Rasteira, verdadeiro esporte nacional

24/05/2008 at 10:40 29 comentários

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idéia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

(…)

Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

(…)

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

(…)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva.

Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.

Crônica de Graciliano Ramos publicada em 1922 no jornal O Índio, sob o pseudônimo de J. Calisto. Retirada daqui.

Entry filed under: Literatura.

Eu tá vendo no copo 1984

29 Comentários Add your own

  • 1. Rudi  |  24/05/2008 às 12:32

    era ironia né?

  • 2. Diogo  |  24/05/2008 às 12:42

    O autor de “Angústia”, “Vidas secas”, “São Bernardo”, “Memórias do cárcere” e “Infância” achava, então, que o ludopédio não pegaria nessas bandas.
    E curioso é que ele tanto incentivou a rasteira que levou uma e foi encarcerado.

  • 3. izabel  |  24/05/2008 às 15:02

    mandei um email pra familia. quero saber se é ironia ou não.
    de qualquer forma, bem escrito. como sempre graciliiano fez.

  • 4. Prestes  |  24/05/2008 às 15:38

    massa

  • 5. Atilio  |  24/05/2008 às 16:20

    Não é ironia. Ele escreveu contra mesmo. Uma vez alguém de gabarito me chamou atenção para o fato de que a questão do Graciliano tinha menos a ver com futebol do que com outra coisa (política, certamente). Uma hora ou outra eu me lembro quem era e o que era especificadamente… Daí posto um comentário. Ou não vou me lembrar nunca e todos vão ficar curiosos… e eu também. Não ajudei muito, né? Que merda…

  • 6. Atilio  |  24/05/2008 às 16:22

    Ou será que a pessoa que me falou, me falou sobre o Lima Barreto? Agora sim é que fudeu as lembranças.

  • 7. izabel  |  24/05/2008 às 18:16

    resposta aqui (Atílio, talvez seja a mesma fonte que a sua: Albano para uns, Branco Leone para outros). ah, e a Luiza, citada, é filha do Graciliano.

    “Conversei com Luiza uma vez a respeito disso, por conta de um entusiasmado capoeirista que escreveu para o site, e que queria fazer de Graciliano uma espécie de “patrono da capoeira”, ou algo assim. A conclusão é a seguinte: nem tão lá, nem tão cá. No texto, Graciliano não está desfazendo do futebol nem enaltecendo a capoeira; antes, desdenha do povo brasileiro. Os primórdios do futebol no país não eram nada que pudesse impressionar a quem fosse. Se lembrarmos que, na pátria do futebol (a Inglaterra, sabe?), a primeira “copa” não sairia se não fosse o patrocínio de uma marca de chá, entenderemos o que era o esporte no Brasil, fosse quando (e onde) fosse.

    Para entender melhor a situação, importante também é saber quando e onde é esse quando-e-onde. O texto foi publicado n’O Indio, jornal de Palmeira dos Indios, em abril de 1921. Quem o assina é “J. Calisto”, pseudônimo que o homem usava para escrever seu blog, digo, sua coluna mais sossegado. Muito bem, agora transporte-se para Alagoas (ou pior, para Palmeira dos Índios), atrase o relógio para 1921 e me diga, à luz da realidade que você pode ver, no que vai dar este esporte esquisito em que as pessoas correm como cavalos num campo enorme, ao sol, chutando uma bola pesada. Junte a isso uma vontade muito forte de tirar um sarro de tudo e todos, uma necessidade irrefreável de escarnecer e espicaçar tudo com sua iroria, e você terá um texto parecido.

    Numa linha: nem o futebol é ruim, nem a capoeira é boa; o povo é que não presta para nada”

  • 8. Prestes  |  24/05/2008 às 20:19

    E o Fernandão não conclui a gol desde a final do PICANHÃO 2008

  • 9. Prestes  |  24/05/2008 às 20:20

    Minto: deu uma cabeçada hj, mas com os pés faz questão de não chutar.

  • 10. Vitório Piffero  |  24/05/2008 às 21:48

    Calma pessoal. Temos 100.000 sócios, o maior time do mundo, a maior torcida, a mais vibrante, somos campeões do mundo, o Beira Rio é o maior estádio de todos, o maior técnico, os melhores atacantes.

    Tudo é maravilhoso no Beira-Rio, calma pessoal!!!

  • 11. Leandro Demori  |  24/05/2008 às 21:52

    “Junte a isso uma vontade muito forte de tirar um sarro de tudo e todos, uma necessidade irrefreável de escarnecer e espicaçar tudo com sua iroria, e você terá um texto parecido.

    Numa linha: nem o futebol é ruim, nem a capoeira é boa; o povo é que não presta para nada”

    Único pensamento possível.

  • 12. Luís Felipe  |  24/05/2008 às 22:05

    Celso Roth começando bem um campeonato e Inter desacreditado.

    eu vejo isso com bons olhos.

  • 13. Beto Borracho  |  24/05/2008 às 22:24

    Eu também!

    A panela colorada está queimando a gurizada do beira-rio, Valter voltou para os juniores. Qualquer um que jogar bem, tiver o mínimo de destaque e ameaçar o trio-de-ferro, será sumariamente excluído do grupo.

    Está na hora do Luigi e do Pífero definirem a opinião sobre o grupo do inter, quando ganha do Vasco com os reservas o grupo é ‘o mais qualificado do brasil’….‘Não precisamos de reforços’… ‘blablabláblábláblá….’
    Perde para o flamengo com três reservas: ‘qualquer time do mundo sente a ausência de três titulares’… ‘Estamos atentos ao mercado’… ‘Precisamos sim, qualificar o grupo’….

    Coerência gente, por favor!

  • 14. Flávio  |  24/05/2008 às 22:28

    Quanto ao Roth, caso siga seu script habitual, até concordo. Mas o Inter, sei não. Apesar da importância histórica inegável de ambos, acho que o ciclo de Abelão Ferguson e Fernandão Giggs no Inter já acabou. 2008 parece repetir 2007. Com o Ruralito e a Dubai Cup fazendo as vezes da “Tríplice Coroa”. O Felipão defende a tese de que um técnico e um elenco base de jogadores tem um prazo de validade de no máximo 3 anos num mesmo time. Depois tem que reformular. Concordo com ele.
    Pior que se o Abel sair vão trazer um Geninho ou Ney Franco da vida para o lugar. E o Abelão, obviamente, vai ficar aqui em Porto Alegre urubuzando…

  • 15. Flávio  |  24/05/2008 às 22:30

    errata: têm

  • 16. izabel  |  24/05/2008 às 22:31

    Leandro: concordo, e não duvido.
    embora ache que uma análise anacrônica do texto não valha a pena. talvez o futebol fosse realmente estranho na época. e ele é bem do tempo do regionalismo, então não vejo nada de errado se, à época, analisou assim.

    é como monteiro lobato, que xingava os modernistas. numa análise simplista, acho que dá pra chamá-lo de um simples idiota. o que não acho que seja o caso.

  • 17. Francisco Luz  |  25/05/2008 às 07:47

    O Abel está mais louco em 2008 do que nunca. Ontem, terminou o jogo com RAMON E JONAS na meia-cancha. JONAS. RAMON.

    Não dá. O cara põe o GIL, que vai ser dispensado ou negociado, e deixa nego melhor do que ele fora do banco. É IMPOSSÍVEL entender como funciona a mente braguiana.

    Ainda mais quando ele faz substituições do nível International Superstar Soccer, achando que pode colocar um atacante no meio e ele vai fazer a mesma coisa. Nem no Winning Eleven isso dá certo. Puta merda.

  • 18. Lila  |  25/05/2008 às 13:00

    ô gente, pelo menos, vocês não torcem prum time que tem PAULO SERGIO na lateral. Meu Deus, o cidadão PRECISA ser apresentado à bola. Beto, você que tem INFLUÊNCIA, faça as honras, POR FAVOR.

    E outra, quando o menino no olimpico me falou que o inter tomou gol do SOUZA eu fiquei com pena de vocês. Sério mesmo, SOUZA, cara. Não dá. Fosse eu influente, e aquele desgraçado não passava nem na porta do meu clube.

  • 19. Paulo Sanchotene, RS  |  25/05/2008 às 13:08

    Peço desculpas a todos pelo não-compercimento ao encontro. Não consegui o alvará de soltura. Acontece…

  • 20. Roger  |  25/05/2008 às 14:41

    Lila:
    Estive no posto da C. Barbosa. Cheguei lá um pouco antes das 17hs. Não te vi por lá. Ou pelo menos acho que não vi. Você foi? Como estava vestida? Alguém aqui disse que ia com a camiseta do Impedimento, ele foi? Onde se esconderam? Do que fugiam?

    Sobre o jogo nada. Ir ao estádio e não poder tomar uns tragos é uma merda.

    “Débora Secco sim, lei seca NÃO.”

  • 21. douglasceconello  |  25/05/2008 às 14:47

    Grande texto. Graciliano Ramos é o maior escritor já surgido no Brasil, superior inclusive a Machado de Assis.

    Alías, nada mais chato que um escritor/pensador/punheteiro ser questionado sobre um autor ou um livro e citar Machado de Assis e Mémorias Póstuma de Brás Cubas ou Dom Casmurro. Porra, todo mundo sabe que o cara escrevia bem às ganhas e que os livros são geniais, mas ninguém lê mais nada neste país? Machado de Assis se tornou a âncora da opinião sem esforço ou criatividade.

  • 22. Lila  |  25/05/2008 às 18:14

    eu tava por lá, sim, roger, entramos eram umas 17:10, 17:20…

    tava com um camiseta azul e um casaco preto, com mais um casal de amigos.

  • 23. izabel  |  25/05/2008 às 18:17

    ” Machado de Assis se tornou a âncora da opinião sem esforço ou criatividade.”
    hahahahhahha
    quanta ira, douglas!!!

    acho que o que o citam, na verdade não leram muita coisa na vida.
    pra mim, tanto machado quanto graciliano, são gênios. pior é baiano citando jorge amado.

  • 24. Prestes  |  25/05/2008 às 19:29

    Falou bonito, Douglas. Parece que a literatura brasileira se resume a Macahdo de Assis e Guimarães Rosa.

  • 25. Carlos  |  25/05/2008 às 19:37

    Lila..
    Por um acaso do destino tu tava na arquiba inferior, junto com outra guria de cabelo preto, perto do lado do ataque do nautico no segundo tempo???

  • 26. Luís Felipe  |  25/05/2008 às 22:58

    eu gosto de ver as conjecturas malucas. Que guri foi queimado ontem?! O Válter?

    o Válter semana passada seria escalado para o banco pela quarta vez consecutiva – no lugar do Gil – quando disse que resolveria problemas particulares e faltou ao treino. O Abel ficou puto com a falta de senso de oportunidade do guri e o congelou, com razão. Logo ele volta.

  • 27. Maluco  |  26/05/2008 às 07:16

    Luis Felipe:

    Teu “jornalismo” chapa-branca colorada tá foda!

    Nunca tem crise, nunca tem nada. É sempre tudo uma maravilha.

  • 28. Luís Felipe  |  26/05/2008 às 07:36

    Maluco,
    Ok, vou me render ao senso comum e ignorar os fatos, desculpa.

  • 29. milla  |  29/07/2008 às 22:53

    9mudando um pokinho de assunto =D) estou fazendo um trabalho sobre esse texto de graciliano ramos, queriam q me dissessem oq ue acham q fez com que essa “profecia” falhasse, pq q o futebol deu certo aki.
    abraços

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