A paixão de Rivo Bühler Júnior

20/08/2010 at 15:00 35 comentários

Um colorado embarcou num avião no exato momento da final da Libertadores da América e desafiou os avisos de apertar os cintos e desligar os aparelhos celulares. Pousou no Mato Grosso do Sul bicampeão da América, acossado por uma tripulação são-paulina.

Rivo Bühler Jr., um soldado colorado

Rivo Bühler Jr., um soldado colorado

Todo colorado sofreu durante a Copa Libertadores em 2010. No primeiro jogo, contra o Emelec, virando o jogo no final. Contra o Deportivo Quito, empatando um jogo fácil. Contra o Banfield, nem se fala. O Estudiantes distribuiu infartos e AVCs indiscriminadamente; o São Paulo disposto a mandar um sem número de colorados a sete palmos.

Eu mesmo sofri uma Babilônia vendo os jogos da semi-final numa tela de 3 polegadas na madrugada parisiense.

Mas ninguém sofreu como Rivo Bühler Júnior.

Ninguém, senhores.

Rivo Bülher Júnior é um grande amigo e colorado, sócio desde 1968. O curioso é que Rivo nasceu em 1973. Rivo Bülher Sênior, seu pai, sempre foi um sujeito muito ativo na comunidade gaúcha e da pequena Montenegro. Participou de muitas aventuras, entre elas, ajudar a levantar o Beira Rio com doações. Por isso, recebeu o título de sócio patromonial do Sport Club Internacional, uma modalidade que foi concedida somente naquela época e que se tornou raridade. Há alguns anos, Rivo Pai fez a gentileza de transferir o título patrimonial do Internacional para Rivo Filho, homenagem que inclui um lindo diploma impresso quando da inauguração do Beira Rio. Eu me orgulho muito de conhecer os Rivos e seu coloradismo que se mistura ao concreto do Beira Rio.

Além do título de sócio patrimonial, Rivo Jr. herdou de Rivo Sr. o bicho carpinteiro. Rivo foi guitarrista do conjunto Locomotiva por muitos anos, conheceu todo o Rio Grande. Viveu como músico profissional até decidir mudar de vida e se tornar publicitário. Trabalhou em agências conhecidas e abriu duas empresas próprias.

Mas os Rivos não param. A última dele foi largar a publicidade e se tornar agente autônomo de investimentos. Naturalmente para um Rivo, abriu uma nova empresa de gerenciamento do dinheiro alheio (não por acaso, a empresa se chama ATTIVO Investimentos, nome muito apropriado). Entretanto, gerir investimentos não é suficiente para aplacar o espírito inquieto deste cidadão risonho. Rivo decidiu abrir uma frente educacional da Attivo, para ajudar o brasileiro médio a lidar melhor com suas finanças pessoais, plano que incluiu palestras e cursos por aí.

Foi por isso que, no início do ano, Rivo marcou uma passagem para o dia 18 de agosto, às 21h40, com destino a Dourados, no Mato Grosso do Sul.

No dia 29 de julho, dia seguinte à classificação do Inter para as finais da Libertadores, recebo o seguinte email de Rivo, em meio a comentários sobre o jogo contra o São Paulo:

Eu tenho uma passagem comprada para de Curitiba para Dourados, olha o horário
Ida N.º do Voo Partida Chegada 5503 18/08/10 21:40
CWB 18/08/10 22:55
DOU

Achei divertido, imaginei que ele trocaria a passagem imediatamente, uma vez que a final da Copa contra o Chivas já estava agendada para o mesmo dia e horário. No dia 11 de agosto, dia do primeiro jogo contra o Chivas, Rivo revela que a situação permanece a mesma. “O Inter vai estar entrando no gramado e eu, num avião bimotor rumo a Dourados. Vocês conseguem imagina o meu desespero? CONSEGUEM?”, disse ele.

No dia seguinte à vitória colorada, um amigo pergunta se Rivo havia encontrado um jeito de trocar a passagem. Supresa geral: não havia saída.

Não existe solução, de Curitiba para Dourados só existe um vôo por dia da Trip às 21h40m. Pego um vôo de Porto Alegre até Curitiba às 18h40m e depois esse da Trip. Vou bater na porta (se tiver porta) da cabine e perguntar ao piloto se eu posso ver o jogo através do celular, vou estar ao lado da hélice, fico de olho, qualquer coisa eu desligo. Chego em Dourados às 22h55m, corro para uma TV.

Achei que o Rivo até foi contido com relação à situação. Eu, que em tese não tinha nada a ver com o pastel, ENTREI EM PÂNICO. Respondi:

FODA-SE A PASSAGEM, RIVO. SIMPLESMENTE NÃO VAI AO AEROPORTO, COMPRA OUTRA PASSAGEM, ISSO NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, QUE SE EXPLODA TUDO.

Rivo argumenta:

JÁ TENTEI, JÁ TENTEI, simplesmente não tem como eu chegar a tempo em Dourados se não for assim. Pego um vôo aqui em Porto Alegre às 18h40m, até Curitiba e depois esse vôo às 21h40, 21h40m, acredita nisso?????

Eu não acreditava. Sugeri que ele fosse de ônibus de madrugada, depois do jogo. Era impossível, Rivo precisava estar de manhã cedo em Dourados. Não aceitei:

RIVO, FAZ ALGUMA COISA. EU NÃO VOU RELAXAR SE TU ESTIVER DENTRO DE UM AVIÃO COM O INTER SENDO CAMPEÃO DA LIBERTADORES. NÃO É JUSTO.

O amigo responde na maior calma, com a maturidade de um mártir. Destaco um trecho em negrito:

O avião comporta 39 passageiros, representando os 39 títulos gaúchos e tem duas hélices, será que não é um sinal do Bi da libertadores? Se esse é o meu destino, vou ter que ir. Mas concordo contigo, não é justo.

Absolutamente tenso e transtornado com a situação, aceitei o destino de Rivo. Na noite de quarta-feira, me preparei para abastecê-lo de informações diretamente dentro do estádio. Às 17h36, recebo o primeiro torpedo:

Já estou no aeroporto… Não consegui ler nada sobre o jogo. Se ler, meus olhos enchem de lágrima. Tu és colocado, apaixonado como eu, esta emoção irracional tenho certeza que tu entendes.

Eu entendia. Respondi:

EU TO TREMENDO DE NERVOSO, RIVO. AGUENTA AI, MEU VELHO, ESTOU CONTIGO EM ESPÍRITO. SEGURA FIRME.

Às 18h10, novo torpedo:

Não esquece de passar relatos do jogo.

Respondi no estádio:

TÔ NO ESTÁDIO, GUARDANDO O TEU LUGAR. VAI DAR TUDO CERTO.

Rivo entra novamente em contato às 20h55:

Cheguei em Curitiba. 21h40, voo 5543 para Dourados. 1h50m de voo. Inter 4×0 Chivas.

Times em campo, 21h50, o maldito do Bautista boicotando o hino brasileiro, e recebo nova mensagem do amigo:

Estou dentro do avião da Trip. Não consigo conectar a Gaúcha. É foda. Vou ficar incomunicável. Me informa do andamento do jogo.

Eu estava à beira da morte no estádio, não me liguei de checar as mensagens do Rivo. Só fui olhar no intervalo, quando o placar era de 1×0 para o Chivas. Achei que seria uma bruta sacanagem informar um cidadão à bordo de um bimotor que o Inter estava perdendo e que a final da Libertadores estava indo para a prorrogação e, Deus que me perdoe, pênaltis. Me calei. Abri a minigarrafa de vodka, aquelas de hotel, que contrabandeei para dentro do estádio (FOI MAL AÊ, BRIGADA MILITAR E CBF), e decidi beber pelos dois.

Enquanto minhas pernas tremiam na arquibancada, Rivo perambulava pelos corredores do bimotor da Trip em busca de sinal do celular. Entrou no banheiro, nada de sinal. As aeromoças pediram duas vezes que “os passageiros” desligassem o celular durante o voo. “Eu rezava. Ligava o celular e olhava para a hélice”, me relatou Rivo na manhã de quinta, já bicampeão da América.

O avião não caiu, mas uma escala inesperada em Cascavel foi salvadora. Assim que o avião tocou com as rodas no chão, Rivo ligou o celular e tentou acessar a Rádio Gaúcha pela web. Era intervalo e descobriu que o jogo estava 1×0. Logo depois, o segundo tempo começou e Rivo recebeu um torpedo da esposa avisando do gol do Sóbis. Por causa do delay, a mensagem chegou antes da narração no rádio, que o amigo ouvia ainda dentro do avião. Enviei um torpedo também:

Tá 1×1 pra nós. O jogo é nosso. Fica gel.

Ele responde imediatamente:

Meu deus. Paramos em Cascavel e até agora não sabia de nada. Dai liguei o celular na Gaúcha e tava 1 a 0 Chivas. Dai tenho essa notícia tua. Não posso estar com o celular ligado.

O avião decolou de Cascavel rumo a Dourados e Rivo seguiu com o celular ligado em busca de sinal – em vão. Abordou as aeromoças pedindo informações. Argumentou que o piloto tem comunicação via rádio e certamente teria informações do jogo. Elas não foram solidárias. “Não tem comunicação com o mundo nesse trajeto?”, perguntou, já irritado. “Não”, disse a aeromoça, seca de vida, de humanidade, de coração.

De repente, o copiloto saiu da cabine. Um japonês gordo. Rivo pergunta se ele tinha como, POR FAVOR, descobrir o resultado do jogo. O copiloto japa faz um doce, mas, depois de alguma insistência, atendeu ao pedido e volta com a informação, desanimado: “Parece que tá 3×1 ou 3×2. Acabou, o Inter é campeão”. Rivo relaxa. Mas tem a perspicácia de fazer uma última pergunta ao japa: “Tu é são-paulino, né?”. “Sim”, respondeu o copiloto maldito.

“O avião não caiu, o Inter não caiu, apenas lágrimas dos meu olhos”, relatou na manhã de quinta, em novo email. No pouso, Rivo recebeu três torpedos meus:

2×1 pra nós. Damião. É bi.

3×1, Giuliano. Vai acabar. É lindo demais ser colorado.

ACABOU. INTERNACIONAL BICAMPEÃO DA AMÉRICA.


Em Dourados, os colorados haviam fechado uma quadra inteira para fazer festa (o Mato Grosso do Sul está infestado de gaúchos). Por certo, não sabiam que Rivo tinha chegado lá. Se não, teriam entregue a chave da cidade.

Toco y me voy.

Alexandre de Santi

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Entry filed under: Colunas, Libertadores.

Confissões de um homem sem caráter Redescobrindo a grandeza

35 Comentários Add your own

  • 1. clarissa  |  20/08/2010 às 15:05

    bah. chorei.

  • 2. EGS  |  20/08/2010 às 15:11

    Bah, que texto.

    O Rivo merece cada linha, é colorado de fé.

  • 3. Fernando Cesarotti  |  20/08/2010 às 15:13

    Tá alto o nível hoje, heinhô?
    Puta merda, um camarada meu palmeirense passou por uma dessas quando ganhamos a Libertadores. Detalhe: em 1999 não era tão fácil, ao menos em tese – digamos que o Rivo voltou uns anos no tempo durante a viagem

  • 4. Silvia  |  20/08/2010 às 15:18

    quer casar comigo?

  • 5. Álisson  |  20/08/2010 às 15:18

    Lindo lindo.

  • 6. Álisson  |  20/08/2010 às 15:21

    To falando com um amigo gremista no msn. T R A N S T O R N A D O.

    Demóóóis!

  • 7. Juliana  |  20/08/2010 às 15:21

    Bonita história.

  • 8. matheus  |  20/08/2010 às 15:26

    incrível.

  • 9. Álisson  |  20/08/2010 às 15:30

    D’Alessandro na seleção argentina.

    D’Alefarsa, aliás.

  • 10. Caue Fonseca  |  20/08/2010 às 15:38

    Agora imagem a UCS, que marcou vestibular para o dia e horário do jogo contra o Barcelona.

    Eu, fosse colorado, faria mais um ano de cursinho.

  • 11. douglasceconello  |  20/08/2010 às 15:38

    Aeromoça AMARGA.

    Baita relato, Santi.

    Aguante Rivo, copeiro e VOADOR

  • 12. Gustavo  |  20/08/2010 às 15:39

    Que demais. Esse é o tipo de narrativa que me faz ter orgulho do futebol – não essas briguinhas de “meu time é melhor que o teu”. Abraço, Santi!

  • 13. Rudi  |  20/08/2010 às 15:42

    Caue, amigo meu deixou de fazer uma prova na faculdade e REPETIU A MATÉRIA por ser no mesmo dia do jogo contra o Barcelona (AIEC a distância, por isso provas aos domingos)

  • 14. Patricio  |  20/08/2010 às 15:44

    lacrimejei muito. maior texto, maior história.

  • 15. Caue Fonseca  |  20/08/2010 às 15:53

    #13

    Não esperava menos.

    Agora, no caso da UCS, antes de não fazer a prova, eu ia colocar fogo na faculdade.

  • 16. Alexandre de Santi  |  20/08/2010 às 16:04

    Valeu, pessoal. A história se escreveu sozinha, não fiz esforço nenhum. Só relatei os fatos.

    Atualizei um parágrafo confuso, não estranhem a mudança.

  • 17. Alexandre N.  |  20/08/2010 às 16:23

    Porra, caralho, putaquepariu o féladaputa do guarda que me multou ontem! Vocês estão inspirados demais hoje!

    Este texto, assim como o do Franciel só pode ser definidio da seguinte forma: Sensacional! Porra, fechem a internet hoje. Nada mais tem sentido depois destes dois textos!

  • 18. Alexandre N.  |  20/08/2010 às 16:30

    Ah, a propósito, perdão pela empolgação… rs

  • 19. Henrique  |  20/08/2010 às 17:16

    Aqui no Mato Grosso teve carreata em Jaciara, me contou um amigo gremista triste da vida, Mas aqui em Cuiabá nada, tentaram fazer uma bagunça no Centro, mas a maldita polícia não deixou, quando é campeonato paulista do Corinthians pode, carioquinha do Flamengo nem se fala, mas Libertadores do Inter não. É uma pena os gaúchos terem dominado só o interior do estado, e aqui na Capital esse bando de idiotas!!

  • 20. Guto  |  20/08/2010 às 17:17

    Que texto…me emocionei pelo amigo, mesmo sendo gremista.

  • 21. Lol  |  20/08/2010 às 17:23

    Devo admitir que o texto foi muito bom. A parte das chaves da cidade me arrepiou.

  • 22. Tiago Marcon  |  20/08/2010 às 17:37

    Du caralho. Inescapável amor ao clube do coração.

  • 23. Gerhardt  |  20/08/2010 às 17:39

    quando um texto muito bom narra um fato único assim ele perde as cores da rivalidade. como na propaganda da ceva, P E R F E I Ç Ã O !

  • 24. almilano  |  20/08/2010 às 19:15

    sensacional!!!

  • 25. cassiano  |  20/08/2010 às 20:13

    grande texto!!!!!

  • 26. Junior  |  20/08/2010 às 23:04

    Du caralho. Inescapável amor ao clube do coração. (2)

  • 27. Guilherme  |  21/08/2010 às 08:56

    Muito bom!

    Fora do assunto, esses argentinos são muito burros. Merecem as décadas de fila. Convocar o Dalessandro e não o Conca é sacanagem…

  • 28. Milton Ribeiro  |  21/08/2010 às 14:07

    SENSACIONAL. MESMO.

  • 29. Milton Ribeiro  |  21/08/2010 às 14:09

    SENSACIONAL. MESMO.

    Achei que não seria interessante e comecei a ler meio sem vontade.

    Grudei. Li duas vezes. Muito bem narrado.

    Abraços.

  • 30. Cássio Teixeira  |  21/08/2010 às 14:35

    Isto é real pq no domingo que antecedeu o jogo estive com o Rivo durante uma festa de um familiar meu. Disse para ele não viajar! O cara tava indignado,”P” da vida, não havia faltado a nenhum jogo no Beira-Rio, mas não tinha o que fazer, precisava embarcar neste maldito vôo, neste bendito horário! Colorado Bicampeão! Grande abraço Rivo, belo texto!
    Saudações Coloradas!

  • 31. Godo  |  21/08/2010 às 14:36

    “FOI MAL AÊ, BRIGADA MILITAR E CBF”

    Uma CAMISETA assim, por favor.

  • 32. alexandre r  |  21/08/2010 às 16:43

    Sensacional mesmo.

  • 33. Luís Felipe  |  21/08/2010 às 20:02

    mas que grande texto, senhor.

    top 10 imediato do Impedimento.

  • 34. Aeromoça gentil  |  23/08/2010 às 00:32

    Muito bom, mas aeromoças podem reclamar!! 😀
    Portal Meio Aéreo

  • 35. Riviane  |  26/08/2010 às 12:56

    Parabéns pelo relato, mas vou contar um pouquinho do outro lado da história. A não ida do Rivo ao Beira Rio proporcionou a ida de mais um colorado na linha sucessória, o sobrinho e afilhado dele, que com 11 anos, viu seu time ser Bi da Libertadores e todas as outras taças levantadas nesse tempo.
    Se o Rivo tiver 10 filhos, não terá um tão parecido com ele como o Mateus, que rezou o tempo todo entre o gol do Chivas e do Sobis, que entrou em desespero e mobilizou metade de Montenegro para conseguir carona para ir ao jogo, que pulou vibrou e amou mais ainda o tio parceiro. Um detalhe importante…o pai do Mateus é gremista…Mas a mãe e o irmão seguem o sangue rubro!!!

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