Notas do Ascenso

28/07/2010 at 06:00 36 comentários

Buenos Aires vai além de La Boca, Nuñez e Boedo. E La Boca, Nuñez e Boedo têm algo a mais do que Boca Juniors, River Plate e San Lorenzo, futebolisticamente ainda falando. Em meio aos pesos do futebol da Primera, dos grandes que monopolizam os melhores jogadores e as maiores parcelas da torcida argentina, vive e está o Ascenso, esta dimensão paralela. Mesmo que as existências pareçam brumosas, clubes como Platense, Almagro, Almirante Brown e Nueva Chicago sempre fizeram parte da tradição futeboleira de Buenos Aires – com paixão fervorosa para os próprios aficionados ou como um elemento ruidoso do cenário para os alheios.

.É difícil imaginar essa fragmentação do futebol por bairros que sucede em Buenos Aires. Seria como se Porto Alegre suportasse vinte clubes – e, no caminho entre o Gasômetro e a Avenida Praia de Belas, se erguesse um novo estádio, assim como nas cercanias do Centro e ainda outro em Ipanema, quase colado ao rio. Na Capital argentina, são muitas as canchas e muitos os quadros – de modo que o opção pelo futebol não se limitou nunca às equipes ditas vencedoras, que transpassaram o cenário nacional e se fazem conhecidas muito longe do país. Os demais se aglomeram nas divisões inferiores, formando o conteúdo do Ascenso portenho.
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E, como acontece por todo o globo, muitos dos clubes que por toda a vida foram pequenos e nunca saíram dos limites do bairro são tão ou mais antigos do que os cinco grandes do país – Boca, River, Independiente, Racing e San Lorenzo. Um exemplo é o Estudiantes de Buenos Aires, um clube de cento e onze anos que, a princípio, fincou residência no centro da Capital Federal. No entanto, ao longo de mais de um século, o Estudiantes nunca venceu um campeonato na primeira divisão, embora tenha militado na elite por boas temporadas em tempos remotos. Hoje se encontra na Primera B argentina, algo como a terceira divisão.
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A devoção aos clubes “de fora do eixo” se explica pelo quão tradicionais são as pequenas instituições da cidade. O Platense, de 1905, deve a sua fundação a uma vitória de um cavalo chamado Gay Simon no velho Hipódromo Nacional. Tudo porque um grupo de amigos havia recebido a indicação de apostar tudo o que tinham no animal – provavelmente a sugestão veio de um barbeiro, esses seres que entendiam de carreras mais do que ninguém – e, com a vitória, receberam 445 pesos, uma exorbitância para a época. O Platense, que veste marrom e branco, soma mais de cinqüenta temporadas na elite e, apesar de alguns anos mais gloriosos, nunca deixou de ser um time dos arrabaldes, mais precisamente da localidade de Vicente López. O presente do Platense também se dá na terceira divisão.
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Se boa parte dos históricos clubes menores da Grande Buenos Aires ou conseguem manter uma vaga na primeira divisão (casos de All Boys, Argentinos Jrs, Banfield) ou decaem sem freios, como os citados no parágrafo anterior, o que ocorre é uma Nacional B – o primeiro nível do Ascenso, que equivale a segunda divisão – com poucas equipes metropolitanas. Entre os vinte times da Nacional B, estão presentes quadros de Tucumán, Córdoba, San Juan, Entre Ríos, Mendoza, Mar del Plata, Rosario e Santa Fé, por exemplo. Da Capital, apenas cinco estão presentes na tabela da segunda divisão, que começa no dia cinco de agosto: Almirante Brown, Chacarita Juniors, Defensa y Justicia, Deportivo Merlo e Ferro Carril Oeste. Hoje, é contada a história do Ferro.
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Club Ferro Carril Oeste
Dos trens, que riscavam o solo argentino de Ushuaia a Salta, nasceu o Ferro Carril Oeste no bairro de Caballito, em Buenos Aires. Apoiado na companhia que deu o nome ao clube, o Ferro construiu inclusive a sua primeira sede social a partir das oferendas dos vagões – a partir das caixas que sobravam na viação, os primeiros sócios ergueram um casebre que passou a guardar as cores do clube que viria a ser um dos maiores do país. Do 28 de julho de 1904, a data da fundação, até a temporada de 1911, o Ferro vestiu branco e vermelho – a partir da década de dez, instituiu o verde que, na linguagem ferroviária, significava via livre.
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O vínculo com a ferrovia também rendeu uma área para a construção do estádio, investimento feito pela própria companhia, que buscava incentivar a prática de esporte entre os trabalhadores. O primeiro e mais difundido foi o futebol, mas o Ferro se diferenciou em Buenos Aires justamente por lograr destaque em modalidades diversas – nos anos oitenta, foi campeão sul-americano no handebol, no basquete e no vôlei. Inclusive o futebol do clube correu riscos de ser extinto em 1932, quando parte dos diretores sugeriram fusionar o departamento do Ferro com o do Chacarita Juniors, também do bairro de Caballito. Se concretizada a mudança, nasceria uma das equipes mais fortes da cidade – mas já haviam duas identidades formadas, e a ideia não evoluiu..
A organização econômica do Ferro inclusive pôde manter o clube vivo e forte mesmo quando as ferrovias deixaram de movimentar mesma plata e a mesma gente em Buenos Aires. Tanto que a época de ouro dos verdes de Caballito veio nos anos oitenta, período em que os dois títulos nacionais foram conquistados pelo clube. O primeiro chegou de forma invicta em 1982, ano em que o futebol não parou apesar da eclosão da Guerra das Malvinas. Depois de despachar o Talleres de Córdoba na semi-final em que o placar geral terminou em 8-4 para os verdes, na final o derrotado foi o Quilmes, que, mesmo segurando um 0-0 em casa, levou 2-0 quando o Ferro foi mandante. Foi a vitória do estilo futebolístico do Ferro que, já retranqueiro, havia sido vice-campeão no ano anterior.
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Dois anos depois da primeira conquista, o Ferro bordou a segunda estrela acima do distintivo. E, se o título não foi intocável como o de 82, já que a equipe verdolaga perdeu para o Huracán uma das partidas das oitavas-de-final, o campeonato foi ainda mais glorioso. Tudo porque, no dia 24 de maio de 1984, a representação do Ferro Carril Oeste fez, provavelmente, a mais majestosa partida que a instituição conheceu: em um Monumental de Nuñez abarrotado, enfiou três gols a zero no River Plate de Francescoli como visitante. Era a primeira partida das finais, e o Ferro já havia garantido o torneio. Na volta, vencia por 1-0 quando uma confusão resultou em um incêndio nas arquibancadas – a partida foi interrompida e o Ferro declarado campeão.
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O inferno, assim como para tantos outros, chegou para o Ferro nos anos noventa. A partir de 1996, os investimentos rarearam e o clube nunca superou a décima colocação na tabela. A crise culminou com o rebaixamento em 2000, mas não era o fim do suplício: em 2002, foi declarada a falência, e o Ferro perdeu parte da estrutura também nos demais esportes. Por quatro temporadas (2002-2005), privatizou o futebol profissional e vagou até pela terceirona, da qual retornou em 2003. Desde então, disputa a Nacional B e, a partir de agosto, renasce a esperança daquele trem voltar a passar pela estação de Caballito.
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Saludos,
Iuri Müller
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Entry filed under: Pela América, Reportagens.

Chivas e U, para repetir a Espanha (?) À deriva

36 Comentários Add your own

  • 1. dante  |  28/07/2010 às 09:37

    iuri mestre.

  • 2. Cunegundes, o mulato frajola  |  28/07/2010 às 09:39

    o ferro é um time pra quem joga de pau duro

  • 3. Paul  |  28/07/2010 às 10:10

    Esse relato do Iuri me lembrou aquele filme Luna de Avellaneda (Clube da Lua, aqui no Brasil).
    Apesar de não ser sobre futebol, é um belo retrato dessas histórias de apogeu e posterior ruína dos clubes de bairro de Buenos Aires.

  • 4. Rudi  |  28/07/2010 às 10:11

    E graças ao Iuri já encontrei um time pra torcer na Nacional B

    AGUANTE FERRO

  • 5. Eduardo  |  28/07/2010 às 10:18

    Grande clube. Assisti a um show do Iron Maiden no estádio do Ferro Carril em 2009. Histórico ver o Bruce entrando no palco com a bandeira britânica, elevando a temperatura na plateia que gritava em uníssono “Arrentina! Arrentina!”

  • 6. Rudi  |  28/07/2010 às 10:23

    OFF

    Genial montagem do Uol pro chororô do Biba Ceni

    http://esporte.uol.com.br/album/100728quadrinho-semi_album.jhtm#fotoNav=11

  • 7. Phoenix  |  28/07/2010 às 10:34

    Aquele de pé à esquerda na foto do time é o ZENON?

  • 8. Cunegundes, o mulato frajola  |  28/07/2010 às 10:54

    7

    Acho que é o BELCHIOR

  • 9. Eduardo  |  28/07/2010 às 11:51

    #3 pensei a mesma coisa enquanto lia o texto.
    filme triste mas muito bom, aliás como são os filmes do Ricardo Darín, que deve ser irmão do Gabriel Heinze (que possivelmente pinta os cabelos)…

  • 10. Rudi  |  28/07/2010 às 12:04

    TÕ NERVOSO POR HOJE A NOITE, PORRA!

  • 11. Godo  |  28/07/2010 às 12:19

    iuri mestre. [2]

    Fico imaginando quando o guri foi maior de idade e puder tirar sua CARTA de direção.

  • 12. Matheus Martins  |  28/07/2010 às 12:30

    tava sentindo falta falta destas historinhas da pelota sul-americana

  • 13. Álisson  |  28/07/2010 às 12:32

    iuri mestre. [3]

    É bacana ver que em todas as divisões do futebol profissional argentino militam clubes de tradição e torcida.

    E os tais clubes empresas, já apareceram por lá?

  • 14. Francisco Luz  |  28/07/2010 às 12:46

    iuri mestre. [4, 5, 6, 7 e 8]

    Essas histórias dos cuadros chicos argentinos são sempre muito legais.

  • 15. arbo  |  28/07/2010 às 12:54

    buenos aires é mesmo uma cidade à parte, afinal.

    clube da lua, um belo filme mesmo.

    e nesta copa falei, eduardo. darín=heinze

    aliás, vi a soledad villamil, do segredo dos seus olhos, no show do drexler.

    aliás II, baita show fez ontem o kevin johansen (q é argentino, apesar de ter nascido no alasca). o cara é engraçado pra caralho. e canta bem. a banda é muito boa. não conhecia.

    aliás 3, guiñazu fora hein. q coisa.

  • 16. Cunegundes, o mulato frajola  |  28/07/2010 às 13:06

    clube empresa é coisa de burgues broxa

  • 17. J Petry  |  28/07/2010 às 13:10

    Arbo sempre aumentando os page hits do clicrbs em dia de jogo importante do Inter.

  • 18. arbo  |  28/07/2010 às 13:14

    é o q nos resta né, jesus.
    boa sorte lá.

  • 19. Gabriel R.  |  28/07/2010 às 13:43

    To nervoso. Acho que se o colorado meter um gol cedo se lava, o SPFW tá muito desestabilizado. O mais dificil é abrir os trabalhos.

  • 20. Junior  |  28/07/2010 às 13:46

    Para variar, ótimo texto do Iuri. Acredito que a única outra cidade em que ocorra isso que existe em Buenos Aires, com vários clubes de bairro e com torcidas fiéis e relativamente grandes é Londres.

  • 21. fino  |  28/07/2010 às 13:52

    Amigo meu, torcedor de resultado, sempre regula a utilização da churrasqueira do seu ap para assistir aos jogos…

    hoje mandou email botando pilha pra assar uma carne e secar o colorado. mau sinal. colorado 3 a 0.

    to todo cagado

  • 22. Álisson  |  28/07/2010 às 14:25

    Onde deu isso que guiña nãpo joga?

    Que tá todo cagado sou eu.

  • 23. J Petry  |  28/07/2010 às 14:26

    Álisson, desconsidere. Arbo nunca leu a história do menino e do lobo.

  • 24. arbo  |  28/07/2010 às 14:30

    só lobo e uvas. infância dionisíaca. ns

  • 25. J Petry  |  28/07/2010 às 14:32

    Acho que essa era com uma raposa, Arbo. Me lembra de te dar um livro do La Fontaine de presente qualquer dia. 🙂

  • 26. Gabriel R.  |  28/07/2010 às 14:32

    O romulo não fala nada com nada, o fino entregou os pontos e o carlos sumiu. Mal sinal…

  • 27. dante  |  28/07/2010 às 14:41

    “Amigo meu, torcedor de resultado”

    gremista, né. oiasdjaoishf

    ***

    bá, entrei aqui só pra TACAR FOGO [melhor expressão] e dizer que “um amigo meu, gremista, acabou de me dizer no gtalk que tá todo cagado”, mas nem precisou, o fino acaba de se entregar. alksjflk

  • 28. arbo  |  28/07/2010 às 14:54

    bá, tinha o livro de capa dura do la fontaine. misturei com a história dos três porquinhos, q muito ouvia tbm.

    lembrei agora de outra, tinha o disco (minni lp). a história do MACACO SIMÃO. foi roubar cachos de banana e ficou preso no PICHE.
    kfajkgkgj a velha cantava “macaco simão, vai ver a lição, macaco simão, vai ter o q é bão”, ou algo assim.

    sinal, gabriel.
    ns

  • 29. Eduardo  |  28/07/2010 às 15:23

    Haverá vuvuzelas no Beira Rio?

  • 30. dante  |  28/07/2010 às 15:35

    hoje, só haverá vuvuzelas [ou seja, CORNETAS] FORA do beira-rio.

  • 31. Guto  |  28/07/2010 às 16:30

    27. dante | 28/07/2010 at 14:41

    “Amigo meu, torcedor de resultado”

    gremista, né. oiasdjaoishf

    É o fim do poço ver um COLORADO dizer “gremista, né” ao se citar “torcedor de resultado”.

  • 32. Guto  |  28/07/2010 às 16:31

    *fundo do poço, no caso.

    bah, que frescura é essa de comentários rápidos demais?

  • 33. rafael botafoguense  |  28/07/2010 às 18:49

    carril passou o ferro no flu e no vasco em 85,na libertadores.

  • 34. aloncio  |  29/07/2010 às 23:47

    sacaninha, você matou a pau, ou melhor,a ferro. belo texto, manda outros nesse naipe. dá-lhe Vitória o Barrraquistão vai tremer dia 4 de agosto.

  • 35. Paulo Torres  |  30/07/2010 às 11:09

    Assisti um Ferro Carril Oeste 2×0 Platense em 2007, no simpático Estadio Ricardo Etcheverri, a cancha do Ferro. Cerca de 2 mil pessoas numa noite de sexta, cantando sem parar. Memorável espetáculo.

    Dois videozinhos que fiz lá:

    Essa música é a melhor, de uma vez só xinga Vélez e Platense e lembra dos feitos dos anos 80, copando o Maracanã:
    “Platense nunca va a entender, porque nunca lo vivió
    porque nunca ganó nada, la puta que lo parió
    En el barrio de Liniers, aunque ahí se festejó
    siguen siendo igual de amargos para nada les sirvió
    De pendejo voy con vos, porque vos sos mi pasión
    nosotros te alentamos del tablón
    ustedes pongan huevo y corazón
    La alegría de este barrio, nunca la voy a olvidar
    cruzamos la cordillera y copamos el Maracaná
    y vos Cacho fuiste parte, de todos esos momentos
    y por eso yo te aliento hasta el final…”

  • 36. E SE...  |  31/07/2010 às 22:31

    O Cruzeiro deveria sair do Morro Santana e se transferir para a Vila Cruzeiro, de onde seria o legítimo representante arrabaldino.

    O São José já é o time dos passo-d´areienses.

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