A perfeição é uma meta defendida pelo Júlio César

26/09/2009 at 08:53 44 comentários

Se o futebol teve um herói de esquerda, esse cara foi o Afonsinho. Personagem carismático, destemido, engajado, por vezes quase quixotesco, o rebelde meia do Botafogo ocupou um lugar muito especial no imaginário coletivo do Brasil dos anos 70, um país ansioso por transformações sociais e em busca da tão sonhada abertura política. Ele foi o primeiro líder profissional das estrelas dos gramados a lutar pelo seus direitos, uma luta pela qual pagou um preço caro, mas que, como ele mesmo não se cansa da dizer, valeu a pena.

Afonsinho dentro de campo era um gênio, no toque de bola e no drible, fora dela o gênio foi cassado, por suas escolhas não serem do agrado dos generais e dos cartolas de então.

Infelizmente o meio campista nunca foi convocado para a seleção Brasileira, o que se justifica pelo fato de suas posturas serem de confronto ao regime militar e a estrutura do futebol nas décadas de 70 e 80 do século XX.
Afonso Celso Garcia Reis, jogador, médico, musicista, boêmio, viveu até sua adolescência em Jaú, cidade do interior de São Paulo. No início da década de 60 ingressou nas divisões de base do XV de Jaú e em seguida, foi jogar no Botafogo Carioca.

O Botafogo, que ele tanto amou, não foi capaz de retribuir tal sentimento. Nos anos 70, nem mesmo o futebol escapou da ditadura militar. Eram os tempos dos campeonatos inchados para atender aos interesses de ”integração nacional”. Torneios que, no final daquela década, chegaram a ter quase cem clubes. Aonde a Arena vai mal, põe um time no campeonato nacional. Aonde a Arena vai bem, põe um também, era o lema da CBD. Por alguma razão insondável, os militares não gostam de barba e cabelo comprido. Afonsinho sabia disso, claro. Mas, como não jogava para um regimento e sim para um time de futebol, achou que poderia cultivar tranqüilamente seus longos cabelos e uma barba de fazer inveja a qualquer companheiro da época. Ledo engano.

Barrado no Botafogo em 1971, até de treinar, por se recusar a obedecer as ordens dos dirigentes do clube que o obrigavam a cortar o cabelo e a barba, impondo através desta medida, a cultura autoritária e repressora dos ditadores. No Brasil, cabelos e barba comprida, em meado da década de 70, era layout irreverente. Usuários eram confundidos como subversivos ou fora da lei.

Os conservadores dirigentes do clube acreditavam que ficariam mal com o governo se mantivessem no time aquele ameaçador barba ruiva, por maior que fosse o seu talento. Além disso, crime dos crimes, Afonsinho era letrado. Pior ainda, politizado, diferentemente da maioria dos jogadores monossilábicos, era líder, inteligente, combativo e suas entrevistas eram marcadas por posições firmes. Cursando medicina na faculdade, o articulado barbudo fez amizades com músicos, artistas e intelectuais e passou a liderar movimentos estudantis no campus. Não por acaso, o craque foi eternizado numa canção de Gilberto Gil, “meio-de-campo” cantada pela saudosa Elis Regina (“Prezado amigo Afonsinho; eu continuo aqui mesmo; aperfeiçoando o imperfeito; dando tempo, dando jeito”) e virou filme pelas mãos de Osvaldo Caldeira. O documentário Passe Livre foi considerado importantíssimo na consolidação dos circuitos alternativos de cinema no Brasil.

A atitude engajada e as ”más companhias” acabaram barrando Afonsinho no Botafogo. Para piorar, além de não aproveitar o jogador (sem o jogador, o Botafogo perdia muito da inteligência de seu meio-de-campo. Afonsinho antevia a jogada, mal recebia o passe já acionava rapidamente um companheiro de ataque, diferente de vários meias que tocavam a bola de ladinho, jogava em profundidade e tinha uma belo arremate de meia distância), os cartolas se recusavam a negociá-lo. Foi quando ele decidiu recorrer à Justiça, algo que os jogadores da época não conheciam nem de nome. Numa decisão surpreendente, o TJD concedeu passe livre a Afonsinho, transformando-o no primeiro jogador alforriado do futebol brasileiro. Durante a luta judicial, jogou pelo Olaria, depois de um ano de luta na justiça, recebeu o direito ao passe livre para jogar onde quisesse. A vitória de Afonsinho na Justiça Desportiva nos Anos 70, foi a vitória pelo direito ao trabalho e por liberdade de expressão e de organização.

Esta opção, fez com que a ditadura o perseguisse, sendo fichado no SNI (Serviço Nacional de Informações), como subversivo e comunista. E mais que isto, em um período de terror e do cala boca, questionar o sistema futebolístico de então, era bater de frente com os militares. No entanto nada o impediu de continuar lutando por justiça e democracia.
As pressões do governo militar impediram que ele obtivesse um bom contrato. Ainda assim, ele que havia jogado com Garrincha no Botafogo foi jogar no Santos de Pelé antes de perambular por vários clubes como: Vasco, Flamengo, Atlético Mineiro, voltou ao XV de Jaú e encerrou a carreira em 1982, aos 35 anos de idade, no clube que por pouco não o lançou, o Fluminense.

Como os bons lutadores são aqueles que continuam até o fim, Afonsinho jamais deixou de se empenhar pelas causas sociais. Hoje exerce a profissão para a qual se formou. Depois de ver e ouvir tanta sandice no futebol, foi trabalhar como médico-psiquiatra do Instituto Pinel, onde realiza um trabalho de esporte, recreação e lazer como complemento do tratamento psiquiátrico, visando a combater a estigmatização dos deficientes mentais. Quem conviveu com tantos cartolas deve tirar isso de letra…

Além disso, o ainda barbudo, mas agora com cabelos ralos e grisalhos, comanda um projeto que promove a assistência a crianças carentes através do futebol. A escolinha do Afonsinho fica atualmente na escola Tia Ciata, entre o Terreirão do Samba e o edifício Balança Mas Não Cai. Ao seu lado no projeto, sugestivamente batizado de Ex-Cola, estão os antigos companheiros de Botafogo Nei Conceição e Orlando Vovô.

Muita gente esteve envolvida com a Ditadura, muita gente foi vítima da Ditadura, mas só um brasileiro venceu a Ditadura e este homem foi, Afonsinho.

Como o Navegante Negro do Aldir Blanc, aquele que tinha por monumento as pedras pisadas do cais, Afonsinho não colheu todas as glórias que um craque como ele poderia colher. Mas obteve uma glória que poucos jogadores obtiveram na carreira: o respeito como cidadão e líder. Em meio a tantos jogadores que se calaram, Afonsinho teve a coragem de lutar, ainda mais… naquela época.

Plínio Sgarbi, no Jornal do Brasil e no Recanto das Letras.

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Entry filed under: Literatura.

Esse ingresso eu teria prazer de pagar Enfim, um favorito

44 Comentários Add your own

  • 1. Sanchotene  |  26/09/2009 às 10:24

    Por que eu leio primeiro o Impedimento:

    http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Gremio/0,,MUL1318159-9868,00-GREMIO+JA+PLANEJA+PROJETO+DE+NOVO+MUSEU+PARA+A+ARENA.html

  • 2. Logan  |  26/09/2009 às 10:42

    DIGNIDADE!

  • 3. mardruck  |  26/09/2009 às 11:14

    Sensacional.

  • 4. gustavo  |  26/09/2009 às 12:12

    Coisas que só acontecem com jogadores do Botafogo 😉

  • 5. rafael botafoguense  |  26/09/2009 às 12:43

    ele foi dispensado só pq tinha barba e cabelo longo,dirigentes sao imbecis em qualquer época,acho que el também jogou no olaria.

    e o titulo do texto foi tirado dessa musica do gilberto gil composta pra ele:

    Prezado amigo Afonsinho
    Eu continuo aqui mesmo
    Aperfeiçoando o imperfeito
    Dando um tempo, dando um jeito
    Desprezando a perfeição
    Que a perfeição é uma meta
    Defendida pelo goleiro
    Que joga na seleção
    E eu não sou Pelé nem nada
    Se muito for, eu sou um Tostão

    Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão

    http://www.movimentocarlitorocha.com/2007/09/prezado-amigo-afonsinho_03.html

  • 6. rafael botafoguense  |  26/09/2009 às 13:35

    meu pai fala mto bem dele,ganhou o bi-bi de 67/68 e a taça brasil de 68 devia ter ficado para os anos 70,malditos cartolas.

  • 7. Prestes  |  26/09/2009 às 13:40

    DO CARALHO!!!

  • 8. Junior  |  26/09/2009 às 15:00

    DO CARALHO!!! (2)

  • 9. Frank  |  26/09/2009 às 15:16

    Ótimo texto e ótima história… esse sim é um cara digno…

  • 10. Lula  |  26/09/2009 às 18:26

    Se eu fosse esse companheiro, me candidatava ao Bolsa Ditadura, por muito menos outros ex-barbudos ganharam uma bolada!

  • 11. gilson  |  27/09/2009 às 11:38

    Seu Lula, que ideia mais ultrapassada! Bom mesmo é fazer Proer pra dar dinheiro pros bancos do ACM, vender empresas públicas pros amigos, arrochar o salário do funcionalismo e transformar o Estado num moribundo incapaz de promover BEM ESTAR SOCIAL. Mire-se nos exemplos do Boca de Suvaco, do Serra e da Yoda, isso sim é que é governo.

    Dar dinheiro pra gente que ousou defender a democracia? Que arricou ums vida por isso? Pra quê?

    E um PUSTA texto pra passar bem o domingão, que vem mais sofrimento aí de tarde, Allah nos ajude!

  • 12. Logan  |  27/09/2009 às 11:49

    gilson agora mais EM CHAMAS que aquele cara do QUARTETO FANTÁSTICO.
    É ISSO AE! VIVA A REVOLUÇÃO!

    xzrzrxzrrxzrxzrxrzrxzrxrzxrz

  • 13. Sanchotene  |  27/09/2009 às 14:08

    Gilson,

    Como se uma ação não só justificasse a outra, como -de repente- torna-a certa!

    Baita raciocínio…

  • 14. Logan  |  27/09/2009 às 14:26

    Esse foi o gilson, EM CHAMAS!
    viva la revolution

  • 15. rafael botafoguense  |  27/09/2009 às 15:54

    os teus idolos são tantos…

  • 16. Álisson  |  27/09/2009 às 17:04

    DIGNIDADE – Única palavra.

  • 17. Sanchotene  |  27/09/2009 às 17:59

    Sina segue…

  • 18. guihoch  |  27/09/2009 às 18:27

    CARALHO CARAS

    DEVE TER ROLADO MUITO DINHEIRO NESTA RODADA.

    RESULTADOS SUSPEITISIMOS.

    nada que não sabemos, não?

    perdi como um esgoto

  • 19. gilson  |  27/09/2009 às 18:56

    Sancho, se o cara se enquadrar, beleza. Vc é advogado e sabe muito melhor que eu; embora aparentemente não haja o tal nexo causal com uma ação DIRETA do governo golpista no caso do texto (pelo menos pelas informações daqui).

  • 20. Sanchotene  |  27/09/2009 às 20:25

    Gilson,

    A mínha crítica foi ao “Bom mesmo é fazer Proer pra dar dinheiro pros bancos do ACM, vender empresas públicas pros amigos, arrochar o salário do funcionalismo e transformar o Estado num moribundo incapaz de promover BEM ESTAR SOCIAL” (11); cuja relação com a crítica ao “Bolsa-Ditadura” (10) é ZERO! Contudo, foi aquele argumento que você utilizou para desqualificar esse.

    Só apontei a impertinência, nada além.

    Um abraço.

  • 21. Prestes  |  27/09/2009 às 20:26

    O time do Seo Françuel deu um verdadeiro CALA A BOCA SEU ESGOTO no Botafogo.

  • 22. rafael botafoguense  |  27/09/2009 às 20:28

    INDIGNANTE…

  • 23. rafael botafoguense  |  27/09/2009 às 20:33

    MEU DEUS MACAÉ 2×1 TUPI

    ACABA LOGO MUNDO FILHO DA PUTA.

  • 24. joão carlos  |  27/09/2009 às 20:36

    o botafogo tá CHUPANDO A VIRILHA do campeonato…

  • 25. rafael botafoguense  |  27/09/2009 às 20:39

    dãããããããã retardado

  • 26. gilson  |  27/09/2009 às 20:44

    Sancho, acho que é pertinente a comparação, uma vez que o governo é gestor das contas públicas, ele pode definir dentro dos limites da lei como deve executar seus gastos. Ele pode definir investir em projetos como os que citei, ou no outro, que foi alvo de chacota do fake ali. Penso que as opções citadas são fruto de análises diferenciadas da realidade política e história brasileiras, produzidas por forças políticas diferentes, é isso.
    Fraterno abraço.

  • 27. Serramalte Extra  |  27/09/2009 às 20:51

    porra, doze pontos na loteca… bom, mas é melhor que fazer treze e ganhar 30 pila de novo…

  • 28. Historiador  |  27/09/2009 às 21:16

    Tomara que caia e nunca mais volte..e que o Engenhão vire um grande palco pro TUPI na série B, e aí o Rafael mata dois coelhos em uma cajadada só..conhece o Rio de Xaneiru, a praia e ver o Botafogo entrar como favorito em um jogo…

  • 29. rafael botafoguense  |  27/09/2009 às 21:21

    eu ja fui no rio veio,é aqui perto de jf,2:00 horas de carro

    mas eu prefiro que o engenhão seja interditado e venha jogar aqui,somos mto mais fanáticos colocamos 30 mil no mario helenio na boa e na ruim.

  • 30. Sanchotene  |  27/09/2009 às 21:41

    Eu já disse que o 2009 do Grêmio acabara há tempos, mas o clube teima em me desmentir apenas para provar que estava certo logo em seguida. Como perde chances esse time, pelamordedêoz!

    Hoje, foi apenas mais uma. Contudo, com os empates de São Paulo e Inter, mantivemos a distância ao grupo da Libertadores. Ainda estamos fora da briga (como eu sempre digo), mas podemos entrar a qualquer momento.

    Às vezes, acho que eu defendo simplesmente começar 2010, só para acabar de uma vez esse tormento de estar sempre “quase”…

  • 31. Anônimo  |  28/09/2009 às 00:19

    http://bit.ly/Onbot

    Kléber fora do Cruzeiro. Seria uma boa contratação para ano que vem…

  • 32. Anônimo  |  28/09/2009 às 00:49

    Botafoguinho tem que caprichar nas estátuas dos ídolos do passado.

    Porque, atualmente…

    Rumo à segundona!

  • 33. Topolski  |  28/09/2009 às 02:05

    Quem conviveu com tantos cartolas deve tirar isso de letra…

    sensacional.

    E o Autuori tem que se preocupar com a Copa do Brasil 2010. Se consagra com pouca coisa.

    Ta dificil outra coisa nesse campeonato.

  • 34. Paulo Z  |  28/09/2009 às 05:00

    Muito bom o texto sobre Afonsinho!

    Certa vez assistindo aqueles pernósticos jogadores do SPFC dando entrevista coletiva, comentei com um amigo sobre Afonsinho. Lembrei a luta dele e o quadro atual dos nossos jogadores, aparentemente tão livres e na verdade mais presos do que o nosso prezado amigo Afonsinho.

  • 35. joão carlos  |  28/09/2009 às 09:08

    me chama de retardado, mas não me chama de BOTAFOGUENSE…

  • 36. Alexsander  |  28/09/2009 às 10:45

    Acho que o patrão deveria ter o direito de impor regras de vestuário ou de apresentação. Uma empresa deveria poder não aceitar empregados com tatuagens, piercings ou barba comprida, por exemplo. Não faz sentido OBRIGAR uma pessoa (física ou jurídica) a empregar alguém que ela não quer, é quase uma escravidão às avessas.

  • 37. Lula  |  28/09/2009 às 12:32

    Gilson,

    Com ceteza, o Bolsa Ditadura vai levar o Braziu a níveis de desenvolvimento nunca antes vistos na história desse país.

    É por isso que o valor total das indenizações já concedidas pelo meu governu a todo tipo de demócratas injustiçadus pela ditadura já supera algumas vezes o das indenizações alemãs a israel pelo holocausto!!

  • 38. Alexsander  |  28/09/2009 às 12:41

    Este tal “Bolsa Ditadura” é uma vergonha. Colocaram todos no mesmo saco, virou zona. Uns poucos de fato mereciam indenização, como por exemplo os jornalistas que foram torturados ou mortos apenas por expressarem uma opinião. No entanto o governo Lula está concedendo a bolsa para ladrões de banco, assassinos comuns e até para alguns vagabundos que apenas ficaram presos por algumas horas.

  • 39. Logan  |  28/09/2009 às 16:08

    rafael chupaaaaa!!!! três foi pouco, pra calar a boca do comentarista viado (com o perdão de redundância) que tava comentando o jogo ontem.

  • 40. rafael botafoguense  |  28/09/2009 às 16:46

    CALA A BOCA ADUBO.

  • 41. Logan  |  28/09/2009 às 17:35

    Adubo é a sua família até a terceira geração!!
    Antes era cocô mesmo.

  • 42. Logan  |  28/09/2009 às 17:36

    Aliás não, que adubo ainda serve pra alguma coisa, você não vale nem a mosca do cocô do cavalo do bandido botafoguense.

    aksaksakaksakskaskaksaksaksaks

  • 43. arbo  |  28/09/2009 às 18:28

    mto bom o texto. não tinha ouvido falar do cara.
    e esse paulo z, é o zumarán?

  • 44. rafael botafoguense  |  28/09/2009 às 18:38

    hahahahahahahaahhahahahahah esse porra eh mto escroto

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