Impressões além-mar sobre a fúria e a fleuma

22/12/2008 at 15:25 35 comentários

“Senhoras e senhores”, anunciou o locutor da TV inglesa enquanto Rio Ferdinand tomava a taça às mãos, “o Manchester United é oficialmente campeão mundial de futebol”. Havia uma entonação particular naquele oficialmente. Era quase como se estivesse dizendo que aquilo tudo não passasse de uma formalidade, afinal de contas, o Man United é o atual campeão europeu, e, na geografia da bola, esse é o mundo que importa. Pelo menos pra eles.

Minutos antes, convidados a enviar seus comentários sobre o jogo aos estúdios do Channel Five, os torcedores mostravam-se, antes de tudo, indignados com a expulsão de Vidic. Não disputavam a justiça da decisão do árbitro em si, mas o fato de que o cartão exclui o zagueiro do próximo jogo do Manchester pela Liga dos Campeões da Europa.

A TV não mostrou se em Manchester ou qualquer outro canto das Ilhas Britânicas alguém comemorava nas ruas, parando carros, subindo em árvores só de cuecas, tentando estabelecer novos recordes do consumo pessoal de cerveja, usando os dedos indicadores ou outros métodos pra ficar com olhos de japonês, engenhando novas formas de desafiar o ridículo, enfim essas coisas que temos por hábito fazer quando nossos times conquistam a taça de campeão do mundo.

Também não testemunhei nada disso onde assisti à partida. Nem poderia. Junto a três equatorianos, em uma casa a 10 quilômetros ao norte do centro de Londres, o ar estava carregado pela frustração de ter chegado tão perto e pela melancólica certeza de que gerações se sucederão antes de chance igual surgir.

Não que eu estivesse ao lado dos melhores exemplares de torcedores fanáticos. De um dos donos da casa, pai e filho torcedores do Chelsea/Emelec, ouvi aquilo que jamais poderia esperar de um sul-americano: “mas, afinal, por que La Liguita vai jogar com o Manchester?”. A pergunta, de uma humildade bárbara, veio faltando minutos pra bola rolar. Muito tempo de Europa, pensei. No intervalo, eles lamentavam e não entendiam como Robinho havia preferido o Manchester City ao seu Chelsea. O mundo em disputa e eles lamentando o Robinho? Para mudar de assunto, revelei que havia apostado 10 libras na vitória da Liga com um colega de trabalho. Nem o zero a zero do primeiro tempo me salvou. Ambos me olharam como se tivesse caído do ônibus da Pinel.

Já o terceiro equatoriano da casa, este sim torcedor da Liga, embora visivelmente pouco afeito ao futebol, transformou-se durante a partida. Do silêncio inicial ao ato de jogar o boné no chão rosnando “puta madre” quando sofreu o gol, o que se viu foi o típico comportamento latino, sanguíneo. Se Cevallos ficar embaixo dos paus, não sofreremos gols, dizia a todo momento. Se vamos aos pênaltis, vencemos. Era óbvio que confiava em Cevallos, mas não no time.

Seus principais jogadores, dizia ele, haviam sido vendidos depois da Libertadores. “Não somos uma equipe tão forte”. Eu retrucava dizendo que se tratava de um jogo apenas e, com superação, tudo poderia acontecer. Não sei se ele me levou a sério. O “si se puede”, que ecoou em Yokohama, só veio com convicção depois de o time inglês ficar com dez homens.

Ao final da partida, dos torcedores do Chelsea/Emelec ouvi o clássico “pelo menos La Liga chegou até aqui”, no que concordei, pensando que a Libertadores já é um prêmio e tanto. Mas essa era a nossa opinião. E nós estávamos lá como torcedores emprestados. Não era na nossa garganta que o espinho ficara atravessado. Não era das nossas mãos que a taça de maior do mundo havia escorregado em uma defesas de Van der Sar ou quando dois zagueiros decidiram cercar Cristiano Ronaldo, deixando Rooney livre para concluir.

Embora não confiasse tanto na vitória, nosso amigo liguista chegou a chorar no final do jogo, especialmente depois daquele close sádico mas necessário na taça, quando o jogo se encaminha para o fim. O contraste entre ele e a torcida do Manchester campeã do mundo resmungando a ausência de Vidic no próximo jogo, era o mesmo contraste que se viu na TV entre Cristiano não-tô-nem-aí Ronaldo e Cevallos, escorado na trave do gol, lamentando pela primeira vez o que certamente lamentará até seus últimos dias.

Wilson Sobrinho, jornalista e espião da ImpedCorp no Velho Continente.

Entry filed under: Colunas, Contribuições, Mundial de Clubes.

Hegemonia blanca y negra O fundo do poço

35 Comentários Add your own

  • 1. Titi  |  22/12/2008 às 15:36

    A Liga fez frente.

  • 2. Cassol  |  22/12/2008 às 15:42

    Ah, mas que beleza de relato.

  • 3. dante  |  22/12/2008 às 15:47

    exato. a liga foi MAIS MACHO que o boca em 2007.

    [apesar de o milan também ser bem melhor]

  • 4. fino  |  22/12/2008 às 15:49

    http://www.gazetaesportiva.net/

    “INSTITUTO Wanderley Luxemburgo formará árbitros em 23 estados.”

    É cada uma… daqui há pouco vão inventar a UNIVERSIDADE EVARISTO DE MACEDO e o MUSEU JOEL SANTANA

  • 5. douglasceconello  |  22/12/2008 às 15:51

    DESTILARIA ABEL BRAGA

  • 6. fino  |  22/12/2008 às 15:54

    ae… arranjamos uma piada pra animar a tarde…

  • 7. fino  |  22/12/2008 às 15:55

    IGREJA SAGRADA DO CORDEIRO DE DEUS ADENOR BACH

    Inevitável.

  • 8. douglasceconello  |  22/12/2008 às 15:56

    Cara, fiquei ORGULHOSO da Liga. E discordo muito de quem dizia que poucas vezes a diferença entre dois clubes no Mundial foi tão grande.

    EU SABIA que não era tão grande assim. Na real, NUNCA É.

    Grande relato, Wilson. Na real, eu acredito que os europeus não valorizam o Mundial de PROPÓSITO. Se eles valorizassem como nós – e perdessem para os POBRES e DESDENTADOS sul-americanos, como acontece na maioria das vezes – esta BALELA de Champions League desabaria porque ficaria evidente que o dinheiro muitas vezes não é o principal fator determinante quando o assunto é BOLA.

  • 9. Francisco Luz  |  22/12/2008 às 16:01

    http://br.youtube.com/watch?v=bkujiKPPoTI

    Chorem ouvindo o narrador equatoriano SE RASGANDO TODO com os pênaltis no Maracanã.

  • 10. Luís Felipe  |  22/12/2008 às 16:12

    ninguém comemora esse Mundial? Então não vale nada.

    texto excelente, Wilson, obrigado.

  • 11. fino  |  22/12/2008 às 16:13

    mas que locura esse narrador.

  • 12. Luís Felipe  |  22/12/2008 às 16:22

    que coisa linda essa narração, emocionante. muito massa também o bauza chorando no final, sozinho no banco, imagens que a globo não mostrou.

  • 13. Vine  |  22/12/2008 às 16:22

    Também fiquei orgulhoso da Liga, mas poderia ter jogado com um pouco mais de vontade. Não demonstrou a superação que Inter e São Paulo fizeram em suas finais de mundial.

    Com marcação sólida e adiantada o Manchester ia se cagar.

  • 14. Francisco Luz  |  22/12/2008 às 16:31

    Eu já tinha dado esse link no sábado, mas acho que pouca gente viu.

    A Xuxa russa — que, ironicamente, se chama ANGINA:

    http://br.youtube.com/watch?v=0Zu_YcSSiow

  • 15. Caue  |  22/12/2008 às 16:59

    Também fiquei orgulhoso da LDU. Lamentei profundamente não ter ido para os pênaltis para o Cevallos apavorar ou europeus com aquela fiasqueira toda que acabou com os nervos do Fluminense.

    Concordo que os times se emparelham no Mundial, mas acho que nesse ano, mesmo com essa nivelada na base do bafão-na-nuca que os sul-americanos sempre põem nos europeus, o nível técnico ainda fez a diferença.

    Esse time da LDU era beeeem inferior ao da Libertadores. Com mais dois caras um pouquinho melhor no time, teriam comido o Manchester com molho shoyu.

  • 16. Sanchotene  |  22/12/2008 às 17:22

    Sempre que um ingês vence a Liga dos Campeões, o Mundial se esvazia…

  • 17. ronald golias  |  22/12/2008 às 17:37

    o milan fez festa ano passado. e em 2005, acredito que gerrard tenha ficado frustrado., mas não sei se teria comemorado tanto.

    não vi o jogo em 99 (99)?, mas parece que o manchester também, após vencer o jogo com a ajuda do marcos, comemorou com um ou dois sorrisos e apertos de mão em direção ao vestiário.

  • 18. col  |  22/12/2008 às 17:54

    Legal a narrativa. Nao entendo homem que nao eh ligado em futebol. Perderam a infancia….

  • 19. Prestes  |  22/12/2008 às 19:04

    Na real, os ingleses é que são espertos. Eles dão de ombros para os outros, e o campeonato deles é assistido no mundo todo. Só não fazem o mesmo com a Champions por que viram que ali é que tá a grana.

    Nunca que os europeus vão ficar nos valorizando. Pra quê?? Pra fortalecer nosso futebol e fuder eles?? Isso é tudo muito bem pensado, é assim há 500 anos. Se tu fizer um puta experimento científico eles vão cagar e andar, não vão ficar botando grana no Brasil. Aí, o brasileiro talentoso, sem reconhecimento, vai acabar indo pro Hemisfério Norte. É assim que funciona.

  • 20. Luís Felipe  |  22/12/2008 às 19:10

    a Inglaterra também deu de ombros – não participando, inclusive – para a Copa do Mundo por 20 anos…

  • 21. Flávio  |  22/12/2008 às 19:51

    Mesmo sem valorizar muito, só estão atrás em número de títulos porque nos anos 70 em cinco oportunidades o vice europeu jogou no lugar do campeão. De 95 para cá (incluindo o mundial da fifa de 2000…), ganharam 10 e perderam 5. A tendência é que em alguns anos eles nos passem.
    Não sei ao certo qual o valor que eles dão ao Mundial, mas certamente não é o mesmo que nós, sul-americanos, damos. E aí? Azar deles! Esperar o reconhecimento europeu não deixa de ser uma manifestação do velho complexo de vira-latas.
    De qualquer forma, nós brasileiros não temos muita moral para criticar os ingleses pelo pouco caso que dão ao Mundial de Clubes, afinal, nos anos 60, o Brasil não teve representantes em três edições da Libertadores.

  • 22. Tim Maia da Coréia  |  22/12/2008 às 20:03

    Cara, fiquei ORGULHOSO da Liga. E discordo muito de quem dizia que poucas vezes a diferença entre dois clubes no Mundial foi tão grande.

    EU SABIA que não era tão grande assim. Na real, NUNCA É.

    Grande relato, Wilson. Na real, eu acredito que os europeus não valorizam o Mundial de PROPÓSITO. Se eles valorizassem como nós – e perdessem para os POBRES e DESDENTADOS sul-americanos, como acontece na maioria das vezes – esta BALELA de Champions League desabaria porque ficaria evidente que o dinheiro muitas vezes não é o principal fator determinante quando o assunto é BOLA.

    FALOU TUDO.
    E EU TÔ CAGANDO ANDANDO PRA XAMPIONS E CAMPEONATO INGRÊS.
    BLÉ PRA VOCÊS!

  • 23. col  |  22/12/2008 às 20:10

    E o C. Ronaldo, hein? Pipocou mais que o Alex em dia de final.

  • 24. gilson  |  22/12/2008 às 20:28

    A tristeza do Cavallos foi maior porque ele viu que dava pra ter ganhado, de outra forma já estaria resignado.
    Se nos confrontos entre times os sudacas estão perdendo atualmente, acho que é prova de que os nossos estão melhorando os clubes por lá, pois nas seleções o panorama não tem se modificado.

  • 25. Gustavo  |  23/12/2008 às 07:59

    #14
    Chico, CARAGLIO, que que são aqueles BOOBS?

  • 26. Sanchotene  |  23/12/2008 às 08:23

    Eu não reclamo, nem elogio a postura dos ingleses. Só relato um fato. Eles são ensimesmados. Eles se bastam. O brasileiro é um pouco assim, também, em relação a seus vizinhos sul-americanos.

  • 27. Felipe catarina  |  23/12/2008 às 12:59

    Na boa, acho que havia uma diferença enorme entre os dois times sim, tanto que o primeiro tempo foi um passeio do MU-MU (OK, terminou 0-0) e mesmo com um a mais a Liga ficou toda encagaçada de ir pra cima do MU-MU. Só foi depois que a vaca tava indo pro brejo com corda e tudo. A cada ano que passa, a distância entre nós e eles só aumenta. Tá certo, jogar num “pega-ratão”, ir lá, fazer um gol, ganhar de 1-0 e depois ver o desespero dos riquinhos é legal, mas já é pelo menos o quinto ano seguido que o campeão sudamericano joga assim. Tá ficando chato.

  • 28. Prestes  |  23/12/2008 às 13:48

    O Boca não jogou assim… e tomou uma tunda, uahduhasduhasuhasuh

  • 29. Prestes  |  23/12/2008 às 13:50

    Mas é que eu digo, o problema é perder os jogadores da Libertadores. O Boca que detonou o Grêmio jogaria de igual pra igual com o Milan. Sem Riquelme fudeu o ataque. Na defesa saíram os bons Diaz e Clemente Rodriguez e os substituíram os péssimos Paletta e Maidana. Aí ficou difícil.

  • 30. gilson  |  23/12/2008 às 13:51

    Sei não Felipe, me pareceu que a proposta da LDU era ir pros pênaltis mesmo. Eles fizeram isso no Maracanã também e deu certo. Não fosse um descuido poderia ter dado certo domingo. Jogar retrancado não é pior que jogar pra frente, é um tipo de jogo que envolve mesnos riscos, sobretudo nesta disputa por partida única. O importante do jogo é ganhar, desde que não seja na base da roubalheira, claro. Se tivesse outro jogo semana que vem, duvido que a crítica ficaria tão segura pra apontar o Manchester como favorito absoluto como fez na semana passada.

  • 31. Felipe catarina  |  23/12/2008 às 14:14

    então tá, cada um vê o jogo do seu jeito, mas achei que o Boca também jogou cagado de medo dos velhinhos do Milan e levou um vareio. E Gilson, sei que o importante é ganhar e mesmo que o Manchester entrasse em campo com 11 ingleses, acharia normal um time equatoriano jogar fechadinho, “respeitando” os europeus, e metendo o terror nos contra-ataques. O problema, na minha opinião, é que todo ano o campeão sul-americano resume-se a fazer isso diante dos europeus. É o que dá pra fazer, eu sei (os caras levam todos nossos jogadores), mas que é triste, é.

  • 32. Prestes  |  23/12/2008 às 14:30

    A questão é o time que joga o Mundial. O Inter perdeu toda sua imposição física sem Tinga, Jorge Wagner e Sóbis. Ficou com um time lento, sem condições de fazer uma correria pra cima do Barça. Como o Boca sem Riquelme, perdeu um gênio. Do outro lado, tinha Kaká, aí já viu. A LDU perdeu Vera e Guerron. Nãó é fácil repor à altura.

  • 33. Flávio Nunes  |  23/12/2008 às 15:01

    O Manchester United seria favorito de qualquer forma. Se o jogo fosse, digamos, pelas oitavas da Liga dos Campeões, com os jogadores do MU motivados, a LDU seria massacrada.
    Acho que o último sul-americano que conseguiu fazer um jogo de igual para igual contra o rival europeu foi o Boca de 2000. Mas era um timaço, com Riquelme, Palermo, Córdoba, Serna, etc.
    Se bem que outros times daqui que tinham elencos acima da média (River Plate-96, Vasco-98, Palmeiras-99) perderam no Japão.
    Fico imaginando como o Inter atual se portaria contra o Manchester United. Contra a Internazionale, em Dubai, não jogamos na retranca. Mas era um torneio amistoso e o técnico era o Abel.

  • 34. Rafael Evangelista  |  23/12/2008 às 15:23

    Grande Wilson Sobrinho!

    Maldito Manchester.

  • 35. douglasceconello  |  23/12/2008 às 15:57

    Pois é. Tenho curiosidade para ver como este time do Inter se comportaria neste tipo de confronto.

    Mas como Tite é um palhaço é provável que colocasse onze jogadores dentro do QUARTO DE CÍRCULO DO ESCANTEIO.

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