O dia em que descobri Maradona

17/11/2009 at 06:00 19 comentários

A expectativa de um Brasil x Argentina válido pelas Eliminatórias da Copa de 2006 nem chegou perto da comoção que a saúde de Diego Maradona provocou no torcedor argentino nos últimos dias. A Revista 10 procurou o homem que descobriu Maradona em 1969, Francisco Cornejo, para falar da infância do craque.

Uma chuvosa tarde de sábado de 1969, Parque Saavedra, Buenos Aires, Argentina. O time infantil do Argentinos Juniors treina num campinho alugado no meio do bosque no parque. O garoto Gregorio Carrizo, então com 8 anos, chega acompanhado de um garoto baixinho e o apresenta para o técnico Francisco Cornejo, que achou se tratar de um anão vindo da paupérrima Vilia Fiorito e que tentava a sorte no futebol.

No primeiro toque na bola, Cornejo percebeu que não era um qualquer. A bola foi ao encontro do garoto. Segundo descrição do próprio Cornejo, ele dominou a bola ainda no ar com o pé esquerdo, sem a deixar cair na grama e, com o pé ainda no ar, voltou a pegá- la, deu um chapéu num amigo e chutou ao gol. O fenômeno Diego Armando Maradona nascia ali.

Maradona foi treinado por Cornejo entre 1969 e 1975. O time infantil do Argentinos Juniors tinha o apelido de “Los Cebollitas”, criado por Cornejo, e fez fama na Argentina pelas goleadas e longas invencibilidades.

Hoje, aos 72 anos, Francisco “Francis” Cornejo é um aposentado argentino que vive de uma pequena pensão e luta contra um problema crônico no fígado. Ainda mostrando entusiasmo, apesar da doença, ele deu esta entrevista à Revista 10 por telefone, de sua casa em Buenos Aires, às vésperas do Brasil x Argentina pelas Eliminatórias, em 2 de junho, no Mineirão.

Revista10 – O senhor tem consciência da sua importância na história do futebol?

Francisco Cornejo – Sim, claro. Mas tenho, principalmente, a consciência de que fenômenos como Diego e Pelé já nascem feitos. Ninguém ensinou nada para eles. O que eu fiz com Diego foi apenas encaminhá-lo dentro do futebol. Comprei chuteira, paguei a condução do meu próprio bolso, o levei a um bom médico para tomar vitaminas, cuidar da sua saúde. E dei as instruções que deveria dar, nada além disso. Diego seria Diego em qualquer circunstância. Não fosse pelas minhas mãos, seria pelas de outra pessoa. Eu apenas tive a sorte de ver tudo isso acontecer.

R10 – Como foi o seu primeiro encontro com Maradona?

Cornejo – Foi pouco antes de começar um treino. Um outro garoto, Carrizo, trouxe Diego para me conhecer e fazer um teste. Quando vi aquele menino magrinho e baixinho não acreditei que tivesse 8 anos. Parecia um anão! Mas nos primeiros contatos com a bola, me dei conta que ele não era apenas mais um.

R10 – Você teve mesmo essa sensação naquele momento ou só depois de um tempo percebeu o que tinha nas mãos?

Cornejo – Não… Foi instantâneo. Percebi na hora que não se tratava de um jogador normal. Nunca tinha visto alguém fazer aquilo com a bola.

R10 – E depois? Como foi a estréia dele e a repercussão?

Cornejo – A fama de Maradona foi crescendo através do boca a boca. Depois que viram os primeiros jogos dele, qualquer treinamento do Cebollitas no Parque Saavedra juntava uma multidão de aposentados que queriam ver o tal “novo fenômeno” . E todos ficavam espantados! Foi uma época fantástica. Anos muito bem vividos.

R10 – O senhor continua trabalhando com futebol?

Cornejo – Não, não… Hoje sou um aposentado. Tenho 72 anos. Fiz muito pelo futebol e pelo Argentinos Juniors. Foi uma vida de dedicação. Hoje estou doente e acompanho o futebol pela televisão. O Argentinos hoje está na segunda divisão, mas com uma ótima chance de voltar pelas mãos de Sergio Batista (treinador e, como volante, companheiro de Maradona na seleção argentina campeã da Copa de 1986).

R10 – O que acha da desaprovação do torcedor argentino ao trabalho de Marcelo Bielsa na seleção argentina?

Cornejo – Eu, particularmente, não gosto muito da maneira como ele trabalha. Aqui existe muita pressão para que Bianchi (Carlos Bianchi, técnico campeão pelo Boca Juniors) assuma o time. Mas não acho que o problema seja o técnico. Os jogadores precisam colocar mais amor e determinação na hora de defender a seleção e deixar de lado o dinheiro. O excesso de dinheiro estragou o futebol. Hoje, um menino de 10 anos já tem empresário. Isso é um insulto.

R10 – Logo teremos o clássico Brasil x Argentina pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006.

Cornejo (interrompendo) – Olha.. Eu admiro muito o futebol brasileiro. Você viu o amistoso contra a Hungria? Os jogadores corriam em campo, mas pareciam que caminhavam! São craques e demonstram união. A Argentina tem muitos talentos, mas ainda não é um time. Também sempre falam de Maradona e Pelé… Para mim não importa quem foi melhor. São dois deuses do futebol.

R10 – O senhor disse que leva uma vida simples, sem muito dinheiro. O senhor tem mágoa por Maradona não o ajudar?

Cornejo – Se eu tenho raiva dele? Não, não… Mas de Maradona eu não tenho nem um pente! Nunca fui homem de pedir nada a ninguém. Houve urna época que eu pensava em montar um campo de treinamento para garotos, uma escolinha de futebol, mas nunca tive coragem de pedir nada a ele. Foi apenas um sonho. Veja o que é a vida de Diego? Vive cercado de gente que lhe rouba dinheiro o tempo todo! Pessoas que o bajulam e sugam o que é dele. Veja a situação dele (N. da R. no dia da entrevista, Maradona estava internado por causa de uma crise cardíaca). Eu não sou assim. Tenho minha consciência limpa.

Assim começou a LENDA
Leia trechos do livro “Cebollita Maradona”, que Francisco Cornejo lançou em 2001, relatando o tempo em que conviveu com o menino craque.

“Dizem que pelo menos uma vez na vida todos os homens assistem a um milagre, mas a maioria não se dá conta disso. Eu, sim. O meu aconteceu numa tarde de um sábado de março de 1969 sobre a grama molhada do Parque Saavedra quando um garoto baixinho, que me disse que tinha 8 anos — e eu não botei fé — fez maravilhas com a bola.

Coisas que eu nunca vi ninguém fazer. Tem uma que nunca vou esquecer porque fecho os olhos e continuo vendo como se fosse ontem. Ontem, eu disse? Não, ontem, não. É como se estivesse vendo agora mesmo.

Quando a bola chega a um jogador vindo alta no ar, o que ele faz é baixá-la com o pé e depois a deixa cair no chão, então ele chuta ou toca. Isso é o que todos fazem. Mas aquele menino, não, aquele menino fez outra coisa; dominou-a com a canhota no ar e, sem a deixar tocar no chão e com o pé ainda no ar, voltou a pegá-la para dar um chapeuzinho num adversário e disparar rumo à meta contrária.

A jogada prosseguiu, mas eu continuei olhando para ele. “É um anão”, pensei. Não podia ter 8 anos, com certeza. Foi uma bobagem pensar isso. A idade não tinha nada a ver com o que esse menino havia feito. Se era mais velho ou mais novo, não tinha importância: essa jogada não tinha idade. Um jogador normal, mesmo um muito habilidoso, pode passar a vida sem fazer algo assim, mesmo que a ensaie uma, duas, mil ou um milhão de vezes.

Para fazer uma jogada dessas – e ele fez, como se fosse a coisa mais normal do mundo -, aquele menino tinha que ser diferente, muito diferente dos demais, e eu me dei conta disso. Ali mesmo me dei conta. Por isso posso dizer, sem ficar vermelho e sem medo de que me acusem de exagerado, que eu descobri Diego Armando Maradona, um milagre do futebol. E também meu milagre particular.”

“Estávamos no estádio de Barracas Central, num jogo contra o Huracán. Ganhávamos fácil e Diego estava jogando uma maravilha. Éramos os visitantes e nos quatro cantos do campo chovia insultos cada vez que ele pegava na bola:

— Preto faveladol

—Solta, bunda-mole de meda!

— Volta pra favela!

Gritavam para ele. E o xingavam. Meu Deus, que maneira de xingar o menino. Fustigavam o tempo todo.

No começo, nos seguramos. Estávamos no campo deles e em menor número. Mordíamos os lábios para não responder. Numa dessas, já no segundo tempo, voltamos a escutar pela milésima vez o mesmo grito:

— Vai, preto favelado!

Aí quase que o pau quebra porque Chitoro (esse era o apelido de Don Diego — N. da R.: o pai de Diego Armando Maradona) não agüentava mais. Se levantou e buscou com os olhos quem tinha gritado.

— Vou te cobrir de porradas! — disse. E acreditei nele. O pai de Diego era uma pessoa tranqüila, mas tinha orgulho e não ia permitir que continuassem a insultar o menino assim. Don José agarrou-o pelo braço para contê-lo.— Calma, seu Diego, deixa pra lá — falou para detê-lo.

— Não, esse cara vai ver só— respondeu Chitoro, se soltando.

Então, aconteceu algo incrível. Diego pegou a bola na lateral do meio do campo, quase debaixo do setor onde gritavam mais, e disparou em frente. Iludiu um adversário, deixou outros dois pelo caminho com um drible de corpo, avançou para a área e, com um marcador que tentava agarrá-lo de qualquer jeito, chegou até o bico esquerdo da pequena área para tocar a bola no outro canto do goleiro, que saia desesperado para fechar o ângulo. Um golaço. Igual ao que fez contra os ingleses. Gritamos como loucos e, dentro de campo, os meninos se abraçavam. Foi urna loucura. Na mesma hora, percebi que na arquibancada havia silêncio total.

Foram apenas alguns segundos, mas era um silêncio pesado, enorme, e no meio desse silêncio, Diego se levantou do chão, onde havia caído quase amassado pelos companheiros para festejar seu gol, e começou a caminhar, cabisbaixo, até o meio-campo. Pude ver que sorria. Então começaram a aplaudir; primeiro uns poucos, depois mais outros e, no fim, nos quatro cantos do campo. Um aplauso interminável em homenagem ao gol de outro mundo que o menino tinha feito. Até a bola voltar a rolar, não pararam de aplaudir. E, nesse jogo, não se ouviu mais nenhum insulto.”

A matéria, escrita por Paulo César Martin, foi publicada na Revista 10, n.º1, Junho de 2004, pela Editora Conrad. O texto nos foi enviado como sugestão de publicação pelo leitor e amigo Miguel Stedile.

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Entry filed under: Literatura, Pela América.

Perspectivas celestes O futuro é um breu

19 Comentários Add your own

  • 1. marlon  |  17/11/2009 às 06:12

    sensacional.

    e argentino é bicho tanso mesmo. “PRETO favelado” – mas não tem UM neguinho lá!

  • 2. guihoch  |  17/11/2009 às 08:02

    CARALEO, a GEISY já ta na globo, onten no casseta

    maluco parece aq

  • 3. guihoch  |  17/11/2009 às 08:03

    CARALEO, a GEISY já ta na globo, onten no casseta

    maluco parece aquelas vagaba que tem foto e numero colado nos orelhão.

    GEISY NUCLEAR, É UM ESTOURO
    LIGUE DJÁ.

    DHKHDKHDKSHDKSHDKSDKDKHSDKHHH

  • 4. vicente v.  |  17/11/2009 às 09:13

    alguém aí já viu o filme ‘maradona’ do kusturica?

  • 5. m  |  17/11/2009 às 09:38

    eu vi. haja fidel. mas é bacana.

  • 6. guihoch  |  17/11/2009 às 09:41

    AÍ RUDI com os mteu 18 mil tu tira aquela palio weekend, FICA ESPERTO, ve as fotos no link dentro do link

    http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/11/16/senado-quer-arrecadar-652-5-mil-com-leilao-de-objetos-economizar-em-manutencao-914796543.asp

    TD

    chega uma hora antes do leilão e fala pro leiloeiro que foi o davi que te mandou e ele vai te dizer aonde ficar e a hora de agir.

  • 7. marlon  |  17/11/2009 às 09:44

    #6
    bah, que afudê esse LANDAUZÃO preto. e vai sair por uns 15 conto… também, bebe mais que eu, o MUSSUM e o BUKOWSKI juntos, esse desgraçado. mas é massa.

  • 8. Jader Anderson  |  17/11/2009 às 09:55

    É uma lástima apenas o estrago que ele teve na vida dele.

    Com certeza um daqueles milagres como seu descobridor citou.

  • 10. Jader Anderson  |  17/11/2009 às 10:07

    Cara,

    tu acha o andrezinho tão ruim?

    Eu acho ele um bom meio campo… me serve no gremio por ex, nao ganhando o que ganha no inter eh claro hehehe

  • 11. douglasceconello  |  17/11/2009 às 10:13

    Essa entrevista é espetacular. Tanto que deveria ser mais LONGA.

  • 12. Rudi  |  17/11/2009 às 10:14

    Jader, eu disse “alegria de alguns” não pra minha…
    por mim ele ficaria também

  • 13. Jader Anderson  |  17/11/2009 às 10:19

    ah tá…

    INTERPRETAÇÃO FAIL.

    Poderia também ter mais um CAUSO do cebollita.

  • 14. marlon  |  17/11/2009 às 10:23

    pô, eu gosto do 10zinho. e ele tá certo: salvou o colorado várias vezes (a mais massa foi a falta contra o flamengo), em várias ocasiões foi o melhor em campo, e nunca recebeu chance de continuidade. não tá jogando grande coisa nos últimos tempos, mas isso é fase.

  • 15. gilson  |  17/11/2009 às 10:50

    Uai, cadê o texto do Cassol?

  • 16. Diogo  |  17/11/2009 às 11:00

    Bah, muito boa sugestão de texto. Toda e qualquer história dos bastidores do futebol é sensacional.

    Que venham outras.

  • 17. Rudi  |  17/11/2009 às 11:03

    tão dando APAGÃO no texto do cassol

  • 18. Tim Maia da Coréia  |  17/11/2009 às 11:28

    “O excesso de dinheiro estragou o futebol. Hoje, um menino de 10 anos já tem empresário. Isso é um insulto.”

    FALOU TUDO!

  • 19. Schmidt  |  17/11/2009 às 12:32

    #6, puta que parió, até o senado está vendendo pneu usado…

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