Final de fronteira

23/08/2008 at 07:00 21 comentários

Eu namorei uma manca quando servi no quartel em Uruguaiana. Isso lá por 1985. Cheguei a terceiro-sargento do oitavo Regimento de Cavalaria Mecanizada e quase noivei com a guria, que até era jeitosa, de boa família. Só não espichei mais o namoro por causa do falatório.

Dinheiro era pouco pra passar uns dias na casa da mãe em Cachoeira. Normalmente eu ficava por Uruguaiana mesmo, tenteando sarna pra me coçar. No domingo, quando não tinha que tirar guarda, acordava bem cedito e ia arranjar o que fazer.

Pois foi num domingo desses que aconteceu esta história. Era dia de decisão no campeonato municipal, o Uruguaiana recebia o Ferro Carril na sua casa, que pra quem não conhece fica bem do lado do rio Uruguai.

Eu lembro do falatório que deu. Tinha ocorrido um desentendimento entre a Coordenadoria de Desporto de Uruguaiana e a Liga Libreña de Fútbol, e acabou que em Paso de Los Libres, do outro lado da fronteira, também ia acontecer a final do campeonato deles, no mesmo dia e na mesma hora do jogo do lado de cá.

O pessoal chiou, porque dia de decisão sempre dava muito movimento nas cidades. Em Uruguaiana, os argentinos atravessavam o rio, e nós também íamos pro outro lado ver o futebol deles, na verdade pretexto pra tomar cerveja mais barata e correr umas correntinas.

Mas naquele fevereiro quente da fronteira, não foi assim que aconteceu. Às 11h da manhã de um domingo, duas finais aconteceram na fronteira: em Libres, o Puerto Argentino, que tinha uma cancha próxima a um pesqueiro no rio Uruguai, recebia o Club Progreso, enquanto do nosso lado o Ferro Carril jogava só pela vitória no campo do Uruguaiana. O rio dividia as duas decisões como se rachasse os corações dos mais fanáticos por fútbol e o bolso dos donos de copa.

Passei cedo na casa da manca pra dar tempo de chegar no Felisberto Fagundes Filho naquele trote lento dela. Quando nos acomodamos na arquibancada, bem na risca do campo, até comentei que, reparando bem, dava pra ver a movimentação da torcida em Libres.

O jogo do lado de cá andava arrastado, como a minha manca. O Uruguaiana tocava de lado, dava chutão, batia nos do Ferro Carril sem piedade. O zero a zero servia aos da casa, e a partida seguia desse jeito, sem gols.

Do lado de lá era o contrário, pelo que me contaram depois. O empate era do Progreso. E na metade do segundo tempo em diante, com um a menos e o placar em 2 a 2, o Puerto Argentino jogou os seus para o ataque, num desespero que dava pena de ver.

Até que eu tinha uma idéia do jogo porque, do lado de cá do rio, se ouvia um pouco dos foguetórios e se via a fumaceira em volta da cancha do Puerto. No intervalo, ainda pensei em convidar a manca pra vermos o jogo de Libres. Se eu estivesse sozinho, iria. Mas com ela junto calculei que não daria tempo de atravessar a ponte.

No início do segundo tempo, numa falta, o Uruguaiana até marcou um gol, com a ajuda da ventania que fazia naquele dia. À frente no placar, o aurinegro amansava a bola ainda mais. Tanto que nem poderíamos imaginar que aquele jogo morno de Uruguaiana desencadearia uma das maiores batalhas campais da história de Paso de los Libres.

Aconteceu quase no final do jogo. Em Libres, o Puerto amassava o Progreso, mas o placar não saía do 2 a 2. Já nos descontos, teve um escanteio pro Puerto Argentino.

Em Uruguaiana, num ataque sem forças do Ferro Carril, o zagueiro do Uruguaiana, um crioulo que trabalhava num engenho na saída pra Alegrete, deu um bago na bola na direção de Libres, mas um bago tão forte que na hora não se viu a pelota voando sobre o rio Uruguai.

Amigos, se eu contar, até periga a verdade. Mas a bola que o zagueiro chutou foi subindo, e talvez com a ajuda do vento tomou impulso e atravessou o quilômetro e meio que separava o campo do Uruguaiana da cancha do Puerto Argentino, aterrissando bem no meio do entrevero do escanteio e estufando as redes do outro lado da fronteira. O bandeirinha, que não tinha visto que aquela bola no fundo do gol do Progreso tinha recém chegado do Brasil, correu pro centro do gramado. O juiz apitou o gol, acabou com o jogo, a taça ficou com o Puerto Argentino e a briga começou.

Até hoje na fronteira se discute se aquele gol valeu ou não.

A manca? Nunca mais vi.

Um abraço,
Daniel Cassol

Entry filed under: Literatura.

Humor na Pequena Área Na trilha da bola

21 Comentários Add your own

  • 1. Beto Borracho  |  23/08/2008 às 08:40

    1º larga as drogas.
    2º para de ler David Coimbra, ta de mais a coisa.

    abraço

  • 2. Andre  |  23/08/2008 às 09:00

    Valeu sim! O negão respondia pelo vulgo de “Água Doce”, era nascido na Barra do Quaraí. Veio a Uruguaiana em busca de emprego. Acabou ombrando saco num engenho na altura do trevo pra Alegrete. Na época do jogo, ele já respondia por duas acusações de homicidio. Era tratado por “do-tô” até pelo juiz.

  • 3. Paulo Sanchotene, RS  |  23/08/2008 às 09:01

    Tchê, eu estava nesse jogo. Nos dois… Dá-lhe, Uruguaiana!

    Cassol, texto digno do maior contador de causos de futebol: o paulistano e palmeirense José Roberto Christianini. Se me autorizas, vou passar esse texto para ele.

    Um abraço.

  • 4. mardruck  |  23/08/2008 às 09:54

    Ótimo!

  • 5. Iuri  |  23/08/2008 às 14:31

    sensacional haha

  • 6. Atilio  |  23/08/2008 às 15:30

    Legal e bem escrito. Vou incorporar ao meu repertório de histórias lá de Bento.

  • 7. Milton Ribeiro  |  23/08/2008 às 19:23

    Bá, excelente. Acreditei em tudo.

    (Vais perder um jantar, meu amigo…)

  • 8. Milton Ribeiro  |  23/08/2008 às 19:24

    Eu não sorri, apenas fechei o parêntese, porra.

  • 9. Rudi  |  23/08/2008 às 20:24

    quem segue o rumo do sol sempre chega a uruguaiana
    e sim, acredito

  • 10. Jones Rossi  |  23/08/2008 às 20:31

    CPI dos emoticons, djá.

  • 11. gilson  |  23/08/2008 às 21:40

    Do caralho!!!

  • 12. Gustavo Portela  |  23/08/2008 às 21:46

    Concordo com o Beto Borracho: Diga não às drogas e ao david coimbra.

  • 13. Ernesto  |  23/08/2008 às 23:23

    Texto muito bom.

    DEsculpa eu desviar do tópico, mas eu só queria deixar esse link aqui, do Olé. Tem uma parte do texto que eles dizem o que acharam da passagem do D’Alessandro por Boedo, pelo San Lorenzo:

    http://www.ole.clarin.com/notas/2008/08/23/seleccion/01743948.html

    Só pra deixar claro que eu não estou louco, quando digo que ele nao tinha jogado nada por lá.

    Abraço.

  • 14. izabel  |  24/08/2008 às 00:51

    ahhahhahha

  • 15. douglasceconello  |  24/08/2008 às 04:01

    Essa história está parecida com a do treinador do CANARINHO, que diziam que barranqueava CABRAS. Uma vez ele até me tirou de um jogo porque eu andava espalhando o boato. husaudhss

  • 16. Carol  |  24/08/2008 às 18:01

    Bem capaz!

  • 17. Prestes  |  24/08/2008 às 19:17

    Essa ganhou prêmio em Nova Bréscia.

  • 18. Junior  |  24/08/2008 às 19:26

    Aproveitando o comentário acima, a entonação do “capaz”, que só existe aqui no RS e tem mais ou menos uns 300 significados, rendeu a única música interessante que a dupla Kleiton & Kledir criou nos últimos 10, 15 anos, rs. Recomendo ouvir que vale a pena.

  • 19. Daniel Cassol  |  24/08/2008 às 19:29

    Valeu, Brasil.

    Só lamento que algumas pessoas não tenham acreditado na história.

    Meninos, eu vi. Ninguém me contou.

  • 20. FERN  |  24/08/2008 às 21:49

    muito BOUA!!!

  • 21. Polegar Vermelho  |  25/08/2008 às 07:15

    só falar em mulher que acham ser texto do David Coimbra, puta merda

    mas vão ler mais

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