Cabelo no sovaco

26/10/2010 at 06:00 13 comentários

[Aqui a primeira parte e aqui a segunda parte]

VIII

Três roxas lâmpadas iluminavam o interior do antigo casarão. Não bastasse ser o único estrangeiro sentado naquele inferninho, sua camisa branca ganhava um brilho especial na falsa escuridão daquelas luzes. Sou o Ziggy Stardust concluiu nosso escritor, repórter investigativo e primeiro brasileiro a desbravar o futebol haitiano enquanto imaginava o que o velho Bowie faria perdido num bar nos confins do caribe.

O som estava alto demais até para seus tímpanos acostumados aos bons tempos de trash metal. Antes fosse Sepultura, suspirou ao beber mais um gole de Prestige. A cerveja nativa, forte e amarga, sorvida em pequenas garrafas de xarope esvaia paulatino o senso de ridículo de Jorge Otávio. Dangê estava sentado do outro lado da mesa e conversava ao pé do ouvido com Tifi, Mini, Sissi ou algo parecido – era-lhe impossível compreender os nomes em kreyòl. Foi quando Jorge Otávio levantou de supetão e controlando uma leve tontura, seguiu em direção a mulher da mesa ao lado que o mirava esquiva desde o primeiro momento em que botou os pés no One Love Dance & Drink.

– Danse?

A negativa indolente com a cabeça feriu o orgulho blan de Jorge Otávio e quando já se encaminhava para mais uma garrafinha de xarope, sentiu um leve roçar na mão direita. Era uma negra de seus uns metro e oitenta, cabelo curto estilo joãozinho, peitos medianos e, grata surpresa ao se levantar, um par de nádegas protuberantes. Fez sinal com os olhos em direção a um canto do bar e sem mais delongas conduzi-o pelo braço rumo a pista de dança – na verdade, um quartinho sem nenhuma iluminação escondido ao lado do balcão.

Começaram então a dançar o que Jorge Otávio definirá em seu primeiro romance como a dança mais próxima a uma relação sexual que já experimentou. Principiando com um dois pra lá dois pra cá, pouco a pouco os corpos se aproximaram, sem pressa, sem afoite. Quando estavam totalmente colados, os movimentos pubianos diminuíram gradativamente até chegar ao ponto em que era possível sentir os pentelhos por debaixo da roupa um do outro.

Prestes a estourar as calças, Jorge Otávio observou sua parceira se afastar lentamente e, glória das glórias, conceder-lhe a dádiva que faltava: suas nádegas – o que fez nosso herói pensar em coisas improváveis como casamento, plano de saúde, mulher com cabelo no sovaco nem é tão ruim assim e um livro de poesias em castelhano.

Lo que más extraño es la luz. La parca luz que hacia indescifrable tu rostro mientras el sudor pegaba nuestros cuerpos.  La sal de su piel en mi boca y tu beso de condenada a la horca. Mi mano perdida en tu pelo y tu respiración brotando en mi oído, adentrando en mi cabeza, dominando mis pensamientos. Veo tu gozo por tus ojos abiertos. Bailamos la danza inmemorial. Transgredimos el tiempo. Morimos por un instante.

No meio destes idílicos devaneios, ela – qual seria o nome dela? – volta a ficar de frente para Jorge Otávio e enquanto fricciona com os dedos polegar e indicador os mamilos de nosso escritor, solta frases em tom de desespero apaixonado, das quais se compreendem pela excessiva repetição apenas lamour kób brezil.

Jorge Otávio tirou suas mãos dos mamilos já irritados (as súplicas era acompanhados por apertos cada vez mais intensos), girou novamente as nádegas protuberantes contra si, deu uns quatro ou cinco esfregões e, sem mais nem menos, partiu, deixando-a plantada no meio do salão.

IX

O terremoto que atingiu o Haiti em 12 de Janeiro de 2010 teve seu epicentro na capital Porto Príncipe, mas suas conseqüências afetaram todo o país. Estima-se que mais de 300 mil pessoas morreram e milhões ficaram desabrigadas. Das ruínas ainda se exala um cheiro forte de morte, mas não se vê nenhuma movimentação para a retirada dos escombros e dos corpos.

Nos últimos dias a devastada Porto Príncipe se tornou o local de peregrinação preferido para políticos e personalidade de todo mundo expressarem sua compaixão. Sobrevoando as ruínas em seus helicópteros, declaram com voz embargada suas condolências perante as câmeras de televisão e reafirmam compromissos de ajuda às vítimas do terremoto.

Jorge Otávio relia sua primeira matéria publicada e via a si mesmo naqueles helicópteros. Nunca voara em um deles, é fato, mas muitas vezes tinha dificuldades em se diferenciar daquela compaixão sob hélices. A última noite no One Love Dance & Drink ainda não fora digerida.

Já cogitara outras vezes juntar-se com alguma haitiana de cabelos trançados à mão e pente e suas saias escolares prendadas – aqueles uniformes sempre foram uma tara para Jorge Otávio. Mas seria como adotar uma órfã ou resgatar uma prostituta de um bordel. Na cabeça da dançarina do One Love ele era o blan salvador que tinha kób suficiente para ajudar sua família e levá-la ao brezil. Não era lamour, era necessidade. E não havia tesão que resistisse ao papel forçado de príncipe encantado.

Eis, então, o dilema de nosso escritor, repórter investigativo e boleiro. Foder e fugir ou fugir de foder. Preponderando a última opção, explica-se agora para a leitora habituada às profundezas da alma de Clarisse Lispector e Hilda Hilst a saída abrupta do nosso herói no último capítulo. Jorge Otávio é um puto, mas um puto de princípios.

X

A temporada de ciclones se avizinha. Lapidava a última frase de meu romance quando ouvi batidas na porta. Ninguém, só o chuva que caía sobre o telhado de zinco. A temporada de ciclones se avizinha. Uma frase enigmática e carregada de conotações, como todo final de romance que se preze, vide [colocar a última frase de Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei]. Estava satisfeito. Tinha o início e o fim, faltava apenas o miolo. Para celebrar tal feito, pensei em banhar-me e sair por aí. Mas ao lembrar que não havia nem água nem dinheiro, resolvi entregar-me novamente ao tédio daquele quarto de hotel.

Dangê roncava no beliche de cima e a falta de energia fazia da televisão um acessório mais inútil que o de costume. O campeonato nacional começaria em duas semanas e estávamos em Podepé para um amistoso com o time local. Um providencial resfriado me afastou dos últimos treinamentos de modo que minha estréia em gramados caribenhos seria também a primeira vez que meus companheiros de Dynamite Athletic Club me veriam com a bola nos pés. Não pareciam preocupados. Para eles, bastava saber que era brasileiro. Mal sabiam que das entranhas de onde saiu Romário também surgiu Odivã.

A chuva castigou com mais intensidade o telhado de zinco e pela janela divisei quatro cabritos e um boi preto estagnados sob a tempestade. Sem nada melhor para fazer, e para tirar o Odivã da cabeça, resolvi fazer-lhes companhia num banho de chuva. A água escorria das quinas do telhado mais fria do que previra e ao sentir o mijo quente escorrer pelas pernas achei que seria o momento propício para extrair alguma conclusão importante.  Foi quando um dos cabritos rompeu a passividade que nos enjaulava e se chocalhou para espantar o frio, o que me fez perder completamente o fio da meada.

(Continua.)

Thalles Gomes

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Entry filed under: Literatura.

A arte atleticana de levar sufoco Ecos do clássico

13 Comentários Add your own

  • 1. arbo  |  26/10/2010 às 09:25

    [antes: q posição – ui – tu pretende difamar na impedcopa, thalles?]

  • 2. dante  |  26/10/2010 às 10:04

    “Mal sabiam que das entranhas de onde saiu Romário também surgiu Odivã.”

    flçksdlçfksdlçfksçdf

    muito, muito bom esses textos.

    aguardo o romance completo para logo.

    e quero ser o revisor [pra poder ler antes].

    salve thalles!

  • 3. Rudi  |  26/10/2010 às 10:26

    É verdade o papo que ouvi uma vez, que o nome do Odvan surgiu por causa da música do RC chamada “O Divã” ??

  • 4. Anônimo  |  26/10/2010 às 12:14

    ai meu, o cara insiste…

  • 5. Anônimo  |  26/10/2010 às 12:14

    e thrash é com H, porra. thrash de destruir.

  • 6. Junior  |  26/10/2010 às 13:36

    Sim, Rudi. O nome dele veio justamente da música mais confessional do Robertão, aquela em que ela conta como foi atropelado por um trem e perdeu a perna.

  • 7. arbo  |  26/10/2010 às 19:15

    bá, acho q estes foram os melhores da série [se bem q tem aquela do caminhar com a haitiana…]

  • 8. catarina cristo  |  26/10/2010 às 21:04

    parece um filme.

    (e isso é um elogio)

  • 9. thalles  |  27/10/2010 às 09:31

    #1

    na zaga, arbo.

    # 5

    nos meus treze anos que não voltam mais, anônimo, pensava que era trash de lixo mesmo. naquela época não tinha google nem wikipedia pra consultar e a enciclopédia Barsa não tinha incluído esse verbete ainda. portanto, fica sem o H mesmo, em homenagem a minha ignorância.

  • 10. Lucas Cavalheiro  |  27/10/2010 às 09:41

    sempre genial.

  • 11. Álisson  |  27/10/2010 às 12:11

    Genial!

    Mas a melhor foi “Ela dormiu com a mão no meu pau”
    huashuahsuahsuahsuahsuahsuas.

  • 12. Felipe Z.  |  27/10/2010 às 13:48

    Sensacional! Parabéns!

  • 13. ed mort  |  03/11/2010 às 10:51

    “Para celebrar tal feito, pensei em banhar-me e sair por aí. Mas ao lembrar que não havia nem água nem dinheiro, resolvi entregar-me novamente ao tédio daquele quarto de hotel.”

    Que falta faz um milhao de dolares!

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