Relatório Franciel

07/09/2009 at 12:23 23 comentários

Quando chegamos ao estádio Olímpico — eu, meu filho e o Butragueño de Amaralina –, tomamos uma enorme vaia que encarei com bom humor. Nada demais, apenas palavrões. Quando entramos é que houve o primeiro choque: atendendo a seus arbóreos, finos e calosos torcedores, o Grêmio viria sem Tcheco. Mas aquilo era só o primeiro prato, pois logo veríamos um prato principal que outro não era senão a famigerada linha de quatro jogadores no meio-campo: Souza, Adílson, Rochemback e Douglas Costa. Ou seja, Souza e Douglas Costa estariam a quilômetros de distância. Quando vi aquilo, pensei de imediato neste parágrafo, nas inevitáveis críticas a Autuori, na futura entrada às pressas de Tcheco e no entusiasmo que isto causaria. O único grave problema encontrava-se no fim do túnel de meus pensamentos — lá estava novamente Dante Sasso dizendo inexoravelmente que não curtira o parágrafo.

Era uma experiência nova aquilo de ficar numa arquibancada vazia protegido pela polícia de Yeda Crusius. Chamei um guarda para um papo. Avisei e ele que, apesar de ocuparmos um latifúndio improdutivo e quase silencioso, não éramos do MST. Mostrei-lhes minhas mãos de dândi e eles baixaram as armas. Mas um brigadiano mais arguto desconfiou de meu sotaque, obrigando Franciel a intervir:

— Esse porra faz a porra de dez anos que vive na porra desse estado e perdeu um sotaque da porra que fazia a porra da madeira gemer — disse ele no mais irrepreensível sotaque Elevador Lacerda.

O primeiro policial garantiu, com ar de inteligência:

— Ele parece a Sônia Braga de Dona Flor, deve ser baiano mesmo.

E o segundo lhe cochichou:

— Sim, os cabelos são os mesmos.

E em voz alta:

— Podem ver o jogo.

Em campo, eu torcia para um time que não conhecia direito. Acreditem, é pior. Há anos não ficava nervoso num estádio. Não tenho mais idade para essas angústias, mas o fato de só conhecer Magal, Viáfara, Apodi e Leandro Domingues estava me deixando maluco. Apodi via pela primeira vez em sua vida dois laterais para impedir-lhe a passagem: Douglas Costa e Lúcio. Lúcio olhava para a frente e pensava em como fazer um overlapping educado em Douglas para chegar à linha de fundo. Douglas não sabia se abria espaço para Lúcio passar, se atacava ou se marcava Apodi. O mesmo impasse triângular ocorria do outro lado. Souza pensou que talvez devesse telefonar para Douglas Costa a fim de marcar um encontro. Mandava-lhe recados através de Adílson, que os repassava a Fabio Rochemback. Este estava muito ocupado em desfilar sua elegância algo exagerada e esquecia-se de avisar Douglas.

Enquanto isso, o Vitória marcava, desarmava, tocava a bola com tranquilidade e divertia-se perdendo gols, coisa na qual não víamos graça alguma. O excelente Neto Berola mostrou que não era Luís Fabiano ao tocar por cima do gol em jogada idêntica a que seu modelo converteria horas depois. Roger… Bem… Roger… Melhor não falar. Quase morremos na arquibancada. Não se mira no pobre zagueiro que está dentro do gol quando temos o gol aberto, mas diversão e lazer é um direito previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Cônscio do fato, Réver resolveu colaborar com a brincadeira de perder gols do Vitória, mas Neto, demonstrando que não se deve confiar em baianos, fez o gol. Sacanagem.

No intervalo, recebemos um arbóreo torpedo dando conta de que tínhamos sido observados aos pulos, subindo e descendo as escadarias do Olímpico. A RBS mostrou que sempre MENTE ao relatar a seus ouvintes que havia 14 torcedores do Vitória assistindo à partida. Mentira! Havia 35,71% a mais. Éramos DEZENOVE, caraglio.

No segundo tempo, mais brincadeiras. Aos 21 segundos, Leandro Domingues chutou no poste esquerdo de Marcelo Grohe e, aos 4 minutos, Neto Berola fez o mesmo, tentando mostrar que aquele poste era, em verdade, seu. Então Autuori refletiu sobre as vaias que ouvia e conjeturou sobre como seus arbóreos, finos e calosos torcedores eram volúveis: eles agora babavam pelos lindos peitos de Tcheco. O moço entrou e tivemos finalmente chances de ver o futebol dos azuis. Claro, ele não deveria ter entrado. Mesmo sem ser arrasador, víamos bolas mais inteligentes chegando ao ataque gremista. Aquilo perturbou Magal, que acabou expulso por não cometer uma falta. Apavorado por ficar com menos um volante, Vagner Mancini tirava um atacante por minuto, trocando-os por volantes.

Quando tínhamos vinte e seis volantes rubro-negros em campo, Jonas — o qual deveria ser multado por pensar em chutar de primeira aquele passe de Tcheco impossível de acertar — fez um golaço. É aquela coisa, se antes nos tivessem dito que seria 1 x 1, correríamos pelos campos e colheríamos flores, felizes como a Noviça Rebelde. Só que levar um gol daquele jeito nos deixara a certeza de que estávamos destinados a morar até o fim dos dias com a madrasta da Cinderela.

Franciel passou bem. A hospitalização foi rápida e mesmo que o marca-passo tivesse parado às quatro e trinta e cinco da madrugada por defeito numa pilha paraguaia, teve a sorte de encontrar um doador argentino vitimado por Kaká. Nunca vi ninguém mais nervoso. Ele pergunta o tempo de jogo a cada trinta segundos, mas não usa relógio. Ele quer saber dos outros resultados, mas não usa rádio. Ele quer entabular arbórea conversação, mas não usa celular. Como vingança, levei-o ao Parque da Harmonia e mandei-o contar todas as piadas de gaúcho de seu repertório, também mostrei-lhe a arquitetura dos Supermercados Zaffari, visitamos a Vila Cruzeiro e tomamos banho no Guaíba. Como compensação, deixei-o fazer livremente a opção entre comida vegetariana e Mac Lanche Feliz. Nada de carne vermelha. Amanhã, terá moqueca podre.

Milton Ribeiro

Anúncios

Entry filed under: Brasileiro, Colunas, Contribuições.

O flagelo de Dios História de um delegado

23 Comentários Add your own

  • 1. Lucas Cavalheiro  |  07/09/2009 às 13:10

    Já havia lido no teu blog, Milton. Mas aqui me sinto mais em casa pra comentar (:

    Eu olhei ontem os lances do jogo e não acreditei no que vi. Oitocentas bolas na trave, Gremio se salvando incrivelmente várias vezes.

    No más, Neto Berola, melhor nome.

  • 2. Logan  |  07/09/2009 às 13:11

    Não é por nada não mas que cara de pau da torcida do inter, PLAGIARAM DESCARADAMENTE a música d’OS Imbatíveis! (como se isso não acontecesse desde sempre entre torcidas..)
    Só trocaram “atirei pau na bamor”, “ei bamor vtnc…” e “sou eu, sou eu, Os ímbativeis sou eu…”

    Agora vocês vejam uma coisa ontem dormi assistindo o jogo do flamengo e sonhei com um Gre-Nal com o gremio dando 1 a 0 e tomando aquele sufoco do Inter, parei de ler o impedimento depois dessa.

  • 3. Guilherme  |  07/09/2009 às 13:23

    Eu achei que o Douglas jogou bem, quem tinha que ter saído pra entrada do Tcheco era o Souza ontem.

    E tem que simpatizar com Jonas, o centroavante trapalhão.

  • 4. Godo  |  07/09/2009 às 14:17

    DONA FLOR

    D O N A F L O R

    D O N A F L O R

  • 5. Godo  |  07/09/2009 às 14:18

    Falhou miseravelmente meu artifício capslóquico.

  • 6. almilano  |  07/09/2009 às 14:43

    Bah, empate injusto.

  • 7. marlon  |  07/09/2009 às 14:51

    esse texto eu achei tri.

    pena que o Vitória não cometeu o crime…

    UMBORA TRITÓRIA

  • 8. Lucas Cavalheiro  |  07/09/2009 às 14:51

    Eu acho que o Jonas foi submetido a constantes treinos de finalização a gol depois daquele fiasco na Libertadores. Porque já é a 2a ou 3a bucha que ele guarda do mesmo jeito, pegando de primeira.

  • 9. col  |  07/09/2009 às 14:53

    uhauahuahuahauhauhau

  • 10. rafael botafoguense  |  07/09/2009 às 15:01

    hahahahahaha dona flor

  • 11. Diogo  |  07/09/2009 às 15:07

    PQP, tomar gol de um jogador com nome de doceria pelotense é o fim do Baidek.

  • 12. Renato K.  |  07/09/2009 às 16:00

    Notícias que os gremistas gostariam de ler:

    Tcheco faz gol contra, sofre ataque e morre em campo

    Mais aqui: http://www.gazetaesportiva.net/nota/2009/09/07/598070.html

    Depois comento o post 🙂

  • 13. Guilherme  |  07/09/2009 às 16:01

    8.

    Acho que ele continua igual, volta e meia erra uns gols lamentáveis, mas sempre foi o goleador do Grêmio na temporada.

    A diferença é que no brasileiro ninguém se importa, gol perdido não vale tanto.

  • 14. Luís Felipe  |  07/09/2009 às 18:21

    “Souza pensou que talvez devesse telefonar para Douglas Costa a fim de marcar um encontro. Mandava-lhe recados através de Adílson, que os repassava a Fabio Rochemback. Este estava muito ocupado em desfilar sua elegância algo exagerada e esquecia-se de avisar Douglas.”

    que trecho sensacional este!

  • 15. Gustavo Coimbra  |  07/09/2009 às 19:55

    “Atirei o pau no [insira aqui o clube adversário]” foi criada pela torcida do Atlético Paranaense, até minha mãe que não frequenta torcida sabe disso. No mais, essa discussão de quem plagia quem é igual discutir o sexo dos anjos.

  • 16. Lucas Cavalheiro  |  07/09/2009 às 20:02

    #15

    percebe-se a importância da discussão nos comentários seguintes.

    nota mental: nunca mais elogiar Jonas, para o bem do meu futebol.

  • 17. Carlos  |  08/09/2009 às 09:15

    açsldkasçldkasçldkçasdksaklkçd

    Belo texto, Milton…

  • 18. fino  |  08/09/2009 às 09:50

    Massa.

    Mas e a impednua?

  • 19. Marcos SL  |  08/09/2009 às 12:45

    É! E a Impednua?

  • 20. arbo  |  08/09/2009 às 13:30

    esqueci a súmula em casa, mas por uns dois gols de diferença venceu VERDADES Q SALVAM E LIBERTAM, q contava com o Franciel, q mostrou conhecer o ludopédio. Gustavo Mano foi o nome do jogo.
    Mas o fato relevante da noite foram os dois gols do Milton para os Mitos Ribeirinhos…

  • 21. Marcos SL  |  08/09/2009 às 13:57

    Relato rápido e rasteiro do Impednua…Que maravilha!!! Pena que perdi esta gloriosa peleia.

  • 22. arbo  |  08/09/2009 às 13:59

    ah, qdo ouvi 80% do olímpico gritar Tcheco depois do gol do Vitória desisti da vida.

  • 23. Logan  |  08/09/2009 às 18:52

    #15 mi zibb!!!
    foi a do tritória, a do atlético plagiou também, assim como aquele A-tlé-ti-co! que sempre foi Vi-tó-riaaaaa!!!
    e rumo a Abu dhabi!1!!1!!!11!!!!!1!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Subscribe to the comments via RSS Feed


Especial – Libertadores 2011

A bola da ImpedCopa

Toco e me voy

  • Já garantiu dois e tem um terceiro (CSA) com tudo na mão. E também o Confiança vivo, ainda que precisando de façanha. 8 hours ago
  • Nordeste pode ser a primeira região a subir mais que 2 times juntos em uma edição da C, desde que adotaram a fórmula atual (2012). 8 hours ago
  • O São Bento na B também seria notícia, é claro, mas do São Bento se espera menos do que um clube que é gigante em seu estado. 8 hours ago
  • Um eventual acesso do CSA seria um feito enorme: sem contar a bagunça da João Havelange, time não joga acima da terceira divisão desde 1992. 8 hours ago
  • Hoje subiram para a B 2018 o Sampaio e o Fortaleza. Outras vagas são definidas amanhã e segunda, mas São Bento e CSA têm ampla vantagem. 8 hours ago

Feeds

web tracker

%d blogueiros gostam disto: