Praia, sombra e água fresca

24/09/2010 at 17:29 19 comentários

I

Ela dormia com a mão no meu pau. Passeou preguiçosa os dedos por entre os pelos de meu peito e sem maiores receios meteu-se por debaixo do meu calção. Acolheu com carinho meu pau. De início aquilo me intimidou, cheguei a franzir a testa no esforço para deixá-lo ereto, obrigando-me a dar uma resposta viril àquele ato. Não conseguindo, desencanei e aproveitei o calor umedecido que aqueles dedos finos transmitiam. A manhã já se antevia pelas frestas da janela e pensei que aquela seria uma boa forma de começar meu primeiro romance. Ela dormia com a mão no meu pau. Não era das mais belas frases que a literatura mundial inventara, mas serviria para gerar certa curiosidade mórbida no leitor. A putaria é o último alento para a falta de talento.

Chegando à essa lapidar conclusão, tomou-me o desejo de cagar. Já segurava há alguns minutos a bexiga, mas meu intestino era menos afeito a tais imposições. Tentei desvencilhar-me sem muito estardalhaço, mas não obtive sucesso. A mão pousava pesadamente sobre meu caralho e alguma coisa, talvez um anel, talvez uma unha, estava enrascada em meus pentelhos. Um movimento em falso e…

A inércia começou a me preocupar e por um instante cogitei que ela estivesse morta. O início do romance seria ainda melhor. Ela jazia com a mão no meu pau. Morte e sexo numa única frase. Ah, eu seria bom. Um gênio maldito das letras. Um pervertido traduzido em alemão.

Mas ela não estava morta, infelizmente, e tive de sacrificar alguns pentelhos por uma cagada.

II

De volta ao quarto, ainda ao som dos últimos resquícios da descarga, deparei-me novamente com aqueles bicos de peito. Os maiores que já vira. Em meu romance os descreverei com alguma metáfora que envolva montanhas íngremes e matas virginais. Por enquanto basta dizer que eram do tamanho de dois babalús. Babalús de mel e chocolate.

Aquele espécime me atraia. E não eram só os bicos. Talvez por não roncar nem babar enquanto dormia. Talvez por engolir tudo sem barulho. O fato é que, não chegando a uma definição, acabei por desistir de sair à surdina, sem rastros ou avisos, tal qual um latin lover misterioso. O receio de não ter o dinheiro suficiente para o moto-táxi também pesou e resolvi conceder um pouco mais da minha companhia à dona dos peitos de babalú.

III

Com o vento poeirento de Porto Príncipe em minha cara, o vai e vem da moto me trouxe as boas lembranças da noite anterior. Já eram 56 dias de seca contados arduamente a cada nova punheta. (Ocultarei obviamente esse detalhe em meu romance. Não pega bem um escritor que não trepa. Aproveitarei para omitir o fato de que ela estava de boi e que me contentei com alguns esfregaços e um boquete no final da noite).

Sua pela era tão negra quanto o fechar de olhos e só quis saber meu nome quando já estávamos deitados em sua cama. Jorge Otávio, disse. Sendo ela uma haitiana que viveu toda a vida em Nova Iorque, não desconfiou tratar-se de um nome sacado de uma novela mexicana qualquer. Todo escritor precisa de um disfarce e aquele fazia jus a meu talento. Sem contar que meu trabalho como correspondente internacional dissimulado de segundo volante frustrado exigia precauções. Jorge Otávio, escritor, repórter investigativo e primeiro brasileiro a desbravar o futebol haitiano. Jorge Otávio, autor do aclamado…

A moto começou a engasgar e não pude completar o raciocínio. Fini gas gritou em kreyòl o taxista. Descemos o restante da ladeira na banguela e, a mais de três quadras de casa, a moto deu seu último suspiro. Paguei-lhe os duzentos goudes da corrida e me fui a pé. Ah, Jorge Otávio, quantas agruras tens de enfrentar!

IV

Muitas coisas passavam pela mente inquieta de Jorge Otávio naquele instante. Como seria a dedicatória do meu livro? Haveria citações? Madalena era um bom nome para colocar na minha filha.. Piercing na língua pode infeccionar meu pênis? Dentre tantos dilemas, havia, entretanto, algo que tomava cada vez mais sua atenção: aqueles duzentos goudes iriam lhe fazer falta.

Os trezentos dólares contados e suados que trouxera do Brasil estavam se esvaziando mais rápido do que previra. Mais da metade já estava comprometido com a dona da pensão. Os benditos duzentos goudes garantiriam o almoço por mais três dias, no mínimo.

Ao pensar nessas adversidades, Jorge Otávio não conseguia disfarçar, entretanto, certo sorriso de canto de boca. Isso vai enriquecer minha biografia no Wikipédia, consolava-se. Pelo menos não serei mais um desses escritores de apartamento. O ronco oco do estômago lembrou-o, todavia, que biografia no Wikipédia não enchia barriga. Maldizendo o orgulho besta de nordestino que o fizera negar uma banda do sanduíche de ovo com bacon que a peitinho de babalú lhe oferecera, Jorge Otávio se deu conta que era domingo, único dia da semana em que não se servia café da manhã na pensão. Apalpou os bolsos da calça e entre o pacote intacto de camisinhas encontrou os últimos quinze goudes que lhe restavam. Comprou duas porções de banana frita e rumou soberano pelas ruas esburacadas da Delmas 46.

(Continua. Talvez.)

Thalles Gomes

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Entry filed under: Colunas, Literatura.

Remendo feio, mas não furado O sonho continua, cada vez mais peludo

19 Comentários Add your own

  • 1. arbo  |  24/09/2010 às 18:00

    primeira parte sensacional
    “Ela jazia com a mão no meu pau.”
    kdajskjgkjkj

  • 2. Lucas Cavalheiro  |  24/09/2010 às 18:01

    AUHEAEUAUE

    Quando eu leio esses textos CHEIOS de IMAGENS, já sei de quem é. Não há quem consiga fazer isso com tamanha competência senão ele, o crítico de cinema com óculos de xibungo

  • 3. Arthur Reis  |  24/09/2010 às 18:01

    Cacete

  • 4. fabio  |  24/09/2010 às 18:25

    sensacional, mas não dá pra trocar ovo e bacon por banana frita

  • 5. douglasceconello  |  24/09/2010 às 19:35

    Nada como uma putaria escrita com maestria pra começar bem o final de semana.

    Thalles passando o rodo no HAITI.

    uashduas

  • 6. Lucas Cavalheiro  |  24/09/2010 às 22:47

    Ingleses aderindo à campanha #rothdebigodenomundial

    www.sam-king.co.uk

  • 7. Segurança do Cabaré do Beco  |  24/09/2010 às 23:47

    Falando em putaria, e aí Fino ? Vai aparecer de novo aqui hoje ? Vou te dar sarrafo, mermão.

  • 8. Neves  |  25/09/2010 às 07:27

    Djênio.

  • 9. Caco  |  25/09/2010 às 09:07

    Rá!
    Cunegunde’s feelings no intróito (ui!) do texto… hahaha.. muito bom o causo, aliás.
    Ah, e Mr. Damião Sênior mostrando pro Roth “comofas” pra ser respeitado e idolatrado: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/internacional/noticia/2010/09/foto-natalino-bigodao-pai-de-damiao-assiste-treino-do-inter.html
    Pô, Roth! Presta atenção nos sinas! Ainda não está óbvio pra você?

  • 10. Godo  |  25/09/2010 às 09:13

    Brilhante, hein.

  • 11. Mucosolvan  |  25/09/2010 às 10:09

    Que bosta .

  • 12. Álisson  |  25/09/2010 às 12:01

    Que coisa mais sensacional!

    Demais Thales. Essa primeira frase então… nada como a putaria pra cativar o leitor.

  • 13. Sanchotene  |  25/09/2010 às 12:16

    Thalles é a versão “para maiores de 18 anos” do David Coimbra!

  • 14. Y  |  25/09/2010 às 12:36

    CUNEGUNDES >>>>>>>>>>>>>>>> Thalles

    e olha que nem li o texto, mas desista, Thalles. Cunegundes é hors-concurs no quesito PUTARIA LITERÁRIA.

  • 15. Y  |  25/09/2010 às 12:37

    SÓ A LI A PRIMERA FRASE SUFICIENTE PARA JULGAR O FRACO TEXTO DE THALLES, CÓPIA DA OBRA CUNEGUNDIANA

  • 16. Felipe (o catarina)  |  25/09/2010 às 14:22

    pqp velho, 56 dias sem dar um tirinho??? Já tinha voltado a nado pro Brasil.

  • 17. izabel.  |  25/09/2010 às 21:49

    sensacional, thalles.

  • 18. Eduardo  |  27/09/2010 às 09:40

    haha. “A putaria é o último alento para a falta de talento”
    Thalles, essa parte é tua ou escutaste de alguém?
    se for tua, peço permissão para usar… hehhe

    belo texto, aliás.

  • 19. Chico Bento  |  08/11/2010 às 10:06

    Caramba, escritor pornô é só essa porra mesmo?Vai puxar enxada, que o seu problema não é sexual é falta de ter o que fazer…

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