A queda do corvo Aguilar

27/02/2010 at 11:35 11 comentários

“Los amigos todos
¿Cómo explicar?
Que mi sufrimiento vem del Paraguay…”

Sombrero Luminoso

Santiago Aguilar nasceu durante as chuvas de dezembro que, ano após ano, caíam sobre a montanhosa Tacuarembó. Eram poucas as distrações no ocaso dos anos setenta para quem, por desventura, surgia no norte uruguaio. Para Santiago, desde as tardes mais abafadas da infância, a maior delas era o futebol. Filho mais moço de uma estirpe de torcedores do Peñarol, logo passou a desfilar pelas ruelas de paralelepípedo fervente com o manto aurinegro que ganhara do pai. Apenas o irmão desgraçava a família. Miseravelmente, Julio era do Boca e torcia inclusive com certo fervor. Culpa de um tio distante, que voltava de intermináveis viagens a Buenos Aires com causos fantásticos sobre a equipe azul y oro.

Quando criança, se limitava a atuar nas peladas dos potreiros. Tacuarembó nunca foi exatamente um berço de craques orientais, mas Santiago admirava os companheiros de jogo. Não possuía os mesmos atributos que credenciavam os demais aos postos mais cobiçados da cancha, de modo que foi destinado ao arco. Trajava sempre uma camiseta negra de mangas longas, com o escudo do Peñarol bordado no peito. Nem número havia. Mostrou-se, para surpresa generalizada no campinho, um arqueiro seguro. Não era alto, mas compensava com alguma agilidade. Ao fim de uma estressante tarde de um agosto da sua juventude, na qual dividiu as aflições entre o calor e uma desesperadora prova de matemática, Santiago realizou a partida monumental da sua vida. Bastou para que, em um município de trinta mil habitantes, alguém atentasse para o seu nome.

O próximo passo na sequência futebolística da cidade era, irremediavelmente, jogar no maior clube amador da região, o Cambalache – cujo campo quedava situado nas margens do Rio Tacuarembó Chico, e o nome homenageava uma canção do filho mais ilustre da cidade, o mítico Carlos Gardel que, para alguns portenhos algo enciumados, era, em verdade, francês. As primeiras partidas com a jaqueta rubro-esmeralda do Cambalache foram suficientes para que uma dúvida pesada se instalasse nos complexos pensamentos de Santiago. Algo estranho ocorria sempre que entrava em campo, e só agora pôde entender o que passava. A verdade é que Santiago Aguilar gostava mais do futebol do que de jogar futebol. Por assim dizer, preferia a beleza e o drama de um lance em relação a uma defesa sua, mas comum, praticável e, principalmente, esperada.

A prova cabal da estranha predileção de Aguilar ocorreu em um confronto diante do Candil, clube da cidade de Florida, pela Copa El País. Mesmo longe dos acolhedores morros tacuaremboenses, a representação do Cambalache resistia com decência às investidas do Candil. O empate sem gols servia para os verdes, já que uma vitória simples em Tacuarembó classificaria o time para as quartas-de-final da Copa de forma inédita. Os candileros, no entanto, trataram de jamais esmorecer. Desordenadamente, atacavam sem parar, motivados pelos berros alcoolizados da meia centena de espectadores que se escoravam nos alambrados.

Quando o minuto quarenta da última etapa se aproximava, Santiago enfim se sensibilizou com a pureza daquela tarde futebolística. Em arrancada pela esquerda, o ponteiro, que recém havia adentrado a cancha, gambeteava tudo e todos, mas finalizou tristemente mal. Um chute mascado, que chegou à meta com piques inofensivos. Aguilar, que estava bem colocado, só precisaria de dois passos em direção à trave direita para agarrar a pelota e poderia, então, catimbar por mais alguns segundos a fim de garantir o resultado. No entanto, como tantas vezes fez de forma inconsciente, deixou a bola entrar. Escorregou providencialmente no barro que tomava a área e viu a pelota beijar os cordões.

Seus companheiros o levantaram, Aguilar até então realizava um grande campeonato. Se falhava, era por azar, como agora. Mirando de longe a festa pelo 1-0, o arqueiro sorriu. Na partida de volta, o Cambalache facilitou as coisas para ele. Os dez jogadores sem distúrbios lograram rapidamente uma vantagem confortável que permitiu o festejado avanço para as quartas. Santiago teve pouco trabalho e pôde manter a seriedade até o último sopro do juiz. Em dez dias, ninguém mais comentava nos bolichos de Tacuarembó sobre o insólito gol sofrido em Florida. Em paz com a parcela do bairro que convivia intimamente com os personagens da equipe, Aguilar partiu rumo a Montevideo, de onde surgiu um convite que não se recusa: treinaria no segundo quadro do Defensor, que custearia a sua moradia na capital.

Tacuarembó, agora, era um aglomerado de pequenas montanhas – relevo que faltava na sua nova cidade, é certo – ao norte, e pouco Santiago ouviu da sua terra. Mensalmente, caminhava a pé do seu pequeno e antigo apartamento no Barrio Sur ao correio da Ciudad Vieja para resgatar a correspondência que sua família o dedicava: de forma costumeira, se baseava em uma carta com raras novidades e engrossada com amenidades, um punhado de pesos que não se constituía em uma fortuna e, mais raro, uma ou outra fotografia da vida que havia ficado para trás. No julho vigente do calendário que apontava 1996, a vida se restringia aos treinos nas imediações do Parque Rodó, um punhado de amigos que conhecera no próprio clube, os livros de sempre e sonhos que, por sensato que era, permaneciam quietos em um cercadito da sua mente.

Destacava-se nas inferiores. Era mais inteligente do que os afobados arqueiros montevideanos, que careciam, também, da matreirice conquistada por Santiago no interior oriental. Lá pelas tantas, no entanto, aceitava gols olímpicos, derrapava em tiros de meta ou via a pelota passar pelo meio das suas pernas após defender um pênalti. “Se ele pegasse tudo, não estaria no Defensor”, pensavam os seus técnicos na base. Somava vinte anos quando o mandaram para o elenco principal. Na mesma época, dividiu a melancolia do seu apartamento em que o sol jamais bateu com Fernanda, morena de traços algo paraguayos. Ela era de Treinta y Tres, filha de pequenos estancieiros. Viu em Montevideo o destino para uma vida, senão com mais plata, ao menos mais movimentada. Trabalhou na Biblioteca Nacional por alguns anos, agora se ocupa em uma loja de antiguidades no bairro costeiro de Malvín.

Santiago fazia um Apertura que o credenciava a sonhos altos. O Defensor disputava a liderança do campeonato de 1999 com o Nacional de Marcelo Tejera, meia que orientava todo um time a partir de passes que invariavelmente acabavam em ataques agudos. Na nona rodada, levou o quadro violeta a um 2-1 diante do Rampla, o terceiro colocado. No último minuto, espalmou para fora uma pelota que sacudiria a parte da rede próxima ao ângulo. Na cotação do El País, era o melhor arqueiro do certame nacional. Recebia um soldo decente e já ilusionava férias com Fernanda em uma praia brasileira – se o orçamento apertasse, serviria Piriápolis ou La Paloma, mesmo. Os dias corriam sem sobressaltos ou entressonhos, e o comportamento taciturno do jogador nem era mais questionado. Acostumavam-se a Santiago enquanto o mesmo se sentia cada vez mais em harmonia com Montevideo.

Não demonstrava a alegria habitual da gente do norte que era facilmente identificada nas ruas do centro – não que tivessem hábitos primitivos, mas falavam um espanhol mais alto em que os acentos davam sinais maiores de vida. Santiago, por sua vez, era reservado e tinha uma instrução acima da média – ostentava vagas noções políticas, o que já era uma diferenciação em seu meio, mas chamava mais a atenção por ser uma enciclopédia futebolística ambulante. Conhecia a trajetória de todos os arqueiros que por algo deixaram alguma marca no gramado do Estádio Centenário – ali no grande palco, aliás, “El Cuervo” Aguilar, como vinha sendo chamado em razão do uniforme negro que mantinha desde a adolescência, defendia ainda mais.

Quanto mais se interava da história dos personagens do futebol uruguaio, Santiago se convencia outro pouco do poder que estes tinham, quando dentro de uma cancha, de cambiar o seu próprio destino e o das instituições que defendem. Por alguma razão, ele se detinha nos causos mais trágicos. Saberia dizer qual foi o lance que decretou a reserva de Abdón Porte, então titular indiscutido do Nacional na primeira década do século XX. Após a consternação da suplência, Abdón se suicidou no centro do gramado do Parque Central. Outro relato que o interessava era o do goleiro Jacinto Callero, que defendeu o Peñarol nos anos 60. Ele havia sofrido apenas três gols em toda a temporada mas, na última exibição do ano, falhou miseravelmente em uma saída de bola – e justamente em um clássico. A torcida do aurinegro incendiou a sua casa no Buceo e Callero, que foi viver no México, nunca mais pisou em Montevideo.

Acabou-se que o Defensor nem precisou dos reflexos do “Cuervo” para sagrar-se campeão do último torneio do século. O quadro violeta superava os adversários com vitórias que, se não eram pirotécnicas, ao menos mostravam-se cumpridoras. Na última das jornadas, um empate sem violações de arco diante do Fénix serviu para erguer a taça. Santiago Aguilar, campeão do Apertura, goleiro menos vazado do torneio e escolhido o melhor da posição pela imprensa esportiva era, agora, um arqueiro da seleção uruguaia – fora convocado pelo técnico Víctor Púa para a estreia da Celeste nas eliminatórias para a Copa de 2002, contra a Argentina, no Centenário. E Aguilar marcou aquela data, um sábado veraniego, para firmar a sua condição histórica. Por aquela partida, por bem ou por mal, falariam, anos aos montes, sobre o goleiro que veio do norte, vestia negro e fez aquilo contra a Argentina.

Enquanto caminhava da boca do túnel em direção ao arco próximo à Tribuna Amsterdan, Santiago Aguilar constatou de que aquele era mesmo o cenário perfeito para o seu conto vivo. A expectativa dos uruguaios naquele time e o baixo preço das entradas encheram as arquibancadas. Mais além, o adversário era a Argentina e, agora, uma chuva forte banhava Montevideo. Ainda não havia definido nada – tudo dependia de uma ocasião especial em que ele pudesse, de fato, fazer as alterações drásticas no rumo inicial daquela tarde. A princípio, pensou no modelo mais simples: defender tudo e, uma só vez, protagonizar um lance ímpar em que o azar levasse todas as culpas. Na primeira entrevista, tratou de atrair todos os olhares: garantiu que a sua atuação teria como fim a memória futebolística.

A questão é que, bom goleiro que era, também teria ao menos um dia em sua carreira em que as suas pretensões fantasiosas esbarrariam em uma péssima apresentação. E “El Cuervo”, o que arriscou e imaginou uma tragédia esteticamente interessante, se deparou com a crueza de um goleiro em dia ruim. Voava e não encontrava a pelota. Foi assim no primeiro gol, de “Burrito” Ortega, em cobrança de falta certamente defensável. Ainda no primeiro tempo, abandonou o gol mas chegou depois que Batistuta no escanteio: 2-0. No intervalo, jornalistas cobravam explicações sobre a sua audaciosa declaração inicial e a torcida pedia a Víctor Púa uma substituição de goleiros. Santiago Aguilar não saiu e sofreu mais três vezes: na última, caído dentro da sua meta, viu um céu quadriculado por entre o formato dos cordões. Ao fim de sua tragédia desesperadoramente real, encontrou um apartamento vazio. Fernanda estava em Assunção, apaixonou-se por um atacante argentino do Olimpia.

Saludos,
Iuri Müller.

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Entry filed under: Literatura.

A expedição do goleiro doble chapa Uma taça para pegar no tranco

11 Comentários Add your own

  • 1. mardruck  |  27/02/2010 às 12:07

    Sensacional.

  • 2. Chico  |  27/02/2010 às 13:04

    bah, foda!

  • 3. Anônimo  |  27/02/2010 às 15:31

    iuri com certeza é o único bom do impedimento

    larga esses sanguessugas, iuri! askdjak

  • 4. Iuri  |  27/02/2010 às 16:06

    Apesar de alguns resquícios de semelhança entre o enredo deste conto e o da reportagem de ontem, não há relações verdadeiras entre o Santiago Aguilar e o Jair, do Riograndense. Haha.

    E não posso encarar senão como deboche um comentário como este #3.

  • 5. Francisco Luz  |  27/02/2010 às 17:42

    a la pucha.

    Devia ser proibido comentar em um post como este.

  • 6. Lorenz  |  27/02/2010 às 19:59

    Essas histórias de goleiro são as mais tri.

  • 7. Paul  |  27/02/2010 às 21:37

    Baita texto.

  • 8. Zé Carlos  |  28/02/2010 às 10:06

    10, nota deixxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

  • 9. Godo  |  01/03/2010 às 12:12

    Mató a palo, Iuri.

  • 10. Luiz Carlos  |  02/03/2010 às 11:35

    P….. meu!!!!!

  • 11. juanca py  |  11/03/2010 às 13:46

    y asi somos los de olimpia…nos robamos la copa y las minas…buena esa roro lopez–

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