Deus não existe e usa vestido amarelo

07/07/2010 at 12:30 18 comentários

“Espere um pouco, ainda há luta em campo”, ouço uma voz desconsolada em kreyòl poucos segundos antes do gerador do Ideal Dance Club ser desligado. O juiz acaba de apitar o final da partida entre Uruguai e Holanda e as trevas repentinas refletem agora a imagem de duas dezenas de haitianos e um alagoano em pé, atônitos, aguardando o empate da Celeste.

O gol não veio, o jogo acabou, a Holanda passou, a energia findou e, cabisbaixos, deixamos um a um o pátio do Ideal Dance Club – não sem antes pagarmos os quinze goudes devidos pela gasolina usada no gerador.

“Ainda há luta em campo”. Aquela frase não saia da minha cabeça ao caminhar pelas ruas pedregosas de Tirivye. Sem saber, aquele jovem haitiano havia sintetizado a filosofia centenária da seleção uruguaia: enquanto houver Celeste “ainda há luta em campo”.

Chegar àquela conclusão não aliviara meu desapontamento. Éramos sete latino-americanos, passamos seis às oitavas, depois quatro, restou um e agora nenhum.  A Europa putrefata levaria mais uma. Passei naquele instante na frente de uma igreja evangélica e meia centena de fiéis cantava glórias ao Senhor alheios ao meu ódio. Cogitei entrar aos pontapés pela porta da igreja e gritar: DIOS ES FORLAN.

Aquela heresia – mesmo que não concretizada – deve ter enraivecido os céus, pois em represália uma chuva cortante começou a cair. Em poucos minutos, enormes poças de lama se formaram pelo caminho e fizeram com que a alça da minha sandália de couro se soltasse a todo instante.

Um detalhe insignificante, dirão vocês. Mas aquela sandália era meu último resquício de dignidade – e identidade. Explico. Num país onde todos me chamam de blan (branco), onde sou o outro, o opressor, confundido com dominicano, americano (e até holandês, vejam vocês), aquela sandália de couro comprada numa feira livre no agreste alagoano me recordava a todo instante quem eu era e de onde vinha. E ver agora sua alça não resistir às poças de lama das ruas da pequena Tirivye, me obrigando a parar, abaixar e encaixá-la de novo infinitas vezes, sob os risos e comentários jocosos de quem apreciava aquela cena deprimente se repetir a cada trinta metros, acabou com toda minha (pouca) moral.

Foi sob esse estado de espírito, já com um dos pares da sandália na mão, que ouço a voz de Billy Holliday ressoar atrás de mim:

– Você devia pegar uma moto, andando assim vai ficar doente.

Virei-me sem parar de caminhar. Era uma camponesa das montanhas, pele negra, cabelos trançados, vestido amarelo e uma bacia de roupas equilibrada na cabeça. Mirei-a por alguns segundos e, ainda aturdido pela suavidade da sua voz, respondi meio brusco num kreyòl arcaico:

– A chuva não está forte.

– Você não tem medo da água mesmo – disse-me sorrindo ao ver que metia o pé sem piedade nas poças de lama.

– Por que deveria?

– É suja.

– Se não faz mal para você, não vai fazer mal para mim – falei apontando com os olhos para seus pés descalços.

Ela sorriu então o riso eterno da compreensão feminina e juntou-se ao meu caminhar. Na verdade, ia um pouco mais à frente, como a indicar o melhor caminho a seguir, na experiência de quem conhece aquelas estradas desde tempos imemoriais. E me aguardava e me olhava e me sorria e nada falava.

Seguimos assim por um bom tempo. E quando já tinha certeza que aquela ternura me acompanharia por toda a vida, indicando-me o caminho com sua voz de Billy Holliday, ela rompe o silêncio:

– Você se incomoda se eu for mais rápido? É que meu bebê está com fome e me aguarda em casa para alimentá-lo – falou apertando a mão contra um dos seios.

Abri o primeiro sorriso do dia e disse-lhe que não havia problema, podia seguir adiante.

Aquele vestido amarelo foi se distanciando à minha frente até que a perdi de vista. A chuva havia cessado seu ímpeto, o céu já se abria e decidi calçar novamente minha sandália. Durante todo o caminho de volta para casa, a alça não se soltou mais.

(Mentira. Soltou uma duas ou três vezes. Mas já não tinha tanta importância.)

Thalles Gomes

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18 Comentários Add your own

  • 1. Lol  |  07/07/2010 às 12:48

    Não li o texto ainda. Deve até ser bom. porém o título é o único possível para um nerd que lê Nietzsche Sifilis para impressionar.

  • 2. Cunegundes, o mulato frajola  |  07/07/2010 às 13:39

    mas que merda

  • 3. matheus furtado  |  07/07/2010 às 13:47

    lol, nem leia então, é somente mais um texto meia boca do Thalles.

  • 4. fabio  |  07/07/2010 às 13:51

    O thalles é gênio total. Dizer o que de: “Cogitei entrar aos pontapés pela porta da igreja e gritar: DIOS ES FORLAN”

  • 5. arbo celeste  |  07/07/2010 às 13:59

    belas imagens, thalles. muito bom.

    acabou o jogo e nenhum sentido voltou a assolar minha cachola. se houvesse deus, ele tivera a oportunidade, e seria mais belo nos segundos finais. mas tbm, q egoístas, querermos deuses só pra nós. às vezes chove pra gente poder esquecer.

  • 6. Allan Garcia  |  07/07/2010 às 14:08

    “Às vezes chove pra gente poder esquecer”

    Bonito isso, Arbo!

  • 7. arbo celeste  |  07/07/2010 às 14:10

    achei bem MEIO meloso, allan. mas no momento tá passando. hehe

  • 8. izabel  |  07/07/2010 às 14:15

    clap, clap, clap.
    lindo esse texto, thalles. e o arbo falou bem: cheio de imagens. acho que essa é a maior virtude dos seus escritos.

  • 10. Lucas Cavalheiro  |  07/07/2010 às 15:10

    cheio de imagens. acho que essa é a maior virtude dos seus escritos.[2]

    Eu ia dizer exatamente isso. A gente lê imaginando tudo, cheio de detalhes, como num filme, mesmo sem ele nos dar muitos detalhes.

  • 11. Logan  |  07/07/2010 às 15:12

    Mas nós brasileiros somos maus perdedores, fato. Deu até uma pontinha de inveja quando vi os argentinos celebrando o retorno da seleção depois daquela ACACHAPANTE derrota de 4 da Alemanha. Fosse o Brasil, jogadores e comissão técnica teriam voltado debaixo de porrada mesmo.

  • 12. Eduardo  |  07/07/2010 às 16:36

    porra BLAN, vocês precisam publicar vários posts afudê no mesmo dia? não podiam guardar um para amanhã?

  • 13. Prestes  |  07/07/2010 às 22:01

    Só tem texto FODA nesse tal de Impedimento!

  • 14. Henrique  |  08/07/2010 às 03:55

    13#
    Concordo

  • 15. catarina cristo  |  08/07/2010 às 09:24

    Thalles é vidente.

  • 16. Ana Cecilia  |  08/07/2010 às 10:39

    Dessa vez vc me tocou o coração…

  • 17. Sofia  |  08/07/2010 às 10:55

    Thallão, querido, que saudades!!!

  • 18. Priscilla Camêllo  |  13/07/2010 às 14:28

    Orgulho de ser sua irmã!!!
    Simplesmente perfeito como tudo que vc escreve.
    Parabéns!!!

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