A outra camisa verde e amarela

15/09/2010 at 06:00 19 comentários

A tarde morria com um céu preenchido por cores incendiárias. Em algum pulso ou parede das vizinhanças um relógio de ponteiros avançava para chegar às sete horas, iniciando a noite de um dia útil numa semana quente. Mas aqueles dois seguiam isolados num universo à parte, hipnotizados pela esfera de futebol. As camisas de algodão já estavam empapadas de suor. Os chutes seguiam. De longa distância, da entrada da área, de pênalti. O interminável duelo entre dois companheiros de time que permaneciam até depois dos treinos. A certa altura, o batedor gritou: – Te prepara que agora eu vou bater com força.

Naquele entardecer de 1979, quando nas casas próximas as mães berravam para os filhos irem para dentro se aprontar para a janta e ninguém dava muita atenção aos dois sujeitos que insistiam em fazer a bola ir e voltar do gol, a noite chegou mais cedo para Daniel. Sobre a linha do gol, ele se posicionou e aguardou o desfecho do chute poderoso. O silvo da bola cruzando os ares deve ter arrancado as folhas mais secas das árvores próximas. A pelota pegou no peito do goleiro, cravejou sua pele de vermelhidões e marcas de gomos. Daniel caiu agarrado a ela, de costas, dentro do arco.
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O atirador correu preocupado. – Tudo bem? – questionou. – Não estou enxergando nada, Dunga, mas tudo bem – respondeu o arqueiro ainda sem fôlego, os horizontes subitamente enegrecidos. Embora ainda não soubesse, Dunga havia chegado ao time para atuar pela fugacidade de uma temporada. Com a ideia fixa de jogar futebol, fora levado ao principal clube amador local pelo treinador da equipe: um maestro negro chamado Valdir Aguirre, que também era seu padrinho de batismo. Sua sina de conviver com as críticas iniciou na mesma jornada em que fardou pela primeira vez com as cores do Ouro Verde: duvidavam da sua capacidade de ser titular.
Com menos técnica do que os companheiros, praticava maratona nos treinamentos e, em campo, compensava a qualidade inferior correndo mais do que qualquer outro. Jovem, cresceu em meio ao time calejado de batalhas antigas e logo alcançou projeção. Em 15 de março de 1980, Dunga pisou na grama do Estádio 19 de Outubro de Ijuí para decidir e vencer o Campeonato Municipal relativo ao ano anterior. Foi seu último jogo pelo clube. Três dias mais tarde, apresentou-se no Internacional de Porto Alegre.
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Quinze anos depois das tardes em que aprimorava seus chutes além dos treinos, Dunga se via convertido em capitão da Seleção Brasileira e tinha de bater o pênalti de uma vida em outra tarde, agora estadunidense. Daniel, apenas o quarto goleiro do Ouro Verde de 1979, foi provavelmente o homem mais tranquilo do país enquanto o camisa 8 do Brasil se preparava para balançar as redes do italiano Pagliuca, pela final da Copa do Mundo.
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“Se eu colaborei com o Dunga? Pois eu desafio todo mundo que me pergunta isso: quero que descubram quantas vezes ele errou um pênalti. Vocês não vão achar”, assegura o ex-goleiro, certo de que ao menos nas cobranças importantes não se encontram remates desviados de Dunga. Hoje, Daniel Colle é o presidente do Ouro Verde, que ressurge após dezessete anos de inatividade e tenta revisitar as glórias de antes e depois de Dunga.
Ari Bertollo, agora uma espécie de oráculo verdoengo, comandava o futebol do clube nos anos 70 e 80 e recita de memória as datas e circunstâncias de cada um dos jogos importantes disputados pela equipe na época. Percorrendo as estradinhas do interior ijuiense numa Kombi com uma cortina de terra vermelha às costas, ele garimpava bons jogadores pela várzea municipal – o torneio de Ijuí, contando com algumas equipes de cidades vizinhas, era afamado no Rio Grande por contar com mais de cem times.
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Levando a sério a categoria “amadora” dos certames em que entrava, o Ouro Verde sofria com uma realidade de clubes que pagavam seus principais atletas por fora. A prática, até hoje comum, é causadora do vórtice que esvaziou completamente os torneios amadores do estado – o último Gauchão organizado pela FGF contou com míseras treze equipes. Ofertas de cheques em branco e até mesmo carros novos grassavam pelos porões do futebol ijuiense, tencionando sacar os jogadores da equipe verde e amarela do Bairro Assis Brasil, que acumulava títulos municipais e estaduais.
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O Ouro Verde atraía seus atletas pela organização com que era gerenciado. A chance de se destacar através das taças fazia com que muitos jogadores preferissem perder dinheiro para tentar alavancar a carreira. A força era evidente: sete disputas estaduais, três troféus. Os que procuram os tais três títulos estaduais do clube não os encontram na lista da FGF porque os auriverdes desprezavam o torneio oficial. Preferiam a quimera da Copa Arizona – um torneio que se propunha a ser uma espécie de campeonato brasileiro de amadores e, nas capitais, chegava a levar dez mil pessoas às canchas.
Bancada pela Souza Cruz, fabricante dos Cigarros Arizona, a competição reuniu 2.028 equipes de todo o país em 1975, ano da primeira estrela que flutua sobre o escudo do Ouro Verde. Elas se digladiavam em fases estaduais e regionais até restarem oito quadros para brigar pelo título nacional em São Paulo – o transporte e hospedagem ficavam por conta do patrocinador. Naquela temporada, o time disputou incríveis 102 jogos e perdeu apenas dois. Não foi campeão municipal porque o torneio só terminaria dois anos depois, mas ganhou a Copa Arizona no Estado e na Região Sul. Terminou sofrendo uma das únicas derrotas no jogo errado: as semifinais nacionais.
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A conquista brasileira seguiu faltando. Mas os títulos estaduais se repetiram em 1980, após a saída de Dunga, quando o time foi campeão sobre o porto-alegrense Safurfa do lateral esquerdo DUDA KROEFF, e em 1981, na temporada em que a Copa do Cigarro virou a Copa do Conhaque e passou a se chamar Dreher. O Ouro Verde ainda seria campeão de Ijuí mais três vezes, até que as diretorias antigas se exauriram e, sem renovação, o clube fechou as portas em 1993. Restou apenas um time de veteranos. Um grupo de amigos saudosos que se reuniam aos finais de semana, contando causos, jogando futebol e recordando os velhos tempos.
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No ano passado, os velhos jogadores decidiram continuar a história. Daniel Colle assumiu a presidência, recuperou a sede e lançou as bases para voltar a campo em 2010. Jogando a improvável Segunda Divisão do Campeonato de Ijuí, o Ouro Verde já garantiu o acesso. Venceu todos os jogos até aqui, mas não campeonou ainda: a final vem sendo adiada há três finais de semana por conta das chuvas. Um clube afeito aos títulos não se contém na expectativa de tornar a dar uma volta olímpica. “Só não podemos perder o jogo errado de novo”, diz Ari Bertollo. “Mas não vai acontecer agora”, garante. E bate três vezes na mesa de madeira.
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Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum
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Manifesto Rubro-Negro pela Democracia A comoção que varre o continente

19 Comentários Add your own

  • 1. Sanchotene  |  15/09/2010 às 08:20

    Futebol é isso! No campeonato mais endinherado do mundo, o inglês, os clubes amadores, semi-profissionais e profissionais se misturam. E a medida em que as divisões vão rebaixando, elas se regionalizam. Aqui, não se consegue…

  • 2. JB  |  15/09/2010 às 08:38

    IMPEDICORP extendendo os tentáculos pela imprensa bovina: http://www.correiodopovo.com.br/Esportes/?Noticia=196702

  • 3. Alexandre N.  |  15/09/2010 às 09:20

    Ah, o doce sabor da ironia…

    Pra maioria aqui que fala cobras e lagartos da RBS, vejam só aonde chegou a campanha Impedimentística:

    http://wp.clicrbs.com.br/clubedabolinha/2010/09/10/campanha-roth-de-bigode-no-mundial/?topo=2,1,1,,,2

    http://wp.clicrbs.com.br/clubedabolinha/2010/09/15/roth-nao-vai-aderir-a-campanha-do-bigode/?topo=77,1,1

    É o fim dos tempos! Corrão! hahahahahaha…

  • 4. Ferreira  |  15/09/2010 às 10:56

    Até que tem umas “jeitosinhas” no tal BLOG DA BOLINHA!

    Certo que o CUNEGUNDES brocava! (abraço, Franciel!)

    Tomei um cagaço quando abri o Correio do Povo hoje de manhã, e lá estava a montagem do SÍ SE PUEDE do Sexy Roth.

  • 5. gilson  |  15/09/2010 às 10:59

    #3, sobre as cobras e lagartos da RBS sugiro uma olhada também no Weissheimer e no Cloaca.

  • 7. Cunegundes - Novo Sócio da Folgada do Russão  |  15/09/2010 às 11:19

    eu carcava.

    adorei o post, fodebol é isso, não esse capitalismo que a rede grobo quer vender, fodebol é do povo, é do interior, é do bairro, é o esporte em que os amadores e os profissionais se igualam, pois o que vale é bola na rede, falei bonito, quack.

  • 8. FERN  |  15/09/2010 às 11:26

    EI SOM testando, UM DOIS…

  • 9. Álisson  |  15/09/2010 às 11:28

    Morri de rir em ver a campanha do Impedimento na contra-capa do Correio!

    Demais gurizada!

  • 10. Norteña  |  15/09/2010 às 11:42

    Nenhum post sobre o aniversário do Gremio???? Impedimento colorado ao extremo. Larguei.

  • 11. Logan  |  15/09/2010 às 11:57

    Roth disse não ao bigodão, #ImpedFAIL

  • 12. Herege  |  15/09/2010 às 12:13

    Campanha Robinho de Bigode!

  • 13. marlon  |  15/09/2010 às 13:38

    até MEL GIBSON já BIGODOU:

    bit.ly/9fVju4

    Impedcorp extendendo seus TENTÁCULOS até Hollywood. Ceconello is the new Ted Turner [ns]

  • 14. Tiago Marcon  |  15/09/2010 às 14:55

    história emocionante, baita texto e documento

  • 15. Gregório  |  15/09/2010 às 16:13

    HAHAHAHHA ROBINHO DE BIGODE HAHAHAHAHHA bah muito boa

  • 16. arbo  |  15/09/2010 às 17:44

    OURO VERDE NO IMPEDIMENTO. lerei certo!

  • 17. Francisco Luz  |  15/09/2010 às 18:00

    Sensacional a história.

  • 18. dante  |  16/09/2010 às 10:27

    muito bom o post, parabéns, maurício.

  • 19. Chico  |  17/09/2010 às 00:54

    “A tarde morria com um céu preenchido por cores incendiárias. Em algum pulso ou parede das vizinhanças um relógio de ponteiros avançava para chegar às sete horas, iniciando a noite de um dia útil numa semana quente. Mas aqueles dois seguiam isolados num universo à parte, hipnotizados pela esfera de futebol”

    Sensacional velhinho. tive um flashback da minha infância. Verão, sol se pondo, e nós lá firme, jogando no meio da rua de paralelepípedo com umas golerinha de tijolo

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