Como se tudo fosse uma obrigação

07/07/2010 at 06:00 36 comentários

Pode acender um cigarro de palha e se colocar apoiado num banquinho qual um PRETO VELHO e esquecer toda aquela história de racismo que é representada nos FOLHETINS televisivos. Pode também ignorar o teu professor do segundo grau a esbravejar sobre o comércio de escravos no Brasil. Nós sempre tivemos a Casa Grande, a senzala e os escravos furtivamente acochambrando as gordinhas branquelas de outrora, germinando todo um país que depois colocou a ferro e fogo a marca da negridão mesmo nos seus filhos de sobrenomes UCRANIANOS.

Mas na África do Sul tudo é diferente.

O racismo no país de Mandela é uma situação tão cruel e velada que brancos não falam dos negros e negros não se manifestam sobre os brancos. No Brasil, se um negro percebe estar sendo vítima de racismo, é bem capaz de amontoar seu algoz num canto e ensiná-lo a ser gente. O racismo, é claro, existe, mas é encarado de uma forma mais escrachada e, por isso, mais honesta.

Já em Johannesburgo é normal que um negro, ao perceber tua aproximação, te abra a porta do banheiro para tu entrares antes, sem te olhar nos olhos. Eles abrem as portas dos restaurantes. Dos hotéis. Os moçambicanos limpam teu jardim. Molham tuas flores. Com seu inglês enviesado, as diaristas não sabem onde se enfiar quando tu inicia um diálogo e pergunta sobre banalidades. Se tu dá um abraço e uma grana a mais por ela ser uma profissional espetacular, então ela suspira um “Oh, darling. Thank you so much” e bate com a mão fechada na altura do coração.

Certa tarde, caminhei durante meia hora por uma zona relativamente rica de Johannesburgo. Os únicos brancos que vi no caminho foram dois turistas brasileiros. Porque, ainda que o número de negros nos carros esteja subindo, a quantidade de brancos caminhando na rua ainda  é nula. No centro da cidade, uma espécie de Voluntários da Pátria maximizada, não vi sequer uma pessoa branca. Apenas negros nas lojas, nos restaurantes, trovando fiado embaixo das marquises, cuidando de suas vans, o meio de transporte mais popular, cozinhando sob o zinco de construções precárias. Muito se falou da violência na África do Sul, mas em nenhum momento me senti ameaçado. Talvez por ser Copa do Mundo, estado de exceção. Talvez porque sou praticamente um ZULU.

Os brasileiros racistas que vivem na África do Sul encontram lá um paraíso para deixarem o esterco escorrer por seus poros e bocas.

“Como tu acha ela a mulher mais bonita que tu já viu, se ela é PRETA?”

“Por que a gente tem que ficar aqui nesse lugar cheio de PRETOS?”

“O que vocês querem aqui, se nenhum PRETO vai poder ver a Copa no Brasil?”

Se a formação do caráter não foi eficaz, talvez um meio metro de linguiça PRETA no lombo ajudasse a encontrar a VERDADE.

Mas fato é que na maioria nós, nascidos na república do pandeiro, que não temos muitos pudores e ignoramos naturalmente os problemas alheios, chegávamos deturpando toda a situação. Rebolando no ziriguidum, cumprimentando com abraços os negros que nunca sequer foram olhados nos olhos, éramos imediatamente bem recebidos. Um “oi” desencadeava uma conversa de vinte minutos sobre como Ronaldo está gordo e como era possível termos tantos “very nice players”.

O simples fato de respondermos a um cumprimento, esboçar um sorriso de passagem, era efusivamente comemorado, dentes à mostra para todos os lados. Um colega meu resolveu oferecer um casaco da equipe para o pessoal de um posto de gasolina que nos ajudou enormemente em certa tarde e a resposta foi um rio de lágrimas APARENTEMENTE sem propósito. Eles simplesmente esperavam que, após umas boas horas de mesuras e convivência, nós virássemos as costas e fôssemos embora, sem mais nem menos. Como se fosse apenas uma obrigação estar ali.

Saudações,
Douglas Ceconello.

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Entry filed under: Copa do Mundo.

EN VIVO: Uruguai x Holanda Deus não existe e usa vestido amarelo

36 Comentários Add your own

  • 1. Felipe (o Canoense)  |  07/07/2010 às 08:25

    É triste ver que algumas situações calamitosas no Brasil são ainda piores em várias partes do mundo…

    E fiquei sabendo de gente brasileira que foi pra ver a Copa e “a África BONITA”, ou seja, nada de negros, apenas turismo, vinhos, etc… É dose…

  • 3. Maurinho  |  07/07/2010 às 08:49

    Grande reportagem Presidente, bom ler algo nao formatado sobre a Africa Real.

  • 4. Jader Anderson  |  07/07/2010 às 08:59

    BAH

  • 5. Anônimo  |  07/07/2010 às 09:10

    escravosno?

  • 6. Zeka  |  07/07/2010 às 09:31

    Nao entendi o comentario do Catarina, sinceramente. Qual eh o teu conceito de fazer turismo? Acho muito pior fazer da pobreza, por exemplo, uma atracao turistica. Isso acontece no Brasil e acho o fim da varzea. Acho que gringo que vai pro Rio de Janeiro tem mais eh que ver praia, bunda, caipinha e nao trafico, favela e menino de rua.

  • 7. arbo  |  07/07/2010 às 09:33

    o catarina nem comentou ainda, zeka… aksjgkjk

  • 8. Zeka  |  07/07/2010 às 09:43

    canoense, catarina, africa, me confundo com essa geografia toda.

  • 9. Eduardo  |  07/07/2010 às 09:57

    parabéns Ceconello, relato interessante…
    fiz uma viagem de 22 dias férias pelo Peru, em 2005, por várias cidades e vi algo similar. mas era por pobreza. as pessoas não olhavam nos olhos quando pediam um troco (o qual faziam “de longe”) e principalmente, não se aproximavam. Quando algum metido a guia se aproximava, falando um bom dia em 9 diferentes idiomas europeus, se surpreendia com a resposta em portunhol daquele casal de brasileiros que mais parecia alemão…
    invejei (no bom sentido) essa tua viagem.
    conta mais aí…

  • 10. Tim Maia da Coréia  |  07/07/2010 às 10:03

    Lindo texto, Ceconello… e muito oportuno.

    Transmissão FIFA com a preocupação de filmar um negro e um branco torcendo pros Bafana Bafana claramente não passavam a realidade…

    Esperamos que com o passar dos anos e a negrada passando a vara na branquelada, e vice e versa, cada vez menos tenhamos que ver alguém baixar a cabeça pra outro simplesmente por ter uma cor diferente…

    Só sei que eu vi uma reportagem sobre a Miss Soweto e em breve estarei fazendo minhas expedições na busca eterna do mestiçamento desse mundão de Deus…

    E viva a canha!

  • 11. Tim Maia da Coréia  |  07/07/2010 às 10:07

    E sobre turismo, cada um vai conhecer o que quer, porra!
    Eu quando vou pra um lugar pilho de andar de ônibus, ir nos butecos baratos e ir pagar Pit Culer pra namoradas naqueles lugares que tem luz vermelha.

    Ver Casa Rosada em Buenos Aires? Torre Eiffel em Pais? Praça do Avião em Canoas? Ah… não fode! Essas cidades tem bem mais que isso pra oferecer!

    Ceconello sabe disso… por isso nós proporcionou esse puta relato!

  • 12. Cunegundes, o mulato frajola  |  07/07/2010 às 10:14

    tenho orgulho das minhas origens, quack

  • 13. Felipe (o Canoense)  |  07/07/2010 às 10:18

    #6

    Olha Zeca, se tu acha BALA ir conhecer um lugar sem realmente querer conhecer COMO É A PARADA, fica em casa!

    Tu tem um conceito sobre viajar para outro lugar, eu tenho um, o Tim Maldito da Korea tem outro, e assim que é… Só comentei sobre algo que ouvi e achei oportuno de falar, a partir do relato do Ceconello.

    Abraço.

  • 14. Tim Maia da Coréia  |  07/07/2010 às 10:20

    Aliás, no Rio de Janeiro… conheçam a Vila Mimosa.

    Fica a dica 😛

  • 15. Caetano Veloso  |  07/07/2010 às 11:12

    O negro é lindo.

  • 16. Lucas Cavalheiro  |  07/07/2010 às 12:14

    Baita relato.

    Acho que a adoração deles por brasileiros passa também pela seleção. Joel FROM THE MEDIUM Santana e Parreira fizeram bons trabalhos lá e, sendo “brancos” e sem preconceito com a seleção, ajudaram a construir essa imagem do brasileiro lá.

    Conta mais aí.

  • 17. Francisco Antero  |  07/07/2010 às 12:27

    Não conheço Johanesburgo, mas ouvi falar que é a cidade com mais negros dentre as metrópoles da África do Sul. Conheci a Cidade do Cabo, e lá se vê brancos nas ruas. Talvez porque Cidade do Cabo seja um lugar bem mais agradável para se caminhar que Jo’burgo. Os brancos que conheci, eu vi batendo papo com negros sem muito problema. Mas, claro, a mistura não era a regra.
    De qualquer forma, só vi a África Bonita, como disseram por aqui.

  • 18. Francisco Luz  |  07/07/2010 às 12:28

    Sensacional.

  • 19. Francisco Antero  |  07/07/2010 às 12:30

    O idioma também é um fator importante para descrever a distinção entre as cores por lá. Todo mundo fala inglês, mas só vi branco conversando com branco em Afrikans, e preto conversando com preto em Xhosa, ou algo parecido. Por outro lado, apesar de tudo ser ensinado na escola, não vi nenhum branco tivesse alguma fluência em Xhosa ou preto falando Afrikans.

  • 20. jorge ben  |  07/07/2010 às 12:35

    Negro é Lindo

  • 21. Bob Marley  |  07/07/2010 às 12:51

    Africa United

  • 22. Martnalia  |  07/07/2010 às 12:52

    Essa pretinhosidade!

  • 23. Felipe (o catarina)  |  07/07/2010 às 12:57

    #6
    #7

    pois é, eu tô aqui na minha e já tenho que ouvir sermão sem ter comentando nada. hehehe

    pois bem, sobre o relato do capo Douglas, só temos a lamentar que esse tipo de coisa exista em qualquer lugar do mundo. E como existe, meldeus…

    eu nunca nem cheguei perto da África do Sul, mas vendo as transmissões na TV e o próprio time dos caras, me dava mesmo essa impressão de que miscigenação não é muito o forte deles. Não lembro de ter visto mulatas (lembraria, com certeza) ou mulatos nas transmissão: ou era negrão ou era branquelo, sem meio termo.

    “Como tu acha ela a mulher mais bonita que tu já viu, se ela é PRETA?”

    quem disse essa frase só pode ser viado elevado ao quadrado.

  • 24. Junior  |  07/07/2010 às 13:42

    Ótimo relato, longe da cobertura superficial da grande imprensa.

  • 25. Logan  |  07/07/2010 às 15:05

    #19 A questão da lingua também serve como mais uma barreira, acho que faltou comentar um pouco sobre essas diferenças no texto, mas tá muito bom, no nível CECONELLIANO de texto.

  • 26. arbo celeste  |  07/07/2010 às 18:48

    sim, a auto-estima é rasa. piscicologicamente dá pra entender. cada um tem suas reações, mas eu seria um que ficaria mais na minha, numa função de raciocínio trabalhando mais ou menos nesses termos: “eles estão contra mim, embora eu saiba que não há motivo para que estejam. são ignorantes: quê me importam os ignorantes?” O resultado disso seria uma indiferença, talvez ressentida. Não é o caso relatado no texto, de uma quase submissão. Talvez se comparasse melhor, no Brasil, com o tratamento aos pobres (e sua noção própria de identidade). Mas, é claro, problemas distintos. Todos complexos.

    Fato é que vi na TV uma matéria de William Wack (é assim? O cara do jornal da blobo) e fiquei impressionado. Negro casar com branco é meio impensável. Certamente não nos sobra honestidade, são apenas contextos muito diferentes, Histórias diferentes.

  • 27. arbo celeste  |  07/07/2010 às 18:55

    GGGlobo

  • 28. col  |  07/07/2010 às 22:22

    Espetaculo de relato.

  • 29. arbo  |  08/07/2010 às 09:41

    e é impressão minha ou tem até uma bandeira brasileira nessa foto?

  • 30. Jean Mello  |  08/07/2010 às 10:59

    Puta merda…..cada vez melhores os textos dessa bagaça.

  • 31. douglasceconello  |  08/07/2010 às 12:23

    Felipe, na verdade era uma mulher falando.

    Mas as variáveis masculinas, igualmente racistas, também ABUNDAM.

    Bom que vocês curtiram, pessoal. Não me sentiria bem se me omitisse de relatar esse tipo de coisa.

  • 32. Cassiano  |  08/07/2010 às 13:47

    Relato forte para os mais “conservadores”, se assim posso dizer…….
    Ótimo texto, porém triste por mostrar que um simples oi, ou um obrigado faça uma pessoa chorar, somente por ser tratada com o respeito devido e merecido….
    A campanhacontra o racismo da fifa em vez de mostrar isso, omite para parecer uma campanha linda e convincente (para os brancos)…

  • 33. Cassiano  |  08/07/2010 às 13:53

    # 6
    Moro no rj a 10 anos e existe um tour pros gringos conhecerem a Rocinha, trabalho em copa na maioria desse tempo que estou aqui e muitos nos perguntam onde tem o pózinho ou a ervinha, logo eles não veem isso, e sim procuram.
    E o texto fala sobre a mentira que nos é passada globalmente, como copacabana é a maior mentira após a pessoa chegar aqui e conhecer, praia suja, trafico, meninas de rua e as bundas do turismo sexual…

  • 34. Fanny Webber  |  09/07/2010 às 13:34

    Muito bom saber que o Brasil é o país da informalidade e da “bagunça”, que somos capazes de chegar na África e tratar todos de forma mais pessoal e mudar a realidade de alguns mesmo que por apenas alguns minutos. Essa que pode ser a nossa característica, muito maior do que a do povo alegre, a do povo afetuoso. Claro que temos a excessão, mas que não pode ser também tomada como regra.

    A pena é que a mesma informalidade nos crie a falta do mínimo de disciplina necessária.

  • 35. Helton Fesan  |  12/07/2010 às 17:32

    A Africa esta para o Brasil, como o Brasil esta para os EUA.
    Pelo menos é o que parece.
    Parabens pelo texto

  • 36. mau  |  19/07/2010 às 18:44

    Cacete de agúia Ceconello. E, só pra ajudar na discussão, o cara que faz turismo e consegue passar pelos lugares pobres sem ao menos prestar a atenção e lamentar, é um OTÁRIO sem tamanho. Devia morrer faminto e ter o Celso Roth como treinador de seu time pra ver o que é bom.

    Abraço.

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