Azar no jogo

16/09/2009 at 07:00 33 comentários

Que sina triste, meu deus , detestar os domingos. Se domingo é dia de
pernas pro ar e pequenos prazeres em qualquer lugar do mundo, aqui no
Nordeste some o fato de, em 90% das datas marcadas no
calendário, domingo ser dia de sol. O que só faz mais triste ainda
nossos domingos de boleiros torcedores do Santa Cruz e do Sergipe. Pra
que sol num dia assim?

Domingo é o dia em que as famílias menos remediadas ensinam a seus
filhos que o que é bom e doce não custa caro. Os meninos botam os
calções e as alpercatas, o pai cata o boné, a mãe enche as garrafas
pet de kissuco de uva, embala o biscoito Treloso na sacola e vão
todos à praia (que é de graça) de ônibus (que domingo é dia de meia
passagem
).

É no domingo também que as famílias mais abastadas ensinam aos filhos
que o que é bom e doce não tem preço. Custa caro, mas vale a pena
pagar por isso. É o dia em que os avôs levam os netos cheios de
sobrenomes para o almoço no Leite, para comer camarão, lagosta e
bacalhau, aprender nome de vinho, adoçar a boca com toucinho do céu e
ouvir o piano de cauda. Na mesa de sempre, reservada todo o domingo
para a sua família.

E é no domingo – domingo de jogo – que a minha família acorda
macambúzia e amuada. Eu assisto o Globo Rural para refrigério da alma,
o marido dorme como se o dia não merecesse que ele acordasse. O almoço de
domingo, na casa do velho, a cada semana com uma receita nova para me
agradar, é inquieto em dia de jogo. Ele, que me conhece até pela
pisada, pergunta, infalível: “Hoje teu time joga, né?”.

E é na hora em que as famílias menos remediadas voltam no ônibus,
sentadas do lado do sol, com os meninos dormindo queimados e felizes,
na hora em que as famílias mais abastadas voltam em seus carros
refrigerados e as crianças dormem em suas cadeirinhas ergométricas
refesteladas, de bochechas cor de rosa e arrotando camarão, que nós
dois não conseguimos dormir. Os minutos antes do jogo são piores que
qualquer jogo.

No último domingo, com sol a pino e melancolia idem, não quis ligar o rádio. O Santa Cruz estreava na Copa Pernambuco, a Copinha, um campeonato
semi-amador, seja lá o que isso signifique. O adversário era a
Associação Desportiva Cabense, que no Pernambucano de 2007 já tinha
enfiado 5 no Santa, em pleno Gileno de Carli. A competição meia boca e
as más lembranças me impediam de sintonizar no jogo.

No outro canto da sala, cozinhando no mormaço, o marido se recusava a
ligar o computador em busca da transmissão, com delay e interferência,
de Alecrim X Sergipe, que rolava em Natal, sem pena dos corações
sofridos que só pedem um domingo de sossego. O temor não era sem
motivo. “O Sergipe entrega a rapadura. Faz o mais difícil e cai na
hora boa”, repetia.

Já tinha sido assim no Sergipano de 2009, o Ano do Centenário. O
Colorado de Aracaju tinha chegado ao segundo jogo da final diante do
maior rival, o Confiança, precisando só do empate. Perdeu de 2×1.
Entregou a rapadura. Seguiu para a Série D (a vaga sergipana da Série
C é do Confiança há anos). Foi comendo pelas beiradas e, diante de 40
mil tricolores incrédulos, selou a segunda vitória sobre o Santa Cruz
em uma semana, pavimentou o caminho para a segunda fase da competição
e jogou uma pá de cal no Terror do Nordeste, que já não assusta quase
ninguém.

Mais duas semanas para a escrita se confirmar e uma esposa praguejar
“agora suba com esse time. Tirou o Santa Cruz, agora suba com esse
time!”. Mas a mística do futebol é mais violenta do que a praga de
qualquer torcedora azeda. O Club Sportivo Sergipe podia perder de 1×0
que se classificava, mas a rapadura era pesada demais para Fábio
Cambalhota e sua trupe. Entregaram-na sem pestanejar, perdendo de 3×0
em Natal.

Ficamos sabendo dos resultados depois do fim do jogos, os dois juntos.
É melhor levar a lapada de uma vez do que sofrer aos pouquinhos. Ele
leu pra mim “Santa Cruz estreia com vitória de 2×0 sobre a Cabense”. E
tem quem comemore tão pouco. Eu li pra ele “Sergipe perde e dá adeus à
Série D”. E tem quem não canse da mesma dor, sempre voltando.

Repeti o silêncio respeitoso que ele tinha me oferecido quando a
desclassificação teve três cores. A tapioca da janta ajuda a levantar
o moral, o filme velho na TV espanta a maldição do Fantástico. Domingo
é dia de jogo e nesta casa ninguém sorri. Só deitamos as cabeças
unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
deixa de ser cobrado.

Texto enviado pela leitora Catarina Cristo, que dias atrás já havia nos brindado com sua irrefutável categoria.

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Entry filed under: Brasileiro, Clubes, Contribuições.

Pequenos brincalhões, grandes bobalhões El Pitufo sabe mais por velho

33 Comentários Add your own

  • 1. Victor  |  16/09/2009 às 08:17

    AGUANTE ALECRIM

    Maurício Pantera melhor centroavante do Brasil

  • 2. Anônimo  |  16/09/2009 às 08:19

    Pelo regulamento, que é confuso, o Sergipe se classificou. Fez três pontos enquanto o Tupy (MG), com dois empates, fez apenas dois. Eles já entraram na Justiça Desportiva, a Série D foi para o tapetão.

  • 3. thalles gomes  |  16/09/2009 às 08:31

    Catarina, você abriu meus olhos.
    Do jeito que anda meu Regatas, vou começar a procurar alguém que torça pelo ÍBIS…

  • 4. Luís Felipe  |  16/09/2009 às 09:09

    cara, que texto massa.

    foda-se o comentário 2. Não quero o fato, quero a versão.

    o Impedimento tem a sorte de contar com o que há de melhor nos textos nordestinos sobre futebol. Quase uma GERAÇÃO DE 22 nascida entre a Diamantina e Fernando de Noronha. É um baita privilégio, nossa senhora, ainda mais pra gente tosca como nós que gostamos de futebol uruguaio, segundona e Daison Pontes.

  • 5. Luís Felipe  |  16/09/2009 às 09:10

    Só deitamos as cabeças
    unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
    juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
    que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
    desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
    deixa de ser cobrado.

    me arrepiou esse final, sério.

    imaginei a cena.

  • 6. Felipe (o catarina)  |  16/09/2009 às 09:18

    belíssimo, Catarina. Bonito ver um casal que sofre unido na Série D. Tá cheio de nego aí que diz que “eu não torço pra esses clubecos regionais!” e renega o time da terra.

    Aqui em casa um é Avaí (eu), outra é Figueirense (Magda, minha esposa). A tristeza de um é a alegria do outro. Mas depois a gente se entende. rsrsrsrsrs

  • 7. Sanchotene  |  16/09/2009 às 09:34

    Re 2

    Anônimo,

    O que vale é a soma de pontos de todas as fases; não só da última.

    As quartas-de-final, que valem vaga à Série C, são:

    a) Chapecoense, SC x Araguaia, MT;
    b) Tupi, MG x Macaé, RJ;
    c) Cristal, AP x São Raimundo, PA;
    d) Uberaba, MG x Alecrim, RN.

  • 8. Sanchotene  |  16/09/2009 às 09:36

    Foram eliminados, apenas, Londrina e Sergipe.

  • 9. Rudi  |  16/09/2009 às 09:36

    vai ARAGUAIA!!!

    dá-lhe zé leôncio!!! (NS)

  • 10. Sanchotene  |  16/09/2009 às 09:38

    Claro,

    Mais uma vez parabéns ao Impedimento por contar com colaboradora do naipe da Catarina.

    ESPETACULAR, mais uma vez…

  • 11. dante  |  16/09/2009 às 09:39

    essa do sorte no amor foi mesmo sensacional.

    e, como APONTOU o LF, o final foi de arrepiar.

    parabéns, catarina, baita texto!

  • 12. Cassol  |  16/09/2009 às 10:00

    Muito bom, CC.

  • 13. Sanchotene  |  16/09/2009 às 10:33

    Compl 7:

    Minha torcida vai para: Chapecoense, Tupi, Cristal e Alecrim.

  • 14. Franciel  |  16/09/2009 às 10:51

    Tá vendo aí, dante.

    Agora, não posso mais praguejar apenas contra Thalles.

    Como diria aquele que nunca teve o pé na cozinha: “assim nao dá”.

    Catarina, este teu texto deve ter como trilha sonora Dama do Cassino, na voz suave da menina Jussara Silveira.

  • 15. gilson  |  16/09/2009 às 11:25

    Valeu o dia, puta queo pariu.

  • 16. dante  |  16/09/2009 às 11:45

    pois é, franSSa.

    mas este coro eu não vou engrossar. a menina leva jeito PRAS LETRA.

    bem ao contrário de thalles gomes, aquele farsante filho de cupinzeiro.

  • 17. rafael botafoguense  |  16/09/2009 às 12:16

    #2 tupi é com i

    AGUANTE CARIJÓ!

  • 18. Matheus Rocha  |  16/09/2009 às 12:43

    Já entra para galeria dos melhores do Impedimento.

    Praticamente um clássico.

  • 19. Jader Anderson  |  16/09/2009 às 13:13

    #5
    “Só deitamos as cabeças
    unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
    juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
    que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
    desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
    deixa de ser cobrado.

    me arrepiou esse final, sério.

    imaginei a cena.”[2]

    Luís felipe extraiu o comentário da minha mente, Genial o texto e o fechamento é demaaaaaais.

    Franciel claramente sucumbindo a concorrência nordestina na Imped Corp.

  • 20. Diogo  |  16/09/2009 às 13:28

    Belíssimo texto.

    “Pra que sol num dia assim?”

    Usarei.

  • 21. Prestes  |  16/09/2009 às 14:08

    Muito bom!!!

    Ainda tem um Colorado na disputa da série D, o UBERABA.

  • 22. alemao  |  16/09/2009 às 14:25

    baita texto, heinhô? A disputa de correspondente nordeste da ImpeCorp está deveras acirrada…

    Aguêeeeeenta coração!

  • 23. arbo  |  16/09/2009 às 14:41

    bá, parabéns, catarina (e ao maridão). sensacional do início ao fim. ótimo texto.

  • 24. Junior  |  16/09/2009 às 15:23

    5
    “Só deitamos as cabeças
    unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
    juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
    que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
    desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
    deixa de ser cobrado.

    me arrepiou esse final, sério.

    imaginei a cena.” [3]

    Luís felipe extraiu o comentário da minha mente, Genial o texto e o fechamento é demaaaaaais. (2)
    Esse texto fica ainda melhor depois de se ler a coluna da Martha Medeiros (arghh) em que ela tenta escrever sobre esporte.

    Aracaju é uma bela cidade. Só estranhei o fato que em 10 dias só vi uma pessoa usando a camiseta de um time local. E falando com o recepcionista do hotel, ele disse que é assim mesmo. A maioria da população local não se importa com Sergipe e/ou Confiança. Ele disse que quando o Flamengo é campeão estadual ouve-se muito mais foguetes e buzinas do que quando um time da capital vence o campeonato Sergipano.

  • 25. adelmopvj  |  16/09/2009 às 19:26

    os textos de catarina publicados são sempre privilégios para nós leitores do impedimento. belezura!

  • 26. Yuri  |  16/09/2009 às 19:50

    Realmente, deve ser horrível viver num lugar que sempre faz sol, ainda mais para mim, que odeio praia (há mais de TRÊS ANOS que não vou, graças a Deus).

    Meus pêsames. Mais pelo sol e praia do que pelos clubes. Série D não é tão ruim assim.

  • 27. João Paulo  |  16/09/2009 às 19:54

    Texto espetacular!

    Luís Felipe no #4 falou tudo. Celebremos o Impedimento!

  • 28. mateus  |  17/09/2009 às 00:44

    sensacional.

    nada mais.

  • 29. pablo gomes  |  17/09/2009 às 01:20

    ah, catarina. q texto lindo da porra!!!
    se tu não fulerasse tanto no butuca, podia dizer q eras perfeita.
    abração pra vcs!

  • 30. Tacyana  |  17/09/2009 às 15:00

    Nasci em Sergipe, mas a paixão é pelo Santinha.
    Se bem que ia dar no mesmo, né?

    hahahahahhahaha

    Avante, tricolor!

  • 31. Sanchotene  |  18/09/2009 às 13:24

    Re 26

    Yuri é heliofóbico! Achei que eu fora o único…

  • 32. Rudi  |  18/09/2009 às 14:04

    heliofóbico = preconceito com Hélio dos Anjos?

    ushuaia

  • 33. Topolski  |  19/09/2009 às 04:07

    Eu vi uma das coisas mais afude num estádio num jogo do Confiança.

    Era Confiança x Cruzeiro na primeira fase da copa do Brasil.

    Tinha torcida do Confiança e torcida do Sergipe no estádio.

    Sensacional.

    Mas não conheço um sergipano torcedor do Sergipe ou do Confiança. Mas cheguei a conhecer um botafoguense (por sinal o único que conheci na minha vida).

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