O El Dorado, parte 1: nascidos da revolta

13/01/2010 at 10:46 21 comentários

Imaginem os jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Um lugar para onde as maiores estrelas da América do Sul fogem correndo, para ganhar somas de dinheiro jamais pensadas em seus países locais. Um país onde o limite de estrangeiros não existe, cujos times são convidados a excursionar pelo mundo inteiro para encantar multidões com o futebol bailarino. Esse país não é a Itália nem a Espanha dos tempos atuais: é a Colômbia dos anos 50.

A Divisão Maior do futebol colombiano, que levou para Bogotá astros como Di Stéfano e Pedernera – os dois maiores jogadores da Argentina na sua época –  é uma das coisas mais mal explicadas da história do futebol mundial. Como poderia um país que nunca teve uma economia pujante no cenário mundial fazer o melhor campeonato do mundo? A explicação passa por uma época na qual o futebol ainda não tinha 20 anos de profissionalismo nas maiores ligas mundiais, e uma entidade máxima como a Fifa não tinha nem 10% do poder de hoje em dia. Hoje, a Fifa interfere e/ou faz recomendações nos mais comezinhos aspectos das ligas regionais – no início dos anos 50, as notícias chegavam de carta e geralmente de navio, o que permitia distorções como as ocorridas a partir da intervenção de Alfonso Senior, presidente do Millionarios de Bogotá.

No final dos anos 40 uma das tantas mobilizações dos jogadores argentinos reivindicava salários compatíveis com o que os clubes ganhavam, nas bilheterias e transferências. A Argentina já tinha uma liga profissional, mas os vencimentos dos atletas ainda tinham valores pouco mais que amadores. O River Plate daquela época tinha o melhor time do continente – talvez, o melhor do mundo – com a máquina de Labruna, Loustau, Moreno e Reyes, além do próprio Di Stéfano. Era a segunda versão de um grande time que também teve Pedernera, e era chamado pela imprensa de “A Elétrica”. O presidente era Antonio Vespúcio Liberti – o atual nome do Monumental de Nuñez – que no verão de 1949 desdenha do sindicato criado pela “Flecha Loira” e por Nestor Rossi, os “Futebolistas Argentinos Agremiados”. As exigências de melhores salários vão para o fundo da gaveta do seu escritório. O campeonato fica esvaziado pela greve dos melhores jogadores e muitos dos clubes acabam contratando jogadores na lavanderia, no mercado, no açougue e na estiva do porto para completar seus times.

Alfonso Senior vê nisso uma valiosa oportunidade. A sua ideia é implantar o futebol profissional na Colômbia. Para isso, toma conta do Millonarios, um time que não tinha um clube. Não passava de uma agremiação de jogadores que não tinha nenhuma sede e era composta por estudantes e recém bacharéis da universidade local, jogando verão sim, verão não no campeonato local. Senior, empresário, vê as multidões que são levadas a cada domingo para ver o esporte e decide ganhar dinheiro com isso. Ao lado do comerciante Mauro Mórtola, nascido no Equador, chama os dirigentes dos principais clubes da época e assina com eles uma carta direcionada à Adefútbol, em 1948, dizendo que a federação é atrasada e eles vão criar um organismo próprio para dirigir o futebol. Nasce a Divisão Maior.

No dia seguinte, a sua secretária deve ter recebido um telegrama de boas vindas da Fifa, com as regras necessárias para filiar-se à entidade. Além de ter um regulamento que respeite as 17 do International Board, era preciso respeitar as diretrizes mundiais de transferências, estrangeiros e afins. Senior só lê a primeira parte, a que interessa ao público – a segunda, uma vez ignorada, rende mais dinheiro. O presidente do Millonarios tem a grande ideia de que não precisa pagar passes aos clubes: basta oferecer os melhores salários aos jogadores e uma passagem de avião só de ida. Essa história de limite de estrangeiros também é bobagem – joga quem quiser, quantos quiserem, que a globalização seja bem vinda aos campos cafeteros. Logo se espalha como um vírus o “El Dorado” colombiano, especialmente na Argentina, onde ninguém ganha dinheiro para vestir chuteiras. Um lugar onde não só se é bem pago como se é o jogador mais bem pago do mundo torna-se extremamente atraente.

A questão toda é que pegou mal. Muito mal. Se hoje o fato de oferecer uma ótima proposta salarial para um jogador passando por cima do clube já é considerado uma ofensa, imaginem naquela época, muito menos profissional. A agressividade do dinheiro fez com que o futebol colombiano fosse considerado antipático por todas as federações do continente americano, indignadas com a perda de seus melhores atletas. Especialmente as mais empobrecidas, como a argentina e a peruana.

A questão ética tomou conta das reuniões da então incipiente Conmebol. Os queixumes dos presidentes das federações eram maioria sobre a irracionalidade de um torneio que não tinha qualquer compromisso com o desenvolvimento do futebol nacional, correspondia apenas a ganhar dinheiro e dar espetáculo (qualquer semelhança com o futebol espanhol não é mera coincidência). Sendo assim, foi criado um Pacto, chamado Pacto de Lima, em 1951: a farra tinha dois anos para acabar. Depois desses dois anos, os jogadores contratados sem pagamento de passe teriam de ser devolvidos aos seus clubes.

Alfredo Senior resmungou, mas deu de ombros. Começou a fazer excursões por todo o mundo para render o máximo que podia com o seu Millonarios. Ao fim da história, simplesmente vendeu os grandes jogadores, como Di Stéfano, envolvido numa complicada trama que lhe tirou do Barcelona e colocou no Real Madrid. O sonho do El Dorado havia se acabado.

Esse, porém, é só o início da história. Em breve vocês lerão mais detalhes sobre os jogadores daquele campeonato.

Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos

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Os brasileiros na Copa (Libertadores) 2010 Cinco grandes sem Copa em um verão flamejante

21 Comentários Add your own

  • 1. Rudi  |  13/01/2010 às 10:49

    Quaisquer semelhanças com fatos atuais NÃO é mera coincidência…

    Grande texto, @lfds

  • 2. y  |  13/01/2010 às 10:55

    Senior = VISIONÁRIO

    O cara era um gênio, nomá

  • 3. Prestes  |  13/01/2010 às 10:58

    Impedimento: El Dorado da mídia esportiva tupi-guarani e KAINGANG (ns).

  • 4. Luís Felipe  |  13/01/2010 às 11:07

    visionário mesmo.

    um dos primeiros a encarar o futebol como negócio – numa época em que os ingleses ainda se culpavam por não ser amadores.

  • 5. Logan  |  13/01/2010 às 11:34

    Tá mais pra oportunista

  • 6. Prestes  |  13/01/2010 às 12:31

    Falando em Colômbia…

    http://colunas.globoesporte.com/brasilmundialfc/2010/01/13/goleiro-louco-de-mocambique/

  • 7. dante  |  13/01/2010 às 13:00

    impedimento > baú do esporte

    genial, LF.

    parabéns pelo texto.

  • 8. Diogo  |  13/01/2010 às 13:18

    Esse Senior devia ser parente do SENOR.

    Ou da mesma religião, certamente.

  • 9. Carlos  |  13/01/2010 às 13:27

    ótimo, LF. Grande pesquisa…

    Nem imaginava um troço desses…

  • 10. Manuel Barbeiro  |  13/01/2010 às 13:34

    E o pessoal ainda acha que a Lei Bosman e o Afonsinho revolucionaram alguma coisa…

  • 11. Francisco Luz  |  13/01/2010 às 14:08

    Barbaridade, que texto genial. Sempre tive curiosidade em saber mais sobre o Millonarios, mas também sempre fui muito vagabundo pra pesquisar.

  • 12. caio sabreu  |  13/01/2010 às 14:31

    mas a espanha não é a seleção do momento na europa?

  • 13. rafael botafoguense  |  13/01/2010 às 17:35

    é a tal da liga pirata.levou o heleno de freitas também,ele foi pro atético barranquilla.

    numa dessas excursões o millionarios disputou a pequena copa do mundo na venezuela,contra o botafogo o real madrid e um time venezuelano,o la salle.acho que foi ai que real contratou o di stéfano,não é?

  • 14. Flávio  |  13/01/2010 às 22:34

    Não, foi num amistoso no Santiago Bernabeu comemorativo do cinqüentenário do Real Madrid. Di Stéfano acabou com o jogo e foi contratado pelo Real… e também pelo Barcelona…

  • 15. Flávio  |  13/01/2010 às 22:40

    Além do Heleno de Freitas, acho que Tim (não confundir com o homônimo que passou pelo Inter em 2000) foi o único jogador brasileiro de primeira linha que jogou na Liga Pirata.

  • 16. rafael botafoguense  |  14/01/2010 às 00:32

    valeu brother.

  • 17. mardruck  |  14/01/2010 às 02:08

    O futebol em Bogota hoje é muito fraco, ha poucos torcedores nas ruas, poucas lojas vendendo camisas e tal.

    Ja em Medellin parece mais forte. Cheguei hoje, mas ja tem muito mais presenca.

    Vou tentar ver um jogo no Atansaio Girardot domingo.

  • 18. Logan  |  14/01/2010 às 08:54

    Eu sempre achei que esse Millionarios era aquele time “patrocinado” pelo cartel de medelín, alias qual time era esse mesmo?

  • 19. Flávio  |  14/01/2010 às 09:57

    Deve estar falando do Nacional, campeão da Libertadores em 89.

  • 20. Cesar  |  14/01/2010 às 12:57

    Tinha uma versão brasileira dos Milionários que saia excursionando pelo interior do Brasil com jogadores veteranos em meados dos anos 70….Garrincha, já entregue ao alcool jogou bastante ali.

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