A arte atleticana de levar sufoco

25/10/2010 at 14:48 11 comentários

Eu tinha uma pressentimento ruim para o clássico desse domingo. No atual Brasileirão, o Cruzeiro liderava e contava com o melhor jogador argentino contratado de times chilenos de todos os tempos em 2010, o meia Montillo. O Galo ocupava aquela parte da tábua de classificação pintada de vermelho havia 21 rodadas, e já havia desperdiçado algumas chances – como na derrota para o Inter, duas rodadas antes – de ocupar a sonhada 16ª posição. A visível melhora do futebol alvinegro após a demissão de Vanderlei Luxemburgo não me parecia suficiente frente à incômoda série de insucessos no dérbi mineiro: apenas uma vitória nos 16 confrontos anteriores.

Quando a bola rolou no Parque do Sabiá – em Uberlândia, a seiscentos quilômetros de BH – eu temia pelo pior. Esperava que a meta atleticana permanecesse imaculada pelo menos até a metade do primeiro tempo, algo que pouco aconteceu neste campeonato. Mas quem marcou o primeiro gol foi Obina, que se antecipou à zaga cruzeirense para aproveitar um cruzamento da esquerda. Dos pés de Leandro para a cabeça de Obina para o travessão e para quicar um palmo além da linha do gol, 1×0. (Perder um clássico de virada é mais cruel, pensei, carregado daquele pessimismo deixado pela Era Luxemburgo.)

O Cruzeiro apostava em uma marcação adiantada no meio de campo, e dava espaços nas duas laterais, nas costas de Jonathan, que pouco vem lembrando o lateral Bola de Prata da temporada passada, e de Diego Renan, que retornava de contusão. O Atlético enchia a frente de sua área de marcadores, para não dar espaço a Montillo e evitar as arrancadas de Thiago Ribeiro – até Diego Souza e Renan Oliveira, meias de criação, marcavam com vontade os volantes cruzeirenses.

Ou seja, o Galo atuava de forma muito semelhante à do início do Brasileiro de 2009, quando chegou à liderança por via de roubadas de bola no campo de ataque e velozes finalizações. Aos 23 minutos, uma dessas roubadas de bola deixou Rafael Cruz em condições de fazer um bom cruzamento, que encontrou Obina livre para chutar, meio desengonçado, no contrapé de Fábio. 2×0. (Talvez dê pra vencer hoje, mas se o Cruzeiro marcar ainda no primeiro tempo, vai ficar pesado.)

Meu novo quase-otimismo foi ao chão em menos de cinco minutos: pênalti para o Cruzeiro. (Pronto, vão empatar antes do intervalo. Acho que nem vou assistir o segundo tempo.) Montillo ajeita a bola, corre confiante, vê a queda de Renan Ribeiro para o canto direito e bate de cavadinha. Walter Montillo não é Sebastián Abreu, a bola passa por cima do travessão. Antes que a TV mostrasse todos os 94 ângulos do pênalti desperdiçado, Serginho surge no bico da área e cruza rasteiro para Obina completar seu triplete, de carrinho e embolando-se com um defensor. 3×0. (Agora ninguém segura. O Cruzeiro vem pra cima, vai ter espaço para Tardelli e Obina tocarem o terror.)

Cuca enxergou, finalmente, a grande avenida que era Diego Renan e queimou uma substituição antes do intervalo. Gilberto entrou em campo e em seu primeiro toque na bola acertou um canudo da meia-lua para as redes. 3×1. (Não pode deixar chutar livre assim, se a defesa não ficar mais ligada o segundo tempo vai ser um sufoco.)

Após o intervalo, o jogo tornou-se um ataque contra defesa. Marquinhos Paraná, deslocado para a lateral após a entrada de Gilberto, era na prática um terceiro zagueiro. Pablo, que substituiu Jonathan no intervalo, atuava pela meia-direita. O ataque atleticano não mais conseguia manter a posse de bola, e o Cruzeiro criou diversas chances de marcar. Na melhor delas, Farías recebeu lançamento entre os dois zagueiros do Galo e chutou para uma defesa à queima-roupa de Renan Ribeiro – o goleiro contou com a sorte, é verdade: a bola passava por baixo dele, bateu em suas ancas e passou rente à trave.

Quando a virada parecia questão de tempo, o alvinegro chegou ao quarto gol. Cobrança de escanteio – o primeiro para o Galo em toda a segunda etapa, Serginho cruza, Obina e Caçapa não saltam, Edcarlos assiste o gigante Réver ir mais alto e cabecear da linha da pequena área para o chão. Do chão para a trave esquerda, da trave esquerda para o gol, sem tempo para uma reação de Fábio. 4×1. (Goleada. Vitória irreversível. Que continuem atacando, os três pontos são nossos.)

Após o gol, eu esperava o Cruzeiro abatido e afobado. Acertei metade da previsão: ainda com ganas, e com Roger em lugar de Paraná, o time celeste passou a erguer a bola para a área de qualquer lugar. Instaurou-se pânico generalizado sobre a defesa atleticana. Cada tentativa de drible em frente a área resultava em uma falta, cada bola espanada era repondida por um novo ataque. Aos 32 minutos, finalmente Thiago Ribeiro marcou, cabeceando livre na segunda trave, quase do mesmo lugar de onde Obina havia marcado seus três gols. 4×2. Dois minutos depois, 4×3, em chute cruzado de Thiago Ribeiro após tabela com Montillo. (Taí aquele filme do jogo contra o São Paulo, do jogo contra o Vitória, vamos nós levar outra virada nos acréscimos, maldito seja Vanderlei Luxemburgo.)

Ao fim do jogo, após longos minutos de domínio territorial pouco efetivo do Cruzeiro, mais alívio do que euforia. O tradicional buzinaço pelas avenidas de Belo Horizonte demorou mais que o habitual para ter início, evidenciando a tensão dos últimos instantes do jogo. Um jogo cheio de erros, longe de ser o “melhor jogo do campeonato” ou o “melhor clássico dos últimos anos” como disseram vários palpiteiros remunerados. Emocionante, cheio de gols e com várias alternativas, mas decidido pelos erros – Cruzeiro mal escalado no primeiro tempo, Atlético incapaz de evitar o ‘abafa’ na segunda etapa, e aquela cavadinha errada do Montillo.

O Cruzeiro, mesmo derrtoado, segue lutando pelo caneco, empatado em pontos com o líder Fluminense. O Atlético, vitorioso, tira um peso de cinquenta toneladas das costas, sai da zona da degola, mas está ali embolado com meia dúzia de times agonizantes. Torcer pelo Atlético Mineiro significa muito sufoco pela frente até o fim do ano – para garantir a sobrevivência na Série A, quem sabe arrancar alguma coisa na Sula, e para secar o rival do lado de lá da Lagoa da Pampulha.

Paulo Torres escreveu sobre o clássico mineiro a convite do Impedimento.

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11 Comentários Add your own

  • 1. Sancho  |  25/10/2010 às 15:01

    Bah! Quero ver o Galo livre do rebaixamento. E, para “Brasil 5” na Libertadores, é minha segunda opção…

  • 2. rafael botafoguense  |  25/10/2010 às 16:29

    VOLTAMOS A BROCAR.

    SE LIGA GALO DOIDO

  • 3. douglasceconello  |  25/10/2010 às 16:30

    Muita loucura esse clássico em Minas. Eu ali, pagando os pecados ao ver o Gre-Nal, e o narrador anunciando DEZENAS do gols do Obina antes de meia hora de jogo.

    E vem me chamando a atenção o número absurdo de gols que sai nos enfrentamentos entre Atlético e Cruzeiro.

    Paulo, por favor entre em contato com a federação mineira e diga que o Impedimento desaprova. Clássico bom acaba 1 a 1.

  • 4. m  |  25/10/2010 às 16:37

    montillo claramente chutou pra fora em protesto contra a inépcia dos centroavantes cruzeirenses. se juntar w. paulista, farías e robert, não dá um fábio júnior.

  • 5. Zobaran  |  25/10/2010 às 17:45

    “Walter Montillo não é Sebastián Abreu” e ponto.

  • 6. Cícero  |  25/10/2010 às 18:52

    Montillo como diria o próprio nome, é um montillo de merda. Quando realmente for necessário não irá jogar.

    Assim como aconteceu na Libertadores.

  • 7. Logan  |  25/10/2010 às 21:04

    Não dá pra confiar no Cruzeiro :/

  • 8. Jader Anderson  |  26/10/2010 às 08:05

    Sempre disse que o obina magro era um baita centro avante.

    Me serve no banco do gremio hhehehe

  • 9. izabel.  |  26/10/2010 às 12:55

    massa, o texto.
    colocou bem o pessimismo-realismo da cabeça de um torcedor de time que anda capengando há muito tempo.

  • 10. Manuel  |  26/10/2010 às 13:53

    1 – Montillo não é Abreu. E o pênalti não foi pênalti.

    2 – Discordo quando você diz que “Torcer pelo Atlético Mineiro significa muito sufoco pela frente até o fim do ano…” Torcer pro Galo é sufoco sem data de vencimento. Aposto meus culhões, em 2011 o sofrimento vai ser o mesmo. A última vitória fácil do Galo foi no aniversário de 18 anos do Niemeyer.

    3 – Agora, imagina se o goleiro fosse o Fábio Costa. O placar seria algo como 24 x 4, pro Cruzeiro.

  • 11. lf  |  26/10/2010 às 17:10

    muito bom, paulo, e obrigado.

    Não fosse a tabela casca eu diria que o galo deu um passo tremendo para escapar.

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