O botafoguense, por Nelson Rodrigues

31/05/2008 at 08:30 11 comentários

Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time. Há, porém, um torcedor, entre tantos, entre todos, que não se parece com ninguém e que apresenta uma forte, crespa e irresistível personalidade. Ponham uma barba postiça num torcedor do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível. Por quê?

Pelo seguinte: – há, no alvinegro, a emanação específica de um pessimismo imortal. Pergunto eu: – por que vamos ao campo de futebol? Porque esperamos a vitória. Esse otimismo é o impulso interior que nos leva a comprar ingresso e vibrar os noventa minutos. E, no campo, o otimismo continua a crepitar furiosamente. Não importa que o nosso time esteja perdendo de 15 X 0. Até o penúltimo segundo, nós ainda esperamos a virada, ainda esperamos a reação. Pois bem: – o torcedor do Botafogo é o único que, em vez de esperar a vitória, espera precisamente a derrota.

Os outros comparecem na esperança de saborear como um chicabon o triunfo do seu clube. Mas o torcedor do Botafogo é diferente: – ele compra o seu ingresso como quem adquire o direito, que lhe parece sagrado e inalienável, de sofrer. Eis a verdade: – ele não vai a campo ver futebol. O futebol é um detalhe secundário e, mesmo, desprezível. Ele quer, acima de tudo, desgrenhar-se, esganiçar-se, enfurecer-se e rugir contra Zezé Moreira. No dia em que retirarem do torcedor alvinegro o inefável direito de sofrer e, sobretudo, o direito ainda mais inefável de descompor o seu técnico, ele ficará inconsolável, como um ser que perde, subitamente, a sua função e o seu destino.

Tudo na vida é uma questão de hábito. E o cidadão que padece todos os dias acaba se afeiçoando ao próprio martírio ou mais do que isso: – o martírio torna-se insubstituível como um vício funesto. É o caso da torcida alvinegra que, desde 1910, sofre e, ao mesmo tempo, xinga Zezé Moreira. Conclusão: – já não pode viver sem uma coisa e outra.

Por exemplo: – o clássico de ontem, no Maracanã, foi o que se chama de jogo ideal para o torcedor do Botafogo. Já durante a semana, ele vivera mergulhado no pessimismo como um peixinho no seu aquário. E, ontem, finalmente chegou o grande dia: – a torcida alvinegra sofreu como nunca e rugiu, como nunca, contra Zezé Moreira. De fato, o Vasco exerceu um feroz, um maciço domínio de oitenta minutos. E mais: – o Vasco deu show, jogou bonito, brilhou escandalosamente como um Sol. No intervalo do primeiro para o segundo tempo, encontro um amigo botafoguense. Exultante com o próprio sofrimento e com o próprio furor, ele veio, para mim, de braços abertos. Do lábio, pendia-lhe a saliva pesada e elástica de uma cólera sagrada. Agarra-me e rosna-me, ao ouvido: – “Esse Zezé Moreira é um tarado!” E repetia, atirando patadas ao chão: – “Tarado!”

A princípio, pensei num crime sexual ainda impune, praticado nalgum terreno baldio. Pálido, quero saber por que “tarado”. Então, o amigo explica-me: – porque pusera o Bauer no lugar de Pampolini! E essa substituição parecia, ao meu conhecido, o sintoma inconfundível de uma “tara” tenebrosa. O diabo é que todo o esforço e todo o brilho do Vasco não renderam mais que um franciscano empate de 0 x 0. Acresce que, nos dez minutos finais, o Alvinegro reage dramaticamente e quase ganha o jogo, quase.

Crônica de Nelson Rodrigues, de 04 de agosto de 1956, publicada na revista Manchete Esportiva, sobre o jogo Vasco 0 x 0 Botafogo, e retirada do livro “O berro impresso das manchetes”. Sobre Zezé Moreira, ler isto.

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11 Comentários Add your own

  • 1. paulo bh  |  31/05/2008 às 09:03

    eles nao sofrem nem metade do que um atleticano sofre…A diferença e que um atleticano nunca desiste sempre enchendo o mineirão e apoiando o time(na medida do possível), e a torcida do botafogo, oque fazem pelo seu time?

  • 2. Serramalte Extra  |  31/05/2008 às 11:46

    Mas o Atlético pelo menos ganha Campeonato Mineiro de vez em quando né, Paulo…

  • 3. Cassol  |  31/05/2008 às 15:25

    Já temos um vencedor do I Concurso Culturas Canchas do Continente. Em breve, a tão aguardada revelação.

  • 4. zeluiz  |  01/06/2008 às 08:31

    Digo sempre para meus amigos botafoguenses: o botafoguense só se realiza na derrota. É somente aí que ele se realiza como ser humano completo. Pode reparar: todo botafoguense gasta mais tempo falando do Flamento que do Botafogo.

  • 5. Prestes  |  01/06/2008 às 17:35

    Fla e Flu – 30 cariocas

    Botafogo – 18 cariocas

    América – 7 cariocas

    Conclusão: Botafogo está mais perto do América que de Fla-Flu

    Maldade!

  • 6. Marcos SL  |  02/06/2008 às 21:57

    Belíssimo texto!!

  • 7. TRICOLOR DE CORAÇÃO  |  04/06/2008 às 00:03

    Ou o Flamengo tem 29, ou o Flu tem 31. Defina-se os critérios. Os festejados 30 estaduais rubro-negros são compostos de troféus vencidos em 29 temporadas, já que em 1979, depois de o Mengão ser campeão, foi realizado um “Torneio Extra”, e o Fla foi BI!

    Ora… em 1941, o Fluminense também venceu um torneio extra, e não vejo a FFERJ declará-lo 31x campeão.

    O que há com este Flamundo?

  • 8. juliomarcello  |  24/09/2009 às 10:53

    Poucas vezes vi tamanha ignorância e importancia a um simples texto, É o que é, um bom texto do Nelson Rodrigues sobre futebol e sobre as torcidas, ponto. Ah! Nelson era tricolor!
    Não entendo a necessidade de tranformar isso num debate e em infinitas explicações de como os botafoguenses não apoiam o time, ou são derrotados por natureza, ou são piores e mais fracos que os flamenguistas, tricolores ou vascainos… mas essa é a maravilha do blog, que permite mesmo ao mais ignorante e desocupado perder seu precioso tempo imterpretando e se incomodando com o que é apenas para ser lido. Recebi esse link de um flamenguista, nada mais oportuno não é verdade?

  • 9. juliomarcello  |  24/09/2009 às 10:56

    “Vasco deu show, jogou bonito, brilhou escandalosamente como um Sol. ” – assim fazia Priscila, a rainha do deserto.

  • 10. rafael botafoguense  |  07/04/2010 às 03:24

    nelson rodrigues é fodão,mas ele viaja quando fala do botafogo.

  • 11. bruna  |  14/04/2011 às 23:54

    Sou botafoguense, frequento o estádio e posso confirmar, em parte, este texto. Sobretudo, pelo resultado do jogo que ele descreve, o empate em 0 X 0 e o furor da torcida. Mas acho que a causa para o dito “pessimismo” não está nas derrotas supostamente frequentes (como se diz). Mas sim, na expectativa de ver um espetáculo de futebol, ao invés de um joguinho horroroso. Pra flamenguista, por exemplo, basta que o time ganhe. Se foi gol de mão, de bunda, sobretudo se o gol foi roubado, não importa. O importante é que ganhou. Pro botafoguense não. Botafogo é um time de ídolos, de bom futebol… e é isso que o botafoguense esperar ver. Não interessa a melhor campanha num brasileiro depois de 15 anos, 16 anos se o time parou de jogar bonito. Se o lateral não corre, não se esforça, se o meio campo não tem brilho e se o goleador não saboreia o gol que fez. É assim que leio a verdade deste texto do Nelson Rodrigues: o botafoguense mais como um apaixonado, que espera ver a mágica do futebol sempre (e muito crítico por conta disso) que um amargurado, sofredor e pessimista. Isso é pra quem já não vê poesia no futebol.

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