O código Boca

04/06/2008 at 11:25 43 comentários

O Boca é um time copeiro, isso é moeda corrente. O modo sorrateiro como age, dentro e fora da Bombonera, merece até mesmo uma explicação psicológica. Por outro lado, fala-se muito que a zaga xeneize é frágil e que os gols anotados são gols de manha. Resolvi rever todos os tentos – feitos e sofridos – do Boca nesta Libertadores e encontrei dados interessantes, que podem indicar ao Fluminense um caminho para a classificação nesta quarta-feira.

Vamos começar pelo começo: o Boca Juniors fez 23 gols e tomou 15 nesta Libertadores. Fora de casa, foram um empate, duas derrotas e duas vitórias, sobre o Atlas e o Cruzeiro, já na fase do mata-mata, o que prova o crescimento do time ao longo da competição.

Palermo é o artilheiro, com seis gols, seguido de Palácio e Riquelme, ambos com quatro. Além deles, também marcaram Bataglia e Dátolo (duas vezes), além de Cáceres, Gracián, Néri Cardoso e Paletta, uma vez cada. Há um gol do Boca computado para Ayala, do Atlas, contra, numa bola em que Palermo participava do entrevero.

A primeira constatação é quase óbvia mas, ao mesmo tempo, surpreendente: nada menos que 86% dos gols do Boca ocorreram no esquema PPR. Não estou falando de Plano de Participação nos Resultados, mas de Palermo-Palácio-Riquelme: os três jogadores participaram de 20 gols do time e, na maioria das vezes, a bola passa pelos pés dos três na mesma jogada.

Ao assistir novamente aos lances, acabei criando duas categorias para identificar as formas como o Boca faz gols: “tabela clássica” e “cruzamento na área”. A tabela clássica é aquela jogada que começa num lado do campo e, com um toque para cada jogador, a bola vem para o meio e é lançada para alguém que entra pelo lado da área, sem marcação, para cruzar ou chutar em gol. Como foi o primeiro gol contra o Fluminense, por exemplo. Foram seis gols marcados dessa forma. Também seis vezes o Boca chegou ao gol com cruzamentos na área, e em quatro oportunidades a jogada teve participação de Palermo, que escorou para alguém ou cabeceou direto para o gol.

Agora, o caminho da felicidade para o Fluminense. Nos gols sofridos pelo Boca, também duas “categorias” de jogadas ganham destaque: o gol de bola parada e o chute de fora da área. Dos 15 gols sofridos pelo time argentino, sete deles fora de bola parada ou cruzamento alto na área; e também sete foram de chutes de fora da área. Da mesma forma, os gols do Fluminense servem de exemplo.

Nesta contagem, vale dizer que alguns gols “combinaram” as duas jogadas, ou seja: num cruzamento na área, a zaga tirou mal e sobrou para um adversário chutar de fora da área. E que, claro, jogadas como a “tabela clássica” não ocorreram todas as vezes exatamente da mesma forma.

Analisando os gols sofridos pelo Boca, fui anotando as vezes em que a zaga ou o goleiro boquense falharam. Anotei coisas como:

– cruzamento pela direita, há Paletta e Cáceres na área, mas nenhum chega. Cabeceio pro gol.
– cobrança de falta da entrada da área, pela esquerda, Caranta sai mal, zaga não sobe e a bola sobra para Wagner, que dá um voleio para o gol.
– cruzamento da esquerda, gol de cabeça de Torres Milo no meio da zaga. Caranta sai muito mal.
– cruzamento forte e rasteiro pela direita, Maidana falha e a bola sobra para Marioni.
– chute de fora da área de Thiago Neves, goleiro Migliore aceita.

Sem forçar a barra, cheguei a quase dez gols em que tranquilamente se poderia dizer que a defesa do Boca falhou. Às vezes, minha opinião era referendada pela própria narração dos gols. Salvo raras exceções, como o gol do Cruzeiro na Bombonera em que Fabrício chuta de fora da área e a bola desvia, enganando o goleiro, não seria injustiça dizer que a zaga marca touca na grande maioria dos gols sofridos pelo Boca.

Na maioria dos casos, ou a zaga deixa alguém livre dentro da área, ou Caranta sai mal. Parece que Migliore irá jogar no Maracanã, mas este goleiro também não anda muito em alta com a torcida xeneize.

Ou seja: é possível suplantar o Boca. Pelo menos em tese.

De qualquer modo, crescem as esperanças para um time que tem Thiago Neves chutando e cobrando falta, para cabeceios de jogadores como Washington e Thiago Silva.

Basta que Renato Portaluppi leia este post.

Confiram todos os gols analisados pelo Instituto DataImpedimento:
Boca 2 x 2 Fluminense
Atlas 0 x 3 Boca
Boca 2 x 2 Atlas
Cruzeiro 1 x 2 Boca
Boca 2 x 1 Cruzeiro
Boca 3 x 0 Maracaibo
Boca 3 x 0 Atlas
Colo Colo 2 x 0 Boca
Boca 4 x 3 Colo Colo
Atlas 3 x 1 Boca
Maracaibo 1 x 1 Boca

Um abraço,
Daniel Cassol

Entry filed under: Libertadores.

Deu Liga Estava escrito há mil anos

43 Comentários Add your own

  • 1. Luís Felipe  |  04/06/2008 às 11:57

    todo jornalista esportivo deveria fazer isso.

  • 2. Anônimo  |  04/06/2008 às 13:05

    “Basta que Renato Portaluppi leia este post.”

    rá!

  • 3. Alisson Coelho  |  04/06/2008 às 13:35

    Se eu fosse torcedor do fluminense mandava essa análise pro Renato!!!

  • 4. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 13:35

    Concordo com o LF, parabéns, Cassol.
    É por ISSO que confio hoje no Flu.

  • 5. izabel  |  04/06/2008 às 13:54

    tá… mas é lógico que a comissão técnica faz isso também!

  • 6. Atilio  |  04/06/2008 às 13:59

    Análise atenta de dados CONTEXTUALIZADOS. Texto sem firulas, mas cheio de humor e personalidade. Exemplar. Parabéns.

  • 7. Bueno  |  04/06/2008 às 14:00

    Os “Jornalistas Esportivos” dirão 10% disso, no dia seguinte ao jogo. Adaptando apenas para o lado vencedor.

  • 8. Daniel Cassol  |  04/06/2008 às 14:23

    Tudo muito bem, tudo muito bom, mas sugiro que os gaúchos liguem nas rádios agora, pois estamos assistindo a um grande trauma. Grande.

  • 9. Luís Felipe  |  04/06/2008 às 14:31

    o quê, a CPI do Detran?

    O trauma é que gaúcho também sabe roubar, como não se dizia até anteontem?

  • 10. Francisco Luz  |  04/06/2008 às 14:39

    Grande trauma = ninguém vai saber.

    Essa CPI vai ser outra bandalheira. E não vão mudar nada na corja que é o detran. Em meio ano, os valores para as carteiras vão aumentar 15%. Anotem.

  • 11. Cassol  |  04/06/2008 às 14:51

    Não, só estou dizendo que as gravações divulgadas hoje dão novos rumos à CPI. Vamos ver até onde vai.

  • 12. Alexsander  |  04/06/2008 às 14:52

    [i]”todo jornalista esportivo deveria fazer isso.”[/i]

    Com um agravante: eles RECEBEM e não fazem isso.

  • 13. Carlos  |  04/06/2008 às 14:57

    Bah, o q q tá acontecendo? estou sem radio aqui…

  • 14. Alisson Coelho  |  04/06/2008 às 15:03

    Estão escutando as ligações telefonicas gravadas pela Policia Federal…

    Estou na Assembléia acompanhando, nesse momento a sessão está suspença mas daqui a pouco o espetáculo recomeça.

    Ninguém vai saber, ou vão todos esquecer pq nós não acompanhamos e não cobramos…

  • 15. Carlos  |  04/06/2008 às 15:08

    Claro q não vai acontecer nada. Nunca acontece e nunca vai acontecer.

    Pelo menos vai parar esse papo idiota de “gaúcho é o mais politizado e aqui não tem corrupção, pq esse solo é sagrado, bla bla bla”…

  • 16. dante  |  04/06/2008 às 15:09

    suspenSa, sr. jornalista alisson coelho, pelo amor de deus…

  • 17. dante  |  04/06/2008 às 15:10

    bá, carlos, pior é que esse papo NUNCA vai parar.

  • 18. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 15:27

    então, Cassol, vai nos atualizando aí (agora é “obrigação”)… to sem rádio aqui

  • 19. moe  |  04/06/2008 às 15:30

    Entrosamento é foda.

  • 20. Caue  |  04/06/2008 às 16:03

    Sei não, Cassol.

    Tenho um palpite que se tu avaliares o desempenho de qualquer time vais chegar à conclusão de que 85% dos gols feitos passam pelos pés dos atacantes e que 2/3 dos sofridos são atribuídos a falhas da defesa – o restante, basicamente, são de bolas paradas.

  • 21. Alisson Coelho  |  04/06/2008 às 16:03

    jornalista?

  • 22. Alisson Coelho  |  04/06/2008 às 16:10

    De qualquer forma dante obrigado, ato falho meu na correria aqui…

  • 23. izabel  |  04/06/2008 às 16:27

    caue, concordo.

    principalmente no assunto “falha da defesa”. isso virou moda, e eu acho que já cansou. obviamente, qualquer gol é falha da defesa. e qualquer resultado nulo é falha do ataque. e, obviamente, qualquer gol é mérito do ataque e resultados nulos são méritos da defesa. ou seja: futebol, um time contra o outro, ambos com o objetivo de acertar o gol (adversário).

  • 24. Celão  |  04/06/2008 às 16:39

    Finalmente consegui acessar o site novamente!!! Que se dane o Fluminense, quero saber se perdi muita coisa e quando vai rolar a ImpedFest II, toca y me voy!!

  • 25. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 16:42

    é fácil concordar com caue e izabel, pensei o mesmo. mas entendo a validade deste post, pois, como o cassol, percebo que os gols do boca têm um quê de típicos. Eles têm, de fato, jogadas típicas. Não que isso seja exclusividade deles. O Grêmio, com Paulo Nunes e Jardel tinha jogada típica, o Inter com Fabiano e Christian, o Santos com Robinho e Diego… Creio que um time bem entrosado, e bom, haverá de recorrer em jogadas típicas e eficientes. O que não significará que serão jogadas facilmente anuladas. O Boca Juniors, me parece, tem essa jogada típica que o Cassol chamou tabela clássica, e não à toa, tem jogadores habilidosos e inteligentes para isso. É muito notável essa jogada, e parece (por sua eficiência recorrente) difícil de marcar. Mas sabê-la é o começo. A outra jogada é o cruzamento pra área, que mais uma vez, podemos dizer que é típica do Boca porque eles têm, numa ponta e noutra, Riquelme e Palermo.
    Assim, a observação é muito válida.

  • 26. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 16:43

    facilmente ANULÁVEIS

  • 27. Dudu Kontra  |  04/06/2008 às 16:49

    O problema de analisar os gols que o time faz ou toma é válido como estatística, porque no calor do jogo muitas vezes jogadas ensaiadas não surtem efeito nenhum e o nervosismo de alguns jogadores acabam por detonar o próprio time. É mais ou menos como analisar se o cara é canhoto o destro e prá que lado ele vai tentar te driblar na hora H. As vezes funciona…

  • 28. Daniel Cassol  |  04/06/2008 às 16:49

    Obrigado, Rômulo. Passe no meu escritório para receber sua PROPINA.

    Cauê e Izabel, vou indiciá-los por quebra de decoro leitoral.

  • 29. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 17:19

    foi o kahn, o van der sar (?) que pegou seqüência de penaltis tendo estudado previamente os batedores? De fato, não se está livre das VICISSITUDES do jogo, mas conhecer o adversário em seus PORMENORES é, como disse, um começo pro sucesso.

    Celão. Perdeu nada. Só um post especial das 100 MELHORES DIABLITAS. hauhauha, brincadeira, antes q tu procure

  • 30. FERN  |  04/06/2008 às 17:54

    se todo jornalista fosse assim, atento, é por isso que só leio 2 blogs e um é este…

    só que eu concordo TOTALMENTE com o Arbo Menna-25, TOTALMENTE

  • 31. Leo Ponso  |  04/06/2008 às 17:59

    Foi o Lehman, Rômulo.

  • 32. Rômulo Arbo Menna  |  04/06/2008 às 18:04

    Isso! Valeu, Ponso.

  • 33. Paulo Sanchotene, RS  |  04/06/2008 às 19:18

    O mais impressionante para mim, no Boca, é o que o Tite chamaria de “compactação” (argh!). Os jogadores estão sempre próximos uns dos outros; o time avança e retrai em bloco. É exatamente isso que permite a marcação-pressão, a rápida saída em contra-ataque e as triangulações.

    Outra coisa, o jogo parece SEMPRE estar sob o controle do Boca. É o Boca que decide quando a partida ficará sonoloenta, com aborrecidas e intermináveis seqüências de passes sem objetivo aparente (os que os argentinos chamam de “defender-se com a bola”), ou quando o jogo será eletrizante, com as blitze, chutes de fora da área, passes de primeira, alta rotatividade dos jogadores e, claro, os riscos de levar um contra-ataque com a defesa descoberta. O último jogo em que vi o time áureo-cerúleo “entrar na roda” foi no ano passado no SuperClásico do Monumental pelo Apertura. Na Libertadores deste ano, NENHUMA VEZ, mas confesso que não vi todos.

    Quando é que um time brasileiro finalmente colocará a bola nos pés e dirá ao Boca: “hoje jogo eu”? Espero que esta noite…

  • 34. Paulo Sanchotene, RS  |  04/06/2008 às 22:22

    24min, Boca tem 59% de posse de bola…

  • 35. Serramalte Extra  |  04/06/2008 às 23:58

    90 min, Boca morreu…

  • 36. André K  |  05/06/2008 às 00:11

    “O segundo não demorou muito a sair. Após o árbitro Heber Roberto Lopes deixar de marcar uma falta clara em cima de Luciano Henrique, os paulistas puxaram o contra-ataque e Herrera completou para o fundo das redes.”

    Eu avisei

  • 37. Paulo Sanchotene, RS  |  05/06/2008 às 00:14

    Não foi desta vez que vi um time brasileiro se impor ao Boca, mas valeu – e como valeu! – pela eliminação!

  • 38. Francisco Luz  |  05/06/2008 às 00:33

    Não se impuseram, mas souberam fazer os gols na hora certa (como se houvesse hora errada para isso, mas entenderam o que eu disse).

    Não se acadelaram depois de tomar a bucha do Palermo, e ainda contaram com um nervosismo atroz da defesa bostera. Que só fez bosta, mesmo, nessa noite.

    Agora, é com a Liga. Ai ai ai…

  • 39. carlos  |  05/06/2008 às 02:34

    algo me diz que Francisco Luz seca o Fluminense…
    que continue secando!

  • 40. Francisco Luz  |  05/06/2008 às 08:31

    Seco, sim, Carlos.

    Aliás, não é exclusividade do Flu. Torço contra todos os brasileiros.

  • 41. Carlos  |  05/06/2008 às 09:37

    Esse carlos ae não sou eu!

  • 42. douglasceconello  |  05/06/2008 às 10:21

    Concordo muito com Sanchotene, no comentário 33. Via de regra, o Boca só perde quando é amplamente dominado, o que raramente acontece. Deixar o Boca tocar a bola é suicídio.

    Mas o jogo de ontem contra o Flu prova que há exceções: às vezes eles perdem dominando. Não porque o outro time ficou mais com a bola, mas porque foi mais inteligente ou teve mais sorte.

  • 43. carlos  |  05/06/2008 às 13:04

    Esse Carlos aí não sou eu!

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