Nostalgia de segunda

11/01/2010 at 10:40 21 comentários

Ainda não me acostumei a ver o Inter-SM na primeira divisão. Mesmo que o acesso date de 2007 e que o clube tenha partido para a sua terceira temporada em sequência na elite, uma incômoda sensação paira sobre o imponente pavilhão da Baixada. A explicação deve ser simples: o sofrimento acumulado em oito anos consecutivos de entreveros na Segundona daria, na nossa ilusão, uma passagem premiada para tempos gloriosos do futebol santa-mariense. E o que se vê não é exatamente isso. Mas, para remontar o sentimento atual, é preciso retomar uma saga que se inicia no ano 2000.

Mesmo rebaixado no Gauchão de 2000, o Colorado do Presidente Vargas adentrou a disputa da segunda divisão daquele mesmo ano – eram outros tempos. Para lograr o acesso, no entanto, o time precisaria ser o campeão. Ficou em segundo, com um ponto a menos que o AVENIDA, para o qual perdeu em Santa Cruz na última rodada. Era a estreia de uma frustração que se repetiria torturantemente por toda uma década. No ano seguinte, o “quase” veio acompanhado do trauma: bastava derrotar o São Gabriel em casa, na última rodada do quadrangular final. O 1-1 soou fantasioso demais. Aliás, faz tanto tempo que: até o Grêmio Santanense jogou aquela fase decisiva, Alê Menezes era apenas um rapaz e Darzone ainda era expulso (!). Eis a prova de tudo.

Em 2002, para evitar maiores transtornos, o Interzito nem ousou se aproximar dos perigos selvagens que residiam nos jogos decisivos. A fama de morrer na praia se difundia por todo o interior, e dizem que até em Uruguaiana se ouvia falar de um time vermelho que, quando a coisa apertava, não ganhava de ninguém. E, na Segundona, perder a virilidade é a maior de todas as desgraças. Em 2003 houve uma nova possibilidade concreta de expurgar os demônios que cerceavam as vitórias do clube. Corria a penúltima rodada do octogonal final. A Baixada recebia a maior assistência daquele início de século. Vencer a Ulbra, que já liderava o certame, significava pôr um pé e meio na primeira divisão. E aqui entra o RELATO PESSOAL.

Porque até então a tristeza corroía as entranhas mas a alma suportava os escorregões de um time que exigia muita dedicação no torcer. Até aquele jogo. 19 de outubro de 2003, um domingo de solaço. A mobilidade nas arquibancadas era uma tarefa bastante complexa. Mas não se tratava de um sacrifício: valia a pena ver aquele Inter que manejava bem o esférico e que se classificou com autoridade nas fases anteriores. Aí alguém resolveu avisar que a vitória tinha o valor da famigerada VAGA. Pronto. Com cinco minutos de jogo, pênalti para o Inter-SM. É uma das poucas recordações do ano. Na cobrança, Lela, um meia relativamente balaqueiro. E, por deus, o goleiro pegou. Depois do baque, o time tremeu as pernas, a torcida largou de mão. Tudo desmoronou com cinco míseras voltas no ponteiro. E a Ulbra triunfou por 2-0. Ao fim dos noventa minutos, recordo também alguns jornais incendiados nos degraus da geral.

Era outro episódio traumático, comparável só àquele de 2001, diante do São Gabriel. Tanto que em 2004 o sonho teve um fim abrupto, na metade da competição. Em 2005 também foi bastante chato, não vou negar. Duas derrotas para o São Luiz de Ijuí arrastaram o Inter para o quarto posto, em uma chave em que os dois primeiros subiriam. Nós não sabíamos e o praguejamos até faltar voz, mas a solução do inferno mais prolongado da divisão de acesso estava trajando a camisa 10 do quadro ijuíense. Era Chiquinho, que naquele ano havia sepultado o goleiro Goico com cobranças de falta que beiravam a perfeição, quem salvaria os vermelhos de Santa Maria da eternidade na Segundona.

Ainda restava um ano. Mais uma jornada para a purificação completa do espírito. E, se havíamos entregado partidas de todas as formas imagináveis, em 2006 resolveram nos roubar. A arbitragem atorou pontos fundamentais nos confrontos contra o Inter B, de Porto Alegre, que desfilava pela Segundona assaltando quadros inocentes para testar seus novos jogadores. O Interior não era lugar para tal experiência, como bem sabe Alexandre Pato, atirado no alambrado pelo delicado beque DA SILVA, do Interzito – que uma vez mais naufragou no último estágio. Pelo esburacado gramado da Baixada haviam passado centenas de jogadores, dezenas de treinadores e torcedores que chegavam e de pronto desistiam. Não era mesmo um bom negócio apostar no time das reprises aterrorizantes.

Até que chegou a compensação. Um dia ela haveria de existir, afinal. Em 2007, o Inter-SM subiu. É um trecho que ainda oferece algumas travas na memória, talvez porque, pessoalmente, esse tenha sido o ano mais doloroso. Era outra vez a última rodada, outra vez em casa, outra vez dependendo apenas das suas forças. Cabia ao Coloradinho vencer o Pelotas. A Baixada outra vez, inflava. E encheu tanto que, pela primeira vez nesses anos todos, superlotou. Ingressos teriam sido falsificados, de modo que cerca de TRÊS MIL torcedores ficaram de fora – entre eles, eu. Enquanto assistia à final pela TV (!), questionava que espécie de maldição era aquela. Mas, guiados pelo mesmo Chiquinho, subimos, era o que importava. Não poderia exigir, jamais, felicidade plena do meu time.

Embora o ano de 2008 flertasse com tal realização. De volta à elite, o Inter armou um time encardido, que enchuveirava pelotas na área adversária até o último dos suspiros. Enfileirando vitórias nos minutos finais – e desafiando a tendência da história recente – o Coloradinho se viu nas semifinais do Gauchão. E resolveu não se perguntar sobre a importância dos jogos que chegariam. Em Caxias, abateu o Juventude quase como se amassasse o Cachoeira. Na partida de volta, em Santa Maria, os quatro gols dos serranos ocasionaram a tragédia. Mas, pela primeira vez, não se tratava da conhecida amarelada. O Juventude viveu uma noite monumental e o estádio aplaudiu de pé a campanha daquele time.

Só que, aparentemente, o clube resolveu gastar toda a compensação em uma só temporada. No 2009 que há pouco se foi, nem fiapos daquele futebol foram vistos em Santa Maria. O clube fez um primeiro turno fiasquento e só escapou do rebaixamento com a chegada do METÓDICO Jorge Anadon. Para o Gauchão que se avizinha, disputas políticas adiaram o início da preparação – e o Inter-SM tardou demais para escolher quem seria o seu presidente. Quando o pessimismo parecia armado, os cartolas se apressaram em montar um elenco aceitável. Na Baixada, já estão atletas rodados como Gauchinho (ex-Cerro Porteño e Grêmio) e Djair (ex-Grêmio e Juventude), além de jogadores que há pouco se destacaram no estado, como o atacante Victor Hugo. Assim mesmo, parece que falta algo. Se eu disser que é saudade de enfrentar o LAJEADENSE na competição de sempre, façam o possível para compreender.

Fotos do amistoso Inter-SM 1-1 Avenida, disputado na última quinta

Saludos,
Iuri Müller.

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21 Comentários Add your own

  • 1. Rudi  |  11/01/2010 às 10:49

    mais respeito com o Glorioso CACHOEIRA

    fora isso, belo texto

  • 2. Manuel Barbeiro  |  11/01/2010 às 10:50

    Esse Gauchinho é um bom centroavante. Já o vi jogar algumas vezes no Cerro Porteño e me pareceu tecnicamente muito bom.

  • 3. Prestes  |  11/01/2010 às 11:30

    Baita texto!

    Aguante Inter!

  • 4. Francisco Luz  |  11/01/2010 às 12:17

    Em 18 de outubro de 2003, vi Novo Hamburgo x Esportivo (acho que era o TIVO) no Santa Rosa. Caía uma chuva fiadasputa sobre a cidade que fez com que o público total fosse de DEZOITO pessoas.

    Lembro que vi o jornal de domingo e pensei “bah, bem que o Noia e o Interzinho podiam subir. Seria bom”. Mas não deu, só o Anilado completou a PROFECIA.

  • 5. y  |  11/01/2010 às 12:18

    de modo que cerca de TRÊS MIL torcedores ficaram de fora – entre eles, eu. Enquanto assistia à final pela TV (!)

    REGISTE-SE que eu lia o FUTEBESTEIROL desde aquela época, lembro desse relacto.

    vc acompanhou todos os jogos do Interzito e ficou de fora só na final, que eu me lembre, ILUSTRE XARÁ.

  • 6. guihoch  |  11/01/2010 às 14:25

    ou abrirão todas as portas dos inferninhos cariocas ou abriram logo as portas do inferno, CARALHO DE CALOR DE MIL GRAUS QUE NEM EM RABO DE PUTAS AS 4:58 DA MANHA SE ACHA.

    NO MAIS os faestão fazendo a festa hein!

  • 7. Diogo  |  11/01/2010 às 15:14

    Rapaz, o único time que merece a minha humilde consideração, na região Central do estado, é o glorioso Nova Palma [ SERC Nova Palma] e seu imponente estádio PADRE Francisco Burmann.

    Mas, falando em interzinho, que porra é essa:?

    http://www.timesdelbrasil.com.br/RS/geinternacional-arroiogrande-rs.htm

  • 8. Matheus  |  11/01/2010 às 17:58

    Como assim “como se amassasse o Cachoeira”? Respeito, rapazinho!

    “AHA, UHUL, CHEGOU A PITBULL”, já dizia a gloriosa torcida organizada do glorioso Cachoeira hehehehe

    Se não me engano, o Cachoeira venceu a série C em 2000, 2001, por aí, e fizeram uma festa e tal… mas no outro ano juntaram a C com a B uhehueheaUAEHUIae

  • 9. Guilherme Dias  |  11/01/2010 às 18:12

    Cachoeira, porra de time de merda. A cidade nem tem cacife pra ter dois times, se tivesse um apenas jogariamos a A mais frequentemente.

  • 10. Felipe (o catarina)  |  11/01/2010 às 20:10

    melhor time do RS: http://www.brandsoftheworld.com/countries/br/77551.html

  • 11. Matheus  |  11/01/2010 às 21:26

    @9Guilherme Dias

    Por mim o ALDEIA tinha que se profissionalizar e virar O time da Capital do Arroz.

  • 12. cilantro  |  12/01/2010 às 00:46

    el perro
    el perro
    es mi corazon

    el gato
    el gato
    el gato no es bueno

  • 13. marlon  |  12/01/2010 às 09:24

    cilantro = dante sasso

  • 14. Rudi  |  12/01/2010 às 09:26

    Guilherme, não sei… pq se tivesse só um não teria rivalidade nenhuma e talvez a coisa fosse pior ainda…

  • 15. Zé Carlos  |  12/01/2010 às 12:40

    Torcerei pelo BAGÉ

  • 16. neco  |  12/01/2010 às 22:20

    Os artilheiros do gauchão estarão na baixada

  • 17. Thiago Ciaciare  |  13/01/2010 às 09:07

    A primeira foto está linda, e me lembra o tempo em que eu ia ao estádio ver o CIANORTE tentar ganhar do eixo do mal do PR !

  • 18. BPD  |  13/01/2010 às 16:09

    #10,

    cara, esse é o time do bairro do meu vo… mto foda, todo sábado qdo eu vo visita eles tem jogo, o vo já foi tesoureiro do avaí, mas o time QUEBROU a sede social ficou abandonada até DESMORONAR e agora só resta o campo desse INCOMPARÁVEL TIME

  • 19. zobaran  |  17/01/2010 às 17:07

    Eu te entendo, Iuri.

    Sinto falta de encarar uma sequência do naipe de Joinville, Marília e Anapolina pela Série B Nacional.

  • 20. Maurício  |  17/01/2010 às 20:15

    Bah quando morava em SM ia na baixada…. era fato, todo ano batia na porteira da 1ª divisão e se ia emboraa !!

    até comemorei quando o INTER_SM subiu !!

  • 21. Lucas Cavalheiro  |  18/01/2010 às 15:57

    Mas quanto conterrâneo do coração do Rio Grande!

    Pra mim, o GRANDE problema do Interzinho é que a categoria de base é NULA (na verdade, nem sei se tem). Só sei que, quando morava em SM, o Novo Horizonte era quem mandava no citadino e etc.

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