Para o carrasco, nem um minuto de silêncio

06/01/2010 at 06:00 25 comentários

Na boca do túnel, Obdulio Varela pensou na conversa do dia anterior com os dirigentes da seleção uruguaia: “Já fizemos nosso papel, jogamos limpo e, desde que não percamos por mais de três ou quatro gols, está bem”. Lá fora, 200 mil pessoas esperavam apenas os noventa minutos protocolares para comemorar o primeiro campeonato mundial do Brasil. Deve ter pensado, “ah, que se foda”. Virou-se para os outros jogadores e disse: “los de afuera son de palo. Nosotros acá cumplimos si ganamos. Si salimos campeones mundiales cumplimos con el pueblo, así que hay que hacer acá un sacrificio, tratar de ganar el partido para dejar contento a todo el pueblo de Uruguay”.

Na fila, estava Alcides Edgardo Ghiggia, 24 anos, wing e titular do Peñarol há apenas um ano, quando o time foi campeão uruguaio invicto. Aquela seria apenas a sétima partida que disputaria pela Celeste Olímpica.

Dois meses antes, Brasil e Uruguai se enfrentaram em três partidas pela Copa Rio Branco. Os brasileiros perderam a primeira (4×3), mas venceram as outras duas (3 a 2 e 1 a 0). Na Copa, pela desistência de Escócia, Turquia e Índia (que foi proibida pela FIFA de jogar descalça), o Uruguai precisou enfrentar apenas a Bolívia. Oito a zero e a classificação para a fase final.

Os quatro classificados jogariam entre si. Antes do último jogo, o Brasil havia goleado a Suécia (7 x 1) e a Espanha (6 x 1). Os uruguaios empataram com os espanhóis, dois tentos para cada, e venceram a Suécia de forma apertada, 3 x 2. Possuir a Jules Rimet parecia só questão de tempo.

O dia 16 de julho de 1950 não cai no vestibular, nunca estudamos isso na escola e, ao contrário de outras derrotas, como a Revolução Farroupilha aqui ou a Revolução Constitucionalista em São Paulo, não é feriado. E, mesmo que provavelmente nem os nossos pais fossem vivos, todos nós sabemos o que aconteceu naquele dia.

Ghiggia precisou de apenas seis segundos para deixar para trás Bigode, seu marcador, e fazer um gol que nunca esqueceríamos. Diz a lenda que depois do gol, o técnico Juan Lopez pedia desesperadamente para que Ghiggia recuasse para ajudar na defesa. “Este loco quiere hacer el tercero”, gritou depois de outra disparada do ponteiro, em tabelinha com o lateral Julio Perez.

Dizem também as estatísticas que o Brasil jamais perdeu novamente para o Uruguai no Maracanã. Não importa. O resto é silêncio, como diria Shakespeare, pensando em outra tragédia.

Depois do Maracanazzo, Ghiggia jogou mais três anos no Peñarol. Transferiu-se para o Roma. Naturalizou-se italiano e defendeu a Squadra Azurra nas eliminatórias de 1958 (não se classificaram). Jogou um ano no Milan. Em 1963, quando voltou para o Uruguai, para jogar no Danubio, era o único campeão de 50 ainda em atividade. Encerrou a carreira no mesmo time que o revelou, o Sudamérica, com mais de 40 anos de idade.

Polêmico, agrediu um juiz na sua última temporada pelo Peñarol. Foi pego em situação suspeita com uma menina de 14 anos na Itália. Ganhou muito dinheiro, mas também perdeu com a mesma velocidade em carros e mulheres. Há uns anos, vendeu por 1.600 dólares a medalha que ganhou naquela tarde no Maracanã. Vive hoje numa cidadezinha perto de Montevidéu. Dizem que pode ser vista no Chuí brasileiro nas férias de verão.

Em 29 de dezembro, aos 83 anos, Alcides Edgardo Ghiggia foi o centésimo jogador a colocar os pés na calçada da fama do Maracanã. Justa homenagem, entre tantos que incendiaram o estádio, que o homem que o silenciou também esteja lá.

P.S.: Muito justo também que as mãos de Barbosa, injustamente condenado pelo Maracanazzo, também estejam na calçada da fama. O goleiro foi o décimo jogador a deixar sua marca na calçada.

Texto enviado pelo leitor e comparsa Miguel Stédile.

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Entry filed under: Copa do Mundo, Pela América.

A fortaleza que treme Esses argentinos me racham a cara

25 Comentários Add your own

  • 1. Francisco Luz  |  06/01/2010 às 07:29

    Muito justo, mesmo. Ele foi o primeiro cara a fazer história de verdade por lá.

    No Centenário, o museu que a AUF construiu é sensacional. E a parte que fala do Maracanazzo é muito foda. Recomendo muito a quem puder ir.

  • 2. Rafael Jeffman  |  06/01/2010 às 08:55

    Estive em Montevideo no Natal e visitei o Museo do Futbol no Centenário. É comovente.

    Eles tem 3 assuntos principais as conquistas da seleção Uruguaia nas Olimpíadas pré-Copa do Mundo, a Copa do Mundo de 30 e a Copa do Mundo de 50.

    Lembro de três camisetas estrangeiras lá: Vavá, Pelé e Maradona.

    Tirei algumas fotos lá.

    A visita ao museu e ao estádio vale os R$ 8,00 (aceitam real, dolar, pesos uruguaios, pesos argentinos e talvez outras moedas. 🙂

  • 3. Manuel Barbeiro  |  06/01/2010 às 09:16

    E NENHUM COMENTÁRIO SOBRE A COPA SP.

  • 4. dante  |  06/01/2010 às 09:29

    boas fotos, rafael.

    roubei aquela ali do cachorro pra minha coleção.

    : ]

  • 5. vicente v.  |  06/01/2010 às 10:08

    a relíquia olímpica uruguaia é uma gravata????????

  • 6. Alexandre N.  |  06/01/2010 às 10:32

    #3

    Ô Manél, tenhas calma, o pá! hehehehe…

  • 7. Prestes  |  06/01/2010 às 10:35

    Baita texto!

  • 8. natusch  |  06/01/2010 às 11:02

    Excelente texto. Muito legal, mesmo.

  • 9. Diogo  |  06/01/2010 às 11:19

    Bah, a história do primeiro paragráfo me foi contada por um amigo – cujo pai é Uruguaio e Peñarol fanático – no último dia de 2009.

    Lendo, parece ver ele contando.

  • 10. Francisco Luz  |  06/01/2010 às 12:38

    5: Não. Tem camisas e chuteiras da época, além da mesma bandeira que os uruguaios levaram na delegação tanto para Paris quanto para Amsterdã.

    A gravata é só o mais pitoresco, mesmo.

  • 11. Rafael Jeffman  |  06/01/2010 às 12:48

    Vicente (5), como o Francisco Luz (10) disse, tem bem mais coisas, mas eu não ia estragara a visita lá, né? 🙂

    Em algum lugar eu li que Brasil e Uruguai eram as melhores seleções em 50 mesmo, e que um pouco depois de perder no Maracanã, a seleção brasileira teria ganho deles lá no Uruguai.

    Não sei quanto disso é verdade, mas o Uruguai não ganhou do Brasil como um mero “azarão”, era um bom time.

  • 12. Frank  |  06/01/2010 às 14:04

    MELHOR HOMENAGEM…

    “Na Copa, pela desistência de Escócia, Turquia e Índia (que foi proibida pela FIFA de jogar descalça), o Uruguai precisou enfrentar apenas a Bolívia”…

    FIFA etnocentrista e preconceituosa… Ia ser bacana ver um jogo com os jogadores descalços… =D

  • 13. Rudi  |  06/01/2010 às 14:21

    realmente, seria algo muito peculiar

  • 14. dante  |  06/01/2010 às 16:08

    mas a fifa não deixou nem aquela seleção africana [camarões?] jogar de BABY LOOK numa copa aí, ia deixar os HINDUS jogarem descalços, decerto…

  • 15. Rudi  |  06/01/2010 às 16:15

    jogar descalço é muito mais HOMBRIDADE do que jogar de baby look

  • 16. Francisco Luz  |  06/01/2010 às 16:16

    Não era baby look, era REGATA.

  • 17. dante  |  06/01/2010 às 16:18

    ficar na beira do campo MASCANDO FUNCHO demonstra mais hombridade do que jogar de baby look, rudi.

  • 18. Rudi  |  06/01/2010 às 16:42

    dante #17 (esse número te persegue) está com a razão

  • 19. y  |  07/01/2010 às 13:22

    “Já fizemos nosso papel, jogamos limpo e, desde que não percamos por mais de três ou quatro gols, está bem”

    JOGAMOS LIMPO???????????

    e desde quando uruguaio se orgulha disso????????

    tá na cara que essa conversa não existiu, é pura invenção para MISTIFICAR mais a vitória

    só bobinho aqui, vtnc

  • 20. Anônimo  |  07/01/2010 às 13:35

    O fato é que depois que obrigaram os hindus a calçarem as chuteiras, a Índia parece que nunca mais se classificou para uma Copa, ou alguém lembra disso?

    Essa história de jogar descalço me lembrou das peladas na adolescência nos campinhos de terra do Partenon, muito piores que qualquer gramado de Copa, quando eu envergava a mística nº 5 tricolor que outrora pertenceu a Dinho, O MITO (aliás, consta nos anais do folclore que o Saci tinha duas pernas até jogar contra o MONSTRO)…

  • 21. Frank  |  07/01/2010 às 13:35

    O fato é que depois que obrigaram os hindus a calçarem as chuteiras, a Índia parece que nunca mais se classificou para uma Copa, ou alguém lembra disso?

    Essa história de jogar descalço me lembrou das peladas na adolescência nos campinhos de terra do Partenon, muito piores que qualquer gramado de Copa, quando eu envergava a mística nº 5 tricolor que outrora pertenceu a Dinho, O MITO (aliás, consta nos anais do folclore que o Saci tinha duas pernas até jogar contra o MONSTRO)…

  • 22. Rudi  |  07/01/2010 às 14:13

    Frank, na época não se “classificava” pruma copa do mundo…
    ao que me consta (posso estar enganado) a primeira copa com eliminatórias foi a de 58, antes era só convite

  • 23. Felipe (o catarina)  |  08/01/2010 às 12:17

    #22

    não Rudi, as Copas já tinham eliminatórias desde 1934. Dá uma olhada: http://www.rsssf.com/tables/34qual.html

    obs.: nas Eliminatórias de 1934, que tiveram a participação da PALESTINA, tinha um árbitro austríaco chamado Hans FRANKENSTEIN.

  • 24. Rudi  |  08/01/2010 às 16:31

    curioso não ter sulamericanas… talvez por isso eu tenha entendido errado, acho que as “nossas” foram indicadas até 54… ou não?

  • 25. Francisco Luz  |  08/01/2010 às 19:42

    Sim, aqui só começou em 54. Em 34, 38 e 50 foi por inscrição, já que sempre alguém pulava fora.

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