O limite do bosque

05/02/2010 at 06:00 17 comentários

Em La Plata, são três os grandes estádios. Um do Gimnasia, outro do Estudiantes e um terceiro, público. Este último é o “Estádio Único”, no qual o atual campeão da América foi local durante as suas jornadas pela Copa Libertadores. Ali também foram jogados os últimos nove clássicos municipais – sendo sete as vitórias do Leão e dois os empates. O Gimnasia ainda não festejou na mais nova cancha de La Plata. O quadro “pincharrata” vê a sua cancha própria sendo remodelada: a previsão para a liberação do “Tierra de Campeones”, antigo “Jorge Luis Hirschi”, datava para 2010, mas atrasará, ainda há muito para se erguer. Já o estádio do Gimnasia está em condições de receber partidas – é o arborizado “Juan Carlos Zerillo”, conhecido como “Estádio del Bosque”. Mais do que um palco tradicional do clássico, o Bosque vem sendo um santuário para o Lobo – nele, o mesmo cenário da última vitória, há distantes quatro anos e meio, o Gimnasia venceu o derby de quarta-feira.

Daquele junho de 2005 até o fevereiro vigente, muito mudou no futebol de La Plata. Foi justamente o período da consagração do Estudiantes: guiados pelo regresso de Verón, os “pinchas” levantaram um campeonato nacional, uma Libertadores da América e, como não ocorria desde o início dos anos 70, tiveram o seu nome respeitado por todo o continente. O Gimnasia, além de não ganhar clássicos, limitava-se a dissimular com o rebaixamento. Nestes anos, os “triperos” alcançaram, por três vezes, o pior posto histórico na primeira divisão: no Clausura 2007, no Apertura 2007 e no Apertura de 2009 o clube acabou na 18° colocação entre 20 participantes. Não afundou porque soube elevar a sua média de pontos em torneios menos taciturnos ou porque apelou para o épico, como quando impediu o acesso do Atlético de Rafaela, em 2009.

A temporada de 2010 se abria de forma semelhante para as duas forças da cidade. O Estudiantes sonhava alto, vinha de um confronto honroso com o Barcelona e se preparava para mais uma Copa Libertadores. O Gimnasia, o que nunca havia sido, inaugurava a sua trajetória em mais um Clausura com derrota, para a manutenção dos costumes recentes. Sem nunca ter logrado um título na primeira divisão durante toda a história, o Lobo, que uma vez mais não tem time para isso, resolveu que salvaria parte da sua dignidade. Como o clássico local vinha sendo disputado com apenas uma das torcidas presentes na cancha, marcou o dia três de fevereiro como o marco final daquela seca. A primeira tratativa foi decisiva – o clube agendou o Estádio del Bosque, o templo das glórias passadas, como o local do match. O moderno e amaldiçoado Estádio Único que esperasse por novos fiascos azuis, porque o clássico de La Plata, enfim, voltava para a casa do Gimnasia y Esgrima.

Enchendo a totalidade das arquibancadas, o torcedor do Lobo viu que era uma tarde para balançar as bandeiras. A chuva oscilava entre assustar com sua força ou deixar-se ocupar por um solaço, que não espantou os personagens do derby. Quando o Gimnasia entrou em campo, os ocupantes das antigas tribunas esqueceram-se por um instante que o quadro dos seus amores não tinha uma só estrela verdadeira em cima do escudo. Que aquele vizinho aguerrido, campeão de todos os certames e cada vez mais endiabrado nos conflitos locais, ganhasse o mundo, não havia problemas. Mas o Bosque ainda era um território sagrado, e defendê-lo era o que sobrava para o Gimnasia. Tratava-se, também, de um desafio a mais para o Estudiantes, cuja representação foi festejada por um foguetório nas cercanias do palco do jogo. Era a hora, então, dos leões tentarem profanar o último território em que o rival ainda era o dono.

Denis Stracqualursi, atacante que leva o número vinte e dois nas espaldas, tinha apenas dois gols na primeira divisão até a quarta-feira. Foi dele, o mais perigoso dos jogadores do Gimnasia, o tento que fechou a primeira etapa no Bosque – aos quarenta e cinco minutos, ele anotou de peixinho. No segundo tempo, o Estudiantes se adonou da posse da pelota. Mas foi novamente “El Traca”, o centroavante do sobrenome impronunciável, quem movimentou os cordões. Aos trinta e cinco, o Gimnasia pareceu garantir uma vitória diante do rival de sempre com a bonita finalização do seu atacante. Os minutos finais, porém, foram de grande sufoco. Aos quarenta e três, Verón, símbolo de um Estudiantes que vira os jogos e vence os derby’s, diminuiu para 2-1 e calou o coro das platéias. Sosa ainda perderia duas chances douradas para o Estudiantes antes do paraguaio Cuevas, nos acréscimos, marcar o terceiro gol do Gimnasia depois de grande falha do arqueiro Orión, ex-San Lorenzo.

O Gimnasia vencia um clássico, depois de nove deles. Houve festejos no Bosque até o anoitecer, quando a chuva, indecisa durante a tarde, inundou La Plata para brindar a façanha do Lobo. A se julgar pelo abatimento, os jogadores do Estudiantes sofreram mais com a perda do clássico do que por deixar a taça do Mundial no Oriente Médio. Não importava mais a coleção de troféus ou a superioridade recente. No gramado do Bosque, durante a tarde de quarta, Estudiantes e Gimnasia y Esgrima deixaram os seus adereços de lado para duelar com o objetivo específico de superar o rival naquelas quatro linhas. O 7-0, o 4-1, o abismo técnico entre os clubes e a realidade financeira se dissiparam. Eram só as duas camisetas. São os valores de um clássico.

Saludos,
Iuri Müller

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17 Comentários Add your own

  • 1. Álisson  |  05/02/2010 às 08:57

    Que coisa linda!
    Clássico é isso. Não importa se um time está na segundona e o outro na primeira. Vai ser sempre peleia, sangre, suor e lágrimas…

    huahsuahsuhas, clichê total.

  • 2. Lobo  |  05/02/2010 às 09:24

    EN EL BOSQUE NO PINCHARRATA VAMOS GIMNASIA CARAJO CAMPEON 1929 SOY TRIPERO LA BANDA DEL LOCO FIERRO LEON SUBCAMPEON MURIO EN LA BOCA DEL LOBO VERON PECHO FRIO VAMOS LOBO CARAJO EN EL BOSQUE GELP MANDA SALUDOS DE LA GLORIOSA 22 A LOS LOCOS DE BOTAFOGO CARAJO STRACQUALURSI MATADOR DE PINCHA PUTO VAMOS GIMNASIA CARAJO DALE LOBO LA PASION DE LA PLATA

  • 3. Paulo Torres  |  05/02/2010 às 09:28

    E do Estadio do Bosque até a cancha do Estudiantes não dá 300 metrso de distância. Os dois ficam dentro do Paseo del Bosque, o maior parque de La Plata.

  • 4. Schultz  |  05/02/2010 às 10:05

    O goleirão dos Pinchas saindo pra caçar borboleta quando o time sufocava o Gimnasia e quase empatava foi bonito. Os torcedores do Estudiantes devem estar querendo escalpelá-lo.

    Bonito também foi o Chacarita-River de ontem. O Chaca foi garfado CRIMINOSAMENTE quando arrancou o empate aos 48 da segunda etapa e o juizão anulou o gol, alegando sei-lá-o-que. http://www.youtube.com/watch?v=j2paI-N3SAk

  • 5. douglasceconello  |  05/02/2010 às 10:54

    Que grande texto, cara. Realmente, apanhar para o Gimnasia deve ser mais dolorido do que perder AO ACASO para o Barcelona, até porque todos sabem que no Mundial o Estudiantes foi campeão MORAL.

    sadasdsa

  • 6. Ernesto  |  05/02/2010 às 11:08

    O river é a pior escola de goleiros do futebol mundial. Disparado.

    Só frangueir che.

    Bah, tá loco

  • 7. Ernesto  |  05/02/2010 às 11:52

    Ah, e o texto muito bom.

    O impedimento tá em um nível sensacional.

    Grande fase

  • 8. gilson  |  05/02/2010 às 12:24

    #7 [2]

  • 9. Godo  |  05/02/2010 às 12:36

    #7

    O Impedimento e a Patrícia Poeta.

    Grande fase [2]

  • 10. rafael botafoguense  |  05/02/2010 às 13:15

    “EN EL BOSQUE GELP MANDA SALUDOS DE LA GLORIOSA 22 A LOS LOCOS DE BOTAFOGO ”

    É NOIS,SEMPRE!

  • 11. saraiva  |  05/02/2010 às 13:19

    água no pescoço, grande fase.

  • 12. Inácio  |  05/02/2010 às 14:06

    Parabéns pelo blog.
    Belo texto.

    Saludos!

  • 13. Francisco Luz  |  05/02/2010 às 14:36

    Iuri >>> João Saldanha e Mário Filho.

    Quem precisa de Cassol? (ns)

  • 14. rômulo arbo  |  05/02/2010 às 16:27

    BÁ, MTO BOM, IURI.

    Agora, me gusta o nome Atlético DE RAFAELA.

  • 15. Luís Felipe  |  05/02/2010 às 17:16

    sensacional, mesmo.

    puxando da memória, lembrei que conheci uma argentina chamada Maria Emília Stracqualursi, numa dessas passagens por Floripa. Imagina se o centroavante esse é irmão dela?

  • 16. aloncio  |  05/02/2010 às 21:37

    Que conhecimento de causa! Um texto de valor literário. Um Ba X Vi merece um texto dessa natureza.

  • 17. FERN  |  10/02/2010 às 20:02

    Iuri como um tripero ai de cima ja lembrou, o GELP foi campeón porteño em 1929, viu!!!

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