O Segundo Tempo

28/06/2008 at 07:00 19 comentários

Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989.

Não para o meu irmão Bruno. Não para alguém que tinha onze anos, como ele, e se dispunha a percorrer tantos quarteirões até o ponto de ônibus. Já tínhamos feito o trajeto em noites de chuva, em feriados sem um único armazém aberto, sempre a mesma espera e os mesmos bancos de plástico. O calor de Porto Alegre é uma experiência à parte, os cheiros são macilentos e o ar é de uma espessura insalubre, e sair ao meio dia de casa não era garantia de lugar na arquibancada. Para lá iam aposentados tristes, alcoólatras de todas as profissões, gente que brotava dos morros e conjuntos habitacionais, quase oitenta mil pessoas com o mesmo objetivo. Naquele domingo, às seis da tarde, no gramado do Beira-Rio, estádio do Inter, o Grêmio enfrentaria seu maior rival no jogo que ficou conhecido como Gre-Nal do século. 

Bruno acordou mais cedo do que eu. Nós morávamos num apartamento pequeno e dividíamos o quarto. Ouvi os barulhos dele na sala, o rádio em volume baixo. Em Porto Alegre a cobertura esportiva era impregnada de marchas militares e propaganda de lojas de tinta. Meu irmão se preparou durante a semana, não havia o que o distraísse daquelas entrevistas preguiçosas: as primeiras considerações sobre o dia, o nutricionista explicando o que os jogadores teriam para o almoço. Filé e purê de batata, o homem dizia, uma salada leve e frutas. Alguma novidade?, perguntei para Bruno ao levantar. Era por volta de nove horas, e os times haviam sido definidos na sexta.

Estava em disputa a passagem para a final do campeonato brasileiro, uma vaga na Libertadores da América, um tabu de treze clássicos e dois anos de vitórias do Grêmio. Esses dois anos coincidiam com as primeiras vezes que levei Bruno ao estádio. De certa maneira é sorte, toda criança sabe se a sua geração foi premiada. Para ele havia o conforto ter onze anos em 1989, e não em 1979, final de uma década em que o Inter contou com Manga, Falcão e Carpeggiani. Agora a história era outra, a memória recente é que fazia Bruno ter confiança numa escalação de aparência tão heróica: o goleiro do Grêmio era Mazaropi, o lateral-direito era Alfinete, o zagueiro-central era Trasante, o quarto-zagueiro era Luís Eduardo.

Eu tinha quinze anos nessa época, o que me fazia tomar café com uma expectativa diversa. Era o dia mais importante da vida de Bruno, mas para mim já havia outras coisas: o fato de não termos ido para a praia uma única vez, de termos passado a temporada em Porto Alegre, eu sem nenhuma outra forma de distrair meu irmão que não fosse aquele campeonato, que culminou naquela semi-final. Às nove e vinte eu comi um pedaço de pão torrado, manteiga, a mãe ainda dormia no quarto. O governo preparava o lançamento do Plano Verão, e na capa do jornal havia uma notícia sobre a retirada das tropas russas de Cabul. O resto era ocupado por fotos das atrações da tarde: Marcos Vinicius, pelo lado do Grêmio, e Nilson, pelo do Inter.

1989 foi um daqueles anos que, mesmo à distância, tanto tempo passado, dá para reconstituir mês a mês, dia a dia. Foi o ano em que ninguém em casa teria interesse pelo Afeganistão. Em que ninguém em casa se preocuparia com a União Soviética, a Alemanha, a China. Em que o único foco de atenção dentro da nossa casa seria uma TV ligada num debate local, às vezes a gritaria era interrompida por flashes das concentrações. Você pegou o seu ingresso?, perguntei para Bruno antes de sairmos. Esconda na meia, e fique sempre perto de mim.

O ônibus estava cheio e fizemos o trajeto de pé. Cidade Baixa, Menino Deus, a Padre Cacique inteira a menos de dez por hora. Descemos um pouco antes, era mais prático ir caminhando até a rampa que conduzia à roleta, depois à grade, depois ao túnel. O interior do Beira-Rio parece sempre maior, mais perigoso, e ao ser empurrado para o alto, ao me espremer com Bruno perto das organizadas, da respiração do bumbo e da maconha e do suor, eu pela primeira vez me fiz as perguntas devidas. Eu estava nervoso? Eu estava preparado para aquele longo dia?

Trecho de O Segundo Tempo,
livro de Michel Laub, de 2006,
encontrado na rede com a ajuda de Milton Ribeiro.

Entry filed under: Literatura.

Notas sobre um duelo Nascia o país do futebol

19 Comentários Add your own

  • 1. Vilbrair  |  28/06/2008 às 10:38

    Michel Laub em O Segundo Tempo, mas poderia ser Nick Hornby em Febre de Bola

  • 2. Titi  |  28/06/2008 às 12:58

    Nao gostei … hehehehe. Sou gremista.

    Me fez lembrar aquela tarde de verao, epoca em que eu ficava os 3 meses na praia. Maldito grenal ‘do seculo’. Televisao e radio embalaram minha torcida. Bons 10 anos de idade.

    O treino hj foi a previa da festa de amanha!

    Arrisco o placar de 2×1, sofrido!

    http://br.youtube.com/watch?v=EpnnYnCFqno –> Gremio presenta na pelada do Stevie Nash em NY. Aos 56s, 1:33min e outras vezes mais.

  • 3. Caue  |  28/06/2008 às 18:42

    Vale lembrar q o livro vai muito além do futebol.

    Leiam. Aliás leiam tudo do Michel Laub, o cara é excelente.

  • 4. Carlos  |  28/06/2008 às 19:22

    Esse jogo foi foda. Foi a tarde onde tudo poderia dar certo, e no segundo tempo deu errado. Um calor infernal, estádio superlotado. Primeiro tempo um banho do gremio, casemiro expulso, festa e festa. No segundo tempo, aquela tragédia. Depois voltar a pé até o centro ouvindo a coloradagem rindo da nossa cara. Mas faz parte.

  • 5. Luís Felipe  |  28/06/2008 às 19:59

    Rubens Minelli era o treinador do Grêmio?

    Carlos, tu foi nesse jogo?

  • 6. Daniel Cassol  |  28/06/2008 às 20:17

    O Gre-Nal do século é a lembrança mais remota que eu tenho do futebol.

  • 7. Rômulo Arbo  |  28/06/2008 às 20:55

    tinha 5 anos, não lembro

  • 8. Ernesto  |  28/06/2008 às 21:06

    Texto show de bola.

    Esse autor parece ser conhecedor. Há mais informações sobre a obra dele?

    abraço.

  • 9. fino  |  28/06/2008 às 21:42

    Ernesto cordial?

  • 10. Flávio  |  28/06/2008 às 22:36

    Apesar dos títulos de 06, o Gre-Nal do Século ainda é, para mim, o maior jogo do Inter depois dos anos 70.
    Um jejum de dois anos e 13 clássicos sem ganhar do rival… Vitória de virada com um jogador a menos… e jogando num kamikaze esquema 3-2-4! Pois é, Abelão, hoje fã de zagueiros e volantes, já foi dessas loucuras… Na memória afetiva dos colorados que vivenciaram aquela época, o Gre-Nal do Século é insuperável. Mesmo que depois os motivos que o tornaram tão especial, a passagem para a final do Brasileiro e a vaga na Libertadores, tenham resultado em duas tragédias…
    Citaram o Minelli, pois ele passou os dias que antecederam o jogo anunciando que tinha uma arma secreta para o clássico: Reinaldo Xavier. Alguém lembra dele?
    Ah, para os que se interessaram pela obra do Michel Laub, o cara tem mais dois livros: “Longe da água” e “Música anterior”. No site da Companhia das Letras, é possível ler trechos deles.

  • 11. Carlos  |  29/06/2008 às 11:48

    LF…

    Fui sim….tanto no Olimpico (0x0) como no Beira-Rio. Posso estar falando bobagem, mas foi o jogo mais lotado q eu fui na minha vida inteira. O mais parecido q lembro foi a final do Grêmio contra o Independiente em 84.

    Na real não lembro quem era o técnico do Grêmio na época. Sei q o time do Grêmio e o do Inter eram bem equivalentes…se não estou enganado, o ataque do inter era muito bom…Mauricio, Nilson e Edu.

  • 12. Carlos  |  29/06/2008 às 11:50

    Tinha 16 anos. E a torcida do inter e do grêmio saíam ao mesmo tempo, e não dava (quase) nada.

    Hj em dia a coisa tá ridícula. Estádio com 2-3 mil pra torcida visitante é deprimente.

  • 13. Flávio  |  29/06/2008 às 12:04

    Foram dos últimos jogos em que tanto o Olímpico e o Beira-Rio receberam mais de 70 mil pagantes. Na partida de volta, no Gigante, meu tio e meus primos gremistas, que não conseguiram lugar na torcida do Grêmio, tiveram que assistir o jogo com os colorados. Pior que eles vibraram quando o Grêmio fez 1×0 e, fora umas caras feias, ficou por isso mesmo. O técnico gremista era o Minelli. O Inter levava um certo favoritismo por ter melhor campanha e um elenco superior (Taffarel e Winck eram da Seleção; Nílson, artilheiro do campeonato). O Grêmio havia perdido Valdo e Lima há poucos meses, sem encontrar substitutos à altura, mas tinha a seu favor o tabu de dois anos e 12 jogos sem derrotas para o rival.

  • 14. FERN  |  29/06/2008 às 19:14

    o time do meu VÔ deu um pouco do troco… huahuahuhauhauua

  • 15. Milton Ribeiro  |  30/06/2008 às 14:02

    89? Eu ia fazer 32 e estava no estádio.

    (Vontade de matar o Casemiro, expulso bobamente.)

  • 16. mardruck  |  01/07/2008 às 19:26

    Galera velha aqui hein. Em 89 eu tinha UM ano de idade hahaha

  • 17. Rogério Tomaz Jr.  |  01/07/2008 às 21:35

    eu tinha 13 em 89 (12 nesse grenal)… mas tava de olho no belo time do Flu, que encerrou aquela geração vencedora…

    e a lembrança mais remota que tenho do futebol é a primeira Placar que comprei: http://placar.abril.com.br/capas/capas/1986/0836.jpg

    que tristeza aquela Copa…

  • 18. Ariovaldo Machado Gonçalves  |  28/07/2008 às 12:45

    Gostaria que o Neto falasse a respeito da 2 [ falta com carrinho que o Cléber fez e não levou o 2º cartão ( vermelho) antes de sofrer o pemnalti.Sendo assim o mesmo não participaria do lance do penalti e consecutivamente o Palmeiras não faria o gool.

  • 19. Milton  |  25/08/2008 às 22:59

    Eu fui, me lembro como se fosse hoje. Tinha dez anos. Tinha acabado de chegar de garopaba para ver o jogo. Muito calor No segundo gol chorei muito de emoçao.Sempre vou ao gigante e nem na final da libertadores eu me lembro um estadio vibrar tanto.

    Foi épico, demais.

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