O campeão da calle Edison

10/11/2010 at 11:59 13 comentários

“Va el pase para Ghiggia. Ghiggia a Julio Pérez. Julio Pérez a Ghiggia. Ghiggia le saca ventaja al capitán brasileño. Entra en el área brasilera y tira… ¡Gol! ¡Gol! ¡Gol uruguayo!”

Da fagulha de tempo em que soltou aquela bola nos pés de Alcides no Maracanã ao momento em que fez o mesmo dando a pelota para mim num jogo noturno da Liga de Montevideo, o Pata havia envelhecido apenas um ano. Desde sempre vivia no bairro, mas, mesmo vendo ele todos os dias, agora era para nós estranho dividir o campo com um campeão do mundo. À minha frente não existia um Barbosa nem a oportunidade de agarrar o planeta dourado pela Jules Rimet, mas um goleiro qualquer dum time de outra ponta da cidade e a obrigação de quebrar o marcador nulo na rodada em Lavalleja.

Julio Pérez tinha os mesmos 25 anos que eu e jogávamos no time da calle Edison, onde ele moraria até seus últimos dias, meio século mais tarde. Desempenhamos ali desde as categorias inferiores. Só que agora era 1951 e já fazia um lustro – que mais parecia um milhão de anos, com tanto que aconteceu – desde que os do Racing haviam vindo para levá-lo ao futebol profissional. Dos Cerveceros passou ao River, ao Nacional e, no meio disso tudo, foi promovido à Celeste. Nunca deixou de ser o homem simples e agradável de antes, mas na tarde do Maracanã éramos apenas os ex-companheiros de Edison e ele o maior de todos nós.

Chuto. Um pelotaço um pouco alto e quase no ângulo direito, bem diferente do arremate de Ghiggia, para acentuar o contraste entre os dois instantes. Também tinha os meus dotes de matador. Ganhamos por um a zero. Talvez se em 46 o Racing procurasse atacantes além do volante que virou Julio, eu tivesse ido junto com ele. Mas eu era comum. Julio era tipo que só havia um no mundo, que não ficava preso na pasmaceira do meio de campo como a mentalidade vigente na época pedia: defendia e atacava com igual desenvoltura, corria pela banda e era quase um lateral dos de hoje. Driblava excepcionalmente, às vezes fugindo da lógica, do esperado, levando às lágrimas o marcador que tentasse prever o futuro olhando o movimento de suas pernas.

Um dia, já no Nacional, os jornais lhe cravaram o apelido que nunca conseguiu deglutir direito: era o Pata Loca. E noutro dia, ainda no Nacional, mas depois do Maracanazo, os mesmos diários iniciaram a campanha contra ele. Verdade que Julio não vinha tão bem. Os passes saíam desviados, os tiros rumavam para longe do gol, movia-se com dificuldade e de dentro do campo oscilava a cabeça sem encontrar alternativas. Para piorar, acabara de se casar. Mas então escreveram que suas gambetas não serviam para nenhuma equipe mantida pelo Bolso e que o melhor seria mandá-lo embora.

A imprensa tinha um ranço com os campeões do mundo e muito da lenda que se seguiu ao gesto do Rio nasceu daí – antes creditar a vitória a um milagre e a alguma mística da pátria do que reconhecer a qualidade dos jogadores que, dois anos antes e em oposição aos interesses políticos e econômicos dos donos de jornais, fizeram a primeira greve geral do futebol uruguaio. Obdulio, o grande Obdulio, protestaria contra os periódicos se recusando a posar para as fotografias, e várias vezes o Peñarol perfilou com dez.

Quanto a Julio, na Colombes e na Amsterdam deram crédito aos papeizinhos que lhe diziam campeão do mundo “de barro”, e em poucos dias se gritava ao Pata que lhe tocava dividir espaço com as cabras no pasto. Alguns recomendavam que comprasse uma corda para se enforcar. O treinador não adquiriu a corda, mas fez eco tirando Julio Pérez do grupo principal de vinte e dois jogadores. O Pata voltou ao amadorismo do Edison disposto a não fardar mais pelo Nacional. Para nós, se dizia perdido como um cachorro numa cancha de bochas. Nos treinos dos tricolores, apenas caminhava. Quando se rebelou definitivamente, ficou cinco meses sem aparecer no clube.

Certa manhã trocaram o treinador e o Divino Manco desceu no Parque Central. Hector Castro, que não tinha a mão direita e triunfou atuando pela Celeste em 28 e 30, já havia feito o Bolso quatro vezes campeão oriental no início dos anos quarenta, como treinador. Seu primeiro ato no retorno foi balbuciar para o goleiro Aníbal Paz que ansiava por ver Julio Pérez em seu time. Paz despontou no nosso treino em Lavalleja e desconfiamos, com um misto de pesar por ver nossas vitórias dificultadas e satisfação pela volta da sanidade ao mundo, que Julio não voltaria a alinhar no Edison tão cedo.

Hector Castro, ademais de entender dessas dúvidas que flutuam acima dos crânios dos grandes jogadores, tinha trabalhado com o Pata no Racing. Os dois se afinavam, se gostavam, e quando o Manco viu Julio pisando no Parque depois de mais de cento e cinquenta dias não pôde evitar que a pergunta se antecipasse às saudações habituais: “Loco, ¿cuándo vas a jugar?”. O volante driblador não teve como regatear um questionamento tão direto e, com a cintura meio quebrada pela surpresa, contestou: “algún día”.

Sabia que quando dissesse a Hector que estava pronto, não poderia desonrar a palavra. Naquele dia teria que entrar em campo e romper a pelota. A partir do encontro inicial no estádio, Julio Pérez começou a se preparar como nunca fizera na vida. Comparecia aos treinos com o entusiasmo obsessivo de um filatelista ou de um enamorado, e todas as jornadas avançavam como uma estrada em linha reta para um destino conhecido.

De tardecita, o Manco carregava Julio para tomar uns tragos. Falavam de futebol, do seu retorno. O Loco perguntava sobre a diferença entre o jogo de então e o dos olímpicos, e Hector respondia que os de antes eram melhores e ponto. Noite alta, se repetia a cena teatral do treinador de olhos vidrados querendo convencer seu comandado: “Loco, ¿cuándo vas a jugar?”. Mas as frases eram de adiamento.

Julio Pérez passou a concentrar no Parque Central de quarta a domingo, sozinho, mesmo sem entrar em campo. Nos outros dias, em casa, mantinha uma disciplina mais rígida do que a seguida na Seleção. Quando aparecia no bairro não lhe perguntávamos, primeiro porque se trancafiava em casa, segundo porque não queríamos incomodar, mas o desejo de todos era reeditar as palavras de Hector Castro. Desejávamos saber para quando esperar o retorno do volante mais polivalente da Banda Oriental.

Num domingo do fim de 51, Julio apareceu no estádio, disse “hoy juego” e venceu o jogo sozinho. Na temporada seguinte fez catorze gols em dezoito jogos, incluindo o primeiro nos 4 a 2 sobre o Peñarol que definiram o campeonato, e saiu campeão. Lavalleja e o Edison podiam esperar a aposentadoria.

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum.

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13 Comentários Add your own

  • 1. Francisco Luz  |  10/11/2010 às 12:06

    Bah.

    BAH.

    BAH!

    Que texto absurdamente genial, Brum.

    E o Julio Pérez chegou a jogar no Inter, no fim dos anos 50, se não me engano.

    “Obdulio, o grande Obdulio, protestaria contra os periódicos se recusando a posar para as fotografias, e várias vezes o Peñarol perfilou com dez”

    Obdulio >>>> Pelé e Maradona

  • 2. Ducker  |  10/11/2010 às 12:45

    Que baita texto, PQP…

  • 3. Volkart  |  10/11/2010 às 12:50

    Puta, arrepiou. Um pouco pelos nervos nervos à flor da pele pela ImpedCopa. Mas que o texto tá sensacional, isso tá!

  • 4. Anônimo  |  10/11/2010 às 14:44

    fern vai chorar

  • 5. Anônimo  |  10/11/2010 às 15:04

    Ao Brum (ou Fern)

    Quero uma indicação de LIVRO sobre o futebol Oriental de Uruguay.

    … já !

  • 6. arbo  |  10/11/2010 às 16:57

    te nomeia aí, anonimus

  • 7. milton  |  10/11/2010 às 21:58

    E nenhum comentario sobre o lance magistral do Tcheco ontem?

  • 8. matheus  |  10/11/2010 às 22:17

    magistral mesmo… e a conclusão também foi sensacional

    mas enfim, porra, passaro o CAMPEONATO INTEIRO PAGANDO VALE E AGORA VÃO QUERER JOGAR BOLA CARALHO

    ENTREGA ESSA MERDA ALECSANDRO FILHO DUMA PUTA

    PORRA

  • 9. douglasceconello  |  11/11/2010 às 00:41

    Preciso dizer o seguinte: puta merda, este texto está um ESPLENDOR. Que coisa fulminante.

    Maurício manda muito bem.

  • 10. FERN  |  11/11/2010 às 11:48

    FL #1

    só agora tu aprendeu a ORDEM correta da classe dos PLAYERS!!!

    El Negro Jefe está para o FOOTBALL, como ABRAAHAO? para o monoteísmo… huhusahuahsuhsuahsuahsuahsuhaushaushuahhs

    SÉRIO!!!

  • 11. Maurício Brum  |  12/11/2010 às 14:15

    #1

    O Julio Pérez jogou no Inter em 1957. Depois de parar ele ainda foi assistente técnico do professor José Ricardo de León, que levou o Defensor ao primeiro título de um cuadro chico em 1976.

    #5

    Recomendo fortemente o “Montevideo – La Ciudad del Fútbol”, do Luis Prats, sobre as canchas, histórias e times perdidos de todos os recantos da capital.

  • 12. Anônimo  |  13/11/2010 às 14:12

    pedrrgfdjvm fmubmgmv urgfnert hwe4rtu4ehwfbhegfthfbjdgbjfgnfger
    ]

  • 13. arbo  |  19/11/2010 às 13:58

    bá, q texto magnífico

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