Morrer pelo Brasil (no Haiti)

05/07/2010 at 06:00 26 comentários

Quatro haitianos morreram na última sexta-feira, dois de julho, depois que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de Futebol. Dois cometeram suicídio, um morreu de ataque cardíaco e o último foi esfaqueado numa discussão pós-jogo na Delmas, a avenida mais movimentada da capital Porto Príncipe.

A mesma Delmas que no último dia quinze de junho foi cenário de uma das primeiras celebrações festivas no Haiti depois do terremoto de doze de janeiro que matou mais de 300 mil pessoas e desabrigou outras 1,5 milhão. Sob as ruínas, sob o luto, sob a miséria, nas fuças das tropas de ocupação da MINUSTAH, centenas de haitianos e haitianas – homens, mulheres e crianças, muitas crianças – tomaram as ruas em plena terça-feira e comemoraram e gritaram e dançaram em êxtase semelhante a quem sobreviveu ao apocalipse ou foi campeão da copa do mundo. Tudo porque a seleção brasileira havia vencido por magros dois a um a Coréia do Norte em sua estréia no mundial.

As camisas e bandeiras brasileiras estão espalhadas e pintadas pelas casas, carros, motos, paredes e chão das ruas. “Eu sou fanático pelo Brasil” proclamam os haitianos quando o assunto é futebol. Os mais diretos dizem apenas: “Eu sou brasileiro”.

Essa identificação com a seleção canarinho não é de hoje – há relatos de que a eliminação de da Copa de 1982 foi seguida por uma grande onda de mortes e suicídios. Como explicar essa devoção? Alguns buscarão no caráter subversivo dos dribles, do improviso, da ousadia do futebol arte que um dia imperou na seleção brasileira – negra em sua maioria – elementos similares aos de 1804, quando se levou a cabo no Haiti a primeira revolução vitoriosa de escravos que se tem notícia na história da humanidade. Outros, menos pretensiosos, dirão apenas: “é o
futebol”.

Seja qual for o motivo, uma coisa é certa: algo está ruindo nesta relação. A utilização deste fanatismo para ajudar a legitimar a atual ocupação militar no país foi o primeiro sinal deste atrito. Não à toa, o exército brasileiro foi escolhido para coordenar as tropas da MINUSTAH que ocupam o Haiti desde 2004, mesmo ano em que o segundo sinal de rompimento na devoção canarinha emergiu. Em meio a uma série de ações violentas com vistas a esmagar a organização e mobilização popular, o exército brasileiro patrocinou a vinda da seleção brasileira para um amistoso contra a seleção haitiana em Porto Príncipe. Os jogadores tupiniquins, aqueles mesmos que um dia simbolizaram a rebeldia, a ousadia, a subversão, passeavam agora pelas ruas da capital haitiana em tanques blindados de guerra.

Dunga é o culpado da terceira decepção, não só pela seleção sem brilho que montou, mas pelo simples motivo de não ter convocado Ronaldinho. Wonaldinho, como os haitianos pronunciam em kreyòl, é o jogador mais popular no Haiti. Sua foto está estampada em boa parte das milhares de camisas amarelas à venda nas ruas e feiras livres do país. Kaká também possui seus seguidores, mas não há comparação. Talvez por Wonaldinho ser negro e subversivo (pelo menos quando está dentro das quatro linhas) e não o protótipo de bom moço branco, cristão e europeu que Kaká representa. O fato é que Wonaldinho já faz parte do imaginário coletivo haitiano e a sua não convocação é algo até agora inexplicável para a população da ilha.

Um programa de rádio ás vésperas do segundo jogo contra a Costa do Marfim exemplifica bem isso. O locutor recebia ligações dos ouvintes sobre os palpites para o jogo e em determinado momento uma criança liga. O locutor pergunta:

– Qual o jogador que você mais gosta na seleção?

– Wonaldinho, responde a criança.

– Mas o Wonaldinho não foi convocado!

Depois de alguns segundos de silêncio, ouve-se um “É, eu sei…”, numa voz que mistura amargura e incredulidade. Para salvar a entrevista, o locutor pergunta:

– E quem você acha que vai ganhar o jogo?

– O Brasil, claro!

– Gol de quem?

– Wonaldinho…

O futebol burocrático, a armação das jogadas a cargo de Lúcio (!) eDaniel Alves e um Kaká apático e transtornado foi esvaindo a cada nova partida aquele entusiasmo do primeiro jogo, até se chegar à fatídica sexta-feira, dois de julho de 2010. Num restaurante de fundo de quintal na pequena cidade de Tirivye, diante de uma televisão de dezenove polegadas, com a energia oscilando e a imagem chiando, dezenas de haitianos espremidos e taciturnos escutam o soar do apito final e um narrador descrente dizer em kreyòl: “o Brasil se foi”.

Há os que repetirão o clichê (tão conhecido entre nós) de que a desclassificação do Brasil foi uma coisa boa porque dessa forma o povo haitiano voltará sua atenção para os rumos que sua nação está tomando. Afinal de contas, há um país a ser reconstruído, uma ocupação estrangeira – fardada e à paisana – a ser deposta e eleições presidenciais previstas para o final de novembro. E toda essa decepção pode ser transformar em indignação e ação.

Os próximos meses mostrarão se essa previsão está correta.

Da minha parte, fico me perguntado o que seria dessa ilha se o Brasil fosse campeão em cima da Argentina com um gol de bicicleta do Wonaldinho no último minuto da prorrogação.

Thalles Gomes
Direto do Haiti

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Entry filed under: Copa do Mundo.

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26 Comentários Add your own

  • 1. wilson  |  05/07/2010 às 09:08

    Em Bangladesh tem um lance parecido. Quem nao torce pro Brasil, torce pra Argentina.”Nessa época do ano as ruas estão tomadas de bandeiras de Brasil e Argentina”, me contou um guri de lá pouco antes da Copa começar. Segundo ele, fã de Messi, chega a dar briga na rua entre “argentinos” e “brasileiros”.

  • 2. fabio  |  05/07/2010 às 09:50

    Thalles, simplesmente SENSACIONAL. Vida longa ao Impedimento.

  • 3. catarina cristo  |  05/07/2010 às 09:55

    Rapaz, não consigo entender.

    Suicídio? Não consigo entender.

    quando tiver oportunidade, explica mais porque os haitianos se suicidam depois de um jogo de futebol. Tenho certeza que é muito mais complicado do que só futebol.

    Confio no seu retrato.

    Abraços, Thalles!

  • 4. Cassol  |  05/07/2010 às 10:06

    Bah.

  • 5. Zé Carlos  |  05/07/2010 às 10:13

    Excelente !

  • 6. izabel.  |  05/07/2010 às 10:14

    muito massa, thalles.
    e sensacional a estratégia da Impedcorp de mandar um correspondente pra Africa do Sul e outro pro Haiti. não sei como os outros veículos não tiveram essa ideia.

    (eu só queria entender como diabos um alagoano com oclinhos de boiola foi virar correspondente no haiti)

  • 7. caco  |  05/07/2010 às 10:55

    Eu tinha uma imagem diferente da MINUSTAH, principalmente pelo que ouvi nas entrevistas dos comandantes da operação. Me pareceu que o que se combatia eram gangues armadas que tocavam o terror no país, se aproveitando da fragilidade do poder público.

  • 8. almilano  |  05/07/2010 às 10:56

    Bah.[2]

  • 9. Cunegundes, o mulato frajola  |  05/07/2010 às 11:14

    e a reportagem da EXPORTV sobre o paraguay glorioso!?

    LARISSITA IRÁ MATÁ-LOS

    a rede grobo é o último escroto de um pau contaminado com crista de galo que virou um cotoco

  • 10. Alexandre N.  |  05/07/2010 às 11:20

    (eu só queria entender como diabos um alagoano com oclinhos de boiola foi virar correspondente no haiti)

    BWAHAHAHAHAHA! Morrí!

    Dei risadas tão altas aqui por causa disso que acho que desta vez eu perco o emprego…

  • 11. FERN  |  05/07/2010 às 12:04

    TEAM
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    NATION

    pena que tem gente que ainda cai nessa balela televisiva…

  • 12. Álisson  |  05/07/2010 às 12:27

    Sensacional relato. Por textos como esse é que dá gosto frequentar esse SÍTIO.

  • 13. col  |  05/07/2010 às 12:37

    Bah. [2]

  • 14. Lol  |  05/07/2010 às 12:43

    Larissa Riquelme desnuda:

    Boa semana a todos!

    http://exitoina.com/larissa-riquelme-desnuda-en-revista-hombre/larissa-01/

    Boa semana a todos!

  • 15. Francisco Luz  |  05/07/2010 às 13:00

    Impedimento > Vida.

  • 16. dante  |  05/07/2010 às 13:20

    que sensacional.

    :~~~

    e também morri muito no “(eu só queria entender como diabos um alagoano com oclinhos de boiola foi virar correspondente no haiti)”. uhuhuhuh

  • 17. rafael botafoguense  |  05/07/2010 às 13:29

    haiti é roots

  • 18. Eduardo  |  05/07/2010 às 13:39

    Thalles,
    no dia da convocação, estava voltando do Brasil para os EUA (com a camisa do GRÊMIO). ao chegar no aeroporto de entrada nos EUA (em miami) um sujeito me abordou e perguntou: “Is Wonaldinho in?” não entendi o que o sujeito falava, com um sotaque estranho… ele bateu no próprio peito e apontou para o símbolo do GRÊMIO na minha camisa… Wonaldinho… Wolandinho, Brésil…

  • 19. Prestes  |  05/07/2010 às 14:35

    AGUANTE THALLES!!!

    GENIAL!

  • 20. Miguelão  |  05/07/2010 às 16:49

    Brasileiro adora querer ex-jogador na seleção, começando pelo técnico da mesma.Vai entender…

  • 21. Miguelão  |  05/07/2010 às 17:03

    De toda sorte, Dunga será execrado, pipocarão títulos “Fim da Era Dunga”, “Cagou-se a Seleção do Dunga”, “Seleção do Dunga dá vexame” e por aí afora, a crônica esportiva debulhar-se-á em lágrimas pela não convocação do Wonaldinho, do Falcão, do Zico e do Pelé. Proliferarão movimentos Felipistas, no pensamento mágico que trouxe Parreira de volta para 2006 e se rezará muito para que o Brasil caia num outro grupo-baba como em 2002. Ou seja, a vida segue.

  • 22. Cunegundes, o mulato frajola  |  05/07/2010 às 17:08

    o dunga e o parreira são dois CAGÕES, essa é a verdade

    nem retranqueiros sabem ser, por isso, tenho dito

    BATE NA MINHA BUNDA E ME CHAMA DE CELSO JUAREZ

  • 23. Gabriel R.  |  05/07/2010 às 17:24

    Alguem já viu isso?

    Bah, deprimente…

  • 24. froner  |  05/07/2010 às 22:46

    #11 [2]

  • 25. clara  |  25/07/2010 às 19:14

    nosa gue oro

  • 26. chargemania  |  03/09/2010 às 14:56

    Caramba, blog show de “bola” 😉

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