Nice to be dead

22/06/2009 at 12:00 20 comentários

Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense, escreveu certa vez Paulo Mendes Campos. Pois eu digo que Iggy Pop é regatiano.

Esta certeza me veio numa madrugada fastidiosa no Bar do Jacaré. Depois de repetir pela sexta ou sétima vez o disco do Zé Ramalho – aquele da coleção Millennium que começa com Avohai e termina com Admirável Gado Novo – o ilustre torcedor do Ferrão cearense pega um cd ainda lacrado debaixo do balcão e me passa.

– Olha aí, macho, tu que deve gostar desse troço aí. Esqueceram aqui já tem um tempo.

Tratava-se de Preliminaires, o recém-lançado disco do Velho Iguana.

Após cinco longos minutos tentando rasgar o maldito plasticozinho com a habilidade que comprova que um dia todos nós fomos amebas, e aproveitando o bar vazio, peço pro Jacaré trocar o Zé pelo Iggy.

Para a surpresa de todos os cidadãos de bem do Bar do Jacaré que, assim como eu, esperavam meia hora de porrada musical, o Magricela Descamisado me vem com um disco intimista e a meio passo da melancolia. Já na primeira música, canta em francês com a voz grave e pausada de um Johnny Cash As Folhas Mortas, que termina num solo de sax que só os velhos e céticos podem compor.

E foi daí que começou minha desconfiança, pois não há nada mais regatiano neste mundo que melancolia, ceticismo e folhas mortas. Não acredita? Pois experimente ser rebaixado da Segunda Divisão depois de uma campanha lastimável que o deixou em último lugar, a onze pontos do penúltimo, e como se não bastasse começar a Terceirona perdendo os três primeiros jogos. Você também cantaria Les Feuilles Mortes com voz de defunto.

O pai do Anthony Kiedis não termina por aí. Segue na fossa com I want to go to the beach. “Eu quero ir a praia/ não me importa se ela é decadente/ Eu quero ir ao fundo/ pois não há outro lugar que queira ir/ e ninguém que eu queira ver/ Eu quero ir a praia”. Essa com certeza será entoada nas tardes de domingo do Trapichão lotado. Uma homenagem aos fundadores do Clube de Regatas Brasil. Senão, vejamos.

Quatro marmanjos entediados resolvem criar um clube de regatas no início do século passado numa Maceió semi-feudal. Fixam a sede do clube numa praia que era só mato e vento – a Pajuçara. Como a gana era muita e a grana pouca, fazem vaquinha entre os mais chegados, organizam bingos, economizam do ordenado e, depois de muito esforço, conseguem comprar quatro remos. Isso mesmo, quatro remos. Um para cada um. O barco mesmo só dali a três anos. I want go to the beach na veia!

Voltando ao velho Pop. O escanzelado vai descendo ladeira abaixo, música após música, tal qual seu time do coração, até chegar ao fundo do poço e gritar na faixa mais pesada do disco “É bom estar morto/é bom estar debaixo da grama/livre dos sons medíocres da vida”.

Sábias palavras, Iggy, sábias palavras. Com uma diretoria dessas, mais suja que estômago de porco, mais burra que toco de amarrar jegue, que contrata e dispensa jogadores e técnicos ao bel-prazer, vende as pratas-da-casa por mixaria, balança os ovos dos corruptos e só abre a boca para falar besteira, is nice to be dead.

“Quanta insensatez eu tenho visto”, cantamos em uníssono na sua versão da tupiniquim Insensatez. “O que se pode fazer quando um caso de amor acaba?” perguntamos afinal, desse nosso jeito contido, desesperado e alvirrubro. Sim, porque não há amor que dure sem correspondência. E o nosso Galo de Campina só nos ignora, maltrata, humilha.

Quando já estou no último gole de cerveja, disposto a largar tudo e começar a torcer para a marcha atlética feminina, o Iguana me vem com A machine for loving e me convence do carma de todo regatiano:

“O que é um cachorro
Senão uma máquina de amar?
Você o introduz no meio dos seres humanos
Dando a ele a missão de amar
E não importa o quão feio
Perverso
Deformado
Ou estúpido
Esse ser humano possa ser
O cachorro o amará”

Contribuição infalível enviada por Thalles Gomes.

Entry filed under: Clubes, Contribuições.

No poleiro mais alto Yes, Hura Can!

20 Comentários Add your own

  • 1. J Petry  |  22/06/2009 às 12:40

    Eu estava aqui pronto para escrever uma contribuição para o Impedimento, animado. Ia defender uma tese um tanto esdrúxula mas com fortes argumentos. Aí aparece esse texto do Thalles. Como dizia o palhaço do Jô Soares (o personagem, não estou xingando o Gordo): “Não dá pra competir!”.

  • 2. gilson  |  22/06/2009 às 13:12

    Se o CRB é Iggy Pop então já teve seus dias de Fun House?

  • 3. Jader Anderson  |  22/06/2009 às 13:55

    Excelente!

  • 4. Arbo  |  22/06/2009 às 14:16

    melancolia na veia

  • 5. Frank  |  22/06/2009 às 14:53

    Que belo texto, e pela descrição, o disco do velho Iggy não fica atrás…
    ESCUTAREI essas palavras de sabedoria…
    E também torcerei pelo CRB e pelo inolvidável ÁGUIA DE MARABÁ na série C…

  • 6. Junior  |  22/06/2009 às 15:16

    Melancolia na veia. (2)
    O velho Iguana descreveu perfeitamente os cachorros, mas os cachorros guaipecas (serve mesmo aos que tenham pedigree, o “guaipecanismo” é um espírito), não esses poodles de madame, adoradores de pet shop, com franjinha “Chitãozinho e Xororó”. Um cidadão que assim como o CRB já teve uma fase bem mais gloriosa, também foi poético ao escrever:
    strongmeu cachorro me sorriu latindo/strong …

  • 7. Prestes  |  22/06/2009 às 15:30

    consegui?

  • 8. Prestes  |  22/06/2009 às 15:30

    Rá!

  • 9. Alisson  |  22/06/2009 às 15:32

    Cara, que obra prima!

  • 10. izabel.  |  22/06/2009 às 15:46

    Junior: eu acho essa frase do Roberto Carlos sensacinal.

  • 11. Godo  |  22/06/2009 às 16:36

    “Meu cachorro me sorriu latindo” é a estrofe mais bonita da melhor canção do Rei!

    Thalles, continuando o paralelo entre Iggy e CRB, o velhinho pode até cair, mas jamais se cansa de levantar.

  • 12. Prestes  |  22/06/2009 às 16:42

    Não mente, Godo. A melhor música do Rei é “Sentado à beira do caminho”.

  • 13. Jader Anderson  |  22/06/2009 às 16:45

    Outro mto legal do talles eh aquele de “Todo o brasil contra o clube dos 13”, impedcorp trabalhando violentamente a prata da casa… mta qualidade.

  • 14. Junior  |  22/06/2009 às 17:00

    Prestes, a letra de “Sentado à beira do caminho”, é do Erasmo.

    Concordo com o Godo, “O Portão” é a melhor música do Roberto. Izabel, essa música tem várias frases sensacionais, como essas:

    “Meu retrato ainda na parede,
    meio amarelado pelo tempo
    Como a perguntar por onde andei
    e eu falei …”

    Essas estrofes abaixo são geniais, se ele só tivesse escrito isso na vida, já mereceria o meu respeito:

    “Eu voltei pras coisas que eu deixei,
    eu voltei ….

    Sem saber depois de tanto tempo
    se havia alguém a minha espera
    Passos indecisos caminhei
    e parei

    Quando vi que dois braços abertos,
    me abraçaram como antigamente
    Tanto quis dizer e não falei
    e chorei ….”

    Mas a minha estrofe preferida é essa, a letra é um roteiro cinematográfico pronto:

    “Fui abrindo a porta devagar,
    mas deixei a luz entrar primeiro
    Todo meu passado iluminei,
    e entrei …”

  • 15. Gustavo  |  22/06/2009 às 17:45

    #1
    JESUS, tenho certeza de que a tua contribuição seria excelente. Mas, como bem disseste, NÃO DÁ PRA COMPETIR.

    Texto sensacional!

  • 16. Fortin de Liniers  |  22/06/2009 às 22:58

    Grande texto. Como torcedor do Villa Nova me identifico com ele!
    parabéns.

  • 17. Gerhardt  |  23/06/2009 às 00:19

    Duca!
    Quanto a essa coisa de não ter a paixão retribuída, esse texto é uma das provas q não há como exorcizar a paixão por um clube.

    Algum dia na vida alguém amarrou tal coisa na alma e não tem como cortar. Maltratar aduba a raiz. Esquecer, nem com a loucura, ela sempre vai estar lá.

    Tenho pra mim que por isso, não existe isso de virar casaca. Morre-se com o clube em q se amarrou um dia.

  • 18. Fernando  |  23/06/2009 às 09:29

    Sem palavras… Top 10!!!

  • 19. Luís Felipe  |  23/06/2009 às 13:46

    que texto espetacular, Thalles!

    MESTRE!

  • 20. diogo  |  09/07/2009 às 11:16

    E subiu a bandeira aqui no Trapichão! Não valeu o gol de honra do CRB, que toma de 3×0… Dá-lhe sofrimento!

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