Cada esquina de este barrio es un recuerdo

14/10/2010 at 13:10 15 comentários

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…de la mágica y risueña adolescencia;
cada calle que descubre mi presencia,
me está hablando de las cosas del ayer
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Ali um dia se incineraram as rebarbas indesejáveis produzidas pela vida em Buenos Aires. Se chamam o bairro de La Quema até os dias atuais é porque as cercanias de Parque Patricios são povoadas por prédios ruinosos que parecem trazer gemidos do passado em cada tijolo carcomido pelos anos. O mais lamentável deles talvez seja o resquício de construção mantido em pé diante do estádio local – estragando a fachada quase monárquica do Palacio onde hoje Los Quemeros, a gente do Huracán, já não ateiam fogo ao lixo portenho, mas tentam manter a tradição dali ao usar os adversários como combustível para elevar no horizonte o balão de suas aspirações.

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Essa intenção de deixar o Globo num plano superior às mesquinhezas cotidianas pode ser percebida desde os primeiros metros da avenida Colonia, que desemboca nos portões do estádio Tomás Ducó. Cravada no fígado de Parque Patricios e apontando hacia arriba, a torre da cancha tem inscrito em si o nome do Huracán e recorta o firmamento como um estilete vermelho e branco. Em dias idos, penderam dele os pavilhões ensolarados do patriotismo e dos amores clubistas. Sobrevivem os mastros,  indicando de forma obsessiva o céu para onde se quer voltar.
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A alguns quilômetros do estádio onde até o refrigerante se diz “lleno de globitos”, um barra brava do Huracán empilha apressado os papéis do seu sustento – hoje o jogo começa cedo, pouco depois das duas horas da tarde. Daniel mantém uma banca de jornais pelas bandas do mais turístico bairro de San Telmo e está acostumado a se ver frente a viajantes perdidos que questionam sobre a localização das canchas de Boca e River. Contesta com certo desdém, murmurando entre os dentes qualquer coisa sobre o fato de pelo menos não estarem interessados no San Lorenzo, o maior rival do Globo desde tardes imemoriais.
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¡Viejo barrio! Yo que vengo del asfalto
te prefiro con tus calles empedradas
y el hechizo de tus noches estrelladas
que en el centro no se sabe comprender
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Sob a manga do moletom vestido no início da manhã fresca de outubro, Daniel oculta o balão de sua fé, tingido na pele como a única paixão inacabável da vida de um homem. Logo mais o Globo do braço estará visível por todos. Pelo resto da tarde, Daniel vai trocar o manuseio dos Claríns e Olés da vez pelo tambor dos finais de semana. A hora do almoço passa, o jornaleiro vai para casa vestir uma roupa mais apropriada para quem terá acima da cabeça o sol da tarde e algumas barras verticais, e depois de comer pegará um táxi – porque o tempo escasseia – para dar o seu aguante durante os noventa minutos no interior do Tomás Ducó.
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Ao meio da tarde a persistência em cantar por todo o jogo vai se mostrar válida. Mas desde o topo da verticalidade que são as plateias do Palacio até a visão na altura do campo de quem prefere colar o rosto no alambrado e declarar a insensatez do árbitro e dos oponentes a poucos centímetros da lateral, a torcida mais impressionante no sábado de Apertura é a negra e branca que desembarcou do bairro de Floresta. A barra do Albo carrega uma deslocada faixa de oposição ao aborto e os milhares de almas necessárias para lotar o espaço a que tem direito.
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“Isso é porque acabaram de subir”, tenta se justificar Walter, médico que vê o duelo na Platea Amancio Alcorta, o setor nobre da cancha para o qual se cobram cem pesos de ingresso. Havia trinta anos que o All Boys estava exilado da primeira divisão argentina. “Além disso, o bairro é perto: cerca de meia hora de carro”, prossegue o doutor, “mas a torcida deles é pouco mais que isto y ya está”. Mesmo que os alvinegros presentes no Tomás Ducó fossem os únicos apoiadores do Albo no mundo, porém, o pouco tamanho da torcida já servia para abafar os cânticos mandantes – enfraquecidos pela campanha desiludida de um Huracán que ocupa a metade baixa da classificação.
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¡Viejo Parque! Yo no sé que airada racha
me alejó de aquella novia dulce y buena
que ahuyentaba de mi lado toda pena
con lo magia incomparable de su amor
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Walter é filho da dicotomia que se repete pelos degraus do Tomás Ducó. Tem pai aficionado do San Lorenzo e mãe Quemera. O futebol é questão entranhada na família e a influência materna evidentemente pesou na escolha mais marcante da existência. Enquanto o irmão foi para os lados do Cuervo, Walter optou pelo vermelho e pelo branco e equilibrou as pendências da família. O médico não crê que o pai tenha sofrido o mais profundo dos desgostos, mas, para não correr o risco de experimentar o amargor, carrega seus próprios filhos à vizinhança mal afamada de Parque Patricios sempre que pode. Na falta de atualidade, o amor pelo Globo precisa se construir desde muito cedo.
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Um dos eternos postulantes ao trono de sexto grande da Argentina, o Huracán empilhou títulos nacionais nos anos 20, como amador, e em 1973 somou o Metropolitano às suas vitrines. Depois, apenas vices, no máximo – e eventuais passagens pela divisão inferior. Tempos difíceis em que o marasmo das tabelas manteve o balão vazio, amarrado à terra e incapaz de voltar ao topo. Há um pouco do temor pelo regresso a esses dias desgraçados cada vez que um time como o All Boys chega ao segundo tempo de um sábado no Palacio e faz um a zero.
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E há outro tanto de esperança nas ocasiões em que nasce um gol como o de Darío Soplán, empatando o jogo aos quarenta e oito do segundo tempo. Lembram que as últimas ilusões do Huracán são recentes – datam de 2009 e se acabaram num vice-campeonato diante do Vélez Sarsfield, a minutos do fim do Clausura mais surrupiado da década. O de agora não é aquele Globo. Futebolisticamente, está mais longe da equipe vice-campeã do que a cronologia indica. A situação não se cria e os clamores por vingança diante do Vélez vão sendo adiados. Até que esse dia se repita, inclusive os nomes de ídolos históricos escritos nos muros da cancha seguirão tremendo de raiva e ansiedade. Emilio Baldonedo e Guillermo Stábile, afinal, já não podem fardar de alvirrubro.
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Otros barrios marchitaron tus ensueños
Otros ojos y otras bocas me engañaron
el tesoro de ilusiones me robaron
hoy mi vida encadenado está al dolor
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Maurício Brum (com fotos de Iuri Müller e o tango Parque Patricios, de Oscar Arona)
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Entry filed under: Colunas, Pela América.

E se foram as muletas 3ª ImpedCopa: maminha, Rabetama e cerveja

15 Comentários Add your own

  • 1. Francisco Luz  |  14/10/2010 às 13:47

    Bah, chorei. O Tomás Ducó é um estádio DUCA (infâmia rlz). E que costura afudê com esse tango, Brum.

    Genial, como sempre.

  • 2. rafael botafoguense  |  14/10/2010 às 14:07

    ‘Somos del barrio, del barrio de La Quema, somos del barrio de Ringo Bonavena …

    os caras que vão pra lá e só vão no boca e no river merecem pezada no cérebro.babaquice. cheio de time foda por lá. olha esse estádio que sinistro!

    pena que o viejo gasometro virou carrefour senão seria outro fodaço a resistir.

  • 3. rafael botafoguense  |  14/10/2010 às 14:11

    FODA

  • 4. Paul  |  14/10/2010 às 14:46

    :~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

  • 5. Cunegundes, o Mulato Frajola  |  14/10/2010 às 17:06

    o huracán não é muito firme, revelou o franguinho do defederico, esse teria lugar no time de bailarinas do santos, quack

  • 6. RB  |  14/10/2010 às 17:13

    mas revelou o pastore q tá pirocando td mundo lá na itália

  • 7. Cassol  |  14/10/2010 às 17:45

    Esse casal vai longe.

  • 8. arbo  |  14/10/2010 às 17:46

    bá, sério, tão gastando os teclados da latinoamerica esses guris

  • 10. aloncio  |  14/10/2010 às 23:01

    Manda mais garoto, manda mais. Belo texto. Minha última ilusão ainda é mais recente: 4 de agosto de 2010, diante de quase 40.000 torcedores deixamos escapar o título, mas tratamos de aumentar o nosso amor.

  • 11. LF  |  14/10/2010 às 23:03

    poucas imagens me impressionaram mais na história recente do impedimento que essa fachada. Ela contrasta com toda a imagem que eu tinha do huracán.

  • 12. Diego  |  15/10/2010 às 00:16

    Melhor texto, tem alma, tem história, nada menos que fodástico.

  • 13. Leandro AG  |  15/10/2010 às 09:12

    Isso sim é expressar alma e paixão… algo imcompreensível para os do lado de cá destas bandas!

  • 14. Eduardo  |  15/10/2010 às 10:49

    maravilha de texto Mauricio…

    “mas a torcida deles é pouco mais que isto y ya está”.

    isso é o que mais me encanta no futebol argentino. time tem meia duzia de torcedores mas não param nunca.

  • 15. dante  |  15/10/2010 às 13:45

    OLHA ISSO:

    “Los Quemeros, a gente do Huracán, já não ateiam fogo ao lixo portenho, mas tentam manter a tradição dali ao usar os adversários como combustível para elevar no horizonte o balão de suas aspirações.”

    :~~~

    que ESTILO, pqp.

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