana a jogar na Itália. Encerrou a carreira após uma lesão e, em 59, voltou para treinar o seu Defensor com os conhecimentos apurados. Num fim de semana, contrariando conselhos, escalou o desprestigiado Ramón Ferré, um ex-companheiro seu, para enfrentar o Nacional no Centenario. Ferré tinha quarenta e um anos. O Defensor ganhou por 2 a 1, os dois de Ramón.

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

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Un torneo y cuatro almuerzos Mais que um título tricolor se ganha na casa do adversário

3 Comentários Add your own

  • 1. Anônimo  |  07/12/2010 às 15:02

    RRRRRRÁÁÁÁÁÁ´´AÁAÁÁ´´AÁ´!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    sin club

  • 2. arbo  |  07/12/2010 às 15:27

    bá, mto massa, maurício! muito.

  • 3. Felipe Z.  |  07/12/2010 às 17:22

    Bela história!

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