Quando deuses andavam sobre a Terra

28/09/2010 at 06:00 24 comentários

“Aquele que sobreviver a esse dia e chegar a velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: ‘Amanhã é São Crispim’. E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: ‘Recebi estas feridas no dia de São Crispim’.”

– Henrique V

Se fosse vivo, William Shakespeare certamente escreveria sobre a batalha ocorrida no dia 20 de dezembro de 2000, no Parque Antártica. A partida decidiria a Copa Mercosul de 2000, assim como, na batalha de Azincourt, Henrique V pretendia por fim à Guerra dos 100 anos. As semelhanças forçadas entre os dois eventos não param por aí.

Apesar de suas ousadas pretensões, Henrique se viu em terras inimigas, diante de um exército francês três vezes maior que o seu. Mas perseverou. Quase 600 anos depois, o Vasco demonstrou inabalável fé em sua capacidade após terminar o primeiro tempo da batalha perdendo por 3 a 0.

A enganosa vantagem foi obtida pelos palmeirenses com um pênalti convertido por Arce, uma cabeçada de Magrão em rebote de Hélton e um chute colocado de Tuta. Figuras menores, não nascidas para a glória. Os Deuses do Futebol não permitiriam que dali saíssem consagrados.

Do outro lado, no entanto, pululavam guerreiros forjados em São Cristóvão, a Esparta carioca. Hélton, Clébson, Odvan, Juninho Paulista, Euller, Romário e, principalmente, o pulcríssimo Juninho. O Apolo de São Januário, herói de brio, coragem e força poucas vezes vistas na história. Alguns deles criados no clube, outros vindos de outras plagas. Mas todos modificados, engrandecidos ao chegar à Colina e conhecer a história do verdadeiro clube popular do Rio de Janeiro.

No comando da esquadra vascaína estava Joel “Bonaparte” Santana, o maior general da história do futebol. Ciente de sua responsabilidade, no intervalo compreendeu que não havia mais espaço para folclores naquela equipe e tirou de campo Nasa, substituído por Viola.

Na volta ao campo para o segundo tempo era possível perceber o nervosismo sob os olhares pretensamente confiantes dos suínos paulistas. Eles sabiam que do outro lado havia uma força incontrolável, que haveria de sobrepujá-los apesar de tudo e de todos.

Porque todos estavam contra o Vasco.

Aos oito minutos, Euller arremeteu em direção ao gol como se fora o próprio Hermes, foi derrubado na área e Márcio “Pilatos” de Freitas ignorou a clara infração. Cinco minutos depois, o excesso de confiança branquiverde na condescendência do juiz começou a desmoronar. Juninho Paulista, o Ares cruzmaltino, foi derrubado por Fernando e dessa vez o juiz não pôde se furtar a apontar a penalidade máxima.

Começava ali a ser escrita uma história inesquecível. Os gritos pelo Méier, Madureira e Tijuca ainda eram tímidos quando Romário, o Zeus da Vila da Penha, converteu a cobrança. “Gol de honra”, muitos pensaram. Poucos tiveram a fé necessária para compreender que estavam diante de deuses que caminhavam sobre a Terra.

Com 23 minutos do segundo tempo Juninho Paulista novamente irrompeu pela área palestrina e ali todos já haviam compreendido: aquele homem só seria parado à bala. Mais um pênalti, sem arma de fogo, apenas uma falta banal. A zaga palmeirense, fazendo uso de artifícios mais sujos que o Rio Tietê, facilitava a consagração do Baixinho.

Ainda envergava a Cruz de Malta, no entanto, um homem que não merecia aquela glória. Em sua onisciência, os deuses trataram de arranjar a expulsão de Júnior Baiano, homem comum que não poderia caminhar entre aqueles monstros sagrados. Após o carrinho desclassificante e o segundo amarelo, ali a vitória se tornou inevitável.

Aos 40 minutos do segundo tempo, Romário deu um chute esquisitíssimo, confundindo a zaga palmeirense com o claro intuito de retribuir as duas penalidades sofridas por Juninho Paulista e cobradas por ele. Toma Ares, esse gol é seu.

Para os que não estão acostumados com a glória, o empate parecia o bastante. Mas para aquele time do Vasco apenas a vitória interessava. Ali só havia vencedores. Alguns haviam participado da conquista do Brasileiro de 1997, sobre o próprio Palmeiras. Aos que tinham dúvidas sobre as chances de vitória cruzmaltina, bastava procurar em campo Juninho de Pernambuco, o homem que calou o Monumental de Nuñez na final antecipada da Libertadores de 1998.

Pois foi com esse espírito que três minutos após o fim do jogo Viola justificou sua entrada em campo com uma jogada pela esquerda. Juninho Paulista dominou a bola e chutou em cima da zaga. A pelota, que de boba não tem nada, rolou mansa para os pés de Romário e o resultado é óbvio.

Com três gols marcados, o famoso “truque do chapéu”, Romário deixou claro que ainda era o maior atacante do Universo conhecido. Dizem que ao final do jogo o Baixinho levou consigo a bola que o consagrou e que até hoje ela é a pelota oficial das partidas de futevôlei disputadas na Barra.

Ficha técnica

Palmeiras 3 x 4 Vasco

Local: Palestra Itália (São Paulo)
Data: 20 de dezembro de 2000
Ladrão: Márcio Rezende de Freitas (MG)
Gols: Arce, aos 36; Magrão, aos 37; Tuta, aos 45 minutos do 1º tempo;
Romário, aos 14. 23 e aos 48; Juninho Paulista, aos 40 minutos do 2º
tempo.
Cartões amarelos: Flávio e Juninho (Palmeiras); Hélton, Odvan,
Jorginho Paulista e Nasa (Vasco).
Cartão vermelho: Júnior Baiano.

Palmeiras: 11 anônimos e um técnico desconhecido.

Vasco: Hélton; Clébson, Odvan, Judas Baiano e Jorginho Paulista;
Jorginho (Paulo Miranda); Nasa (Viola), Juninho e Juninho Paulista;
Euller (Mauro Galvão) e Romário. Técnico: Joel Santana.

Texto enviado por Eduardo Rodrigues

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Quando a bola se esfrega na crista do demônio A força alba que quebrou a monotonia

24 Comentários Add your own

  • 1. Rafael  |  28/09/2010 às 08:23

    Sou corinthiano e detesto o Vasco, com certeza nosso maior e mais histórico rival fora de São Paulo….mas não tem jeito, este dia fui cruzmaltino de corpo e alma, foi com certeza o dia e o jogo de futebol em que eu mais comemorei um resultado em toda a minha vida!!!!….inesquecível!!!! …parabéns pelo texto!!!

  • 2. MarcosVP  |  28/09/2010 às 08:35

    Putaquilparil o jogo inesquecivel!

  • 3. arbo  |  28/09/2010 às 09:14

    “As semelhanças forçadas entre os dois eventos não param por aí.”
    hauahuahuhauah

    volto a ler

  • 4. amaral  |  28/09/2010 às 09:20

    “Poucos tiveram a fé necessária para compreender que estavam diante de deuses que caminhavam sobre a Terra.” — fui um desses infiéis.

    Pensei que esse dia nunca iria chegar. Finalmente um texto sobre O JOGO. Agora sim o Impedimento está completo!

  • 5. arbo  |  28/09/2010 às 09:22

    baita jogo, ótimo texto.
    futivôlei né

  • 6. Mauro  |  28/09/2010 às 09:29

    O Palmeiras não merecia ganhar nada com essa camisa verde-água + verde-musgo + verde-sei-lá-o-quê.

  • 7. Lucas Cavalheiro  |  28/09/2010 às 09:58

    É por jogos como esse que o futebol é sensacional. Poucos esportes propiciam tantas viradas de expectativa

  • 8. Godo  |  28/09/2010 às 10:28

    “hoje ela é a pelota oficial das partidas de Vôlei de Praia disputadas na Barra.”

    O correto é futevôlei!

    No mais, o texto é sensacional.

  • 9. matheus furtado  |  28/09/2010 às 11:43

    o Palmeiras tá em chamas desde o LULÃO-09, agora com presidente dissolvendo a diretoria de futebol e o caralho,e os caras me lembram dessa fatídica data. Jogo foda, esse. Agora o editor da impedcorp poderia encomendar um poste sobre o inolvidável PAL4x2FLA. Belo texto.

  • 10. pato  |  28/09/2010 às 11:58

    Nenhum jogo da Copa Mercosul ou Copa Sul-Americana merece lembrança. Ok. Ok?

  • 11. Alexandre N.  |  28/09/2010 às 12:13

    Esta partida foi realmente épica. Não houve como não ficar empolgado com esta vitória espetacular cruzmaltina.

    Ainda diria que esta foi a última vez que Juninho Paulista conseguiu jogar bom futebol…

  • 12. Lucas Cavalheiro  |  28/09/2010 às 12:15

    #10
    Não.

    Inter 2×1 Estudiantes
    Sulamiranda 2008, gol de Nilmar na prorrogação

    https://impedimento.wordpress.com/2008/12/04/a-ultima-china-do-bolicho/

  • 13. Álisson  |  28/09/2010 às 12:50

    Relendo o texto da Suda 2008 que o Lucas linkou, encontrei esse comentário, anônimo.

    **** ***** ***** ***** ****** ******

    18. Anônimo | 04/12/2008 at 08:09
    O Gremio não vai ser campeão de nada que preste nos próximos 5 anos no mínimo!

    ****** ******* ******** ******** *******
    O cara é profeta! E olha que o Grêmio tinha chances de título nesse brasileiro e jogaria a Libertadores 2009.

  • 14. arbo  |  28/09/2010 às 13:23

    bá, palmeiras 4×2 fla realmente merece um post, matheus

  • 15. izabel.  |  28/09/2010 às 13:44

    texto massa.
    romário era O CARA e esse time do vasco era mesmo sensacional.

  • 16. rafael botafoguense  |  28/09/2010 às 13:51

    3a0 é um placar perigoso…

    se já tivesse noção da mentira que é a história do vasco torceria contra,mas fui indiferente.

  • 17. Fernando Cesarotti  |  28/09/2010 às 14:33

    Opa, fiquei dois dias sem aparecer na casa e sou “brindado” com um presente desses. Mas o texto é irretocável e isto aqui é verdade divina:
    “Os Deuses do Futebol não permitiriam que dali saíssem consagrados.” E acrescento: ainda mais com aquela camisa horrenda.
    Aquele time do Palmeiras, de fato, era pavoroso. E no meu texto das 10 humilhações eu comento que até os 15min do segundo tempo eu não acreditava que íamos mesmo papar aquele caneco. Como se vê, não papamos.
    A acrescentar, ainda, o fato de que muita gente acha que perdemos porque jogamos no “lado errado”, visto que os gols saíram todos na meta do placar, do lado esquerdo do vídeo, onde o Palmeiras costuma atacar no segundo tempo – mais pressão da torcida, aquela coisa toda. Vale lembrar que o outro é o gol “das piscinas”.

    Sobre Palmeiras x Flamengo, vou pensar em algo e sugerir à chefia.

  • 18. marizinha.oliveira  |  28/09/2010 às 16:35

    ha eu amo vasco adorei tudo!! muito bom mesmo.poizer acho que foi o ùnico dia mais feliz .atè emtâo vasco sò e decpiçâo nâo ganha mais nem uma siquer partida

  • 19. douglasceconello  |  28/09/2010 às 17:44

    marizinha fora de controle.

  • 20. arbo  |  28/09/2010 às 18:33

    sjakdhgjkhjhg

  • 21. arbo  |  28/09/2010 às 18:33

    huahuhauhauhauahuah

  • 22. dunga  |  28/09/2010 às 21:10

    segundo maior jg q vi de brasileiros, só perde p spfc3x2 fla na supercopa de 93

  • 23. Felipe (o catarina)  |  28/09/2010 às 23:25

    #22

    foi 2×2 aquele jogo. Mas foi um jogaço mesmo.

  • 24. Alberto  |  29/09/2010 às 08:51

    Ótimo texto, foi realmente um jogaço
    Entretanto, colocar o arce no mesmo patamar de tuta e magrão dizendo “Figuras menores, não nascidas para a glória ” é até pecado

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