O grito mais alto em Brasília

13/08/2010 at 14:46 18 comentários

Quando acordei em Santa Maria, na manhã de ontem, as indicações do temporal que se aproximava mandavam para longe qualquer possibilidade de cor no céu. A parte de cima da vida não passava de um pano cinza. No entanto, ao caminhar pela cidade apenas um artefato riscou de forma distinta o opaco celestial – uma bandeira do Inter, assustadoramente vermelha e viva, orgulhava os moradores de uma janela qualquer. Nem cheguei a cogitar que fosse um pesadelo. Sabia que tudo seria assim desde quando estive em Brasília e vi o Inter passar pelo São Paulo com uma derrota.

Meu proposto fim no Planalto Central, onde fiquei por quase uma semana, nunca foi acompanhar o futebol gaúcho de um prisma distante do pago ou ser aprendiz de carpinteiro em Taguatinga. Mas como a partida movimentava todos os meus poucos contatos – inclusive os da capital nacional – não sobrou outra a não ser o arrastamento para um recinto que exibisse a Libertadores da América naquele dia que aparentava ainda uma inocência definitiva. E que cenário achamos, por Dios.

O nome, Xis Calota. A peculiaridade, ser um dos pouquíssimos lugares que vendem o maior aglomerado alimentar gaúcho. Em Brasília, uma cidade estranha, que tem asas mas não voa e que tem ipês que não derretem com os trinta e cinco graus de agosto, um lugar assim só poderia reunir os forasteiros que têm um mesmo ponto de partida. E, como pude perceber só por aquela noite, trata-se de um ambiente quase que exclusivamente freqüentado por gaúchos. Mais além do Xis Bacon de cada dia, pacotes de erva-mate e potes de nata se encontram na mercadoria. Todos artigos raros no mercado brasiliense. Mas ao Inter, enfim.

A minha tranqüilidade se devia ao pensamento de que aquela Libertadores se encaminhava para ser furreca demais. Mexicanos entrando a partir das oitavas-de-final, o Nacional uruguaio vendendo uma derrota a menos de dez pesos, argentinos que destinaram todas as fichas ao Estudiantes de La Plata e brasileiros que, mesmo vencendo, seguiam desencantados. Ou desencantado estava eu com o futebol, possibilidade mais provável que o meio, o destino e os acontecimentos recentes estão aí para servir como motivos.

E foi no Xis Calota, situado em algum ponto de Brasília que jamais saberia encontrar, que surgiu a Libertadores de 2010. As manifestações bairristas – algo mais compreensíveis do que se fosse em Porto Alegre, já que 2000 quilômetros de distância geram sintomas mais sinceros -, a confiança e a concentração absoluta dos que vestiam vermelho dizimaram com qualquer chance de permanecer alheio. Antes de qualquer outra coisa, explico que a sensação é complexa de se esclarecer: não se trata de inveja ou de não reconhecer o tamanho do rival, mas talvez se assemelhe com a surpresa que certos momentos provocam ao, enfim, acontecerem.

E, como todas as grandes coisas que acontecem, houve impressões para permanecer na memória – a mais forte delas, por motivos óbvios, os gritos que os colorados da mesa mais próxima lançavam em direção ao cosmos, passando sempre pelo meu ouvido. E não houve, naquela noite brasiliense quente e de vento agradável, grito mais alto. Nada semelhante ocorreu na festividade mais pomposa da Asa Sul e tampouco o berro indignado que veio da favela Estrutural alcançou tamanho impacto. Para os que já viveram de alguma forma o futebol gaúcho, não havia nada mais relevante naquela noite.

Os que ouviram o grito, compreenderam. Se, poucos anos antes, pensar em um Internacional com possíveis dois títulos continentais e uma conquista no além-mar era a mais alta das fantasias, acabou-se o sonho. Todas as ideias que pude confeccionar na infância sobre a grandeza no futebol gaúcho desfaleceram em Brasília. Não é que tenham sido substituídas, só se acabou uma lógica antiga. Por isso que, ao contrário dos gremistas que haviam superado 2006 sem maiores ferimentos e que mantiveram as esperanças após a semi-final, não vi nada de novo no amanhecer cinzento de Santa Maria. Para mim, a definição havia chegado em Brasília, quando vi o Inter passar pelo São Paulo com derrota.

Saludos,
Iuri Müller

Anúncios

Entry filed under: Clubes, Libertadores.

Da ponta direita para a lava candente Mais dois que retomam o caminho do bem

18 Comentários Add your own

  • 1. Rudi  |  13/08/2010 às 14:52

    Genial

    E com orgulho digo, eu estava lá (a mão que não foi recortada na foto é minha)

  • 2. Cunegundes Formal e Cortêz  |  13/08/2010 às 14:59

    a vida é mesmo um oficial de justiça com roupa de couro justinha batendo na sua porta todo dia com uma intimaçao nova e um chicotinho, quack

  • 3. m  |  13/08/2010 às 15:08

    algo estranho acontece na extrema direita dessa foto.

  • 4. Rudi  |  13/08/2010 às 15:13

    sifudê m… eu tava com a mão fechada pq nesse momento foi um lance de perigo que não deu em nada…

  • 5. Vinicius  |  13/08/2010 às 15:14

    Brasília é tão estranho, que o Brasiliense tem uma camiseta a base de ROCK.

  • 6. Cunegundes Formal e Cortêz  |  13/08/2010 às 15:19

    Rudi, como diria o locutor do CAMPEONATO BRASSSILENHO NOVENTISSSEIS para super nintendo, PERIIIIIIGO! CABEZADA! OE GOLEIRO!

  • 7. Ernesto  |  13/08/2010 às 15:38

    Cunegundes, vai chutar um ovo na ilha, leque!

  • 8. arbo  |  13/08/2010 às 18:02

    não li ainda, mas o cara da foto parece o PAUL

  • 9. Eduardo  |  13/08/2010 às 19:34

    tchê, cada vez que leio um texto do Iuri tenho vontade de comprar MAIS UMA camisa do GRÊMIO. por mais na m3rda que possa estar.

    “Todas as ideias que pude confeccionar na infância sobre a grandeza no futebol gaúcho desfaleceram em Brasília.”

    isso que TU NÃO TEM 20 anos, Iuri….
    imagina eu, que a primeira vez que pisei no Olímpico, foi para ver as cores do Peñarol, e as bandeiras amarelo-pretas tremulando !!!

  • 10. Rudi  |  13/08/2010 às 19:45

    como diria o mestre guihoch, brasilia eh uma cidade que para ir a esquerda voce dobra a direita

    e eh a mais pura verdade

  • 11. Felipe (o catarina)  |  13/08/2010 às 23:45

    acabei de chegar de Brasília, depois de dois dias em um curso da Secretaria de Comunicação da Pres. da República. Ontem (quinta) assisti o Avaí bater o Santos por 3 a 1 num bar temático de futebol (Sociedade Futeboleira) lá na “Capitar”. Acompanhou-me nessa batalha o nobre impedimentense Rudi, sujeito gente fina e pé quente que pude conhecer pessoalmente.

    agora, vamos fazer espetinho de franguinhos (FRAJOLA, 2010) no jogo de volta na Ressacada. Já estou reservando minha passagem para Lima ou Quito, venha o que vier.

  • 12. !!!!  |  14/08/2010 às 10:51

    Ya sé: no era el mejor plan. Había, como mínimo, mil cosas más importantes que hacer por esas horas. Una, una auténtica pasión: ir a patinar sobre hielo, una actividad apasionante. Otra: disfrutar un video que me regalaron con las ocasiones desperdiciadas por el Guille Franco en el Mundial. Aunque, claro, duraba como tres horas y, la verdad, no estaba suficientemente preparado para semejante trago.

    Entonces, hice lo que un futbolero de pura cepa debe hacer un miércoles por la noche. Fútbol. Se trataba, claro, de la primera final de la Copa Libertadores, aunque los equipos parecían una burla a la extraordinaria historia de esta legendaria competición. Bueno, en realidad, ya se había venido un poco abajo años antes, cuando los conjuntos aztecas comenzaron su participación… Pero la culpa no es de ellos, claro. El problema es que alguien, alguna vez, los invitó. Y todos saben cómo siguió esta historia. De tropiezo en tropiezo. Se habrán creído que podían jugar al arte del balompié como suelen hacerlo los sudamericanos. Es lo que había: Chivas era uno de los sorprendentes finalistas.

    Sí, ya sé, de sólo nombrarlo es abrumador. Primero, lo primero, se llama Guadalajara este conjunto. Y tiene la heroica, nacionalista y sublime intención de no reforzar jamás sus filas con hombres foráneos. Es decir: se niegan en tener a un jugador de fútbol. Un brasileño, un argentino. A lo sumo, un uruguayo. Nada de ello: los hombres chocan de frente a la pared con su sanísima intención de jugarse la vida con once exponentes de la ascendente escuela mexicana. Toques, gambetas, lujos, voracidad ofensiva y derrotas en continuado. Pero el problema no es de Chivas.

    Al menos, no en exclusividad. Porque el adversario también es una ofensa a la historia magnífica de Brasil. Tanto es así, que es un conjunto surgido en Porto Alegre, que casi se cae del mapa. No es “brasileño”… Es como definir como “estadounidense” a un nacido en Miami. Podrán tener los mismos derechos, hasta el mismo documento, pero no es lo mismo. Hay que ser muy precisos.

    Y si se advierte que sus figuras son dos jugadores argentinos llamados D’Alessandro (se cansó de fracasar en Europa) y Guiñazú (lo único que se conoce de este noble volante es su estrafalario corte de pelo), ya estábamos en presencia de una auténtica lucha de titanes. Debe haber sido la peor medición televisiva de la historia. Tanto, que en el entretiempo vi, de reojo, las tres primeras opciones desperdiciadas por el Guille en su brillante participación mundialista.

    Fue lógico el fiasco. Tanto como los goles: de cabeza. Algo que, extrañamente, no suelen utilizar estos dos elencos maravillosos. Lógico, también, fue el resultado. ¿Alguien hubiese imaginado un triunfo de once gladiadores mexicanos contra once (supuestos) brasileños y argentinos? Sólo un fanático. O un loco. O un demente.

    Hasta el entrenador de Inter (que así se llama este equipo…, como el campeón del mundo italiano) se dio cuenta a tiempo y sacó del campo de juego días atrás al afamado Roberto Pato Abbondanzieri. Claro: sus manos ya sólo se ven seguras sobre el volante de su auto importado. Eso sí: hay una buena y una mala noticia. La primera, que el primer juego ya terminó. ¿La mala? Bueno, todos saben cuál es…

    FONTE: GOAL.COM ES-LA

  • 13. Glauco  |  14/08/2010 às 10:53

    Parabéns pelo texto!!!

  • 14. Glauco  |  14/08/2010 às 10:57

    #12.

    Llooooooooooraaaaaaaaa!!!

  • 15. antonio  |  14/08/2010 às 18:03

    xis calota eh um xis que o dono eh um gordao gaucho que eh uma lata, nao eh ?

    na extrema direita da foto parece que tem alguem tocando uma.

  • 16. Canalla  |  14/08/2010 às 19:43

    http://www.ole.com.ar/futbol-ascenso/titulo_0_316768366.html

  • 17. Paul  |  14/08/2010 às 22:10

    Hahahaha!
    Até a patroa concordou Arbo, mas não sou eu não.

  • 18. Schmidt  |  17/08/2010 às 13:58

    Como resposta ao #12, faço minhas as palavras de FRANCISCO CANARO:

    Envidia, envidia siente el que sufre,
    envidia siente el que espera
    viendo que la vida entera
    no es más que desilusión.

    Envidia, envidia siente el cobarde,
    envidia siente el que muere,
    el que mata y el que hiere,
    porque no tendrá perdón.

    Envidia, envidia amarga y traidora,
    envidia que grita y llora;
    la que causa más dolor
    es la envidia por amor.

    Yo he nacido bueno,
    yo he nacido honrado,
    mi cabeza altiva
    nunca se ha doblado.

    Para el compañero
    fue mi brazo amigo
    y estreché la mano
    del que fue enemigo.

    Nunca el triunfo de otro
    me trajo una pena,
    ni sentí amargura
    por la dicha ajena;
    y hoy, ante el espejo
    cruel de mi pasado,
    veo que cambiado
    me tiene el rencor.

    Envidia, envidia tengo en mi seno;
    envidia del que a tu lado
    es feliz por ser amado
    mientras muerdo mi pasión.

    Envidia de mis desvelos
    envidia como el vencido,
    porque jamás ha tenido
    en la vida una ilusión.

    Envidia, envidia que me condena
    a vivir con esta pena,
    porque no hay mayor dolor
    que la envidia por amor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Subscribe to the comments via RSS Feed


Especial – Libertadores 2011

A bola da ImpedCopa

Toco e me voy

  • Ok, o Botafogo foi líder por um gol de saldo, mas vocês entenderam. Fora que o Barcelona tinha feito frente aos car… twitter.com/i/web/status/9… 2 hours ago
  • Próximo passo é ficar um mês inteiro dizendo "Grêmio deu sorte" e se surpreender quando for choro e ranger de dentes nas semifinais. 2 hours ago
  • Líder de um grupo com Botafogo, Estudiantes e Atlético Nacional; eliminou Palmeiras e Santos jogando melhor: "Zebra". Nunca aprendem. 2 hours ago
  • RT @butterfutebol: Existe o título da Libertadores. Só um leva. E existem as noites de Libertadores. Essas têm muitos donos. E podem durar… 11 hours ago
  • RT @2010MisterChip: Te vendieron que el Real Madrid había igualado un RÉCORD MUNDIAL el pasado domingo? Pues te engañaron. Y mira que te lo… 17 hours ago

Feeds

web tracker

%d blogueiros gostam disto: