Considerações derradeiras sobre a aventura mundialista

22/07/2010 at 16:24 19 comentários

Bem longe do calor das vuvuzelas, da esplendorosa orla de Durban e das vinhas e do turismo SENSUAL da Cidade do Cabo, a famosa QUEBRADA de Bartolomeu Dias, está Johannesburgo. Fiquei sabendo, pelos jornais e por dois jogos que, me juram, assisti no estádio, que houve Copa do Mundo também por lá.

Mas não acredito, pois diversos foram os fatores que deixaram Joburg afastada do clima de Copa do Mundo. As longas distâncias, a paranoia da segurança e o consequente pouco contingente de turistas não permitiam sentir a atmosfera da mistura de povos, etnias e desvarios sexuais que ao longo dos tempos nos ensinaram que predominava nas cidades-sedes de um Mundial. Talvez aqui no Brasil, em 2014, venha a ser aboslutamente igual em São Paulo, por exemplo.

Primeiro, é preciso que se diga que em praticamente nenhum lugar das grandes metrópoles temos a sensação de estar em continente africano. Percebemos que estamos sendo deliciosamente abraçados pelo berço da civilização apenas quando nos deparamos com um louva-deus do tamanho de um rato ou quando uma ave do porte de uma galinha pousa no teu QUINTAL. Certo dia, quando estávamos em Durban, um inesperado sopro de vuvuzela na manhã arvoroçou dois MACACOS, que saíram correndo pelo telhado da casa em frente. Mas isso não é comum. Não há guepardos vendendo balas nas sinaleiras ou elefantes vestindo aventais de papelão com “vendo ouro”. Por tudo isso, fui obrigado a me afastar da cidade para vivenciar toda a selvageria da natureza e travar embates físicos inolvidáveis com animais de grande porte. Também consegui presenciar uma terrível desavença entre dois tigres siberianos que lutavam pela sobrevivência, representada em um naco de MAMINHA. Pretendo inscrever esse último vídeo em Gramado.


Impedimento adere à causa das panteras negras

Mas sigamos. Johannesburgo é uma cidade que segue o padrão de organização das metrópoles norte-americanas, sendo circundada por vias expressas. E não haveria como ser diferente. Qualquer deslocamento para algum ponto significativo consome no mínimo uns 20 minutos andando por uma freeway da vida. Não há transporte público eficiente e os táxis operam quase na marginalidade. Inexiste TAXÍMETRO  e os valores precisam ser previamente acertados. Houve registros de tentativa de assalto e não deve ser raro que tu acabe de cuecas dentro de alguma caverna do LESOTO. Quem não tem carro com GPS está a um passo de perder-se para todo o sempre e passar a vida fritando linguiça no Soweto.


As enormes distâncias de Johannesburgo

Como a cidade esparrama-se por uma imensidão de terra (área de 1.644,96 m², contra 1 522,98 de São Paulo, 891,82 de Berlim e 496,82 de Porto Alegre, pra vocês terem ideia), os turistas permaneciam esparsos nos mais LONGÍNQUOS pontos, o que comprometia a tão aguardada convivência entre os povos e todas as suas manifestações de nudez, física e moral. As fan fests de Johannesburgo foram um fracasso. A foto abaixo foi tirada durante Chile e Suíça – devia ter umas catorze pessoas. Não há uma zona de bares, algo imprescindível na civilização moderna. Tínhamos os restaurantes do sofisticado shopping do caríssmo e chique bairro de SANDTON, além de outras poucas opções, todas em centros comerciais, o que acabava constrangendo quem desejava chinelear um pouco e fazer um piquenique à luz do luar.


O jogo mais atraente não estava no telão

Como já disse em algum saudoso post, não se vende bebidas em supermercados, nem em postos de gasolina, QUITANDAS ou armazéns. Encontra-se o combustível da vida apenas nas lojas especializadas, que fecham religiosamente às seis da tarde. Certo dia, era feriado e todas cerraram suas cortinas às TRÊS da tarde, deixando-me com as calças na mão e um estranho gosto de ausência de álcool na língua. E não se pode beber em público, o que por algumas vezes me obrigou a ficar trancado dentro do carro, com uma viatura da polícia estacionada bem ao lado, sob os olhos sedentos da autoridade. E as fan fests?, perguntarão os mais afoitos. Bem, as fan fests e os jogos são eventos da Fifa, que, vocês bem sabem, tem sua própria lei –  a lei do cão, talvez.

Paradoxalmente, a noite de Johannesburgo é VIGOROSA. Não para mim, que, como diria um amigo do Alegrete, não gosto de beber em pé porque não sou CAVALO, mas para a juventude e seu desejo indestrutível de “sair para a BALADA”. Nas festas, sim, o clima de integração parece atingir os níveis mais DRAMÁTICOS, com gente de toda a sorte conhecendo outras línguas e NOIVANDO ao som dos mais diversos idiomas. Embora não sejam tão GARBOSAS quanto as brasileiras, as sul-africanas – em especial, as negras – também possuem aquele poder transcedental de fazer parar o mundo com um simples deslocar de ANCAS.

Outro ponto louvável é o preço da bebida. Com trinta reais, tu acaba a noite abraçado em Jesus e latindo em frente à casa do Mandela. Uma long neck sai menos de quatro reais, bem como uma dose de tequila. Whisky com Red Bull, a nova febre da juventude, depois da mola maluca e do POGOBOL, custa uns cinco mangos. Mas eu tenho respeito por aqueles que perderam a vida na época da lei seca e só admito que algumas pedrinhas de gelo violem meu SCOTCH.

Para que vocês sintam a intensidade da noite joburguense, certa noite fomos a um RESTAURANTE, que com o passar das horas transmuta-se em casa noturna. O ambiente é um lixo e é impossível locomover-se com dignidade – tudo que se espera de uma festa de ARROMBA. Lá pelas tantas, no avançado da hora, uma gordinha resolve tomar a única atitude possível, subir no balcão e rebolar, mandando os melões pelos ares em movimentos que deixavam feixes de luz arrastando-se pelo cortina de fumaça dos cigarros. Um bando de bagaceiros, e isso independe da geografia, começou a exigir, aos gritos: “Show your tits”. Mas um, mais bêbado, atrás, perdeu-se nas curvas e começou a entoar, de olhos fechados, um “shooosholoza…“. Melhor backing vocal, pior noção de tempo e espaço.


A orla de Durban acalentava o coração das almas puras

Todos os guias de viagem diziam que, enquanto a Cidade do Cabo era uma espécie de mistura entre o Rio de Janeiro e a Serra Gaúcha, Johannesburgo era um lugar para se chegar, pegar um táxi e saltar fora. Passei cerca de duas semanas por lá e, quando fui a Durban, onde fiquei apenas um dia e meio, LACRIMEJEI pelo meu infortúnio. Mas não é pra tanto. Se me perguntassem se vale a pena conhecer Johanesburgo, não hesitaria em recomendar. Há um pouco de tudo que a maioria das pessoas procura quando viaja, mas infelizmente não havia clima para uma Copa do Mundo.

Para encerrar os relatos da terrade Madiba, não posso deixar de manifestar que minha intenção de manter uma colaboração regular durante o Mundial foi soterrada por uma rotina extremamente cansativa de trabalho, além das dificuldades de instalar uma estrutura decente em outro país e dos quase insolúveis problemas de conexão.

Talvez no Brasil a gente se adapte um pouco mais rápido.

Saudações,
Douglas Ceconello.

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Entry filed under: Copa do Mundo.

Hora de apostar no sangue novo Um breve momento de avaliação

19 Comentários Add your own

  • 1. mardruck  |  22/07/2010 às 17:03

    Fiquei quatro dias em Johannesburg sozinho, carro alugado sem GPS e não frito linguiça em Soweto.

    Mas achei Durban do caralho. Pena que as histórias são impublicáveis.

  • 2. Francisco Luz  |  22/07/2010 às 17:27

    A foto da Fan Fest JOBURGUENSE é genial.

  • 3. arbo  |  22/07/2010 às 17:42

    “Mas eu tenho respeito por aqueles que perderam a vida na época da lei seca e só admito que algumas pedrinhas de gelo violem meu SCOTCH.”
    hauhauha

  • 4. catarina cristo  |  22/07/2010 às 18:11

    Ceconello dando a real sobre a Copa da África.

    (na parte do latindo na frente da casa de mandela eu assustei a galera aqui de tanto rir)

  • 5. Paulo Torres  |  22/07/2010 às 18:13

    Tambem aluguei um carro sem esse tal GPS, sozinho, e voltei são e salvo de Joanesburgo. E a única contramão que peguei não foi culpa da mão inglesa, foi por tentar dirigir ao mesmo tempo em que decifrava um mapa das freeways joburguistas.

    Douglas, vc tava indo pros jogos do Brasil naquele ônibus fantasiado de bandeira do RS?

  • 6. douglasceconello  |  22/07/2010 às 18:16

    Mardruck, é que tu é GALO. uahuas

    Sim, Paulo. Mas não estávamos só nos jogos do Brasil. Fomos numa cacetada de partidas.

    Entrei apenas nos dois primeiros jogos do Brasil e paguei do meu próprio bolso. Queria ter ido a outras partidas, mas sempre coincidia com horário de trabalho ou era em outras cidades.

  • 7. Private Joker  |  22/07/2010 às 18:34

    humor negro mode on – Sabe o que o rotweiller falou pro pitbull? Você não vai acreditar, comi a mulher do Bruno! – humor negro mode off

  • 8. Lucas Cavalheiro  |  22/07/2010 às 19:23

    Caí na gaitada umas 5 vezes lendo o texto, mesmo já tendo ouvido algumas histórias do próprio vivente nas pós-impedNuas (recomendo)

  • 9. Gustavo Cavinato  |  22/07/2010 às 20:11

    Melhor texto que li este ano. Parabéns, Douglas, de coração.

  • 10. Daniel Galera  |  22/07/2010 às 20:11

    Xorei.

  • 11. Bruno Galera  |  22/07/2010 às 20:41

    Lindo relato. Gay Talese já deixou seu herdeiro.

  • 12. fino  |  22/07/2010 às 21:32

    Perdi, mas vocês também irão perder.

    Na segunda foto fiquei pensando “porra, pq o douglas ta imitando a ESTATUA DA LIBERDADE”

    iopjhas7dfhawfrt890jasfdjiopasfdkpmasfdmkasfd

    só depois de ler a legenda ficou claro

    aguante impednua!

  • 13. Felipe Z.  |  22/07/2010 às 22:05

    Que relato!!! Que relato!!!

    Sensacional.

  • 14. izabel.  |  23/07/2010 às 00:44

    êeee, obrigada pelo relato.
    nem sabia que existiam essas fan fests. tou achando que a copa aqui pode ser uma coisa boa.

  • 15. Leo Garcia  |  23/07/2010 às 10:53

    AYOBA!

    De fato, estive na Copa e só fiquei 1 dia em Joburg. Mas rodamos cerca de 5000 km no país. Experiência pra lá de antropológica e DO CARALHO.

  • 16. Paulo Torres  |  23/07/2010 às 11:01

    Vi o ônibus-bandeira-do-RS estacionado num posto de gasolina, quando chegava ao Soccer City para Brasil x Costa do Marfim. Pensei em ir lá perguntar pelo Ceconello do Impedimento, não o fiz pela urgência de assistir os instantes derradeiros de Itália x Nova Zelândia no telão daquela quermesse dos patrocinadores na entrada do Engenhão sul-africano.

  • 17. Frank  |  23/07/2010 às 12:05

    Bah, mardruck, ceconello, paulo torres, leo garcia… todo mundo descobriu que a África do Sul é logo ali e dançaram ao som do WACCA WACCA da Shakira…

    Enquanto isso, eu aqui nesse país tropical tendo que aturar as malas, sem alça e sem rodinha, da TV brasileira (aberta e fechada)…

    Invejei AFÚ…

    haiahsoifhs

  • 18. iurimuller  |  23/07/2010 às 23:57

    #17

    Pois é, até o MARDRUCK foi pra Copa. Evento mais BANAL.

  • 19. Bruno Stern  |  29/07/2010 às 15:36

    Joburgo é isso mesmo.

    A cidade é uma merda. Mas a Copa era lá( a maioria dos jogos).

    Pretória, Port Elizabeth, Duban e Cidade do Cabo eram bem melhores. Mas a porra do Brasil teve que jogar três vezes em São P…ops JOburgo.

    Ah. E no dia de África do Sul e França a fan fest estava bem diferente.

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