A arte do auto-boicote

12/10/2010 at 10:52 12 comentários

V

O que estou fazendo aqui? era o tipo de pergunta que nosso herói não fazia a si mesmo. Com uma leve dor no estômago a acusar a falta de almoço e espremido entre dois passageiros num banco de ônibus pelas estradas de barro e buraco do Haiti, Jorge Otávio não encontrava forças suficientes para digressões dessa natureza. Cantarolando Redemption Song em dueto com o motorista do ônibus e um jovem sentado duas fileiras à frente, alheio a crises existenciais, nosso escritor, repórter investigativo e primeiro brasileiro a desbravar o futebol haitiano chegava a mais uma de suas máximas apócrifas: Bob Marley é meu Che Guevara black. E maconheiro.

A perna esquerda já apresentava fortes sinais de dormência quando o ônibus parou numa pequena estação à beira da estrada. Blan, Blan gritou sorrindo o ambulante que se pendurou na janela do coletivo para oferecer água em saquinho e refrigerantes Toro. Recebendo como resposta a negativa muda de Jorge Otávio, o vendedor e seu boné I Love NY disseram com o mesmo sorriso de antes: Masisi.

Os passageiros riam baixo ao seu redor. Não era a primeira vez que o chamavam de masisi. A diferença é que agora, mais de um mês de caribe nas costas, sabia bem o que isso significava. Acabara de ser chamado de viado. Demonstrando, todavia, uma compreensão psicossocial superior, Jorge Otávio não reagiu. Como sempre o fazia, contentou-se em responder É a mãe! com toda a coragem que a certeza de ser a única pessoa a falar português em quilômetros lhe conferia.

VI

Difícil não olhar. Frescos e molhados, duros, caídos, murchos ou arrebitados. Havia seios por toda a parte. Alguns em pleno broto, ansiando por um toque, um beijo ou um simples contemplar. Outros já passados, derrotados pelos dias e noites de trabalho e prazer, miravam resignados o chão. Todos, sem exceção, pareciam assobiar em meus ouvidos uma cantiga sem tempo, um canto de sereia que meus olhos tarados não conseguiam evitar. Ah, quantas tetas e deleites um singelo banho de rio pode proporcionar.

A poesia brotava em minha mente com a mesma proporção que a ereção tomava meu calção. Os banhos de rio ao final da tarde eram o momento mais esperado do dia. De início, como era de se esperar, o blan de minha pele causou certo desconforto e me banhei solitário. Em seguida vieram os meninos e sua curiosidade pueril com o tamanho diminuto de meu pau. Seus risos atraíram as lavadeiras, que deitaram a trouxa à beira do canal e de pernas abertas batiam, esfregavam, ensaboavam, lavavam. As roupas. Por fim, conquistando a confiança geral – não sei bem como – pude me somar ao balneário coletivo.

Tinha plena consciência de toda minha sordidez. O peso era ainda maior quando homenageava aquelas tetas na solidão da noite. Mas era inevitável. Tamanha vergonha só não me levou a atitudes impensadas porque me dei conta a tempo que eu, Jorge Otávio, não passava de mero objeto de desforra. As donas de cada um daqueles seios guardavam para si uma vil satisfação em mostrar-me sem embaraços seus corpos talhados pela bruteza do sol. Sabiam que eu nunca os possuiria. E quanto mais sabiam, mais os exibiam. E os molhavam. E me tentavam. Era uma vingança. Talvez a única que lhes restava. A justiça com as próprias mãos nunca foi feita com tanto fervor.

No entanto, aqueles banhos eram a única atividade digna de nota nos dias de mormaço e poeira em Saint-Marc. Já estava há quase uma semana à espera de Dangê. Acertamos por um encontro telefone quando ainda estava em Porto Príncipe. Seu português aprendido a duras penas nos dois anos em que defendeu as cores do Sampaio Correa, a Bolívia Querida, era minha esperança de sair da masmorra muda que o fato de saber somente três frases no kreyòl me colocava. Não atende e nem retorna minhas ligações, o Dangê. Só me resta aguardar.

Vou começar a tomar dois banhos por dia.

VII

Era um bigodinho infame. Tão fino quanto as costeletas. Cabelo impecável cortado à máquina, com um pequeno risco transversal que partia da testa e ia até metade da crânio. Camisa contrabandeada da Lacoste por dentro da bermuda jeans emperiquitada com rasgos, botões e broches. Um cinto de couro e metal na cintura e um tênis coreano da Adidas davam o toque final . Jorge Otávio? me perguntou ao tirar os óculos escuros quando desceu do ônibus.

Aquele bigode era ridículo. Lembrava meus treze anos e a ânsia diária de procurar no espelho algum sinal de novos pelos no buço. Mas a puberdade já tinha sido superada por Dangê e aquele rastro de cobra abaixo do nariz só realçava o desproporcional de seus lábios. Por que você não tira essa merda da cara de uma vez? Cogitei dizer-lhe na bucha. Recordando a tempo que era ele o presidente do glorioso Dynamite Athletic Club, meu futuro clube, engoli seco e disse apenas Você deve ser o Dangê. Dei meu último gole no refrigerante de laranja mais doce que já tomei na vida e o segui por entre os ônibus e taptaps da estação rodoviária de Saint-Marc.

Paramos num boteco de palha e lona à beira da estrada e Dangê fez sinal com a mão para a atendente, que lhe serviu prestativa uma lapada de bebida. Fiz o mesmo. Virei o copo. Caco de vidro, isso aqui só pode ter caco de vidro, pensei. A garganta rasgava. Estava oficialmente apresentado à kleren, a cachaça dos haitianos. Apesar das chamas que tomavam meu cérebro e todos os poros do meu corpo, mantive a serenidade e não deixei transparecer nenhum sinal de incômodo. Dangê analisava calado. Estava me testando o filho de uma égua. Pediu mais duas doses. Viramos mudos. Na quinta rodada o bigode de Dangê não me incomodava mais. Na sétima, o cartola abriu um sorriso e rompendo o silêncio que reinava até então esbravejou:

– Jorge Otávio é nome de viado.

– Tua irmã falou a mesma coisa antes de enrabá-la, respondi.

Seria o início de uma bela amizade.

(Continua.)

Thalles Gomes

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Matadores em crise existencial Tiki-Tiki ao vivo e em três cores

12 Comentários Add your own

  • 1. Bruno L.  |  12/10/2010 às 14:28

    uhsdsug

  • 2. izabel.  |  12/10/2010 às 14:52

    muito massa, thalles.

    um livro do douglas, um livro do thalles e um livro do iuri.
    tá demorando.

  • 3. marlon  |  12/10/2010 às 17:58

    e uma coluna na Sexy pro Cunegundes.

  • 4. marlon  |  12/10/2010 às 17:59

    pensando bem, na RUDOLF. jkhjkh

  • 5. Cunegundes Vaginildo Botelho Pinto  |  13/10/2010 às 00:02

    seios são sempre bons, eu gosto deles, duros ou moles, confesso que tenho mais tesão pelos molengões, quando estou fornicando eles balangam num movimento provocante, como se estivessem me chamando para mamar nas mamicas, tenho sonhos com seios grandes e caídos, acordo úmido e quente, quack

  • 6. Roger  |  13/10/2010 às 10:50

    Bom, acho que o Cunegundes poderi escrever o prefácio do livro do Thalles…

  • 7. Álisson  |  13/10/2010 às 13:46

    – Jorge Otávio é nome de viado.

    – Tua irmã falou a mesma coisa antes de enrabá-la, respondi.

    Seria o início de uma bela amizade.

    DEMAIS!

    Tem algum livro teu Thales? Sério, quero comprar.

  • 8. Leo Garcia  |  13/10/2010 às 15:05

    Bom pra caralho, parabéns ao autor.

    Onde estão os três primeiros capítulos desta saga?

  • 9. thalles  |  13/10/2010 às 15:16

    #7

    tem livro não, álisson. vai sair tudo pelo impedimento.

    #8

    tá aqui o inicio, leo garcia:

    https://impedimento.wordpress.com/2010/09/24/praia-sombra-e-agua-fresca/

  • 10. Cunegundes, o Mulato Frajola  |  13/10/2010 às 16:57

    bom pra caralho é xoxota, quack

  • 11. catarina cristo  |  14/10/2010 às 11:54

    “A putaria é o último alento para a falta de talento.”, Thalles disse.

    E os textos são ele se DESMENTINDO.

  • 12. Cunegundes, o Mulato Frajola  |  14/10/2010 às 19:36

    catarina, a putaria é o primeiro, o último e o único alento, quack

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