De pais, filhas e irmãos

03/11/2009 at 06:30 20 comentários

Eu tenho um pai que não gosta de futebol. Meio como o pai do Gay
Talese
, ele acha que futebol não leva ninguém a lugar nenhum. Não tão
fatalista – afinal, ele não teve que escolher entre trabalhar ou jogar
bola. Apenas se desligando EMOCIONALMENTE da contenda, o que já
facilita muito a vida, vamos combinar. Meu pai é o tipo de cara que
conta uma história pra qualquer mote. Eu disse QUALQUER mote. Se você
falar de guerra ou bisteca de porco, da chegada do homem à lua ou de
tanajuras, ele tem uma história pra contar. A contação de causos e a
falta de gosto pela bola eu acho que têm a mesma raiz: Arcoverde, a
cidade onde ele nasceu.

Os causos que ele colecionou pela vida são, na maioria, sobre
Arcoverde. Ele costuma dizer que a cidade é a sua Macondo – o vilarejo
caribenho onde os Buendía se consumiram em Cem Anos de Solidão. Sabe
lá Deus por que é que TUDO acontecia em Arcoverde e redondezas: de
padres exorcizando helicópteros a aclimatação de tamareiras, passando
por bêbadas que agarravam POSTES na falta de HOMENS. E em Arcoverde,
na década de 50, o esporte não era futebol. Dois ou três times se
enfrentando em disputas mal organizadas que não chegavam a ser
campeonatos não foram suficientes para incutir amor pela bola no
coração dele. Apesar de sempre contar como foi escutar os jogos do
Brasil na Copa da Suécia, em 58, pelo rádio, é só uns seis meses
depois ver os gols NO CINEMA, não havia muitas histórias de futebol no
repertório dele. De caçada, de pescaria, de circo, de assombração e de
tiro tinha. Mas de futebol, não.

Para desgosto dele, na prole de quatro filhos apareceu um apaixonado
por futebol. E foi justamente a filha. Três filhos homens que não
sabem o que é impedimento (nem na regra, nem na internet!) e uma filha
que sabe de cor o regulamento da Série D. Ô desgosto. A filha foi se
engraçar com futebol depois de grande, depois de saída de casa, com
umas companhias de dar arrepios: uns amigos tricolores e um namorado
(agora marido) que não pode ver bola. Apesar de meu pai não gostar de
futebol, esse era um assunto que não podia ficar sem causo.

Toda vez que eu aparecia com uma conversa de futebol ele parecia estar
vasculhando a memória em busca de uma história. Meu pai conta
histórias como quem caça um tanto de realidade, conta causos para
criar vínculos. E ele não podia deixar passar essa. Um dia, sem que eu
esperasse, meio irritado por eu insistir em prometer ao meu sobrinho
levar ele no Arruda, meu pai me aparece um uma história nova no seu
repertório. Uma que estava guardada e ainda não tinha aparecido. E que
meu gosto por futebol tenha valido pena pelo menos por isso. Pra dar
mais um mote a Seu Tota:

Em Arcoverde (sempre lá), lá pelos anos 50, tinha dois irmãos que
jogavam bola. Tinham menos de um ano de diferença de um para o outro, o
que parece ser a boa prática de ter filhos em Arcoverde: meu pai e meu
tio tem a mesma idade por três dias no ano, minha avó pariu duas vezes
com uma diferença de 362 dias. E meu pai tinha uma amigo que teve TRÊS
irmãos no ano. A mãe pariu gêmeos em fevereiro e mais um em dezembro.

Sendo praticamente da mesma idade, os irmãos boleiros faziam tudo
juntos. Eles vendiam corda na feira. Terça na Pedra, quinta em
Pesqueira, sábado em Arcoverde. E domingo era dia de bola. Não tinham
vinte anos, cuidavam de vender a produção da família, faziam dupla em
campo. Cada um na sua especialidade: um era atacante, o outro,
goleiro. Calhou de organizarem um campeonato de futebol na cidade que
tinha prêmio em dinheiro. Por algum motivo, provavelmente pra aumentar
as chances de levar pra casa o prêmio, os irmãos jogaram em times
separados.

Certeza ABSOLUTA que nesse tempo ninguém falava em JUSTIÇA nos
campeonatos nem era preciso um torneio de 238 rodadas pra garantir a
exposição dos patrocinadores. Formulismo era coisa para FEIRA MUNDIAL.
O mata-mata começou às sete da manhã e no pino do meio dia já estava
prestes a acabar. Quis o destino que os irmãos estivessem frente a
frente, um contra o outro, num jogo que acabou empatado e foi para os
pênaltis. Um bom noveleiro já podia prever este final. Mas
considerando que a história é velha e verídica, vê-se que a ficção só
repete em lugares diferentes e com personagens diferentes histórias
que acontecem o tempo inteiro.

De volta ao duelo à moda pernambucana, estão o irmão-atacante e o
irmão-goleiro, um diante do outro, prontos para o pênalti que
decidiria a contenda. A essa altura, com o sol sertanejo queimando o
juízo, já não fazia diferença que o prêmio já estava garantido para a
família, que iria para a mesma casa. Nem fazia diferença que eles eram
irmãos e tanto fazia um quanto o outro ganhar, o prêmio era dos dois.
Brio é brio em qualquer canto desse Brasil e em Arcoverde, em
milenovecentos e cinquenta e poucos, debaixo do sol e diante da trave,
brio é tudo o que resta.

O irmão-atacante avisou ao irmão-goleiro “saia da frente da barra que
eu vou furar esse gol. Vou botar você dentro da barra com bola e
tudo”. Ao que o irmão-goleiro respondeu com desdém, sem se mover de
cima da linha. Times e platéia (sim, platéia) já tinham invadido o
campo e esperavam, em volta da pequena área marcada a cal no terreiro,
o desfecho da peleja. O irmão-atacante tinha a perna boa mesmo e o
irmão-goleiro era mesmo difícil de furar.

Sabendo disso, o irmão-atacante não olhou para o irmão-goleiro. Olhou
primeiro para céu e depois para a bola, deu um passo para trás e
encheu a perna direita, mirando com tudo o meio do gol.

O irmão-goleiro, que não tinha sequer piscado o olho, estava em certa
vantagem. Conhecia a perna boa, a cabeça de artilheiro e a alma do
irmão. Sabia que ia mesmo acabar entrando com bola e tudo e esperou o
chute no meio do gol.

A bomba veio certeira, onde o irmão-artilheiro quis chutar e onde o
irmão-goleiro sabia que devia esperar. O pênalti bem batido foi
agarrado de chofre, com os braços em forma de concha esperando por uma
pérola, como ele não teria aprendido em nenhuma escolinha de futebol
em gramado sintético.

Na fração de segundo necessária para a platéia e o time começarem a
urrar, só o irmão-atacante olhou no olho do irmão-goleiro. E o viu
fora de órbita. A platéia já tinha virado torcida. Mas antes do
primeiro torcedor voltar ao chão depois pro primeiro pulo, a profecia
do irmão-atacante se cumpria e o irmão-goleiro caía de costas,
abraçado com a bola, dentro da barra.

Sem conseguir respirar e cuspindo sangue, foi assim que ele caiu. E
nesse tempo não tinha SAMU. Nem hospital aberto. E o enfermeiro da
cidade só conseguia dar a primeira injeção depois da primeira lapada
de cachaça. E o médico da cidade era o médico do DNOCS. Não deu pra
atender o irmão-goleiro e ele morreu ali mesmo, com bola e tudo dentro
da barra, com uma costela quebrada enfiada no pulmão.

O irmão-atacante nunca mais jogou bola, não queria mais chutar. Também
parou de vender corda, fugindo da tentação de acabar com mais
sofrimento o desespero que sentia. Foi embora morar no mato pra
ninguém lembrar da história triste que ele tinha. Mas a história não
parou de ser contada. Meu pai, que não viu o jogo, a ouviu uma vez. E
guardou na memória. E cavucou ela de volta pra provar que além de
assombração e de receita de tatu-peba, ele também entende de futebol.

Catarina Cristo

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Entry filed under: Colunas.

Um sopro de respeito próprio Nostalgia da chinelagem

20 Comentários Add your own

  • 1. arbo  |  03/11/2009 às 07:02

    cla cla clap
    saíste ao pai

  • 2. Yuri  |  03/11/2009 às 07:24

    Mas antes do
    primeiro torcedor voltar ao chão depois pro primeiro pulo, a profecia
    do irmão-atacante se cumpria e o irmão-goleiro caía de costas,
    abraçado com a bola, dentro da barra.

    SUPERCAMPEÕES sertanejo.

  • 3. Frank  |  03/11/2009 às 08:12

    Acho que as lendas sobre o futebol têm suas semelhanças em todo o Brasil…
    Bah, essa história da Catarina é muito parecida com a lenda sobre a morte do Lara…
    A diferença é que diziam que o irmão dele era o FRIEDENREICH…

    Meu pai já é diferente… gosta apenas do futebol das antigas… hoje perdeu o interesse… diz que depois do Garrincha e do Pelé, só apareceram pernas-de-pau que não valem a pena acompanhar…
    Quer dizer, ele não é botafoguense apenas por um ACIDENTE geográfico…

    hauahauhdauh =D

  • 4. Lucas Cavalheiro  |  03/11/2009 às 08:51

    …com os braços em forma de concha esperando por uma
    pérola, como ele não teria aprendido em nenhuma escolinha de futebol em gramado sintético.

    Fina hironia! haha

    Muito bom o texto, cheio de grandes passagens!

  • 5. Lucas Cavalheiro  |  03/11/2009 às 08:51

    HIRONIA? meldels..

  • 6. izabel.  |  03/11/2009 às 09:50

    muito massa, catarina!

  • 7. Leo Ponso  |  03/11/2009 às 11:17

    Mas que beleza, moça.

  • 8. J Petry  |  03/11/2009 às 11:24

    Clássico.

  • 9. Fernando Cesarotti  |  03/11/2009 às 12:06

    Sensacional, puta texto.
    Eu conhecia uma família de Arcoverde, eta mundo pequeno demais sô.

  • 10. gilson  |  03/11/2009 às 12:06

    Docaralho, sem mais!!

  • 11. Thalles  |  03/11/2009 às 12:35

    “Para desgosto dele, na prole de quatro filhos apareceu um apaixonado por futebol. E foi justamente a filha”

    Desgosto maior foi saber que a filha escolheu pra tocer logo o Santa Cruz, na pior década da história do clube. Se fosse pelo menos um time de PORTE, como, sei lá, o CRB!

    Pensando bem, melhor tu torcer pro Santinha mesmo. Pé-frio da porra que tu é, se tu fosse regatiana o CRB ia ter desistido dos gramados e optado pelo BASQUETE DE PRAIA.

  • 12. Junior  |  03/11/2009 às 13:14

    Ótimo texto, Catarina. Arcoverde não é a cidade do pessoal do Cordel do Fogo Encantado?

    Frank, #3, se eu não me engano, também há a história de um goleiro do Fluminense que saiu do estádio direto para um hospital, onde morreria horas depois.

  • 13. catarina cristo  |  03/11/2009 às 13:51

    #11

    eu já expliquei aqui pq é que eu tenho tanto azar no jogo, não já?

    #12

    Sim, sim. Uma parte deles é de Arcoverde, sim. Outra referência musical de Arcoverde é o Samba de Coco Raízes de Arcoverde. Procura aí. Se vc gosta do Cordel do Fogo Encantado, pode acabar gostando deles tbm. Eles são uma das referências do Cordel, inclusive.

  • 14. Atilio  |  03/11/2009 às 18:17

    Bem legal o texto.
    Frank, meu pai também conta essa história do Lara. Mas, segundo meu pai, o Lara não tomou o gol. E o velho sempre enfatiza: “Eles não usavam luvas naquele tempo!!!”

  • 15. Márcio Neves  |  03/11/2009 às 18:29

    Tricolor = Santa Cruz??
    Tadinha…

  • 16. douglasceconello  |  03/11/2009 às 18:35

    Este texto é um verdadeira PÉROLA, daquelas pra ser emoldurada e AFIXADA em lugar de destaque na enorme parede do FABULÁRIO universal.

  • 17. Diogo  |  03/11/2009 às 19:51

    E foi assim que Caim matou Abel no sertão de Arcoverde.

  • 18. Oster  |  03/11/2009 às 23:19

    esplendoroso texto!!!

  • 19. Logan  |  04/11/2009 às 14:53

    Tá parecendo história do Ariano Suassuna, sério.
    Mas a história é massa mesmo.

  • 20. joão dal mollin  |  06/11/2009 às 01:14

    texto primoroso, principalmente quando fala do teu velho. quanto ao causo, claramente ARQUETÍPICO, idêntico à lenda do Lara, o craque imortal. parabéns pra catarina e pro seu tota!

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