Os ciganos vão para o céu

19/01/2009 at 07:48 20 comentários

Se perguntassem a um ídolo do futebol que som gostaria de escutar da arquibancada na sua entrada em campo, duvido que escolhesse o silêncio fúnebre dos velórios. Ninguém deseja sua própria morte, salvo os personagens da história que decidiram morrer por uma causa ou para tornarem-se mitos. Porque o zagueiro Régis Gouveia, o atacante Cláudio Millar e o preparador de goleiros Giovani Guimarães, tenham certeza, teriam preferido continuar defendendo o Xavante se tivessem a chance de escolher seus destinos na curva final da RST 471. Mas as engrenagens que compõem um acidente se encaixaram e agora lamentamos as três mortes neste triste início de temporada para o futebol.

Com justiça, as homenagens são feitas. Difícil não se solidarizar com a dor da multidão xavante na despedida de seus profissionais – entre eles o maior ídolo em atividade no clube, um dos maiores de sua história. Numa tragédia, nenhuma morte é maior que a outra. Mas nem o mais óbvio dos escritores teria a coragem de imaginar uma estória em que o maior ídolo de um clube de futebol morresse a serviço de sua equipe. No entanto, murió Millar, como disseram os jornais uruguaios, conterrâneos deste cigano que correu o mundo jogando bola, mas que sentou raízes em Pelotas, vizinha à Chuy onde nasceu.

Durante o fim de semana tentei elaborar mentalmente uma homenagem à altura do mito que Cláudio Millar será. Parei na ideia do título, que vergonhosamente roubei de uma música e de um filme. Parei não só porque grandes homenagens já foram feitas desde que no Impedimento decidimos fazer um silêncio respeitoso e atônito. Também porque não queria colocar uma morte acima das outras. Mas principalmente porque me dei conta de que tragédias como a do Brasil de Pelotas acontecem diariamente no Brasil, sempre na confluência da estupidez privada e da inoperância pública. E é cretino não falar neste assunto.

Porque desde 2006 pelo menos 12 acidentes muito semelhantes ocorreram no viaduto de acesso da RST 471 com a BR 392, no município de Canguçu, zona sul do Estado. Em julho de 2006, um ônibus vindo do Paraguai em direção a Jaguarão não venceu a mesma curva e duas pessoas morreram no acidente. O blog Canguçu em Foco diz que os moradores da região relatam que são freqüentes os acidentes na alça de acesso das duas rodovias.

Nunca há apenas uma causa para uma tragédia destas proporções. Elas ocorrem sempre que diferentes fatores convergem para que ocorra o acidente. As investigações estão sendo feitas para saber principalmente a velocidade em que o motorista estava antes de tentar fazer a curva e não conseguir. Mas serão coniventes com as mortes todos os jornais que não baterem diariamente na tecla de que o viaduto da RST 471 – jóia rara do programa Duplica RS, pois encurtará o caminho entre a região de Santa Cruz ao Porto de Rio Grande – foi palco de mais uma tragédia.

Este viaduto possui uma curva extremamente acentuada, foi construído diante de um barranco de 35 metros e não possui a devida sinalização na pista. Por que motivos se permitiu a construção de uma armadilha no meio da estrada ainda é um mistério. Certamente agora serão feitos ajustes no local, em razão da repercussão da tragédia. Mas ocorrerão outras, em outros locais, porque vivemos tempos bicudos em que a ausência do Estado em funções básicas da administração pública é considerada virtude. Quando ocorre uma tragédia, ele aparece novamente: para decretar luto oficial.

Mas nessa hora a vida já não tem mais volta. Régis, Giovani e Millar continuarão mortos e daqui a 50 anos os que estiverem vivos serão convidados a lembrar do fatídico janeiro de 2009 em que a estrada fez mais uma tragédia sobre os que ganham a vida com ela e essa tragédia atingiu justamente um time de futebol de torcida fiel e apaixonada. E todos choraram a perda de ídolos e também choraram diante da nossa incompetência e desrespeito com a própria vida.

Um abraço,
Daniel Cassol

Entry filed under: Colunas.

Acidente com delegação do Brasil de Pelotas causa três mortes Top 10 humilhações do Botafogo

20 Comentários Add your own

  • 1. Gabriel R.  |  19/01/2009 às 08:53

    “Mas ocorrerão outras, em outros locais, porque vivemos tempos bicudos em que a ausência do Estado em funções básicas da administração pública é considerada virtude.”

    Isso que é o pior!

    Baita textoo, parabens!

  • 2. Luís Felipe  |  19/01/2009 às 09:34

    https://impedimento.wordpress.com/2008/01/18/el-gaucho-matador/

  • 3. Luís Felipe  |  19/01/2009 às 09:39

    há pedágios na RST 471?

    quantas estradas custa um AeroYeda?

  • 4. Renato K.  |  19/01/2009 às 09:54

    Quantas modificações do mesmo tipo (e não são poucas as necessárias) dá pra fazer com um ano de mensalões, hein?

  • 5. Brauner  |  19/01/2009 às 10:12

    Esse País é uma piada!

    Enquanto as estradas, os sistemas de saúde e educacional e as aposentadorias definham, as Yedas, os Lulas, os Calheiros da vida enchem os bolsos.

    Fiadasputa!

  • 6. Júlio  |  19/01/2009 às 10:34

    Totalmente correta a abordagem dos fatos que levaram à tragédia q vitimou o Brasil de pelotas. Não devemos buscar um culpado, vez que a sociedade é culpada. Para que esta sociedade melhore é preciso trazer o tema à luz e apurar-se responsabilidades para que as tragédias não continuem a suceder em nosso paraíso tropical, enquanto incensamos o piloto americano que, amparado pelo sistema, fez sua parte lá no “grande irmão do norte”. Parabéns, Impedimento!

  • 7. joão carlos  |  19/01/2009 às 10:51

    putz, domingo aquele post ali fez um ano.

    essas coincidencias me arrepiam os pelos…

  • 8. guifashionhoch  |  19/01/2009 às 11:05

    depois de só deus saber como conseguir entrar na mais seleta spfw da historia, graças a uma carioca, tomei um chopp da skin para dar um sorriso e entrei no desfille, cara ´só gata ta rolandpo por aaqui, grande abraço

    e venha liber por favor

    guihoch

  • 9. almilano  |  19/01/2009 às 11:11

    Bah excelente texto meus parabéns. Esse país é uma vergonha. Se os políticos sérios não fossem exceção as coisas poderiam ser muito melhores.

    Tenho duas dúvidas sobre o texto: “jóia” com essa reforma ortográfica, ainda tem acento? E li muito “Milar” e “Millar”, qual seria a escrita correta dele?

    Abraço.

  • 10. Gabriel Marcondes  |  19/01/2009 às 12:25

    Belo texto, Daniel. Percebi o silêncio do Impedimento nestes dias, logo imaginei – e achei muito bonito- que fosse o sinal de respeito da parte de vocês. Parabéns a vocês.

  • 11. Renato K.  |  19/01/2009 às 12:45

    Além de cretino, o imbecil é insensível. Putz.

  • 12. guihoch  |  19/01/2009 às 12:54

    puta merda cara, eu nem queria entrar no assunto do acidente, afinal, vcs me conhecem, sabem que nada podemois contra o deztino, mas agora vou relatar a surrealidade do que estou vivendo, aonde todo mundo é magro, esta o hoch bebendo chopp no esquecido louge da novaskin, todos perplexos por aquele cara que esta parado a horas sem se mexer e bebendo que nem um condenado que tem que r para prisão, numa dessas “garotas que passavam” vi aquela “sele semmimtchem”, que por sinal e bem sem graça em TCHE, BAH, se é pra pega osso prefiro comer anes a carne, só a sobra não dá.

  • 13. guihoch  |  19/01/2009 às 12:55

    puta merda cara, eu nem queria entrar no assunto do acidente, afinal, vcs me conhecem, sabem que nada podemois contra o deztino, mas agora vou relatar a surrealidade do que estou vivendo, aonde todo mundo é magro, esta o hoch bebendo chopp no esquecido louge da novaskin, todos perplexos por aquele cara que esta parado a horas sem se mexer e bebendo que nem um condenado que tem que r para prisão, numa dessas “garotas que passavam” vi aquela “sele semmimtchem”, que por sinal e bem sem graça em TCHE, BAH, se é pra pega osso prefiro comer antes acarne, só a sobra não dá.

  • 14. Prestes  |  19/01/2009 às 12:57

    É impressionante como sempre há antecedentes nesses acidentes, sempre havia como prevenir.

    Aquela igreja que caiu, ontem mesmo, hoje estavam dizendo que há uma década corria perigo.

    A tragédia em Santa Catarina foi muito menos pelo volume de chuvas do que pelas construções em terrenos impróprios.

    Aqui no Brasil o imediatismo impera, prevenção não existe. É uma pena.

  • 15. Brauner  |  19/01/2009 às 13:16

    Momento Pasquale:

    Na nova ortografia jóia não recebe mais acento, assim como todos os ditongos abertos das palavras paroxítonas: paneceia, jiboia, cefaleia, diarreia, gonorreia, opioide.

    Maldito Bechara!

  • 16. fino  |  19/01/2009 às 13:17

    É sempre assim, enquanto não tem tragédia não se discute nada…

    “Tragédia na BR-386: duplicação no local do acidente se arrasta há sete anos”

    http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2061984.xml

    Sem falar naquele outro acidente em Erechim, onde morreram várias crianças porque o ônibus estaria circulando com defeito, sem ter feito as revisões periódicas, etc etc…

  • 17. Junior  |  19/01/2009 às 15:17

    Todas as pessoas, mesmo os andrilhos contumazes, almejam encontrar um lugar onde sintam-se em casa. O Millar encontrou isso no Bento Freitas.

    Infelizmente, a negligência não é um produto “made in Brazil”, basta lembrar do Katrina, que arrebentou os diques carcomidos de uma das cidades mais musicais do mundo, New Orleans. Sobre os políticos, é decepcionante que alguém que entrou para a política vendendo (no bom sentido da palavra) a idéia de renovação, faça a mesma coisa que os velhos políticos que ela tanto criticava. Leiam o post do “Futepoca” do dia 16 de janeiro, em que a Soninha confirma que assumiu um cargo na gestão do Kassab. Na entrevista ela faz uma comparação ridícula entre uma enfermeira e a situação dela, se “esquecendo” que uma enfermeira é concursada, não pode escolher o prefeito com quem vai trabalhar, é obrigada a trabalhar com aquele que se eleger, ao contrário dela, que escolheu trabalhar na gestão Kassab.
    http://www.futepoca.com.br/

  • 18. catarina cristo  |  19/01/2009 às 18:56

    pra completar, foi todo mundo aqui em pernambuco assistindo a notícia do acidente como mais um acidente nas estradas do brasil e eu de olho cheio d’água quando a torcida xavante apareceu porque eu conhecia o Brasil de Pelotas porque eu leio o Impedimento.

    Vi três vezes a matéria, enchi o olho d’água três vezes.

  • 19. Jeferson Thomas  |  19/01/2009 às 23:04

    CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP
    Apenas isso. O silêncio perplexo não é do Impedimento, mas sim de todos nós. Nos empolgamos quando esses ciganos circences acabam vilipendiando sua própria existência ao se exaurir por trocados no interior de diversos times. E eles sempre vão em busca de quem lhe paga melhor (vide Mattione, Cassio et caterva).

    Quando encontramos alguém que apenas busca uma mera identificação, um carinho com a torcida – essa sim, jogaria com a alma apenas por trocados – e que tenta corresponder, circunstâncias fazem com que a paixão da gente pelo futebol teime a morrer ou a não se identificar mais.

    Fui muito a Pelotas a trabalho, via como funciona a paixão (embora sempre almoçasse no Lobão). E sinto a morte de jogadores como o MIlar e o Regis (lembre-se que o Regis também era um jogador amplamente identificado com o Xavante) como se fosse a morte de um Danrlei, de um VILSÃO SELEÇÃO. Jogadores que tinham a camisa do Grêmio como a primeira pele, não a segunda.

    Jogadores que faziam o que eu faria como eu seria, se fosse um jogador de futebol – do meu time, exclusivamente. E perder essa vida é perder um pouco da paixão do futebol a cada dia.

  • 20. Giselle Garcia  |  20/01/2009 às 23:00

    Parabéns Daniel pela sua consciencia, cidadania, sensibilidade e respeito à VIDA ! Continuemos nossa luta pela SEGURANÇA E VALORIZAÇÃO DA VIDA ! Órgãos Públicos, autoridades, sociedade precisam ser cobrados diariamente. Não é possível tolerar a impunidade. Busquemos a punição dos que desrespeitam o direito à VIDA !!! Bjs

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